Urbanismos pandêmicos e solidariedade

SP.39: Etnografías de la/en la vida urbana: territorios, espacios públicos y vulnerabilidades sociales

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Apoena Mano Universidade de São Paulo - Brasil

Introdução

Este trabalho desenvolve resultados parciais de uma pesquisa de doutorado de viés sócio-etnográfico. Meu objetivo central é explorar a emergência de lideranças e mobilizações comunitárias em cidades Latino-Americanas – com enfoque temporal sobre o contexto da pandemia de Covid-19. Argumento que a emergência de modalidades informais de política cotidiana se desenvolve com base em um fenômeno análogo de mercantilização turística em territórios periféricos nas cidades do Rio de Janeiro e Medellín.

Sabemos que a pandemia de Covid-19 desencadeou efeitos socioeconômicos que chamaram a atenção global para as fragilidades dos nossos sistemas urbanos (BHAN et al., 2020). Para os grupos sociais que vivem em territórios conhecidos como Favelas no Rio de Janeiro e Comunas em Medellín, a falta de planejamento urbano tornou a situação ainda mais desafiante – com efeitos variáveis a partir de marcadores de gênero, cor e classe social – como atestado por instituições como a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020).

Esta perspectiva nos leva a compreender as condições que trouxeram um aprofundamento das desigualdades sociais que afetam as populações das periferias urbanas da América Latina. Nestas circunstâncias de precariedades (BUTLER, 2015), situados às “margens do Estado” (DAS; POOLE, 2004), grupos locais se auto-organizaram em formas de urbanismo insurgente (FRIENDLY, 2022) e fazer-cidade (AGIER, 2015) conduzidas por iniciativas referidas por uma vasta gramática de “colaborações, ajudas e suporte”. Consequentemente, cientistas sociais atentos aos fenômenos sociais nas cidades foram levados a observar mais atentamente para a importância das formas de cuidado (GABAUER et al., 2022; JUPP, 2022).

Com base em interlocuções etnográficas estabelecidas com lideranças comunitárias em favelas do Rio de Janeiro desde 2015 e comunas em Medellín desde 2021, meu trabalho se concentra sobre distintos formatos de mobilização comunitária, alguns mais espontâneos e orgânicos, e outros mais institucionalmente estabelecidos. Compreendo estas formas de planejamento insurgente como “urbanismos pandêmicos” regidos por formatos horizontais de solidariedade. Alguns baseados em redes de relações previamente estabelecidas, e outros em uma reorganização de frentes de trabalho. Contudo, todos orientados pela perspectiva de que seria necessário desenvolver tais formas de solidariedade devido à sensações de “negligência” e “abandono” do governo.

O objetivo desta apresentação é explorar as modalidades de urbanismo e agência política produzidas ao redor de variadas mobilizações comunitárias em cidades latino-americanas durante a pandemia de Covid-19. Trago enfoque analítico às diferentes formas e situações em que meus interlocutores acionam ideias relacionadas à solidariedade e ao cuidado comunitário. Sustento a hipótese de que em cidades como Rio de Janeiro e Medellín, redes de resistência urbana anteriormente constituídas contra a violência do Estado foram reorganizadas em um repertório para garantir o direito à vida. Em termos metodológicos, me baseio em técnicas como a observação-participante, entrevistas semi-estruturadas (VALLADARES, 2007) e a descrição de situações sociais (GLUCKMAN, 1940) a partir de interações com lideranças, articuladores, voluntários e parceiros dessas mobilizações.

Minha contribuição teórico-metodológica ao campo das etnografias urbanas se apoia na definição de “mobilização comunitária”. Mobilizando diferentes recursos, ideias e eixos infraestruturais em torno de um propósito comum, indivíduos e grupos sociais (re)produzem miríades de redes e conexões para gerar benefícios econômicos, sociais e políticos – desafiando estruturas de poder e criando valor sociopolítico por meio de inovadoras convergências de mobilidades.

Através da virada das mobilidades (FREIRE-MEDEIROS; LAGES, 2020), nossa atenção analítica se dirige não apenas ao movimento dos corpos e objetos, mas também às políticas, imagens, ideias, representações, recursos e múltiplas dimensões de movimentos interdependentes (SHELLER; URRY, 2006; URRY, 2007). Toda forma de movimento, e mesmo as mobilidades virais, é politicamente condicionada - seja ela potencial, realizada ou interrompida (ADEY et al., 2021). Exploramos a possibilidade de explorar diferenças e desigualdades sociais a partir da noção de “ontologia móvel” - na qual “o movimento é primordial como uma condição fundamental de ser, espaço, sujeitos e poder” (SHELLER, 2018). Esta perspectiva nos leva a compreender, que desastres naturais sempre têm um componente social e político, e (i)mobilidades desiguais são um aspecto crucial de impactos diferenciais (SHELLER, 2020).

Empiricamente, argumento que durante a pandemia em cidades como Rio de Janeiro e Medellín, que tanto a impossibilidade de "ficar em casa", quanto a fixação forçada por um “lockdown” sem proteção social produziu desigualdades marcadas por aspectos socioespaciais e interseccionais. Ambos os casos exemplificam “regimes de mobilidades” que, regidos por relações de poder, são dinâmicas e regulações estruturações materiais, simbólicas e subjetivas que são responsáveis por restringir ou potencializar, impedir ou promover, fluxos de capitais, pessoas, mercadorias, matérias-primas, recursos e informações (GLICK SCHILLER; SALAZAR, 2013; BAKER, 2016; MANO, 2021).

Como consequência direta às desigualdades determinadas por tais regimes, podemos nos atentar às múltiplas formas de conhecimento territorial de habitantes e suas possíveis redes de ação - que articulam um vasto repertório de cuidado comunitário. Principalmente em contextos de precariedades por ausência de planejamento público e urbano. Não deixo de lembrar que teorias feministas são determinantes na tradição de estudos sobre o cuidado. Contudo, também acompanho autoras como Camila Pierobon e Camila Fernandes, que defendem que o cuidado – entendido como garantia da vida – é parte constitutiva do processo de fazer cidade e deve estar nas discussões sobre o urbano – e principalmente em suas margens (PIEROBON; FERNANDES, 2023).

Paola Jirón é uma pesquisadora chilena vinculada aos estudos sobre mobilidades. Em texto analítico sobre circunstâncias urbanas durante a pandemia, ela menciona que a imaginação política e o conhecimento territorial apresentado em formas de ação comunitária nos leva a reconhecer a importância do cuidado como base para pensar as cidades do presente e do futuro (JIRÓN, 2020). Isso sem idealizar ou romantizar que habitantes estavam expostos aos riscos de doença e morte devido a negligência governamental, é claro. Ela apresenta uma matriz analítica com enfoque sobre as práticas, lugares, materialidades e sujeitos do cuidado (ibid.). É com base nestes eixos que sigo esta apresentação.

 

Resistindo às desigualdades pandêmicas no Rio de Janeiro

Preocupados com os riscos de doenças e mortes potencialmente causadas pela Covid-19 na favela Santa Marta, a mobilização “Santa Marta contra a Covid-19” articulou uma convergência de doações, voluntários e uma série de informações técnicas para iniciar um cronograma periódico de lavagem das ruas e vielas do território. Esta iniciativa é apenas um dos vários exemplos possíveis de campanhas de solidariedade contra a Covid-19 no Rio de Janeiro (FLEURY; MENEZES, 2020; MENEZES; MAGALHÃES; SILVA, 2021; RUI et al., 2021) - e aqui, registro a indicação para o excelente e fundamental trabalho desenvolvido no âmbito do Dicionário de Favelas Marielle Franco, coordenado por Palloma Menezes e Sonia Fleury.

No caso do Santa Marta, me interessa explorar aspectos sociais da produção dessa sanitização comunitária. Com uma longa trajetória de ativismo e envolvimento em diversas organizações comunitárias e também suas atividades profissionais como guia de turismo e empreendedor social na favela, Thiago Firmino conseguiu articular e remobilizar diversos contatos, colaborações e recursos para estruturar, facilitar e divulgar a mobilização contra a pandemia de Covid-19.

“Esse negócio de lockdown e isolamento social só valia pro asfalto. Na favela não teve nada disso não”. Esse comentário foi feito por um dos coordenadores da sanitização comunitária. Durante entrevistas sobre os motivos que os impulsionaram a agir, os coordenadores comumente mencionam que estavam resistindo à "política da morte" (nas palavras deles) conduzida pelo governo. Essas perspectivas, relacionadas à difusão de ideias trazidas pelo conceito de "necropolítica" (MBEMBE, 2016), podem ser contextualizadas com dados secundários sobre as circunstâncias gerais de habitação nas favelas do Brasil e os impactos da pandemia na cidade.

De forma geral, habitantes de favelas brasileiras permaneceram em circulação pela cidade devido a necessidades financeiras. Apesar da orientação para lockdown, muitos pertencem a mercados informais e não tinham garantias trabalhistas. E faziam parte também dos “serviços essenciais” que mantinham as cidades em funcionamento - transportes urbanos, supermercados, hospitais, etc. Devido à natureza interdependente das mobilidades, podemos afirmar que a sustentação da imobilidade de alguns dependia da circulação contínua de outros.

Através da perspectiva das mobilidades, argumento que podemos definir uma mobilização como uma convergência de corpos, imagens, informações, equipamentos, dinheiro, entre outros recursos. Por este prisma, podemos analisar tanto as características, quanto o formato dessas composições coletivas. Por exemplo, ainda em março de 2020, as primeiras contribuições de mil dólares, que serviram para a compra de equipamentos e substâncias necessárias para iniciar a mobilização, foram doadas por um produtor musical britânico e um rapper dinamarquês. Thiago os conheceu porque eles visitaram a favela Santa Marta alguns anos antes - para gravar imagens de um videoclipe na mesma favela visitada em 1996 por Michael Jackson (FREIRE-MEDEIROS, 2009; MANO, 2023).

Em paralelo, a visibilidade trazida pela sanitização comunitária possibilitou o desenvolvimento de variadas colaborações ao redor de práticas de cuidado. Vou citar alguns exemplos. O primeiro é a parceria com uma equipe de microbiologistas da UERJ. O chamado “Coronatrack”, poderia detectar e medir partículas no ar. E eles encontraram resultados significativos. Apesar das polêmicas em termos de eficácia, mencionaram que aspectos como ventilação, umidade e aglomeração de casas possivelmente tornaram a sanitização mais eficaz na favela do que em outros locais (EVANGELISTA et al., 2021). Para além desses resultados, minha intenção é destacar que esses cientistas reconheceram que esse estudo inovador só foi possível graças ao contato com uma ação comunitária que já estava estruturada na favela.

Um dos piores aspectos do governo irresponsável que tivemos no Brasil durante a pandemia foi a falta de testes de infecção por Covid-19. Em maio de 2020, o Brasil testava 15 vezes menos que os EUA e 12 vezes menos que o Reino Unido. A partir de uma parceria com a iniciativa social “Dados do Bem”, Thiago articulou um período de oferta de testes PCR gratuitos na favela. Os interessados só precisavam cadastrar seus dados em um aplicativo de celular e aguardar a sua vez.

Contudo, descrevendo modalidades de cuidado comunitário nestes dois territórios, percebemos que determinados “regimes diferenciais de precariedade” (MANO; DA MOTTA, 2023) nos auxiliam a observar distintos impactos e reações da pandemia. Como comentei, na favela Santa Marta, uma rede de contatos previamente estabelecidos foi essencial para que líderes comunitários pudessem criticar a falta de proteção pública e articular uma mobilização comunitária. Do outro lado da cidade, a população da Vila Vintém vivenciava um fenômeno que ocorreu em outras favelas da cidade. Um tipo de “mimetismo” do Estado pelos traficantes de drogas, que decretavam quarentenas e proibiam aglomerações na favela - mostrando que além do poder e da violência do Estado, atores não-estatais também têm a capacidade de “controlar a biopolítica” dada a falta de conscientização pública e de políticas de higiene (ibid.).

 

Cuidado, solidariedade e coletividade em Medellín

Contextos urbanos em Medellin auxiliam reflexões sobre as materialidades do cuidado. Quando o vírus da Covid-19 chegou às cidades colombianas, o governo federal logo implementou medidas rigorosas de quarentena, conforme orientado por especialistas em saúde pública (PÉREZ GUEVARA; BONILLA, 2021). Essas medidas tiveram impactos socioeconômicos significativos na economia local. Embora não tenha sido negacionista como o nosso presidente brasileiro, Ivan Duque seguia ideias altamente neoliberais e chegou ao ponto de tentar aprovar uma reforma tributária durante a pandemia.

Certamente as populações pobres sofreram com mais um presidente preocupado com a economia dos ricos durante uma crise sanitária. Porque estes grupos sociais não podiam sair para procurar empregos informais e não também tinham dinheiro ou subsídios públicos para comprar alimentos, medicamentos e demais itens básicos. Foi por isso que algumas pessoas começaram a tentar chamar a atenção para essa situação precária.

Iniciado na própria Comuna 13, mas depois reproduzido também nas Comunas 8, 1 e 14, o "trapos rojos" foi uma iniciativa orgânica baseada nessa crítica situação de desigualdade sócio-urbana. Pessoas começaram a pendurar tecidos vermelhos na frente de suas casas como um símbolo de que as famílias que viviam nessas habitações estavam sofrendo com necessidades financeiras e fome. Enquanto o governo não abordava adequadamente essa situação, e os chamados “combos criminales” mantiveram práticas de extorsão aos negócios no território (MONCADA, 2022), iniciativas locais se mobilizaram rapidamente para reunir esforços para distribuir alimentos para as famílias em tais circunstâncias. Como reação aos trapos rojos, instituições locais como começaram a ativar conexões anteriores que tinham com pessoas e organizações de fora do território da Comuna 13.

Por exemplo, casa Kolacho é uma escola comunitária de hip-hop que ficou famosa por criar o “Graffitour” – principal atividade turística da Comuna 13 (TORRES, 2018; RAMIREZ SUAREZ, 2023). Coordenadores da Casa Kolacho passaram a receber inúmeras mensagens de pessoas não reconhecidas oferecendo ajuda. Eram turistas que visitaram o Graffitour e estavam oferecendo vários tipos de apoio como dinheiro, doações de alimentos, etc. Além disso, empresas privadas da cidade utilizavam o contato da Casa Kolacho como garantia de que doações seriam adequadamente direcionadas à população mais vulnerável. Essas conexões consolidavam rotas de circulação de recursos externos ao território e direcionadas às famílias vulneráveis. Esse é um exemplo possível entre uma variedade de casos onde formas de ação coletiva emergiram através de iniciativas conduzidas pelo recente processo de produção urbana na cidade colombiana (DUQUE FRANCO et al., 2020; SMITH; ORTIZ, 2022). Com base nisso, integrantes da Kolacho decidiram potencializar mobilidades através de conexões de suas redes possíveis.

O festival denominado “Abraza la 13” não teve nenhum público. Ao menos em modo presencial. Ocorrido em uma laje da Comuna 13 e transmitido ao vivo em plataformas online como YouTube e Facebook, nesse evento, a Comuna 13 foi “abraçada” por múltiplos grupos sociais, sujeitos e recursos. Com apresentações de diversos artistas locais, que estavam habituados a se apresentar para turistas, o evento também atraiu manifestações de figuras públicas relevantes.

Apresentado como um “convite à solidariedade”, o festival teve como objetivo receber doações para a aquisição de alimentos para a população necessitada; e também computadores e tablets para as crianças que não possuíam equipamentos para permanecer no atual modelo de aulas on-line. Como reação aos desiguais “regimes de mobilidades” impostos sobre estes territórios, é fundamental reconhecer que em torno de iniciativas como a sanitização no Santa Marta e o festival na Comuna 13, podemos observar como diferentes capacidades e interesses se articularam em torno do exercício de um capital de rede (URRY, 2012), numa combinação de capacidades, potencializações e materializações de mobilidades.


"Cuidar da favela é cuidar da cidade inteira"

Alguns trechos de entrevistas podem os auxiliar uma análise exploratória sobre sujeitos do cuidado. Neste ponto, acho que podemos identificar aspectos de subjetividade interessantes para a análise. Mencionando que os trapos rojos não poderiam ser uma realidade aceitável para as comunidades pobres da cidade, o principal artista do Abraza la 13, Bomby, reforçou que a iniciativa foi uma maneira de oferecer apoio coletivo à comunidade com base nos meios possíveis durante a pandemia: "Queremos nos ajudar entre nós mesmos. Decidimos nos juntar porque sempre que fazemos isso, coisas grandiosas acontecem". Ao reconhecer que quando a comunidade "se reúne", eles potencializam o alcance de suas ações, Bomby está se referindo à convergência de mobilidades atraídas e reproduzidas ao redor da iniciativa de cuidado comunitário.

Em conversas com outras lideranças comunitárias de Medellín que organizaram ações durante a pandemia, esse aspecto da solidariedade constantemente é valorizado. Esse aspecto coletivo também é destacado em entrevistas na favela Santa Marta. Por exemplo, em entrevista, um dos participantes da sanitização menciona a sensação de orgulho ao perceber o reconhecimento da comunidade. Em continuidade, ele também menciona que a realização de ações comunitárias também traz benefícios a seu próprio bem-estar.

O momento que eu acho mais marcante nos primeiros dias. A gente começou a fazer a santização e tava descendo lá do pico do morro com as máquinas. Quando a gente chegou ali na parte de baixo, tinham vários moradores reconhecendo nosso trabalho. Mesmo com o barulho das máquinas, e com toda a proteção com óculos, protetor auricular e as máscaras... Dificulta de ver e e ouvir, e mesmo assim a gente conseguiu. Eu fiquei impressionado. Várias pessoas orando, assim com as mãos estendidas, ou batendo palma. Aquele momento ali foi bacana.

Muitos reconhecem que estamos fazendo coisas boas para os outros. Mas eu também estou fazendo pra mim mesmo. É uma coisa que eu me descubro como ser humano, que me dá mais sensibilidade, que me deixa mais próximo do outro, entendeu? Eu acho que ter feito naquele momento de desespero da pandemia, mas eu digo isso também sobre várias outras ações. A gente precisa viver a gente precisa olhar para o outro, entendeu? Sse você parar olhar dá ao redor olhar ao seu redor, você começa a espantar até aqueles pensamentos negativos, as coisas ruins que muitas vezes ficam por na cabeça e que te jogam pra baixo, entendeu?

(Coordenador da Sanitização Comunitária – Julho/2022)

 

Reconhecer o aspecto comunitário e coletivo das práticas de cuidado não significa uma idealização de desigualdades sociais ou uma “celebração edificante das iniciativas populares” (GRUPO DE PESQUISA CIDADE E TRABALHO, 2020)Muito pelo contrário, sigo o argumento formulado por Marcia Leite (2020): reações políticas à pandemia de Covid-19 no Brasil aprofundaram as “precariedades históricas em que vivem as camadas populares de nossa sociedade” (p. 3). Inseridas no que a autora chama de “biopolítica da precariedade”, vemos essas populações enquadradas entre o “fazer viver precariamente”, expostas ao risco da morte pela ausência de política pública sanitária, e o “fazer morrer”, pela presença ativa do Estado através de aparato policial.

Contudo, é com base justamente nesta dinâmica que lideranças locais formulam críticas públicas com base em suas próprias ações.  Por imaginação política, podemos entender a capacidade de imaginar e criar possibilidades de mudança urbana. Ao explorar os casos da Favela Santa Marta e da Comuna 13, defendo que apesar de contraditória, a produção urbana de determinadas “margens” urbanas tem sido apropriada por iniciativas locais para potencializar redes que são constantemente remobilizadas, dependendo do contexto e como no caso de uma pandemia, por exemplo. Por exemplo, quando um coordenador da ação questiona o poder público por agir de forma ineficiente ao discriminar determinados territórios durante uma pandemia, ele destaca que compreender as especificidades de cada composição territorial é altamente necessário para um governo urbano eficaz e igualitário. Para ele, acertadamente, “cuidar da favela é cuidar da cidade inteira”.

De modo sistematizado, mobilizações comunitárias podem ser definidas pela capacidade de redes transversais e extraterritoriais para: a) mobilizar recursos e apoio dentro das comunidades em contextos onde os sistemas formais de apoio são limitados ou inacessíveis; b) compreender as necessidades sociais e económicas das comunidades; c) construir relações com atores internos e externos e grupos sociais, promovendo rotas de recursos que podem ser críticas para facilitar respostas eficazes em contextos como o de uma pandemia global.

Destaco o discurso de muitos líderes sociais de grupos historicamente marginalizados que articularam ações de resistência durante a pandemia: eles preferiram que o governo também tivesse protegido suas vidas, famílias e territórios com políticas públicas. Muitos deles mencionaram um argumento que emergiu das narrativas produzidas durante a pandemia da Covid-19. Se quisermos pensar numa “nova” normalidade, este novo cenário deverá compensar as políticas públicas que historicamente segregaram certas vidas e populações.


Considerações Finais

As mobilidades virais desencadearam não apenas uma perturbação das mobilidades, mas também uma vasta intensificação das relações já existentes de (im)mobilidades desiguais (e sempre emaranhadas) (Adey, Hannam, Sheller, & Tyfield 2021). A pandemia da Covid-19 é um contexto crítico para as percepções sobre as formas como os sistemas e regimes de mobilidade estão interligados através de múltiplos aspectos da vida social, tais como desigualdades, poder e desafios socioterritoriais. De forma semelhante, o conceito de capital de rede destaca as possibilidades sociopolíticas possivelmente criadas através das conexões multiescalares que as pessoas estabelecem numa sociedade composta por estas mobilidades. Neste artigo, tentei acompanhar essas discussões e explorar como a definição de uma mobilização baseada na comunidade através da estrutura da “virada das mobilidades” pode apoiar formulações de como as mobilidades podem ser apropriadas como um conceito descritivo e potencializadas empiricamente como uma ferramenta para a mudança social.

Muito foi debatido sobre a consolidação de uma “nova normalidade” através do contexto da pandemia da Covid-19. No entanto, concordo que os desastres não são desvios patológicos do “normal”, mas sim as manifestações mais salientes das formas como o normal é de facto patológico (Hagen e Elliott, 2021). Para além das condições naturais, os desastres são o resultado de longos processos de violência lenta/estrutural e produzem uma “vulnerabilidade” que é produto de uma “governança raciocolonial” (Bonilla, 2020). É por isso que certos grupos conseguiram articular rapidamente mobilizações comunitárias – algo que tem sido surpreendente para algumas análises. Operando em diferentes temporalidades de emergência durante contextos anteriores, muitos desses grupos já tiveram que lutar com uma condição de precariedade imposta politicamente (Butler, 2016).

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