50 tons de estigma: a estética da dissidência

SP.54: Disidencias sexo-génericas y corporales con perspectiva antropológica

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
PAULA ESTEVES PINTO UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

VII Congreso ALA - Las antropologías hechas en América Latina y el Caribe en contextos urgentes: violencias, privilegios y desigualdades

 

Paula Esteves

Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil

 

50 tons de estigma: a estética da dissidência  



Resumo:

 

Neste artigo discuto a hipótese de que há uma normatividade na dissidência, que dita não apenas os códigos e os padrões de conduta, mas que marginaliza os corpos já socialmente tão estigmatizados. Para corroborar e defender o meu argumento, adotei como referência importantes literaturas acerca das sexualidades dissidentes, buscando o diálogo entre autores renomados no campo das sexualidades, tais como Judith Butler, Michel Foucault e Paul B. Preciado, além da contribuição da minha própria experiência pregressa como uma insider, fruto do meu trabalho de campo realizado durante os dois anos de Mestrado em Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Assim, intento provocar uma reflexão sobre as relações entre diferentes atores sociais adeptos de práticas sexuais denominadas BDSM (acrônimo para os pares bondage e disciplina, dominação e submissão, sadismo e masoquismo) e o lugar dos corpos que não são identificados segundo um padrão ideal de beleza nem na sociedade como um todo e nem no universo dos praticantes de dinâmicas não-normativas. Se por um lado podemos observar uma busca por um sentimento de pertença ou um lugar de acolhimento e identificação, de outro vemos que há uma performance estética, de orientação mercadológica, que é responsável pela construção do fascínio visual e pela expectativa que mobiliza sujeitos a ingressar nesses percursos dissidentes. Essa orientação mercadológica por si só já exclui uma grande parcela da população que não possui condições econômicas para arcar com os altos custos das parafernálias que envolvem esse universo dos prazeres e que vão desde brinquedos e objetos sexuais, até vestimentas e acessórios de couro e látex, importantes na composição das personagens que irão performar nesse meio dissidente. Parto, então, do pressuposto de que existe uma performance estética e cultural estruturalmente construída que se perpetua mesmo entre dissidentes sexuais e que acaba por submeter corpos gordos, negros e maduros ao escrutínio, preconceito e segregação, e, portanto, engendra práticas de gordofobia, racismo e etarismo, muitas vezes de forma explícita e outras vezes de forma sutil na opacidade das paletas de cores dos processos de subjetivação.

 

Palavras-chave: dissidência sexual, estigma, estética, BDSM, preconceito

 

Abstract:

 

In this article, I discuss the hypothesis that there is normativity in dissidence, which dictates not only codes and standards of conduct, but also marginalizes bodies that are already socially stigmatized. In order to corroborate and defend my argument, I have used important literature on dissident sexualities as a reference, seeking dialogue between renowned authors in the field of sexualities, such as Judith Butler, Michel Foucault and Paul B. Preciado. Preciado, as well as the contribution of my own previous experience as an insider, the fruit of my fieldwork carried out during my two-year Master's degree in Social Sciences at the State University of Rio de Janeiro. Thus, I intend to provoke a reflection on the relationships between different social actors who are adept at sexual practices known as BDSM (an acronym for bondage and discipline, domination and submission, sadism and masochism) and the place of bodies that are not identified according to an ideal standard of beauty, either in society as a whole or in the universe of practitioners of non-normative dynamics. While on the one hand we can see a search for a sense of belonging or a place of welcome and identification, on the other we can see that there is an aesthetic, market-oriented performance that is responsible for the construction of visual fascination and the expectation that mobilizes subjects to enter these dissident paths. This market orientation alone excludes a large portion of the population who cannot afford the high costs of the paraphernalia that surrounds this universe of pleasures, ranging from toys and sexual objects to leather and latex clothing and accessories, which are important in the composition of the characters that will perform in this dissident environment. I therefore start from the assumption that there is a structurally constructed aesthetic and cultural performance that is perpetuated even among sexual dissidents and that ends up subjecting fat, black and mature bodies to scrutiny, prejudice and segregation, and therefore engenders practices of fatphobia, racism and ethnophobia, often explicitly and sometimes subtly in the opacity of the color palettes of the processes of subjectivation.

 

Keywords: sexual dissidence, stigma, aesthetics, BDSM, prejudice

 

Introdução

Ao deparar-se pela primeira vez com o universo dos praticantes de dinâmicas BDSM e outras práticas consideradas não-normativas, como os adeptos de podolatria1 ou com a comunidade Leather2, o primeiro pensamento que passa pela mente da maior parte dos neófitos é de que encontrou um espaço libertário para a fruição dos prazeres. Um sentimento de pertença começa a se delinear naqueles que não conseguem se enquadrar nos padrões normativos da sociedade da qual fazem parte. Isto é o que primeiro motiva as pessoas a ingressar nesses percursos dissidentes. 

Além dessa necessidade de identificação e a vontade de encontrar a sua “tribo”, a estética que compõe tais práticas é atraente não só aos olhos, mas aguça vários sentidos. A prática do bondage que envolve a restrição de alguns sentidos para que outros sejam despertados com maior intensidade causa fascínio em alguns, enquanto na prática de dominação e submissão, a possibilidade de ser visto como um ser superior (parte dominante) ou se ver livre de ter que tomar qualquer decisão (parte submissa) é o ápice do prazer.


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No entanto, o indivíduo que se engaja nesses percursos, logo percebe que há uma estética necessária para compor esses personagens. As roupas de couro e látex são peças de vestuário de alto custo. Tanto os utensílios individuais como chicotes, palmatórias, cordas, algemas, peças de lingerie, coleiras quanto aqueles itens que compõem os espaços como jaulas, iluminação, a famosa cruz de Santo André conhecida como uma cruz diagonalmente em forma de X, onde pessoas que sentem prazer na submissão e no masoquismo são presas para serem açoitadas, não estão acessíveis para pessoas com recursos financeiros limitados.


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Adicionalmente, chegamos ao ponto que considero o mais controverso nesse universo que é a manutenção estética dos corpos e a busca incessante de um corpo entendido como padrão do que é belo na sociedade em geral e que, em minha visão de pesquisadora insider, deveria ser a primeira barreira a ser rompida por pessoas com ideais dissidentes.

Ao recorrer rapidamente aos buscadores online para pesquisar sobre BDSM, por exemplo, se selecionarmos a aba “imagens”, o que veremos são corpos jovens, magros e brancos. Essas exclusões através dos marcadores sociais de diferença de raça, de idade, de classe e muitos outros advém da estética cultural mercadológica. O capitalismo investe naquilo que compreende que pode ser comercializado e a pornografia dita os padrões de forma e conteúdo a serem perseguidos. O próprio romance Cinquenta Tons de Cinza, que através dos livros e do cinema foi responsável pela onda mais recente de novos adeptos do BDSM, baseou-se em estereótipos que não se coadunam com a realidade daqueles que se encantam com a estética apresentada pela história. O personagem masculino Christian Grey no papel de dominador é um jovem milionário, com um corpo branco e magro, que quando não está vestido com seus ternos luxuosos, está exibindo seu corpo malhado com seus músculos bem torneados. Enquanto a jovem submissa de corpo esguio, olhos claros e cabelos lisos busca apresentar a mesma estética do belo.

Este padrão não é algo recente, mas que vem se perpetuando nos romances, na indústria cinematográfica, nas campanhas publicitárias, na pornografia de revista ou na pornografia filmada, e no mercado dos sex shops ao longo de muitos anos. 


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Esta é, portanto, a razão pela qual faz-se necessário trazer o debate para a academia para que possamos refletir com base nos estudos antropológicos com o intuito de produzir mudanças significativas acerca de padrões e comportamentos excludentes mesmo em espaços que se esperava que fossem  agregadores. 

Durante minha pesquisa de Mestrado, como insider, pude ver in loco as fissuras daquilo que teoria e mercado vendem com aquilo que realmente é encontrado nos espaços sociais como clubes e bares e também nos espaços digitais, onde ocorrem as interações interpessoais de quem se aventura pelo universo da dissidência sexual.

   

O poder e o mercado da sexualidade

 

Ao contrário do que se propagou sobre o sexo e seu discurso repressor, Michel Foucault em História da sexualidade I mostra que a repressão não é o fator primordial de poder contra a sexualidade. Foucault ressalta que há, na verdade, uma intensificação no discurso sobre o sexo com o objetivo de regular e exercer poder sobre os corpos. Esse poder regulatório e sua extensão na biopolítica seria, portanto, o marco para a compreensão de como emergem as sexualidades dissidentes. Com a proliferação dos debates sobre o sexo, se estabelece uma forma de poder que disciplina, manipula e cria sujeitos e corpos que atendam a necessidades políticas e econômicas. A esta tecnologia de regulamentação que busca governar e criar corpos que sirvam economicamente à sociedade, Foucault dá o nome de “biopoder”.

Para o pensador, o biopoder é composto por uma forma de disciplina que controla os corpos e pela biopolítica que regula comportamentos da população:

 

“De um lado, da parte das disciplinas do corpo: adestramento, intensificação e distribuição das forças, ajustamento e economia de energias. Do outro, o sexo pertence à regulação das populações, por todos os efeitos globais que induz.” (Foucault, 2012, p. 158)

 

O capitalismo valeu-se, então, do conceito de biopoder para domesticar e subjugar corpos. Desta forma, o poder não agia coibindo, mas incitando padrões de comportamento. Assim, a indústria pornográfica “ensinou” a forma de se fazer sexo, a forma como os corpos deveriam performar e o perfil de corpos comercializáveis. 

 

“O indivíduo é sem dúvida o átomo fictício de uma representação “ideológica” da sociedade; mas é também uma realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder que se chama a “disciplina”. Temos que deixar de descrever sempre os efeitos de poder em termos negativos: ele “exclui”, “reprime”, “recalca”, “censura”, “abstrai”, “mascara”, “esconde”. Na verdade o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais da verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção.” (Foucault, 2012, p. 161)

 

Paul B. Preciado, em sua obra Manifesto Contrassexual, reitera os pressupostos de Foucault ao definir o sexo enquanto tecnologia biopolítica capaz de determinar que discursos devem ser proferidos, como os corpos devem ser utilizados, além dos meios e formas de obtenção de prazeres.

 

“Para Foucault, a técnica é uma espécie de micropoder artificial e produtivo que não opera de cima para baixo, mas que circula em cada nível da sociedade (do nível abstrato do Estado ao da corporalidade). Por essa razão, o sexo e a sexualidade não são os efeitos das proibições repressivas que obstaculizariam o pleno desenvolvimento de nossos desejos mais íntimos, e sim o resultado de um conjunto de tecnologias produtivas (e não simplesmente repressivas). A forma mais potente de controle da sexualidade não é, logo, a proibição de determinadas práticas, mas a produção de diferentes desejos e prazeres que parecem derivar de predisposições naturais (homem/mulher, heterossexual/homossexual etc.), e que serão finalmente reificadas e objetivadas como “identidades sexuais”. As técnicas disciplinadoras da sexualidade não são um mecanismo repressivo, e sim estruturas reprodutoras, assim como técnicas de desejo e de saber que geram as diferentes posições de sujeito de saber-prazer.” (Preciado, 2017, p. 156)

 

No entanto, Preciado vai além do que sinalizou Foucault e introduz o conceito de sexopolítica que não se limita a pensar a sexualidade como algo que regulamenta os processos biológicos e a reprodução da vida, mas um conceito que alicerça o poder que constitui o que ele denomina “regime da diferença sexual”. Alguns anos depois de ter escrito o Manifesto Contrassexual, Preciado desenvolve em seu artigo Multidões Queer: notas para uma política dos “anormais” o conceito de “sexopolítica” como uma forma dominante da ação biopolítica advinda do capitalismo disciplinar em que os dispositivos da sexualidade constituem-se em tecnologias que padronizam e controlam a vida dos indivíduos:

 

“A sexopolítica é uma das formas dominantes da ação biopolítica no capitalismo contemporâneo. Com ela, o sexo (os órgãos chamados “sexuais”, as práticas sexuais e também os códigos de masculinidade e de feminilidade, as identidades sexuais normais e desviantes) entra no cálculo do poder, fazendo dos discursos sobre o sexo e das tecnologias de normalização das identidades sexuais um agente de controle da vida.” (Preciado, 2011, p.11)

 

Preciado, ao analisar a famosa revista Playboy, observa a construção de um padrão patriarcal de comportamento generificado que atribuía às mulheres a esfera privada e aos homens a esfera pública. Um comportamento foi atrelado ao homem solteiro, ao qual era permitido estar cercado por mulheres, o que hoje ainda podemos ver na figura do “homem garanhão e pegador” como uma conduta normalizada, ao contrário da mulher que, se for associada a mais de um parceiro, é vista como promíscua.              


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Nessa linha, Maria Filomena Gregori em sua obra Prazeres Perigosos, ao analisar o mercado de sex shops enfatiza as “fissuras de gênero”, mas também evidencia fissuras de classe através dos dispositivos mercadológicos. Gregori mostra que as lojas de produtos eróticos localizadas no centro da cidade de São Paulo possuem um acervo voltado para o público masculino “com aspectos semelhantes ao modo como a pornografia sempre circulou: um negócio para o desfrute masculino, com clara e direta conotação sexual” (Gregori , 2016, p.72), enquanto vemos os surgimento das boutiques eróticas de alta classe que visam atingir o público feminino. Deste modo, as noções de sexo associadas a comportamentos politicamente corretos, luxuosos, com um certo higienismo é diretamente ligada às mulheres, enquanto o modo de ver o sexo como algo promíscuo e transgressor é ligado aos homens:

 

“(...) ao segmento feminino com pretensões de elite se vende produtos em ambiente cujas referências e sinais pretendem afastar um conteúdo sexual caracterizado como sujo. A sujeira, no caso, é inteiramente erotizada, ainda que o termo erótico seja o sinal de distinção desses estabelecimentos em relação aos demais sex shops. O sujo atrai os homens, o limpo - o que remete ao leve cheiro de lavanda que exala dos espaços da loja - pretende tornar familiares produtos que são vendidos a partir de uma retórica que intenciona, além do consumo, ensinar a tornar o prazer algo saudável. Essas ideias constituem o cerne do erotismo politicamente correto analisado em outra ocasião (Gregori 2003; 2010). Contudo, diferente deste, a proposta das boutiques eróticas supõe uma fissura de gênero: erotismo com transgressão é masculino; erotismo com sofisticação, luxo e saúde é feminino.” (Gregori, 2012, p.81-82)

 

Portanto, podemos concluir que há um disciplinamento político, fruto de uma vigilância constante, que busca além de uma padronização generificada das identidades e das formas de estar no mundo, servir à ótica capitalista de subjetivação.      

 

A ficção como aliada mercadológica da dissidência: de Histoire d’O a Fifty Shades of Grey

 

A conhecida frase atribuída ao filósofo grego Aristóteles “a arte imita a vida” é a adaptação da frase original “a arte imita a natureza” publicada em Física, Livro II em que o filósofo analisa a relação da arte com a natureza. Enquanto a natureza estaria ligada aos princípios aristotélicos de movimento, matéria e forma, a arte, como um reflexo da sociedade, estaria ligada ao conceito de mimesis que permite ao artista valer-se de técnicas e habilidades para expressar a natureza das coisas (Lemos, 2009). O escritor inglês Oscar Wilde, no entanto, em seu ensaio A Decadência da Mentira, publicado originalmente em 1889, externa seu pensamento acerca da arte, estética e literatura ao afirmar que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. Enquanto defensor da arte pela arte, Wilde entende que a forma é tão importante quanto o conteúdo:

 

“Art never expresses anything but itself. It has an independent life, just as Thought has, and develops purely on its own lines. It is not necessarily realistic in an age of realism, nor spiritual in an age of faith. So far from being the creation of its time, It is usually in direct opposition to it, and the only history that it preserves for us is the history of its own progress.” (Wilde, 2003, p. 35-36)

 

Partindo da noção defendida neste artigo de que há uma normatividade na dissidência sexual orientada pelo capitalismo e da ideia de que há uma performance estética que produz subjetividades, pretendo ilustrar neste tópico o pensamento estético-artístico de Oscar Wilde através da análise de duas obras ficcionais que influenciaram tanto nas concepções adotadas por adeptos de práticas sexuais dissidentes como no engajamento dos indivíduos nisto que denomino percursos dissidentes. 

O primeiro exemplo diz respeito ao romance Historie d’O, publicado em 1954, caracterizado como polêmico na literatura erótica do século XX. Escrito por Anne Cécile Desclos sob o pseudônimo de Pauline Reage, a obra introduz muitos dos elementos que são usados até hoje pelos adeptos de práticas sadomasoquistas, tais como o aprendizado acerca das regras de conduta, além de limites e consentimento nos jogos eróticos. A história gira em torno da personagem “O” que é apresentada por seu namorado René a práticas sadomasoquistas, tudo dentro de um contexto de consentimento destacado na obra pelo uso de um anel, de modo que o uso do anel determina o consentimento e a liberdade para tirá-lo demonstra o limite. A repercussão foi tanta que o romance foi adaptado para o cinema em 1975 sob a direção do francês Just Jaeckin, aumentando ainda mais a visibilidade da obra que, antes restrita ao contexto europeu, chega até o público estadunidense.

Apesar de ser uma obra transgressora, a frente de seu tempo e escrita por uma mulher, Histoire d’O corrobora a hipótese desse trabalho de que há uma estética e normatização da dissidência que, claramente, é um reflexo do pensamento eurocentrado e que permanece sendo disseminado até os dias de hoje. As personagens que fazem parte da história, conforme já observado, são todas de origem caucasiana, as mulheres seguem o padrão de beleza da mulher magra e esguia e os homens aparecem sempre muito bem vestidos em seus ternos elegantes. Embora haja uma tentativa de mostrar que a personagem principal é uma mulher independente, que é bem-sucedida no seu trabalho e que se submete por prazer e não por fragilidade, o que é motivo de muito orgulho para os defensores do BDSM, a história não deixa de ser excludente nos quesitos aqui já elencados. O clã de mulheres para onde a personagem principal é levada mostra a homogeneidade estética que era privilegiada.


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Não há espaço para corpos gordos ou negros e as mulheres cobiçadas são todas jovens. Mesmo nas adaptações que se seguiram, como nos quadrinhos do autor e ilustrador italiano Guido Crepax essa mesma estética é mantida.

Muitos anos depois, em 2011, Fifty Shades of Grey, de E. L. James, segue o mesmo caminho que vai do sucesso alcançado pelo romance literário até a  trilogia cinematográfica, onde observamos os mesmos elementos, mas agora ainda mais segregadores, uma vez que exibe uma estética ainda mais distante da maioria do público. O marcador de classe é usado para causar o fascínio do público que constrói em seu imaginário um ideal de dominador com recursos financeiros ilimitados e que constitui o arquétipo do homem perfeito. 


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Ao contrário de Historie d’O que é aclamado pela comunidade BDSM por inserir elementos que hoje são bandeiras defendidas pelos praticantes, Fifty Shades of Grey é para o BDSMers o extremo oposto do que a comunidade presa como respeito, confiança, limites e consentimento, e que mostra, além de um relacionamento abusivo, uma ligação entre traumas e o gosto sexual dissidente. Para os integrantes dessa comunidade, a história é um desserviço e um retrocesso a toda luta por liberdade sexual iniciada pela comunidade gay, pelo movimento Leather, e por nomes importantes na cena como Pat Califia, Gayle Rubin, Cyntia Slater, Guy Baldwin, Susan Wright, entre tantos outros que militaram contra a perseguição aos adeptos de sexualidades não-normativas e buscavam se desvencilhar do estigma da doença mental. No entanto, apesar das discrepâncias entre as duas obras, algo de similar se mantém mesmo com a distância temporal: a estética normativa.

 

 A estética da dissidência


Durante os três anos da minha pesquisa como insider no universo dos adeptos de práticas sexuais dissidentes, chamou a minha atenção os corpos aos quais Judith Butler definiria como corpos abjetos, ou corpos que não importam. Era extremamente raro encontrar corpos negros, corpos gordos ou corpos maduros como parte integrante da autodenominada “comunidade BDSM”. A questão não é que esses corpos não existam nessa cultura, mas como eles são invisibilizados e marginalizados pelos seus próprios pares durante o processo de engendramento das subjetivações.

Para Butler, esses corpos abjetos constituem, epistemologicamente, corpos ininteligíveis e, que se não possuem sua existência legitimada pelos códigos políticos, econômicos e sociais, não podem ser materializados. No entanto, a autora também apresenta um argumento político em que reivindica a existência desses corpos que não importam como um “poder excluído, disruptivo” (Prins e Meijer, 2002).

Ao definir os corpos abjetos, Butler não se limita a uma noção de sexo heteronormativo, mas busca pensar em todos os aspectos dos corpos que os coloca em um lugar de não representatividade que os exclui e que faz com que os corpos não tenham materialidade:


“(...) o abjeto para mim não se restringe de modo algum a sexo e heteronormatividade. Relaciona-se a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas 'vidas' e cuja materialidade é entendida como ''não importante'. Para dar uma ideia: a imprensa dos Estados Unidos regularmente apresenta as vidas dos não-ocidentais nesses termos. O empobrecimento é outro candidato frequente, como o é o território daqueles identificados como 'casos' psiquiátricos.” (Prins e Meijer, 2002)

 

No meio BDSM, a performance dotada de ludicidade é fundamental para que as práticas sexuais não-normativas que compõem o acrônimo possam ser vivenciadas de forma a afastar-se do que é considerado abuso e não ultrapassar os limites da consensualidade. Ocorre que a composição do cenário lúdico requer, além do investimento financeiro, um investimento em conformar personagens pré-fabricados socialmente e entendidos como os ideais. E é nesse sentido que pude observar dinâmicas de gordofobia, racismo e etarismo.

Na época em que a minha pesquisa foi realizada, um grupo de dominadores homens criaram um movimento autodenominado “Male Dom”. Tal movimento pregava uma espécie de supremacia masculina que limitava os quereres femininos a suprir as necessidades de seus companheiros de jogos eróticos. Porém, esse grupo de homens ia além e pregava discursos de ódio para com mulheres gordas e com “mais idade”. Recordo-me de uma fala extremamente preconceituosa e discriminatória, onde um dominador que possuía um discurso contra corpos gordos foi questionado por, no passado, ter se relacionado com uma mulher gorda na posição de submissão e, como resposta, disse que eram outros tempos em que não havia muitas opções, então eles (os dominadores) tinham que se contentar com o que havia.

Esse discurso gerou uma reação dos membros da comunidade que incitou uma campanha contra a gordofobia com diversas notas de repúdio nas redes sociais como Instagram e X, mas não chegou nem perto de ser suficiente para que os corpos gordos começassem a ser naturalizados pelos praticantes de BDSM.

O etarismo percorre o mesmo caminho da gordofobia nesse universo com uma dinâmica excludente e que inviabiliza os corpos de mulheres com mais de 40 anos por não se coadunar com o tipo de estética que se deseja vender. Essa questão etária, no entanto, aparece em conjunto com as questões de gênero, uma vez que quando se trata do sexo masculino, quanto mais velho o homem, mais ele se torna desejável porque imagina-se um homem estável financeira e emocionalmente, assim como perpetuado pela ótica do mercado que se reflete na indústria erótica. 

Já no que concerne aos corpos negros a situação é bastante diferente, porque eles representam uma parcela tão ínfima da comunidade que não há que se falar em invisibilidade, uma vez que eles sequer buscam um lugar de pertencimento junto aos praticantes de dinâmicas dissidentes. 

Carolina Parreiras, em sua pesquisa de doutorado sobre pornografia online, mostra que há uma perseguição a um ideal de beleza concebido social e culturalmente, e vai encontrar na pornografia alternativa a diversidade de corpos possíveis que são tratados como abjetos na indústria pornográfica mainstream. No entanto, ela verifica que mesmo em um ramo que busca a inclusão de corpos esteticamente não-convencionais, o corpo negro é o que encontra maior resistência a ser visibilizado, pois mesmo o ramo pornográfico alternativo precisa alcançar um público que não tem interesse por corpos negros.


“Sem dúvida, uma análise detida das produções nos mostra a proliferação de diferentes corpos. No entanto, assim como em outros sites de pornografia alternativa, há o privilégio dos corpos brancos. Os corpos negros quase não são mostrados e impera a branquitude. Isso nos mostra que mesmo os ramos mais progressivos de pornografia guardam hierarquias, sejam elas de gênero, idade ou raça. Não acredito, entretanto, que se trata de uma discriminação, mas sim, de eleger os corpos mais valorizados e optar retratá-los.” (Parreiras, 2015, p. 164)

 

Assim, através das exclusões em detrimento da composição de uma estética da dissidência, a materialidade dos corpos abjetos são forjadas. Então, segundo Butler:

 

“(...) essa matriz excludente pela qual os sujeitos são formados requer a produção simultânea de um domínio de seres abjetos, aqueles que ainda não são “sujeitos”, mas que formam o exterior constitutivo do domínio do sujeito. O abjeto designa aqui precisamente aquelas zonas “não-vivíveis” e “inabitáveis” da vida social que, não obstante, são densamente povoadas por aqueles que não alcançam o estatuto de sujeito, mas cujo viver sob o signo do “inabitável” é necessário para circunscrever o domínio do sujeito. Essa zona de inabitabilidade vai constituir o limite que circunscreve o domínio do sujeito; ela constituirá esse lugar de pavorosa identificação contra a qual – e em virtude da qual – o domínio do sujeito circunscreverá sua própria reivindicação por autonomia e vida. Nesse sentido, o sujeito é constituído por meio da força de exclusão e abjeção que produzem um exterior constitutivo para ele um exterior abjeto que é, afinal, “interior” ao sujeito como seu próprio repúdio fundacional.” (Butler, 2019, p. 22)

 

Dessa forma, o que pude constatar no universo dos praticantes de BDSM quando se fala em uma estética da dissidência que perpetra padrões normativos, é que os corpos abjetos na busca de uma identidade que lhes é negada enquanto sujeitos, recorrem a modificações corporais para recuperar a autonomia de seus corpos. 

 

“Para os praticantes de BDSM, então, as práticas dolorosas que deixam marcas, algumas reversíveis, como as deixadas por instrumentos como chicotes, floggers, cintos, palmatórias, outras irreversíveis, como o branding e a escarificação, são utilizadas não apenas na busca de prazer sexual, mas também na construção de uma identidade. Sejam marcas reversíveis ou não, elas são exaltadas e exibidas com orgulho, porque elas remetem a uma experiência real vivida no corpo, um corpo sob o qual os indivíduos têm agência. (...) 

Dessa forma, as marcas tão buscadas nas relações BDSM, assim como nos mostra Francisco Ortega, representam a ilusão da ruptura com a ordem simbólica, que leva a uma nova relação com o real. Então, quando o simbólico não produz mais a ordem social, ele é encarnado e a realidade é materializada no corpo, dispensando qualquer interferência do outro, levando a sensação de propriedade do próprio corpo, onde “ter um corpo” é mais importante do que “ser um corpo”.(Esteves, 2023, p. 89-90)

 

É, portanto, este o caminho que Francisco Ortega utiliza para analisar as modificações corporais na construção de identidades daqueles que buscam realizar uma diferença em seus processos de subjetivação. Da mesma forma, Thomas Csordas vai na contramão de alguns teóricos que pensam o simbolismo dos corpos e preocupa-se, fundamentalmente, em mostrar a materialidade dos corpos em seu sentido mais amplo como corpos que adoecem, que sentem dor, que sentem prazer, ou seja, corpos que experimentam sensações físicas. Assim, Csordas entende o corpo como a base existencial da cultura e da vida social, uma vez que a vida social se constrói a partir de pessoas e essas pessoas são seres encarnados, que vivem as experiências em seus corpos. (Esteves, 2023, p. 89)

 

Considerações Finais

 

Apesar do corpo constituir-se no principal instrumento para os adeptos das dinâmicas BDSM, não estamos falando sobre todas as possibilidades de corpos. Conforme demonstrado neste artigo, há uma estética capitalista que operacionaliza os corpos que podem existir.

A dissidência não está livre da intervenção do capital que forja as identidades segundo sua utilidade e, assim, percebemos que mesmo nos espaços mais disruptivos há um poder invisível que determina uma performatividade estética com finalidades comerciais. E, mesmo constatando a materialidade dos corpos abjetos, que no decorrer da minha pesquisa os identificou como corpos de mulheres negras, gordas e com mais de 40 anos de idade, fica claro o estigma que persegue esses corpos na sociedade como um todo.

Sendo assim, percebe-se que há uma normatividade que engendra a estética da dissidência que privilegia corpos de mulheres brancos, magros e jovens em detrimento de outros. Portanto, essa forma de segregação é responsável por dar vida aos corpos abjetos que têm sua materialidade marginalizada, estigmatizada e invisibilizada  em nome da manutenção de uma estética da glamourização da dissidência.

Notas de la ponencia:

O termo podólatras faz menção às pessoas que sentem atração sexual por pés.

O movimento Leather faz parte de uma contracultura nascida entre os anos 1950 e 1960 com a proposta de romper com os modelos sociais e com comportamentos vigentes até então. Através de uma estética baseada em roupas e acessórios de couro, a comunidade buscava estabelecer novos paradigmas sociais e aceitação de minorias pela sociedade conservadora da época.


Bibliografía de la ponencia

Referências


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