Não posso me esquecer. E se chegar a esquecer, como faria para viver? - A Procura de María Luisa Bombal

SP.62: Antropoéticas: As grafias enquanto gesto político, ético e poético.

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Mariana Ribeiro de Oliveira UFRGS

Título: Não posso me esquecer. E se chegar a esquecer, como faria para viver? - A Procura de María Luisa Bombal.

Instituição: Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Resumo: Em março de 2023 me dirijo à capital portenha com o objetivo de iniciar uma possível pesquisa de graduação. A procura de materiais que demonstrassem a presença do meu objeto que viveu e estreou-se como escritora há dez décadas atrás nessa cidade. Encontro seus arredores, as publicações de seus colegas e amigos, os teatros e cafés que frequentava, o túmulo de seu marido e centros culturais nomeados após seus contemporâneos. Mas em Buenos Aires, nessa cidade que se lembra tanto, havia uma presença que parecia só existir para mim, e como se documenta a ausência? Quando a luz encontra a película do filme através do obturador, não há dúvidas da captura, mas só se descobre posteriormente o que foi encontrado. A procura de María Luísa Bombal, é uma tentativa de experimentação através da fotografia, montagem e colagem do primeiro contato com o campo que se tornaria trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A busca pelas palavras dessa escritora surrealista chilena mas que se fez em diversos países, especialmente na Argentina, e compôs uma das grandes cenas literárias da América Latina. Não apenas publicava na revista Sur, como também escreveu obras consideradas, atualmente, vanguardistas do realismo mágico latino americano. Uma figura enevoada de escândalos, contradições e categorias estratégicas para sua definição tanto nas áreas acadêmicas quanto artísticas. Este material acabou se distanciando dos conhecidos estudos de trajetórias com fotografias meramente acompanhantes do processo, ou da conversão da arte em artigo de uso (SONTAG, 2020). Se tornou uma oportunidade de trabalhar com essas imagens pela beleza da faísca do momento obtido (BRETON, 1972), ao seu encontro com as palavras de Bombal, no contexto da cidade de Buenos Aires. Assim como a própria tentativa de um possível resgate, que também havia ficado apenas na pretensão, os filmes revelados elucidam a possibilidade do viver depois de esquecer. Seja pela demora do processo de transformar o negativo em foto, ou por uma artista assombrada pelo constante fantasma desse esquecimento, em suas obras, seus testemunhos e suas biografias desenvolvidas,

Palavras-chave: Práticas surrealistas - Montagem - Antropologia da Arte.

Introdução

Em março de 2023 me dirijo à capital portenha com o objetivo de iniciar uma possível pesquisa de graduação. A procura de materiais que demonstrassem a presença da minha interlocutora que viveu e estreou-se como escritora há dez décadas nessa cidade. Encontro seus arredores, as publicações de seus colegas e amigos, os teatros e cafés que frequentava, o túmulo de seu marido e centros culturais nomeados após seus contemporâneos. Mas em Buenos Aires, nessa cidade que se lembra tanto, havia uma presença que parecia só existir para mim, e como se documenta a ausência? Quando a luz encontra a película do filme através do obturador, não há dúvidas da captura, mas só se descobre posteriormente o que foi encontrado. 

A procura de María Luisa Bombal é uma tentativa de experimentação através da fotografia e colagem, a partir do primeiro contato com o campo que se tornaria trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais. O seguinte artigo conta com as etapas do processo deste material. Inicialmente com o ensaio escrito durante o último dia de viagem, o pós-campo e procuras bibliográficas pela autora para, depois, o redirecionamento dos diversos elementos desenvolvidos em Buenos Aires em um processo de montagem.

Tudo contempla a experiência de busca pelas palavras dessa escritora surrealista chilena, mas que se fez em diversos países, especialmente na Argentina, e compôs uma das grandes cenas literárias da América Latina. Bombal participou do profícuo período do modernismo argentino, contava com publicações na renomada revista literária Sur, curada por Victoria Ocampo, e por vezes participou como secretária de redação. Vários clássicos foram publicados a partir da Sur, entre alguns nomes de destaque estão Jorge Luis Borges, Waldo Frank, Alfonso Reyes, José Ortega y Gasset, Octavio Paz, Jules Supervielle, Eduardo Mallea, Federico García Lorca, Gabriel García Márquez, Gabriela Mistral, Silvina Ocampo e Pablo Neruda.

Também escreveu obras consideradas, atualmente, vanguardistas do realismo mágico latino americano, este gênero que explora diferentes concepções de realidade, não separa o fantástico do real, mas o explora a unificação de ambos, sem a necessidade de uma passagem ao fantástico como as literaturas de fantasia que transporta o leitor para outro universo. Esta resposta hispano-americana contra o movimento do Realismo-Naturalismo europeu (FIGUEIRA, 2000) teve seu auge entre os anos 1960 e 1970, período conhecido como Boom Latino Americano

É no meio de tudo isso, que encontro Bombal, uma figura enevoada de escândalos, contradições e categorias estratégicas para sua definição tanto nas áreas acadêmicas quanto artísticas. E o material produzido desta experiência acabou se distanciando dos conhecidos estudos de trajetórias com fotografias meramente acompanhantes do processo, ou da conversão da arte em artigo de uso (SONTAG, 2020). Se tornou uma oportunidade de trabalhar com essas imagens pela beleza da faísca do momento obtido (BRETON, 1972), ao seu encontro com as palavras de Bombal, no contexto da cidade de Buenos Aires. 

A Procura de Bombal

Lo busco primero con calma, luego con fiebre.

(María Luisa Bombal - La Última Niebla)

Hola, ¿qué tal? ¿Tienes algo de María Luisa Bombal? 

Assim iniciavam minhas conversas nos sebos em Buenos Aires. Quando a resposta negativa não vinha na ponta da língua, os atendentes recorriam à procura pelo sistema digital das lojas, que levava ao não da mesma forma. Foi na Livraria Hernandez que o livreiro disse que era difícil ter algo da autora, havia muito tempo que não recebiam nada dela, sendo o último exemplar com menção em uma coletânea de diversos autores. Fiquei impressionada com a falta de livros da Bombal em Buenos Aires, pois, mesmo sendo originalmente do Chile é entendida, nas palavras de Amado Alonso (1985), como chilena argentinizada, já que viveu e produziu por anos nessa cidade em que seus colegas e amigos são uma presença constante, seja nas ruas, nas estantes ou em museus.

Tal como no Brasil, faz alguns anos que Bombal não é republicada, mesmo que seu trabalho tenha sido pouco traduzido para o português. No meu país é mais fácil encontrar essas edições antigas em sebos, principalmente a sua obra mais popular, A última névoa. Tendo tido até mesmo uma edição publicada pela renomada Cosac Naify, exemplar que atualmente custa em torno dos três dígitos devido a raridade, tanto da obra quanto da editora. Mas na capital Argentina, Bombal se tornou um fantasma muito complicado de rastrear. 

O próprio nome de Bombal me veio em uma organização do itinerário dessa viagem, inicialmente pensada apenas para passeio. Ao acessar sobre o hotel Castelar, por interesse pessoal a García Lorca, descobri uma breve lista de artistas que frequentavam o local, e lá estava ela: María Luisa Bombal. Em poucos cliques já estava consumindo o material superficial que podia encontrar da autora, essa mulher originalmente chilena mas que se fez em diversos países, especialmente na Argentina, e compôs uma das cenas literárias mais importantes da América Latina. Publicava na famosa revista argentina Sur, curada por Victoria Ocampo, também escreveu obras, consideradas hoje em dia como vanguardista do realismo mágico latino americano. Aliás, grande parte das considerações referentes à autora foram feitas em contexto muito mais contemporâneos à mim do que ao dela. Era raro material sobre Bombal em sua época, apenas muitos rumores sobre sua vida pessoal repleta de escandalos, como uma tentativa frustrada de assassinato, suas conexões com grandes nomes como Neruda, Lorca, Borges e Ocampo e, principalmente, a tríplice de palavras categóricas sobre seu trabalho que saltam à tela ao pesquisarmos seu nome: surrealista, feminista e erótica.

A inegável relevância do seu trabalho, o contexto e a dificuldade de acesso às suas obras me deixaram bastante inquieta, mas na melhor das inquietudes, pois percebia a possibilidade de um campo à minha frente.

Ainda em Porto Alegre, inicio a consumir trabalhos acadêmicos referentes à Bombal, sempre direcionados à área das letras e que não poupavam rótulos às obras dela, hábito muito comum na área. Me deixando em dúvida se, ao se tratar de uma figura tão enevoada, seria mais difícil ou mais fácil atribuir tantos rótulos à ela? E a dificuldade de acessar as palavras da Bombal em primeira mão deixava as coisas mais complicadas, não havia material na biblioteca da minha Universidade nem em sebos de Porto Alegre. Então recorri ao acervo digital da Biblioteca Nacional De Chile e, para meu alívio, havia uma coleção atribuída a autora com mais que cinquenta arquivos, mais outros relacionados com coleções de outras pessoas, que somavam e envolviam fotos, matérias, cartas e dedicatórias escritas e recebidas por María Luisa ao longo dos anos. Na Biblioteca Nacional Mariano Moreno, na Argentina, encontrei um bom acervo dos livros da autora que recorreria após as procuras frustradas em sebos.

Nessa pesquisa entre artigos percebo como se cristalizaram as palavras categóricas que havia encontrado desde a primeira procura do nome da autora na internet, com diversos trabalhos que analisam a obra de Bombal na perspectiva surrealista e feminista, em conjunto a narrativa erótica que seus personagens eram desenvolvidos. Justamente por eu não saber as posições declaradas pela própria autora ao longo de sua vida, e não haver nenhuma citação ou relato incluídos nesses trabalhos, só havia a certeza da sua posição vanguardista. Percebendo, assim, uma relação possivelmente turbulenta entre artista e obra, estariam inserido Bombal em um perfil e identidade posterior à sua vida, ou a própria havia reivindicado esses títulos ao longo das suas publicações? Referente ao erotismo, era possível perceber nas obras que era um tema recorrente, porém feminista e surrealista continuava sem confirmações. Com certeza uma mulher escrevendo protagonistas mulheres em palavras de puro erotismo e prazer voltado para o feminino é algo revolucionário, e a temática dos sonhos com a linha tênue entre realidade e irrealidade se inserem facilmente no movimento surrealista. Entretanto, poderia ser um caso, como colocado por Sontag (2020) em Contra a interpretação, da conversão da “arte num artigo de uso, passível de inclusão em um esquema mental de categorias”. 

Já na capital argentina, percorro a Av. Corrientes perguntando sobre Bombal, procuro as ruas que ela percorria e os cafés que estes artistas se encontravam. Buenos Aires é uma cidade muito nostálgica, é uma cidade que gosta de se lembrar. São diversos prédios com placas indicando suas idades, quem os visitou, é raro entrar nos cafés e não encontrar fotos antigas, que percorrem a história do estabelecimento. A cidade é tão apegada à materialidade da memória que um de seus pontos turísticos mais populares é um cemitério. Assim vou encontrando o redor que cercava Bombal, encontro seus amigos e colegas. Seu amigo Borges é uma presença tão recorrente quanto Mafalda, tendo um instituto, um espaço em sua  homenagem na Biblioteca, nas livrarias então, exibem seus exemplares com orgulho nas vitrines. Há retratos de Victoria Ocampo nos sebos, existe uma grande placa de bronze no mausoléu da família Ocampo no Cemitério Recoleta. Escrito seu nome junto da data de nascimento e falecimento e as seguintes palavras: “Revista, Editorial y Fundacion Sur. A su admirable y querida fundadora (27-1-84)”. Homenagem colocada cinco anos depois de seu falecimento. A própria revista Sur é muito admirada nos ambientes que estive, sendo expostas nas sessões de raridades dos sebos. O primeiro marido de Bombal, Jorge Larco, também possui um espaço na Recoleta e no Museu Nacional de Belas Artes. Estes três exemplos são de artistas naturais da Argentina, diferente de Bombal, mas até mesmo estrangeiros como Frederico Garcia Lorca estão presentes na cidade através de seus livros publicados por editoras argentinas e, antes do estouro da pandemia da Covid-19, existia a oportunidade de visitar a sua habitação no Hotel Castelar que infelizmente foi fechado pela crise econômica. 

Tiro muitas fotos, com o objetivo inicial de apontar os lugares com a presença da “precursora do realismo mágico latino americano” -  nomeação atribuída por García Márquez (Valero Juan, 2003) - mas depois percebi que na tentativa de comprovar uma presença, a partir do registro do seu ciclo social na cidade, estava indicando uma falta. E como se registra a falta? 

Com muitas perguntas e certa indignação pela ausência, eu me dirijo à Biblioteca Nacional da Argentina, após um longo problema referente ao meu cadastro que estava quase me fazendo desistir de um possível encontro com qualquer material relacionado a escritora, consigo requisitar o catálogo de Bombal e chega às minhas mãos Obras Completas de María Luisa Bombal do Editorial Andrés Bello, livro cujo a compiladora Lucia Guerra inseriu não apenas as novelas da autora mas testemunhos autobiográficos, cartas e entrevistas, sendo um prato cheio para entender melhor Bombal através de suas próprias palavras. Principalmente este testemunho autobiográfico, me parecia até mesmo um presente, uma recompensa após tanto procurar por Bombal, como se eu finalmente tivesse a encontrado pessoalmente e pudesse perguntar o que eu quisesse, pois grande parte das minhas perguntas iniciais haviam sido respondidas por ela neste testemunho sem data.

Iniciando pela sua estirpe, desde o bisavô que fora o primeiro cônsul alemão em Santiago, com um breve resumo aos antepassados maternos originais da França aos paternos, os Bombal, que chegaram ao Chile foragidos da ditadura de Manuel Rosas na Argentina. Nascida em 1910, ela conta com detalhes suas primeiras afinidades literárias na juventude, como a obra de Rimbaud, Baudelaire e depois com a mudança para Paris após o falecimento do pai, onde estudou em Sorbonne no curso de literatura. Também fala que a partir dessa idade começa a ter uma relação especial com a fé, relação essa que leva por toda vida, Bombal acreditava em Deus e por mais que usasse o termo religião não especificava se seguia alguma doutrina específica. A autora retorna ao Chile em 1931, conta que imediatamente se conectou na cena intelectual do país e sua atuação política, Bombal esclarece abertamente sobre suas posições, declarando seu compromisso às manifestações políticas da época como moral e não político e como acreditava que este era um assunto masculino:

“Pero mi compromiso era de tipo moral, no político, y en eso coincido con la actitud de Borges. Además, pensaba que la política era cosa de hombres. ¡que se ocupen ellos!, a mí me gusta este árbol, este rio, voy a ir a la estancia, voy a ir a un concierto... ¡que se frieguen los hombres!....ellos matan... yo me dedico a otras cosas…’’ (BOMBAL, 1996, p.327)¹

Essa relação e opinião sobre as causas políticas se manteve ao longo da vida, podendo perceber até mesmo nas relações que Bombal desenvolveu, desde sua grande amizade com Borges, muito conservador, até com Federico Garcia Lorca, escritor engajado e progressista. O próprio casamento de lavanda que teve por um breve período com Jorge Larco, para conseguir disfarçar a homossexualidade do pintor, não me parecia algo muito conservador de sua parte, como vou percebendo ao longo de seu testemunhos, é dificil encaixa-la nas caixinhas, nos rótulos que estamos habituados. Aliás, seguindo sobre a sua vida na Argentina, Bombal conta que se mudou em 1933, sendo hospedada na casa de Pablo Neruda, quando o escritor era cônsul do Chile. Nesta época que conheceu Borges, que seria seu amigo por toda sua vida, Bombal cita sobre quem formava o grupo de escritores que estava inserida na Argentina: 

En esa época conocí también a Borges, pero él circulaba en un mundo más cerrado, más intelectual. Nuestro grupo era más literario... Oliverio Girondo, Norah Lange, Federico Garcia Lorca, Conrado Nalé Roxlo, Alfonso Reyes... Georgie era de um grupo más intelectual, pero me hice íntima de Georgie... Todos estos grupos eran muy unidos en el fondo, se respetaban entre ellos, no se veían porque se aburrían... A Victoria Ocampo yo no la visitaba porque me aburría... Además, yo también tenía mi grupo de filólogos, pues, Henriquez. Ureña, ¡Amado Alonso! Como no tenía máquina de escribir, iba al Instituto Filológico, donde me prestaban una. Yo escribía y pasaba mis cosas al final de la mesa mientras ellos hacían su sesión de filólogos, pero me desesperaba... ¡no podía concentrarme, porque mientras yo trataba de escribir, ellos discutían las raíces de la palabra "ventana" o decían que "cortina" venía de "cortis"; era como que, para caminar, uno primero tuviera que analizar cómo mueve los pies, oye. (BOMBAL, 1996, p.329)²

Bombal se dedica consideravelmente a detalhes sobre a cena literária que participava, na qual trabalharei mais adiante. Por agora, gostaria de atentar à relação da autora com Victoria Ocampo, citada como a pessoa que Bombal não visitava pois a “entediava”, ela foi a primeira editora da autora, na qual possuía um relacionamento interessante de se ponderar. Victoria Ocampo foi a responsável pela publicação da notável revista literária e, posteriormente, editora Sur. Se fez muito presente na cena literária e política da Argentina, completamente engajada na luta pelo voto feminino e, também, foi fundadora da União Argentina das Mulheres em 1936. Tudo isso para dizer que, a notoriedade e posição política de Victoria Ocampo não era despercebida por seus contemporâneos, inclusive a María Luisa Bombal tinha sua editora como essa referência do feminismo, mesmo que se posicionasse distante do movimento, como ao relatar especificamente sobre o assunto:

No me inspiró para nada el feminismo porque nunca me importó. Sí leía mucho a Virginia Woolf, pero porque sus conceptos los hacía novelas y no daba sermones. Nunca fui amiga de Victoria Ocampo, ella era mi editora y fue generosísima conmigo. No me quería, yo creo, porque yo era tan distinta... Ella era tan solemne, tan gran señora y yo estaba en otra onda, como dicen ahora. Además, no sentía que la mujer estaba subordinada, me parece que cada una siempre ha estado en su sitio, nada más. La última niebla me parece a mí que es un drama sentimental porque son cuestiones pasionales de la mujer, pero no creo que haya existido una imposición del marido. Era una desilusión de ambos. No se comprendía porque el hombre tiene otro carácter. (BOMBAL, 1996, p.337)³

Nesta passagem, ela cita Woolf e Ocampo ao tratar de feminismo, ao falar de sua editora, separa o profissional do pessoal e justifica a sua posição fora do movimento por não sentir que a mulher estava subordinada ao homem, assim como anteriormente ao falar da política ser algo masculino. Inclusive, ela aborda sobre seu primeiro livro, A Última Névoa, de ser um drama pessoal da personagem não relacionado com uma imposição do personagem masculino. Assim foi possível perceber um distanciamento daqueles artigos que havia entrado em contato anteriormente - que inserem a obra de Bombal (principalmente A Última Névoa) em uma narrativa feminista - com as opiniões pessoais da autora.

Bombal desenvolve mais sobre este entendimento pessoal de que existia sim uma separação entre masculino e feminino que fazia pleno sentido à escritora. De que havia uma clara distinção subjetiva entre os gêneros, o homem o lado racional e a mulher do sentimento:

Claro que siempre el hombre y la mujer han sido muy diferentes. El hombre es intelecto, sabe más, es ‘the power in the throne’ mientras la mujer es puro sentimiento. Yo creo que el amor es lo más importante en la vida de una mujer... La mujer es puro corazón, a diferencia del hombre que es la materia gris... Por eso no se entienden... y el estilo de la mujer es menos áspero, menos realista; es un estilo más del corazón, diría yo, porque las mujeres somos sentimentales y no materialistas ¿ves tú? (BOMBAL, 1996, p.338)⁴

Este relato se faz muito interessante justamente pela forma que Bombal é lida atualmente, sendo um bom exercício para se entender como o movimento feminista mudou ao longo dos anos, da mesma forma que o contexto feminino. Bombal se orgulha desse sentimento que seria comum à mulher, o apego ao sentimental é presente entre suas protagonistas e as narrativas que as inserem, algo que atualmente é lido e defendido como uma caracteristica feminista em suas obras.

Encerrada a seção autobiográfica, passo para a as diversas entrevistas presentes na compilação de Lúcia Guerra, entre elas uma matéria inserida na revista El Mercurio por Germán Ewart em 1962, intitulada Retratos: María Luisa Bombal. Que separa em diversas seções alguns assuntos referentes à vida da autora, como Buenos Aires, Nova Iorque, Três Idiomas…Ao falar de sua época vivendo nos Estados Unidos é possível conhecermos a opinião de Bombal referente ao comunismo, na qual Ewart define como discrepâncias literárias, não políticas, seguido pelas palavras da autora: “Odio al comunismo porque quiere destruir al individuo, a Dios y al arte. Si esas cosas no existen, prefiero morir.” (BOMBAL, 1996)⁵. Essa opinião bastante equivocada referente ao movimento comunista se faz muito interessante e curiosa, não apenas pela relação bastante próxima de Bombal com Neruda, que era militante do partido comunista chileno - entretanto essa amplitude em posições políticas nas suas relações pessoais já não me causa mais tanto estranhamento. Mas também, começa a me direcionar ao mapeamento da relação da autora com o surrealismo, movimento artístico conhecido pelo engajamento político com o marxismo, que é estampado ao lado do nome da autora em qualquer pesquisa superficial ou entre artigos acadêmicos. 

Especificamente sobre surrealismo encontrei, por ora, duas menções. A primeira, no seu testemunho autobiográfico, ao falar que não conheceu Breton nem os "escândalos surrealistas” enquanto morava e estudava na França, apenas quando morou nos Estados Unidos que conheceu Breton. Já a segunda, em uma entrevista para o The American Hispanic em 1977, ao ser perguntada sobre sua técnica narrativa, Bombal (1996) responde: "¿Mi técnica narrativa? Yo la clasificaría tanto de prosa surrealista, como de prosa poética.”⁶ Podendo assim, entender que essa classificação surrealista foi reivindicada pela própria Maria Luisa Bombal e não apenas inserida posteriormente por terceiros em seus trabalhos. 

Saio da Biblioteca Nacional com o coração mais leve e uma certa [ao voltar para “a realidade” depois de encontrar um material tão rico e proveitoso sobre Bombal, quase que uma interlocução póstuma. Continuo a procurar suas obras em outros sebos que encontrei nos meios de caminho, mas a resposta continuava o mesmo no. E, retorno para Porto Alegre carregada de anotações, digitalizações das páginas do Obras completas e material fotográfico dessa cidade tão cara à María Luisa Bombal. 

Processo de Montagem

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. 

E mesmo estes podem prolongar-se em memória, 

em lembrança, em narrativa. 

(José Saramago - Viagem a Portugal)

Me pareceu meio amargo o período de retorno a Porto Alegre, por mais que a falta da Bombal me inquietava, o único caminho que parecia possível era um estudo de trajetória que pudesse explicar o motivo de sua não popularidade. O que já havia sido feito, em O Norte de Sur e as condicionantes para manter-se no centro, a pesquisadora avalia os possíveis momentos da vida de Bombal que podem ter influenciado sua rejeição no mercado editorial e cânone do modernismo literário argentino. Tal como suas posições políticas de apoio a grupos conservadores, tanto argentina quanto chilena, condizente com sua origem e classe familiar. E o atentado contra a vida de Eulogio Sánchez, seu antigo amante que, nas palavras de Kahmann (2018): “episódio que macularia para sempre a carreira da escritora”. Dessa forma, me assombrava a ideia de ter perdido aquela oportunidade de campo que tanto me agradava, mas se aparentemente eu só havia encontrado sua ausência e, não me interessava adicionar mais uma hipótese a explicação de tal fenômeno, o que mais me seria possível?

Ao revelar os negativos da viagem percebo como havia respondido o dilema escrito em A Procura de “registrar a falta”, pois havia o feito através dessas fotos, das anotações e do ensaio. Como desenvolvido pelo historiador da arte Aby Warburg em Atlas Mnemosyne, utilizo da mesa de montagem para distribuir esse material feito e recolhido em campo, desde fotos até mesmo folhas secas que encontrei durante o caminhar. Inicialmente disponho nas pranchas as imagens em ordem cronológica, para depois combinar com os escritos do diário de campo em conjunto com as passagens da obra mais famosa de Bombal: La Última Niebla. Uma novela com pouco menos de 150 páginas que acompanha a protagonista e narradora indo de encontro a casa de seu novo marido, Daniel, um viúvo que vive em uma casa no alto de uma colina. A protagonista, que não tem seu nome revelado ao leitor, vive um casamento infeliz. Sem o toque do marido e vivendo às sombras de sua primeira esposa, a protagonista vive a solidão da grande casa envolta da incessante neblina, com raras saídas para a cidade, assim conhece um amante e ao longo da narrativa busca reencontrá-lo, rememorando seus momentos juntos. 

É através dessa justaposição do material produzido por mim com as palavras de Bombal nesta novela, percebo outra face da procura. A da protagonista pelo seu amante, o procura com tamanha intensidade e dificuldade que, em certo momento, não sabe se viveu essa relação em sonho ou acordada. 

Assim, as imagens não necessitavam mais de um apoio textual servindo como meras acompanhantes da escrita. Pois possuíam espaço e agência exclusivos da experiência etnográfica. Como colocado por Etienne Samain (2011): as imagens não são meros “objetos”, nem apenas cortes no tempo e golpes no espaço. São “atos”, memórias, questionamentos e, até [...] visões e prefigurações. Se as imagens são nossos próprios olhos, elas são, também, os reflexos e os rastros de uma longa história de olhares que nos precederam.

Este potencial fotográfico pode ser explorado de outras inúmeras formas, destaco a discussão sobre o apelo das fotos quase como sinônimo de registro que foi trabalhado por Susan Sontag no ensaio Na Caverna de Platão. Sontag (2004) desenvolve que, ao colecionar fotos é possível colecionar o mundo, sendo possível entender a fotografia além da sua materialidade física, limitada apenas à representação daquele contexto capturado pelo registro fotográfico mas, como um fragmento do mundo. A autora considera, neste ensaio e em diversos outros que formam a coletânea Sobre Fotografia, a característica de testemunho que a fotografia carrega, tornando a câmera um companheiro praticamente essencial ao viajante, pois comprova sua viagem. Justamente por estes tópicos existe o diálogo com a possibilidade das fotos realizadas em campo serem percebidas como registro da falta em conjunto com o processo da experiência fotográfica. Desde o ato do clique, “[...] dotado dos direitos mais categóricos - interferir, invadir ou ignorar, não importa o que estiver acontecendo” (Sontag, 2004, p.21.), este movimento também possível de compreender a partir de André Breton em Manifestoes of Surrealism (1972) do valor do momento em que a imagem foi obtida, Breton desenvolve seus exemplos a partir da imagem produzida através da escrita, porém contempla tudo aquilo que é imagético, a partir da justaposição relativa de dois termos, segundo ele: “[a] uma luz específica tivesse surgido, a luz da imagem, à qual somos infinitamente sensíveis. O valor da imagem depende da beleza da faísca obtida; é, portanto, uma função da diferença de potencial entre os dois condutores” (Breton, 1972, p.37)

A intenção de cada fotografia no geral era o registro, porém com variações dependendo da natureza da câmera utilizada, digital ou analógica. Por exemplo, nos anexos 1, 3 e 5 se tratam de fotografias analógicas, uma câmera Yashica MD 135 e uma polaroid Instax, ambas com o funcionamento point and shoot (apontar e disparar), eu as utilizava quando tinha maior liberdade de experimentação, pois podia me surpreender com o resultado, uma vez que reveladas e, também, praticidade de fotografar enquanto caminhava. Entretanto, recorria aos registros digitais quando havia necessidade de segurança que certos elementos estariam na foto da maneira que eu gostaria, ou seja, uma liberdade técnica de configuração da câmera. São exemplos os anexos 2, e 4 tirados na câmera Nikon D3400 ou pela própria câmera do celular, usada quando o manuseio da câmera limitava meu movimento. O anexo 6 é um exemplo de mistura entre o digital e analógico.

Considerações finais

O que antes era apenas o primeiro contato com o campo se tornou quase o todo da pesquisa. Entendendo a procura não somente como um caminho ao encontro mas como um processo próprio. Assim como a própria tentativa de um possível resgate desta artista, que também havia ficado apenas na pretensão, os filmes revelados elucidam uma possibilidade do viver depois de esquecer. Seja pela demora do processo de transformar o negativo em foto, ou por uma artista assombrada pelo constante fantasma desse esquecimento, em suas obras, seus testemunhos e suas biografias desenvolvidas anos após sua morte. O encontro das fotografias com as palavras de Bombal abriu caminhos de intersecção, para um estudo sobre esta escritora em conjunto da sua obra, entendendo como a separação do artista e de seu trabalho raramente é benéfica, pois é possível encontrar fragmentos de Bombal em suas produções, se levados a sério e compreendermos suas devidas agências.

A Procura de Bombal é um material que se sustenta em si mesmo, porém, também é um registro da trajetória etnográfica que teve continuidade no meu trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais, talvez sendo este o meu próprio fantasma, me assombrando no início do campo e durante as frustrações vividas nele. O viver depois de esquecer pode ser entendido pela ressignificação da relação com os fragmentos distribuídos que são mantidos nos mais diversos formatos, no começo eram os romances de Bombal, depois as fotografias de campo, para o material desenvolvido pela montagem e agora esta pesquisa.

Notas de la ponencia:

¹ Mas meu compromisso era de natureza moral, não política, e nisso eu concordava com a atitude de Borges. Além disso, eu pensava que a política era assunto dos homens. Que eles cuidem disso! Eu gosto desta árvore, deste rio, vou para a fazenda, vou a um concerto... Que os homens se virem!... Eles matam... eu me dedico a outras coisas…
² Naquela época, eu também conheci Borges, mas ele circulava em um mundo mais fechado, mais intelectual. Nosso grupo era mais literário... Oliverio Girondo, Norah Lange, Federico García Lorca, Conrado Nalé Roxlo, Alfonso Reyes... Georgie fazia parte de um grupo mais intelectual, mas eu me tornei próxima de Georgie... Todos esses grupos eram muito unidos no fundo, se respeitavam entre si, não se encontravam muito porque se entediavam... Eu não visitava Victoria Ocampo porque me entediava... Além disso, eu também tinha meu grupo de filólogos, como Henriquez, Ureña, Amado Alonso! Como não tinha uma máquina de escrever, eu ia ao Instituto Filológico, onde me emprestavam uma. Eu escrevia e passava minhas coisas no final da mesa enquanto eles conduziam sua sessão de filólogos, mas isso me desesperava... Eu não conseguia me concentrar, porque enquanto eu tentava escrever, eles discutiam as raízes da palavra "janela" ou diziam que "cortina" vinha de "cortis"; era como se, para andar, alguém tivesse que primeiro analisar como move os pés, entende?
³
O feminismo nunca me inspirou, porque nunca me importei com isso. Eu lia muito Virginia Woolf, sim, mas porque ela transformava seus conceitos em romances e não dava sermões. Nunca fui amiga de Victoria Ocampo; ela era minha editora e foi generosíssima comigo. Acredito que ela não gostava de mim porque éramos tão diferentes... Ela era tão solene, tão refinada, e eu estava em uma sintonia diferente, como se diz agora. Além disso, eu não sentia que as mulheres estavam subordinadas, parece-me que cada uma sempre esteve em seu lugar, nada mais. Para mim, "A última névoa" é um drama sentimental de questões passionais da mulher, mas não acredito que tenha havido imposição do marido. Foi uma desilusão de ambos. Não se compreendia porque o homem tem outro caráter.
Claro que sempre houve uma grande diferença entre o homem e a mulher. O homem é intelectual, sabe mais, é 'o poder no trono', enquanto a mulher é pura emoção. Eu acredito que o amor é a coisa mais importante na vida de uma mulher... A mulher é pura emoção, ao contrário do homem, que é a matéria cinzenta... Por isso, eles não se entendem... e o estilo da mulher é menos áspero, menos realista; é um estilo mais do coração, eu diria, porque as mulheres são sentimentais e não materialistas, entende? 
Ódio ao comunismo porque querem destruir o indivíduo, a Deus e a arte. Se estas coisas não existirem prefiro morrer.
Minha técnica narrativa? Eu a classificaria tanto de prosa surrealista, como de prosa poética.

Bibliografía de la ponencia

BOMBAL, M. L. Obras Completas. Santiago, Chile: Editorial Andrés Bello, 1996. 456 p. Copiladora: Lucía Guerra-Cunningham.

BRETON, A. Manifestoes of Surrealism. Ann Arbor: University of Michigan Press. 1972

FIGUEIRA, Lauro. REALISMO MÁGICO OU REALISMO MARAVILHOSO?. MOARA – Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Letras ISSN: 0104-0944, [S.l.], n. 14, p. 21-33, jul. 2016. ISSN 0104-0944.

KAHMANN, A. C. O Norte de Sur e as condicionantes para manter-se no centro: O Caso de María Luisa Bombal. Caderno de Letras, n. 30, p. 29-47, 30 jul. 2018.

SAMAIN, E. As “Mnemosyne(s)” de Aby Warburg: Entre Antropologia, Imagens e Arte. REVISTA POIÉSIS, v. 12, n. 17, p. 29-51, 1 jul. 2011.

SONTAG, S. Contra a interpretação e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras. 2020.

________. Sobre Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras. 2004.

VALERO JUAN, E. M. “El desconcierto de la realidad en la narrativa de María Luisa Bombal”. Anales de Literatura Española. N. 16 (2003). pp. 241-260.

Imagenes Adjuntas