Mulheres nas arquibancadas de futebol e a diversidade do torcer

SP.34: Estudios socio-antropológicos de los deportes

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Thaís Rodrigues de Almeida Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Franciane Maria Araldi Universidade Federal de Santa Catarina
Caroline Soares de Almeida Universidade Federal de Pernambuco
Carmen Silvia Rial

Introdução

Em nossa sociedade, o esporte é um fenômeno cultural permeado por pluralidades, presente em praticamente todas as camadas sociais e em suas diferentes manifestações, sejam como lazer, educação ou rendimento. Compostas por múltiplos sentidos as práticas esportivas são lócus de investimentos acadêmicos, políticos, econômicos, midiáticos, ou seja, mobilizam saberes, paixões e enfrentamentos. Como produtor e reprodutor das relações sociais e culturais, este campo encontra-se permeado por disputas, interesses, e negociações, ou seja, imerso em relações de poder.

No contexto brasileiro, o futebol é a modalidade esportiva de maior expressão e visibilidade, transformado em objeto de estudos e análises desde os trabalhos pioneiros de Simoni Guedes[i] (1977) e Roberto Damatta[ii] (1982), são plurais as formas de interpretação social e áreas as quais vem direcionando o olhar para repensar e pesquisar o fenômeno esportivo como uma via para também compreender a sociedade brasileira. No emergir de problemas e tensionamentos complexos, constata-se o crescente número de trabalhos acadêmicos, artigos científicos, dissertações e teses, com caráter interdisciplinar o qual abrange as Ciências Humanas e Sociais, Antropologia, Sociologia, História, e a Educação Física (Guedes[iii], 2011; Giglio, Proni[iv], 2020).

Na literatura específica sobre futebol e torcidas nas Ciências Humanas e Sociais, diferentes autores argumentaram sobre perfis específicos de torcedores, através dos quais elencaram identidades, comportamentos, violência, diversidade  entre outros temas, assim como apontaram um número maior de estudos e pesquisas realizadas nas regiões sudeste e sul do Brasil (Giglio; Spaggiari[v], 2010; Fensterseifer; Saad[vi], 2018; Batista; Abrahão[vii], 2022). Um ponto em comum encontrado em vários trabalhos de levantamento de produção do conhecimento sobre a temática futebol e torcidas e/ou futebol e torcedores, é a predominância de pesquisas que privilegiaram o público masculino, ou seja ,os homens torcedores e ainda são em número reduzido os trabalhos que focam em mulheres torcedoras, ou sobre a presença do público feminino nos estádio. Este ponto em especial propiciou a formulação de um primeiro eixo para elaboração deste projeto, fomentar o olhar investigativo para os contextos que envolvem mulheres enquanto espectadores agrupadas ou não as quais vivenciam o gosto pelo futebol.

Simone Guedes em seu capítulo no livro Universo do Futebol (1982) sinalizou que gostar de futebol envolvia entender sobre futebol e nesse sentido saber praticar, possuir experiência com a bola nos pés, dado o contexto social e temporalidade de sua pesquisa, o futebol praticado e debatido por homens, e naquele contexto a própria autora como alguém fora da norma a investigar e produzir saberes para além do campo de jogo. A inspiração para a realização deste projeto, parte justamente do entendimento de que dada a realidade brasileira na qual as pedagogias do jogo nem sempre são acessíveis à todos e em especial às mulheres, as quais por 40 anos foram inclusive proibidas de praticar futebol, o envolvimento de gostar e o exercício do torcer por um time do coração, denota sentidos e especificidades em um ambiente onde, por muito tempo as mulheres estiveram às margens, e ainda hoje buscam legitimar sua presença seja no campo do jogo ou nas arquibancadas. Se as pedagogias do torcer envolvem os gestos, quando sentar, quando levantar em uma partida, os cânticos e inclusive os xingamentos,  tais pedagogias foram pensadas e são expressas a partir de um currículo de masculinidades, uma pedagogia normativa a partir da qual todos os sujeitos torcedores são pensados e inclusive hierarquizados nos estádios (Bandeira; Seffner[viii], 2022), e em relação à esta norma configuram-se representações e expressões de identidade, pertencimento, protagonismo e resistências.

 

Na sequência do texto apresentaremos alguns dos referenciais teóricos que embasaram nossa pesquisa, assim como  metodologia utilizada para o trabalho de campo e a análise dos resultados obtidos acerca da temática e objetivo elencados.

 

Desenvolvimento

As práticas esportivas são lócus de constantes investimentos e de crescente interesse científico (Elias; Dunning[ix], 1992; Stigger[x], 2002; Damo; Oliven[xi]; Guedes, 2011; Alabarces[xii], 2011), produtor e reprodutor das relações sociais e culturais, este campo encontra-se permeado por disputas, interesses e negociações, ou seja, imerso em relações de poder compreendido a partir de Foucault[xiii] (2002) como algo que não se localiza em instituições  na qual permeia a ideia de fixidez, mas como algo que possui mobilidade, circula, se exerce em rede, possibilitando resistências. Parte-se da compreensão do esporte como prática social moderna, a  qual teve origem na Inglaterra do século XIX a partir da institucionalização do Futebol e do Rugby, e desde suas manifestações iniciais foi concebido como masculino, conforme apontado no trabalho de  Elias e Dunning (1992) de acordo com os quais, o esporte já na sua concepção, poderia ser considerado uma das principais formas de canalização do ethos guerreiro masculino, para uma prática domesticada, permitindo novas formas de controle sobre o incontrolável[xiv]

O esporte enquanto um terreno onde fazem-se presentes discursos e representações de corpo, feminilidades, masculinidades e no contexto brasileiro tem no futebol a prática esportiva de maior expressão. A valorização social dada ao futebol em nosso país, traz consigo ambiguidades e problematizações, tensionadas desde os escritos pioneiros de Roberto Damatta (1982), provocando continuamente pesquisadores de diferentes áreas a construir saberes e interpretações que ressignificam as relações e o universo envolvido para além dos embates travados nos 90 minutos de jogo (Reis[xv],1998; Toledo[xvi], 2002; Damo[xvii], 2005, Alabarces, 2011).

Ao voltar o olhar para o futebol, busca-se a análise deste fenômeno esportivo tendo em vista que é comum no contexto brasileiro, associar os valores desta prática à representações de uma masculinidade viril a qual prioriza e estabelece no campo da normalidade o 'sexo e gênero da bola' (Goellner[xviii], 2005). Tais representações de masculinidades, se dão em relação à condição masculina como uma construção cultural produzida e reproduzida socialmente e que não pode ser definida fora das condições históricas, culturais, econômicas e políticas em que esse sujeito constitui sua masculinidade (Kimel[xix], 1998). Neste sentido, são referências não apenas aos envolvidos com as práticas no campo do jogo, mas abrange os que se apropriam das práticas e delas fazem parte enquanto espectadores, pois há toda uma conduta comportamental por parte da torcida e do exercício pedagógico do estádio: quando cantar, quando levantar, quais palavrões e xingamentos são naturalizados naquele ambiente (Bandeira, 2009). Tudo isso implica em um currículo de masculinidades no estádio de futebol, como um campo de disputas, acordos, socialização que instrui através dos cânticos, gestos, expressões manifestadas pelos torcedores, para garantir como se deve ser, diferenciar e hierarquizar todos os sujeitos outros, quais sejam mulheres, crianças, idosos (Bandeira; Seffner, 2022).

Ao abordarmos a especificidade das torcidas, ressaltamos que estas são as responsáveis pelas expressivas manifestações em massa no contexto do futebol. Em sua constituição podem ser institucionalmente organizadas ou formadas por espectadores sem vínculos, trazendo como um todo a ideia de heterogeneidade, apesar de estudos sobre as torcidas apontarem para uma maioria jovem e do sexo masculino (Teixeira[xx], 1998; Reis[xxi], 2016), tendo em comum o pertencimento clubístico a partir do qual é possível vivenciar uma sociabilidade composta por sentimentos de solidariedade, companheirismo e fazer parte do grupo, amplamente fomentada por discursos de iniciativa ao clube assim como repúdio às equipes rivais (Reis, 1998; Damo, 2014).

Em relação às formas de manifestações das torcidas e a exaltação da rivalidade em discursos de ódio e repulsa às equipes rivais, a violência decorrente abrange tanto atos empíricos quanto simbólicos, e é foco de inúmeros estudos analisados pela academia tanto no contexto europeu, com os estudos inaugurais em relação ao  hooliganismo  quanto no brasileiro com crescente número de pesquisas nas décadas de 80 e 90 em diante (Murad[xxii], 2007). Em nível nacional, a violência relacionada à sujeitos torcedores tornou-se um problema desestabilizador, acarretando mobilizações governamentais as quais culminaram com a proibição de torcidas organizadas com histórico de atos violentos, banimento de lideranças e de torcedores, assim como na elaboração do  estatuto de defesa do torcedor[xxiii] o qual foi  amplamente questionado pelos coletivos organizados de torcidas  (Murad, 2007; Reis[xxiv], 2010). No entanto, estudos recentes indicam que em se tratando dos grandes clubes de futebol brasileiro, diante do espectro de milhares de torcedores uma minoria no interior das torcidas é que realmente está relacionada à atos violentos, inclusive há o questionamento de sujeitos infiltrados nas torcidas com o objetivo de cometer delitos em meio à turbulências geradas nos dias de jogos e aglomerações decorrentes destes contextos (Souza, 2016).

As torcidas de futebol, portanto, vem recebendo investimentos políticos e acadêmicos no sentido de buscar a compreensão dos sentidos, embates, especificidades das mesmas, porém em termos de mulheres torcedoras ou torcidas femininas, os estudos ainda são insipientes pois frequentemente as mulheres são invisibilizadas em relação ao mais popular do país (Costa 2007, Januário 2019). Ao realizarmos um recorte histórico sobre a participação feminina no universo do torcer nas primeiras décadas do século XX, a participação das mulheres para a popularização das partidas de futebol era inclusive incentivada, para que trouxessem um viés mais elitizado aos confrontos. Neste sentido, a presença das torcedoras legitimava o jogo enquanto um evento social, ao mesmo tempo em que oportunizava as moças a vivência fora do ambiente doméstico, em relação ao próprio termo torcedora, uma das versões de sua origem amplamente aceita é a de que se popularizou através dos noticiários e mídia impressa ao descreverem as moças aflitas ao observarem as partidas e torcerem suas luvas (Murad[xxv], 2012). Porém, a partir da popularização do esporte abrangendo outros extratos sociais, acabou por modificar os discursos, os quais produziram hierarquias, normatizações e privilegiaram a presença massiva masculina nas arquibancadas, o que ocasionou o afastamento das mulheres dos espaços de eventos futebolísticos (Costa[xxvi], 2007).

Contudo, no contexto histórico de grandes clubes brasileiros, das muitas anônimas que frequentaram estádios, algumas personagens mulheres obtiveram destaque e registro, inclusive servindo de inspiração para o reconhecimento por parte das torcidas e gestões de alguns clubes. Exemplos podem ser suscitados quanto à fundação inicial dos clubes como a participação de Dona Chiquitota na história do Botafogo, a qual por ser avó de um dos fundadores opinou pela modificação do nome do clube, inspirando-se no local de moradia o bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, participação reconhecida nos relatos históricos da fundação do clube. Outra figura que podemos destacar é Alice Neves, mãe de Mário Neves, um dos fundadores do clube Atlético Mineiro, segundo registros históricos responsável por costurar os primeiros uniformes e primeira bandeira do clube, assim como organizou o primeiro coletivo de mulheres apoiadoras (em grande medida parentes da diretoria ou jogadores) do clube (Ribeiro[xxvii], 2018). Em ambos os casos de Dona Chiquitota, quanto de Alice Neves, sobressai a figura da matriarca, da mulher que por conta dos laços familiares acabou intervindo nessa organização inicial de clubes que depois vieram a se desenvolver.

Em contrapartida, personagens consideradas torcedoras símbolos como Dona Elisa Alves[xxviii] no Corinthians e Dulce Rosalina no Vasco da Gama, as quais figuraram em destaque por sua participação ativa nos jogos de seus respectivos clubes. Dona Elisa Alves, eleita torcedora símbolo do Corinthians a qual possui inclusive um memorial em seu nome no Parque São Jorge, foi reconhecida frequentadora das arquibancadas em especial no período de jejum de títulos do Corinthians entre 1954 e 1977. Já Dulce Rosalina é uma representante singular (Araújo[xxix], 2019), pioneira em relação à efetiva participação política e de liderança sendo a primeira mulher presidente de uma torcida organizada  na TOV (Torcida Organizada do Vasco), referenciais que nos movem a refletir sobre as invisibilidades e as resistências em ambientes majoritariamente masculinos, os quais ainda persistem em grande parte no interior dos clubes e as disputas internas por representatividade.  

A partir destes recortes históricos, podemos traçar um paralelo ao contexto atual, no qual eleger as experiências das mulheres torcedoras enquanto foco de estudo, passa por compreender o exercício do torcer como um espaço de disputas e negociações, o qual conduz à necessidade de observarmos os discursos naturalizados envolvendo gênero e sexualidade, e as formas como instituem relações de poder produzindo hierarquias e efeitos de verdade no meio futebolístico. Neste esporte, aparentemente os sujeitos desviantes das normas de gênero e sexualidade, são marcados como diferentes, transgressores, sendo instituída uma ideia de ilegalidade, clandestinidade, ante aqueles estabelecidos[xxx], normatizados na representação naturalizada e, portanto, invisível da masculinidade. Denota também refletir sobre a ocupação e envolvimento das mulheres em relação às suas experiências no meio futebolístico, se enquanto jogadoras na trajetória brasileira o futebol foi uma prática legalmente proibida a partir do período do Estado Novo, e somente autorizada em meados dos anos 80, deixando uma evidente lacuna em termos do desenvolvimento do esporte feminino, atualmente do ponto de vista legal todos os esportes são permitidos às mulheres,  praticá-los, ou envolver-se enquanto torcedora, representa uma atitude ainda suscetível a representações que persistem associando determinadas práticas como o futebol a um referencial exclusivamente masculino, questionando as feminilidades, comportamentos e condutas das mulheres que se aventuram nesse meio.

Frequentar um estádio, possuir um vínculo com o clube, com a torcida, acompanhar os jogos,  é uma escolha permeada por desafios que vão desde as condições financeiras (valores dos ingressos, viagens, vestimentas),  a segurança antes, durante e depois dos jogos, as relações estabelecidas com os demais membros torcedores organizados ou não (Campos[xxxi], 2010; Januário[xxxii] 2019), o apoio familiar, os gestos, vestimentas, cânticos, expressões, a alegria e o sofrimento compartilhados implicam na construção das identidades dos sujeitos e na constituição do ser torcedor(a), neste sentido ser mulher torcedora. 

Em termos de demarcações epistemológicas, é relevante situar ainda que brevemente, tendo em vista os limites de configuração do projeto, que as problematizações em torno das identidades sobretudo as de gênero e sexuais, ocorrem desde o fim da década de 60 e início dos anos 70, sendo discutidas acima de tudo pelas epistemologias feministas e os movimentos de reforma sexual de vários tipos (Weeks[xxxiii], 1999). As quais possibilitaram, entre outros fatores, a desnaturalização dos corpos e a politização do conceito de gênero, visto que o termo gender passou a ser usado como distinto de sex. “Visando rejeitar um determinismo biológico implícito no uso de termos como sexo ou diferença sexual”, ou seja, enfatizavam o caráter “fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo” (Scott[xxxiv], 1995, p.72). Um pensamento plural, realizado em meio a embates e questionamentos internos e externos; os estudos feministas aproximaram-se de outros campos teóricos, tais como os estudos culturais, gays, lésbicos, negros; tendo em vista que estes também sinalizam para a questão da produção das diferenças: sexuais, raciais, éticas e culturais (Louro[xxxv], 1998). Ou seja, os estudos feministas e de gênero possibilitaram a inclusão de temas pouco problematizados na academia, de modo que também viabilizaram a emergência de novos olhares, metodologias e fontes de investigação, através de uma linguagem notadamente mais subjetiva e pessoal (Olesen[xxxvi], 2006).

No Brasil, a relação das mulheres com as práticas esportivas historicamente possui pouca visibilidade e uma trajetória margada por proibições legais, pouco incentivo governamental e a insistência em demarcar determinadas modalidades a partir da norma masculina, heterossexual e branca, ainda assim, pesquisadoras vem buscando fomentar novas narrativas que incluam e visibilizem trajetórias de personagens que a seu tempo insistiram em acessar as pedagogias do jogo até então negadas a elas (Bonfim[xxxvii], 2019).  A inclusão das discussões sobre esporte e gênero assim como demais categorias interseccionais, raça, classe social, durante muito tempo não foi vista como uma problemática contemplada nos estudos feministas e de gênero no Brasil, como assinala Rial[xxxviii] (2021) os estudos feministas chegam ao nosso país através de mulheres com formação acadêmica no exterior para as quais o futebol estava distante de fazer parte prioritária da agenda. A demora das investigações sobre mulheres e futebol tornarem-se uma temática incorporada aos questionamentos e análises feministas em nosso país, traz como pano de fundo o fato das protagonistas que se interessavam pela prática serem em grande medida dos subúrbios, afastadas da academia, compostas por dissidências de corpo, gênero e sexualidades ante as normatizações até então vigentes. Para Pisani[xxxix] (2022), a introdução da categoria gênero para os estudos sociológicos sobre esportes no Brasil, traz atrelada às demandas relacionais de feminilidades e masculinidades no esporte, as relações entre corpo, sociabilidades, poder, subjetividades, ou seja, amplia olhares para perspectivas interdisciplinares e interseccionais de análises, um movimento também de disputas políticas.

Os atravessamentos dos campos teóricos relacionados aos estudos sobre mulheres e esporte, permitem que as articulações entre gênero, cultura, linguagem e poder sejam possibilidades produtivas de teorizar como o social é culturalmente constituído. Situando a cultura como “[...] campo de luta entre os diferentes grupos sociais em torno da significação” (Silva[xl], 2000, p.32) e a partir deste referencial, trazemos o conceito de cultura atravessado pelo conceito de poder Foucault (2002), cultura, então relacionada com as possibilidades de jogos e relações de poder manifestados nos discursos advindos do meio futebolístico, e que atravessam as mulheres torcedoras envolvidas com o mesmo e a articulação destes movimentos em seus discursos e desdobramentos, permite visualizar a construção das suas identidades enquanto torcedoras.

Ao focar o estudo sobre as mulheres que torcem, vibram e envolvem-se com o universo futebolístico, apesar dos desafios permeados por representações culturais, sociais e de gênero, salientamos a necessidade de romper com representações hegemônicas as quais com frequência categorizam mulheres torcedoras a partir de rótulos os quais destacam seus atributos físicos de beleza,  como meras acompanhantes dos homens, como figuras maternais, marias - chuteira ou ainda como masculinizadas (Costa, 2007; Januário, 2019). Elencamos além da diversidade de representações não hegemônicas, as possibilidades de expressar e vivenciar o lugar do protagonismo do exercício torcedor, além de romper com a figura de acompanhantes ou menos interessadas em relação ao currículo de masculinidades normativo, agentes ativas na formação e organização coletivas. Neste ponto podemos destacar os agrupamentos de torcedoras que serão investigados na tese, e as condutas de iniciativas e ações de resistência ante às adversidades que muitas vezes impõem-se na manutenção e legitimação do espaço de seu lugar torcedor, seja na colocação de uma faixa nas arquibancadas, ou na garantia de seguridade para ir e vir dentro e fora dos estádios, movimentos necessários para ampliar as representações identitárias de ser mulher e torcedora, do individual à coletividade.

 

 

Metodologia

 

As estratégias metodológicas para contemplar o objetivo proposto nesta pesquisa, possuem como ponto de partida tratar-se de uma pesquisa qualitativa e de caráter interdisciplinar, apoiada na perspectiva etnográfica nos modos de olhar, e investigar as práticas e as relações individuais e coletivas, buscando dados a partir das observações efetivadas no trabalho de campo o qual é considerado um potente caminho investigativo capaz de oferecer elementos para o estudo aprofundado  das mulheres torcedoras de futebol que integrarão o foco da pesquisa.

Acerca dos trabalhos etnográficos, utilizamos como referência inicial os escritos de Geertz[xli], para o qual o fazer etnográfico como forma de conhecimento, como prática, foi considerado não ser apenas uma questão de métodos: “[...] estabelecer relações, selecionar informantes, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante (1989, p.15)”, mas como um esforço intelectual que a etnografia representa para os investigadores. Desta forma, o trabalho dos pesquisadores etnógrafos seria o de se inserir e apropriar do campo de estudo, se familiarizar com o estranho ou estranhar o familiar, para então poder interpretar de forma aprofundada,  específica, a descrição densa de seus contextos culturais investigados, estabelecendo teias de significados, valorizando as interpretações de universos particulares, uma análise ‘por dentro’ de uma determinada cultura, ou seja, a observação direta das realidades sociais pelo observador individual (Vidich; Lyman[xlii], 2006; Angrosino[xliii], 2009).

Nesta pesquisa a  observação participante destaca-se por permitir a interação direta com o campo estudado, e neste sentido há diferentes níveis de interação com grupos e os sujeitos de pesquisa investigados (Marcus[xliv], 2001). Neste projeto a observação participante em campo passou por movimentos distintos, mas fundamentais para a organização da proposta de tese e a sequência do trabalho que ainda será realizada. Inicialmente optamos  pela observação completa ou observação total,  que é quando a pesquisadora não comunica ou interage com os grupos que está observando, porém inicia um diagnóstico do contexto geral onde o grupo está envolvido (Minayo[xlv], 2014).

Aliado à este processo estão a elaboração de diários de campo contendo a descrição de dados, impressões, registros do contexto observado; assim como a realização de entrevistas semi-estruturadas, com sujeitos privilegiados intencionalmente elencados no decorrer do processo as quais terão roteiro específico definido a partir dos objetivos da tese, porém semiaberto na perspectiva de possibilitar aprofundamentos ou a abordagem de outros temas que não estavam inicialmente previstos. Além do trabalho de campo, outras fontes como documentos, registros escritos, registros virtuais como sites dos clubes, torcidas, grupos, adquirem relevância tendo em vista o entrecruzamento de significados, ampliação e aprofundamento dos dados observados e coletados.

A partir destes elementos citados e da configuração metodológica proposta é que foram elencados dados e enunciados que permitiram de forma qualificada e aprofundada, observar, mapear, descrever, analisar e refletir sobre os grupos sociais e suas teias de significações e experiências. Situando, também, a importância da inter-relação com outros métodos investigativos  formulados a partir da emergência de novos problemas, dos novos saberes que o trabalho etnográfico enquanto método e construção teórica permite desenvolver.

 

Considerações: Desafios e Perspectivas

Frequentar um estádio, possuir um vínculo com o clube, com a torcida, acompanhar os jogos, é uma escolha permeada por desafios que vão desde as condições financeiras (valores dos ingressos, viagens), a segurança antes, durante e depois dos jogos, as relações estabelecidas com os demais membros torcedores organizados ou não (Campos[xlvi], 2010). O pertencimento clubístico, os gestos, vestimentas, cânticos, expressões, a alegria e o sofrimento compartilhados que implicam na constituição das identidades dos sujeitos e na produção performática do ser torcedor(a), neste sentido ser mulher torcedora.

 

Vivenciar esta cultura torcedora está relacionado com as possibilidades de jogos e relações de poder manifestados nos discursos advindos do meio futebolístico, e que atravessam as mulheres torcedoras envolvidas com o mesmo. A articulação destes movimentos em seus discursos e desdobramentos, permite visualizar a construção das suas identidades enquanto torcedoras.

 

Problematizar os discursos sobre as mulheres que torcem, vibram e envolvem-se com o universo futebolístico, apesar dos desafios permeados por representações culturais, sociais e de gênero, denota também elencar as possibilidades de expressar e vivenciar o lugar do protagonismo e de formar inclusive iniciativas e ações de resistência ante às adversidades, como é o caso das integrantes de torcidas organizadas de diferentes times brasileiros que em meio à dificuldades relacionadas à violência, legitimação do espaço, e reconhecimento por seus clubes organizam coletivos. Movimentos importantes e necessários para ampliar as representações identitárias de ser mulher torcedora, e ocupar com legitimidade seu lugar nas arquibancadas.



[ii] DAMATTA, R. Esporte na Sociedade: Um Ensaio Sobre o Futebol Brasileiro. In: (Org) Universo do futebol Esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.

[iii] GUEDES, S. L. Os estudos antropológicos dos esportes no Brasil: perspectivas comparativas com a América Latina. Antropolítica (UFF) , v. 31, p. 31-43, 2011. Disponível em: https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/42154/pdf Acesso em: 2 fev. 2024.

[iv] GIGLIO, S. S.; PRONI, Marcelo Weishaupt. (Orgs.). O futebol nas ciências humanas no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 2020.

[v] GIGLIO, S. S.; SPAGGIARI, E. A produção das Ciências Humanas sobre futebol no Brasil: um panorama (1990-2009). Revista de História. São Paulo, n. 163, p. 293-350, 2010. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9141.v0i163p293-350. Disponível em: Acesso em: 16 jan. 2024.

[vi] FENSTERSEIFER, A.; SAAD, M. A.; MORO, A. R. P. Futebol: Uma Investigação do Estado do Conhecimento das Dissertações e Teses Produzidas no Brasil. Pensar a Prática, Goiânia, v. 21, n. 2, 2018. DOI: 10.5216/rpp.v21i2.44088. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fef/article/view/44088. Acesso em: 22 fev. 2023

[vii] BATISTA, C.; ABRAHÃO, B. O. L. Estudos sobre os torcedores de futebol: uma revisão sistemática. FuLiA/UFMG , [S. l.], v. 7, n. 1, p. 82–102, 2022. DOI: 10.35699/2526-4494.2022.36792. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/fulia/article/view/36792. Acesso em: 10 dez. 2023

[viii] BANDEIRA, G. A.; SEFFNER, F. O androcentrismo do torcer: do Universo do Futebol ao estádio contemporâneo. Conexões, Campinas, SP, v. 20, n. 00, p. e022016, 2022. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/conexoes/article/view/8668348. Acesso em: 15 jun. 2023

[ix] ELIAS, N; DUNNING, E. A Busca da Excitação. Lisboa: Difel, 1992.

[x]

STIGGER, M. Esporte, lazer e estilos de vida: um estudo etnográfico. Campinas, SP: Autores Associados, 2002.

[xi] DAMO, A.; OLIVEN, R.; GUEDES, S. Apresentação (dôssie Antropologia e Esporte). Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, v.14, n.30, p. 7-17, 2008.

[xii] ALABARCES. P, Vinte anos de ciências sociais e esportes, dez anos depois. Antropolítica (UFF), v. 31, p. 17-30, 2011. DOI: DOI: https://doi.org/10.22409/antropolitica2011.0i31.a47094. Disponível em: https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/47094. Acesso em: 16 jan. 2024

[xiii] FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2002.

[xiv] Essa característica fica visivelmente demarcada a partir da institucionalização de práticas como o futebol e o rugby, nas Public Schools inglesas, no final do século XIX, onde dentre as principais motivações estavam, o controle da agressividade dos garotos, a qual através da prática esportiva poderia ser extravasada.

[xv] REIS, H. Futebol e Sociedade: as manifestações da torcida. Tese de Doutorado – Departamento de Estudos do Lazer, Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, São Paulo, 1998.

[xvi] TOLEDO, L. Lógicas no futebol. São Paulo:Hucitec/FAPESP, 2002.

[xvii] Damo, A. S. (2005). Do dom à profissão: uma etnografia do futebol de espetáculo a partir da formação de jogadores no Brasil e na França. Tese de Doutorado em Antropologia Social, UFRGS, IFCH, Porto Alegre.

[xviii] GOELLNER, S. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 19 n. 2, 2005. DOI: https://doi.org/10.1590/S1807-55092005000200005. Diponível em: https://www.revistas.usp.br/rbefe/article/view/16590.  Acesso em: 16 jan. 2024.

[xix] KIMELL, M. “A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas”. Horizontes Antropológicos. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social /UFRGS, n. 9,p. 103-117, 1998.

[xx] TEIXEIRA, R. C. Os perigos da paixão: filosofia e prática das torcidas jovens cariocas. Dissertação (Mestrado em Antropologia). PPGSA, UFRJ, 1998.

[xxi] REIS, H. O perfil do torcedor organizado e a política brasileira para o futebol espetáculo. Tríade: Revista de Comunicação, Cultura e Midia. 4. p. 172-189. 2016.

[xxii] MURAD, M. A violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias atuais. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

[xxiii] Lei Federal 10.671, de 15 de maio de 2003, mais conhecida como “Estatuto do Torcedor”. O qual foi integralmente revogado pela Lei nº 14.597 de 14 de julho de 2023, intitulada de Lei Geral do Esporte.

[xxiv] REIS, H. O Espetáculo Futebolístico e o Estatuto de Defesa do Torcedor. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Campinas, v.31, n.3, p.11-130, mai 2010.

[xxv] MURAD, M. A violência no futebol. São Paulo: Saraiva, 2012

[xxvi] COSTA, L. M. “O que é uma torcedora? Notas sobre a representação e auto representação do público feminino do futebol”. Esporte e Sociedade. v. 2, n.4, 2007. Disponível em: https://periodicos.uff.br/esportesociedade/article/view/48008. Acesso em: 2 jan. 2024.

[xxvii] Ribeiro, R. A bola, as ruas alinhadas e uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921). Rio de Janeiro: Drible de Letra, 2018.

[xxix] Araújo, D. Lugar de mulher é no futebol: Dulce Rosalina e a representatividade feminina nas torcidas. 2019. 104 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) - Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2019.

[xxx] Ao abordar a ideia de estabelecidos, inspiro-me no trabalho de Elias, 2000.

[xxxi] CAMPOS, Priscila Augusta Ferreira. Mulheres torcedoras do Cruzeiro Esporte Clube presentes no Mineirão. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

[xxxii] JANUÁRIO, S. Mulheres no Campo: o ethos da torcedora pernambucana. São Paulo: Fontenele Publicações, 2019.

[xxxiii] WEEKS, J.  O Corpo e a sexualidade.  In: O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Guacira Lopes Louro (org.) Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

[xxxiv] SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e realidade.V.20. n.2. jul/dez.1995.

[xxxv] LOURO, G. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós - estruturalista.

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[xxxvi] OLESEN, V. Os feminismos e a pesquisa qualitativa neste novo milênio. DENZIN. NLINCON, Y. (Orgs). O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, p.219-257, 2006.

[xxxvii] BONFIM, A. F. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941). Dissertação (Mestrado em História, Política e Bens Culturais) – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2019

[xxxviii] RIAL, C., #Déjala trabajar: el fútbol y el feminismo en Brasil. In: Thomas Fischer; Romy Kôlher; Stefan Reith. (Org.). Fútbol y Sociedad en América Latina. 1ed.Frankfurt: editorial Vervuert, 2021, v. 1, p. 241-256.

[xxxix] PISANI, MARIANE. Gênero: um conceito útil para a análise esportiva e futebolística (versão impressa). In: Claudia Samuel Kessler, Leda Maria da Costa, Mariane da Silva Pisani. (Org.). As mulheres no universo do futebol brasileiro. 1ed.Santa Maria: Editora UFSM, 2022, v. 1, p. 327-343

[xl] SILVA, T. O Currículo como fetiche: a poética e a política no texto cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

[xli] GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. Guanabara: Koogan, 1989.

[xlii] VIDICH, A; L, S. Métodos qualitativos: sua história na Sociologia e na Antropologia. In:DENZIN, Norman; Lincoln, Yvona; Et Al. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006.

[xliii] ANGROSINO, M. Etnografia e observação participante. Porto Alegre: Artmed, 2009.

[xliv] MARCUS, G. Etnografía en/del sistema mundo: el surgimiento de la etnografía multilocal. Alteridades, Iztapalapa, v. 11, n. 22, p. 111-127. 2001.

[xlv] MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento, pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.

[xlvi] CAMPOS, Priscila Augusta Ferreira. Mulheres torcedoras do Cruzeiro Esporte Clube presentes no Mineirão. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

Bibliografía de la ponencia