O movimento antigordofobia no Brasil: abordagens, perspectivas e formas de luta

SP.54: Disidencias sexo-génericas y corporales con perspectiva antropológica

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Gabriele Costa da Silva UFRN - Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Introdução (1)

O corpo é atravessado por diversos marcadores sociais da diferença, que são culturalmente informados, socialmente estabelecidos e hierarquicamente categorizados. Sendo assim, determinados corpos são enquadrados em locais ditos marginais, correspondentes ao “desvio”. O desvio, de acordo com Howard S. Becker (2009), é socialmente estabelecido e definido pela infração de uma regra socialmente aceita, ele é uma consequência das reações e julgamento de outros em relação a um indivíduo – que, dentro dessa dinâmica de infração de normas, é lido como um outsider. É o caso do corpo gordo, elemento condutor das discussões que circundam esta pesquisa. O desvio, ademais, possui caráter situacional, o que implica dizer que aquele que é lido como outsider ou desviante em determinados espaços ou situações não será necessariamente lido dessa forma em outras.

Ao longo do século XIX, na Europa, segundo Mirani Barros (2017), ocorre uma mudança no que tange às representações sociais elaboradas acerca do corpo e da beleza. Incentivada pela centralidade científica do discurso médico, a patologização dos corpos gordos ganha força. A partir de então, os corpos gordos passam a ser atrelados a doença, inaptidão, degenerescência e a uma sorte de características pejorativas. Haja vista os moldes da estrutura colonial imposta sobre a América Latina, que seguia a receita da medicina higienista européia, o discurso patologizante é importado para o Brasil. De acordo, ainda, com a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna (2014), no século XX, no Brasil, as medidas corporais já eram motivo de preocupação estética, denotando menor aceitação aos corpos gordos. Nesse ínterim, surgem os produtos cosméticos, remédios “embelezadores” e um leque diverso de artigos do gênero, fomentando a insurgente indústria do embelezamento.

Desse modo, hodiernamente, as representações sociais que circundam o corpo gordo são, majoritariamente, pejorativas. A mais diversa sorte de estigmas é atrelada às pessoas gordas, devido a um suposto “excesso de adiposidade”: doença, descontrole, feiura, preguiça, invalidez, entre muitas outras características dadas como inatas. Nesta pesquisa, a categoria estigma é tratada a partir da ótica de Erving Goffman (2019), e corresponde a relação entre atributo e estereótipo, na qual o estigma aparece no momento em que estereótipos negativos são associados a algum atributo e/ou marca – que, neste caso é ser gordo. 

Desde o final da década de 60 até agora, diferentes sujeitos e coletivos têm se empenhado em mostrar que o estigma contra os corpos gordos desencadeia desumanização, hostilização e descaso, caracterizadores da gordofobia. Em resposta a esse preconceito são desencadeados processos de luta, reivindicação e contraposição que desembocam no movimento antigordofobia. Neste trabalho, que faz parte da minha pesquisa de mestrado, o que se verá é uma caracterização do movimento a partir de uma pesquisa de campo em âmbito virtual, que pretende discorrer acerca das abordagens nele presentes.


Abordagens do Movimento Antigordofobia

O preconceito decorrente da gordofobia desencadeou movimentos de luta responsáveis pela elaboração de discursos de contestação ao discurso hegemônico gordofóbico, que estigmatizam o corpo gordo. Como mencionado em pesquisa anterior, feita para o meu trabalho de conclusão de curso, intitulado “Uma Etnografia do Movimento Antigordofobia nas Mídias Digitais: campos discursivos de ação e estratégias de enfrentamento ao padrão hegemônico” e com base em Natália Rangel (2017), as primeiras expressões do movimento antigordofobia podem ser encontradas no início da década de 70, nos Estados Unidos, com a criação do primeiro manifesto antigordofobia, escrito pelas feministas Judy Freespirit e Aldebaran, além da criação da Naafa (National Association to Advance Fat Acceptance). Nesse ínterim, ainda, o termo “fatphobia” – em português, gordofobia – é cunhado. 

Em termos de Brasil, pesquisas mostram que o movimento antigordofobia é ainda emergente, e suas primeiras expressões podem ser encontradas em meados de 2010. O ativismo digital é o seu principal locus de expressão e articulação. A partir das redes de interação possibilitadas pelas mídias digitais e a internet, são criados canais de comunicação onde sujeitos compartilham suas experiências comuns. A partilha de experiências desencadeia processos de identificação e pertencimento, que, por sua vez, apoiam a contestação do status quo. Dito de outro modo, por meio de blogs e redes sociais como Facebook, Instagram, Orkut, Twitter etc. foram fortalecidas comunidades nas quais as pessoas gordas questionaram os estigmas atrelados aos seus corpos. Ou seja, por meio da partilha de experiências de vida, buscavam mostrar que o corpo gordo não é necessariamente doente, que as pessoas gordas não possuem a preguiça como característica inata, além de denunciar a falta de acessibilidade em transporte público, cadeiras, vestimentas, entre outros. 

O movimento Body Positive, atuante na produção de discursos de aceitação corporal, foi a força motriz na repercussão que a luta anti gordofobia ganhou. Ele possui raízes em movimentos feministas de esquerda, que, também auxiliados pelo ativismo digital, promoveram algumas campanhas de bastante repercussão relacionadas a jargões como “meu corpo, minhas regras” “quebre os padrões” “corpo livre” etc. No entanto, como evidenciado no meu trabalho de conclusão de curso, o movimento body positive se atém a questões relacionadas ao âmbito da pressão estética, caracterizada pelos sujeitos do campo, ou da “gordosfera”, como um sofrimento de ordem subjetiva, que atinge os sujeitos conforme eles atendem ou não aos atributos exigidos pelo padrão normativo fomentado pela indústria da beleza. A pressão estética atinge, portanto, corpos gordos, magros, altos ou baixos, qualquer sujeito está à mercê dela desde que não atenda a requisitos pontuais da normatividade.

Devido aos atravessamentos e entrecruzamentos dos marcadores sociais da diferença, os corpos vivenciam e experienciam o mundo social de forma diversa, a depender de onde estão situados. O corpo gordo, portanto, não é hegemônico, não é uma realidade dada e estática. Ele é diverso e múltiplo, o que implica dizer que a gordofobia o afeta de maneiras distintas. Os corpos gordos, mesmo dotados de características morfológicas comuns, são marcados por diferentes contextos sociais, culturais, territoriais, econômicos e políticos. Em virtude disso, suas experiências de mundo são particulares, ainda que possuam similitudes e dependem das intersecções engendradas entre seus marcadores sociais da diferença.

Considerar a interseccionalidade é importante para analisar as diversas abordagens que podem ser encontradas no movimento antigordofobia. Como identificado na pesquisa mencionada acima, feita em meados de 2022 para o meu tcc, sobre o ativismo anti gordofobia nas mídias digitais, o movimento de luta das pessoas gordas é heterogêneo e possui distintas abordagens. Naquela ocasião, após um período de um ano de pesquisa de campo nas mídias digitais – Instagram e Youtube especificamente – identifiquei o movimento antigordofobia como um campo discursivo de ação, inspirada em Sônia E. Alvarez (2014). De forma sucinta, as reivindicações feitas pelos sujeitos do movimento antigordofobia diferem de acordo com as intersecções que os constituem. Em virtude disso, a produção de discursos não é hegemônica, haja vista que expressa uma miríade de vivências e de posicionamentos políticos.

No que tange as abordagens do movimento antigordofobia, a partir do que era elaborado no plano discursivo do movimento, identifiquei abordagens que se assumiam radicais, outras que estavam mais alinhadas a certa conduta liberal e mercadológica, além de abordagens atreladas à produção de conhecimento acadêmico científico. 

Ressalto, contudo, que o movimento de luta antigordofobia é um campo complexo de ser caracterizado, principalmente quando se fala no contexto brasileiro. Haja vista que é um campo em emergência, as linhas entre uma abordagem e outra são fluidas e tênues. Não é de meu interesse encará-las como algo que se encerra em si mesmo ou como algo engessado, mas, para fins didáticos elas serão apresentadas uma por vez, em tópicos separados no decorrer deste capítulo.

Outra característica que torna as definições do movimento antigordofobia mais complexas é o fato de não haver tantos coletivos militantes organizados como há em outros movimentos com trajetórias mais sólidas e extensas, como é o caso do movimento feminista. No campo de lutas antigordofobia o que se percebe com maior evidência é um ativismo individual, que eventualmente se transforma em projetos de atuação com enfoque em eixos específicos. Geralmente, estes projetos são organizados por um grupo de sujeitos da sociedade civil e objetivam promover ações “facilitadoras” da vida da pessoa gorda por meio de orientação jurídica, orientação médica, espaços de acolhimento etc. Eles possuem claro potencial desestabilizador do padrão hegemônico gordofóbico e excludente, haja vista que promovem discursos de inclusão, enfrentamento e resistência, atenuando os maus tratos nos mais diversos âmbitos da vida social da pessoa gorda.

Contudo, essa característica talvez não esteja exclusivamente relacionada ao movimento antigordofobia, mas sim às novas formas de ativismo e militância que tem emergido nos últimos 10 anos. Como ressaltado por Carla de Castro Gomes (2017), em trabalho sobre a Marcha das Vadias: 

“Diferente de gerações anteriores de feministas, cuja atuação mais visível se dava em organizações formais e nacionais, com ênfase na incidência nas políticas públicas e em outros processos de Estado, as gerações contemporâneas atuam principalmente em espaços menos visíveis em termos de escala e organização (Gomes, 2017, p. 238).”

A autora identifica a emergência de uma forma de ativismo e militância que se organiza em torno de coletivos não institucionalizados em bairros, universidades, grupos de mães, mulheres periféricas, ciclistas, entre outros. Geralmente adquirem visibilidade por meio de ações nas ruas e em mídias digitais e são voltados para lutas que visam a mudança de códigos culturais (Gomes, 2017).

Dito isto, nos tópicos seguintes serão apresentadas algumas abordagens de luta identificadas dentro do movimento antigordofobia. Cada abordagem possui suas próprias características, estratégias de enfrentamento, modus operandi e perspectivas políticas e teóricas. Posteriormente será feita uma leitura das abordagens caracterizando-as enquanto parte do campo discursivo de ação (Alvarez, 2014) do movimento antigordofobia.


O body positive

No Brasil, o movimento body positive foi um dos grandes responsáveis por fomentar a visibilidade das lutas antigordofobia. De acordo com pesquisas bibliográficas sobre os estudos do corpo gordo, e como observado em campo ao longo dos últimos três anos, um dos primeiros contatos dos atores do movimento antigordofobia com a causa se dá por meio dos discursos de aceitação e amor-próprio. Na minha trajetória pessoal enquanto mulher gorda e pesquisadora do corpo gordo, também há essa característica comum. 

O corpo gordo tem sido representado socialmente majoritariamente como um corpo que pode e deve ser alterado, reduzido aos parâmetros de magreza considerados ideais. Não é comum que ele seja encarado enquanto uma experiência que permeia toda a existência de uma pessoa em sentido amplo (Villarruel, 2022). O movimento de aceitação corporal, em contrapartida, adota a perspectiva da diversidade corporal, rompendo com a perspectiva normativa segundo a qual apenas determinados formatos corporais são adequados. Ao transgredir esse pressuposto do senso comum, o body positive possibilita que as pessoas gordas rejeitem a transfiguração à magreza, fazendo o movimento de reafirmar seus corpos gordos como algo que não intercambiável.

Como observado por Gloria Soto Villarruel (2022), o Instagram e as mídias digitais, diferentemente da grande mídia televisiva, possibilitam que as pessoas gordas ocupem a posição de produtoras de imagem e não apenas de consumidoras. Desse modo, outros formatos corporais, que não correspondem necessariamente ao padrão normativo hegemônico ganham visibilidade. Além de evidenciar que existe beleza nos mais diversos formatos corporais, o body positive cria uma rede de identificação bastante poderosa, que abre margem para questionamentos que transpassam essa pauta.

Ativistas alinhados/as ao body positive costumam investir no compartilhamento de imagens disruptivas do corpo gordo, no intuito de romper com as imagens negativas elaboradas acerca dele. As pessoas gordas são comumente coagidas a se esconder, a usar roupas que disfarcem o tamanho da barriga, que cubram as gorduras dos braços, as celulites e estrias, como se sua imagem violasse algum tipo de regra. Sendo assim, o que ativistas body positive fazem é disputar o plano simbólico hegemônico, transfigurando as imagens das pessoas gordas em imagens positivas. A partilha de fotos de pessoas gordas em roupas de banho, por exemplo, faz parte desse movimento. 

A construção da autoestima das pessoas gordas parece ser o maior foco dessa abordagem, que reforça frequentemente a importância do autoamor. Amar e aceitar seu corpo independente do formato e das características que ele tem é visto como um ato revolucionário em si mesmo, haja vista que isso subverte as expectativas normativas dos sistemas de dominação. O body positive, em linhas gerais, é uma abordagem que utiliza a estética como agente constituinte do aspecto identitário das pessoas gordas. É um movimento análogo ao que fizeram os/as militantes negros/as, em meados da década de 60 e 70, com o black is beautiful, que celebrava a estética negra incorporando alguns atributos da negritude, como os cabelos crespos e cacheados, em uma dinâmica de enfrentamento aos padrões impostos pelos sistemas coloniais. Como dito por Dailza Araújo Lopes e Ângela Figueiredo:

“(...) associar o cabelo natural à militância política, para o Movimento Negro brasileiro, é uma forma de ressignificar o corpo negro, descontruindo e descolonizando uma imagem negativa ancorada na memória do cabelo crespo e do corpo negro. (...) a importância do cabelo crespo é pensada dentro de um conjunto demarcadores diacríticos direcionados para a construção positiva da identidade negra, tanto do ponto de vista do discurso como da prática efetiva da vivência em sociedade (Lopes e Figueiredo, 2018).”

Ainda em diálogo com as duas autoras, elas defendem que o método discursivo utilizado pelo Movimento Negro no Black is Beautiful abriu margem para outras categorias de discussão entre os/as militantes. Por meio do incentivo ao uso do cabelo crespo/cacheado natural, pautas como identidade étnico-racial, empoderamento, feminicídio, sexismo, solidão da mulher negra, machismo e racismo surgiram entre eles/as. O body positive, do mesmo modo, se desvinculado do viés mercadológico, oferece os mesmos potenciais discursivos. Questionar as imagens negativas que são informadas culturalmente sobre o corpo gordo pode perpassar por questionamentos de ordem mais profunda, como, por exemplo, os motivos pelos quais essas imagens são produzidas.

No entanto, quando se fala do potencial transgressor do body positive no que tange ao discurso militante antigordofobia, ele passa a ser fortemente criticado por outras abordagens da militância antigordofobia que se dizem radicais e por algumas sujeitas que se intitulam pesquisadoras ativistas. Em suma, o body positive é acusado de permanecer estanque nas pautas de aceitação corporal, suprimindo pautas que deveriam receber mais atenção – como é o caso da acessibilidade e despatologização.

Ademais, outra característica desse tipo de abordagem é o seu forte viés mercadológico. Haja vista que a pressão estética atinge diversos formatos corporais, o discurso de aceitação corporal consegue gerar identificação em um público de pessoas muito grande. Outrossim, como já mencionado, apesar de ser fortemente vinculado ao movimento antigordofobia, o movimento body positive abarca outros segmentos de luta, como é o caso do movimento negro com o black is beautiful, já mencionado. Em virtude disso, essa abordagem possui uma repercussão maior. O que ocorre, no entanto, é que a forte repercussão dos discursos de aceitação corporal e da identificação que eles produzem, é sequestrada e esvaziada pelo modo de produção capitalista, que transforma uma pauta política em mercadoria.

Cito como exemplo as campanhas publicitárias que advogam a favor da diversidade, mas só usam corpos não normativos como totens, nessas campanhas específicas. Comumente as empresas produzem materiais publicitários com pessoas gordas, pessoas negras, pessoas com deficiência ou travestis e transexuais, mas estes corpos são expostos apenas pontualmente, para gerar uma falsa sensação de representatividade e diversidade. É interessante notar que essa suposta tentativa de inclusão acaba tendo efeito oposto, gerando até certa exotização destes corpos.

Outrossim, o que tem corroborado com a mercantilização do ativismo é o papel dúbio que influenciadores/as digitais antigordofobia ocupam. Muitas dessas pessoas ganham visibilidade por adotarem discursos de ativismo antigordofobia, contudo, com o passar do tempo, ambos os papéis, de ativista e de influenciador/a digital acabam se misturando. Ser influenciador digital no Brasil tornou-se uma ocupação trabalhista nos últimos anos. Visto que essa passa a ser a ocupação de ativistas antigordofobia à medida em que ganham repercussão, a necessidade de adotar a postura trabalhista para si pode decair na produção de discursos enviesados.

É inegável que o body positive tem sido cooptado pelo modo de produção capitalista para se tornar um discurso rentável. Decorrente disso, há a produção de uma falsa sensação de inclusão da pessoa gorda. A ênfase nesse discurso dá a entender que ocupar campanhas de diversidade – por exemplo – é um grande avanço, que significa que a gordofobia está sendo paulatinamente erradicada, quando, na realidade, esse configura apenas o despontar de mudanças que devem ser estruturais. A falsa sensação de progresso que o mercado tenta produzir é sobretudo desmobilizadora, consiste em um movimento de incluir para continuar excluindo. Como questionado por ativistas, é ótimo que a imagem de pessoas gordas esteja cada vez mais sendo veiculada de forma positiva nos mais diversos dispositivos midiáticos. Contudo, a que serve tratar com exaustão pautas como representatividade, autoestima e aceitação enquanto a infraestrutura das cidades não abarca os corpos gordos e a saúde dessas pessoas continua sendo constantemente negligenciada?

É necessário reconhecer que o body positive provoca movimentos importantes no que tange a construção da identidade da pessoa gorda, haja vista que ele engendra outras formas de pensar e expressar essa corporalidade. Contudo, é também importante compreender que o body positive e os discursos de aceitação que ele promove não se propõem a dar fim a gordofobia e nem são capazes disso por si só. Como mencionado por Villarruel (2022), este movimento deve ser centrado na problematização dos modelos e representações de beleza que excluem as pessoas gordas, configurando, portanto, um movimento e fenômeno cultural que tem como função tensionar essas esferas de poder específicas. 

Ou seja, visto de outro modo, neste trabalho defendo que o body positive não é o problema em si, mas sim a instrumentalização que é feita dele. Os discursos que comumente possuem maior projeção dentro do movimento corpo livre adotam certa perspectiva individualizante, colocando no sujeito a carga da superação, da resistência em tempo integral, como se a construção de certo empoderamento individual fosse suficiente para dar cabo aos maus tratos cotidianos da gordofobia. O modus operandi neoliberal, portanto, que responsabiliza unicamente o indivíduo, projetando-o como empresa de si, se espraia para o discurso militante, sequestrando-o e enquadrando-o em sua própria lógica. Não defendo, contudo, que isso seja feito rigorosamente de maneira consciente e planejada, haja vista que nós, enquanto seres sociais, podemos reproduzir inconscientemente os padrões culturais que permeiam nossa existência coletiva.


O gordoativismo radical

Uma outra abordagem encontrada dentro do movimento antigordofobia é o chamado “gordoativismo radical”. Este tipo de abordagem defende com veemência que as pautas ditas estruturais devem constituir o enfoque do movimento, aquilo que deve receber maior atenção e medidas combativas, em contraposição ao discurso body positive, que trabalha enfaticamente as questões de aceitação de libertação corporal. Como identificado em campo, gordoativistas radicais argumentam que a patologização e a falta de acessibilidade são os pilares da gordofobia, os principais responsáveis pela manutenção e perpetuação do preconceito. Em virtude disso, medidas de despatologização do corpo gordo e ações que promovem acessibilidade a estes corpos devem ser reivindicadas com maior ênfase, haja vista que elas impactam a vida das pessoas gordas de forma bastante direta. As pautas relativas à aceitação e autoestima são enxergadas como importantes, mas há uma forte preocupação com o protagonismo que elas tendem a assumir. Ademais, outras características marcantes perceptíveis nos discursos destas pessoas é o forte caráter anticapitalista que eles evocam, além da demarcação de que a gordofobia não deve ser encarada como uma pauta dentro do feminismo ou como algo proveniente do sistema patriarcal. A gordofobia, portanto, não seria uma questão feminista, haja vista que atinge a pessoas femininas, masculinas, e não binárias.  Nesse aspecto, vale questionar a concepção de “sujeito do feminismo” adotada por ativistas, que parecem considerar apenas a mulher como sujeito desta pauta. Se formos considerar que uma das pautas do feminismo é o cuidado igualitário, no entanto, fica explícito que não são apenas as mulheres que devem ser envolvidas nestas discussões.

Outrossim, o gordoativismo radical reivindica uma postura de coletividade, que se contrapõe à perspectiva individualizante evocada pelo discurso mais comum do movimento corpo livre. É bem demarcado nas falas de ativistas da abordagem radical que suas reivindicações, pautas políticas e demandas partem de um ente coletivo e que o preconceito do qual são alvo é mantido e reproduzido socialmente por aparelhos estatais diversos. Fala-se, portanto, que a gordofobia é um preconceito estrutural, motivado pela aversão às pessoas gordas e perpetuado por meio da patologização delas, além de sua exclusão, que é expressa pela falta de acessibilidade com a qual a infraestrutura das cidades e das coisas é construída.

Ressalto, no entanto, que essa contraposição não é necessariamente direcionada de forma intencional a abordagem body positive. Não quero passar a impressão de que uma abordagem surge intencionalmente por causa da contraposição que possui em relação a outra, em um movimento reativo, por exemplo. Minha intenção é elucidar que existem diversos modos de abordagens e perspectivas porque diversos são os sujeitos, porque os corpos são dotados de uma miríade infindável de subjetividades que moldam suas experiências de forma particular. Diferentes tipos de postura militante, portanto, existem menos em reação umas às outras e mais devido às intersecções que perpassam os corpos.

Retomando as caracterizações da abordagem radical, digo que ela possui forte caráter anticapitalista devido aos discursos de ativistas pautarem com bastante frequência os diversos aspectos socioeconômicos envolvidos na reprodução da gordofobia, entre eles estão incluídos: acesso à saúde, acesso à alimentação de qualidade, a crítica a indústria da beleza e ao mercado de redução. O modo de produção capitalista e as formas de vida engendradas coercitivamente por ele são recorrentemente utilizados como recursos contextualizadores e localizadores da gordofobia. As ativistas  colocam em questão, por exemplo, o paradoxo que se estabelece quando são cobradas determinadas condutas alimentares de indivíduos considerados acima do peso em um cenário no qual mais de 58% da população brasileira vive em insegurança alimentar. 

No que tange à patologização do corpo gordo, gordoativistas radicais investem na desmistificação da obesidade enquanto doença por meio da partilha de suas vivências nas mídias digitais, que evidenciam que ser doente não é pré-condição de existência do corpo gordo; ou ainda por meio da propagação de estudos científicos que corroboram com a perspectiva despatologizante da obesidade. Nesse aspecto, cabe ressaltar que, como sustentado por Cezar Barbosa Santolin e Luiz Carlos Rigo (2015), o discurso patologizante do “excesso de adiposidade corporal” teria surgido entre meados dos séculos XVII e XIX, com base em princípios morais, estéticos, religiosos e éticos da época. Ou seja, a forma com a qual a patologização do corpo gordo e o consequente nascimento da obesidade surgem, à princípio, não possui qualquer sustentação teórico científica. Hodiernamente, os meios utilizados, ainda que possuam validação teórico científica, são bastante questionáveis – uso como exemplo o Imc (Índice de Massa Corporal). 

Após uma extensa pesquisa histórica e bibliográfica, Santolin e Rigo (2015) identificaram que os discursos patologizantes da obesidade surgem predominantemente em relação direta à determinados padrões estéticos, em estrita relação com que era considerado belo, natural e moral, numa clara apropriação da medicina sobre aquilo que era interpretado como feio e, posteriormente, transformado em doença. Nesse sentido, uma característica marcante do processo de “nascimento da obesidade” é que não é o indivíduo que faz ou tem queixas relacionadas à sua saúde e bem-estar. O “estar doente” ou “sentir-se doente” não parte de incômodos gestados no corpo do sujeito, são os outros que o classificam como desta forma (Santolin e Rigo, 2015). 

“O olhar médico percorre do interior ao exterior do corpo, da menor molécula à forma corpórea, julgando aquilo que é ou não natural. Outorga-se um conhecimento da essência da natureza, da vida, do biológico – seus fins e seus meios – e o poder de determinar se a aparência ou a forma corporal é ou não natural – o que, curiosamente, equivaleria à beleza. Percebe-se, enfim, de que maneira a estética pode ser vinculada às “funções” biológicas e inseridas num discurso patologizante que a torna passível de medicalização. (Santolin e Rigo, 2015, p. 88)”

Ou seja, a patologização do corpo gordo é iniciada por meio de um processo de valoração negativa construída culturalmente, historicamente e socialmente – e não por meio de evidências científicas, epidemiológicas, laboratoriais e empíricas. O discurso médico, nesse aspecto, legítima a uma série de maus tratos e descasos, mascarando um descontentamento de ordem estética com a preocupação com a boa saúde daquele corpo dito disforme. O rechaço, portanto, é transfigurado em supostas práticas terapêuticas que são, sobretudo, coercitivas (Santolin e Rigo, 2015).

Ativistas buscam evidenciar, em acordo com os teóricos supracitados, que a preocupação com a saúde das pessoas gordas é, na verdade, de ordem estética, mercadológica e financeira – haja vista que se relaciona a obesidade com doenças de alto custo, culpabilizando os pacientes pela sobrecarga do sistema de saúde. O incômodo e aversão que circunda a corpulência se dá devido a construção hegemônica de um padrão de beleza que valora positivamente apenas os corpos magros e/ou fortes, curvilíneos, alvos, loiros e de cabelos lisos. Os sistemas de opressão e violência, são, sobretudo, lucrativos. A indústria da beleza, por exemplo, se alimenta do descontentamento, da busca pela normativização, da busca pelo encaixe. Nesse aspecto, no gordoativismo há a tentativa de evidenciar o caráter histórico e cultural da patologização, em detrimento da medicalização do discurso que a coloca como algo de ordem biológica.

São recorrentes, ainda, nessa abordagem, as denúncias a falta de acessibilidade a qual são submetidas as pessoas gordas. Um dos mecanismos de exclusão mais violentos do qual dispõe a gordofobia é a sensação de não caber no mundo causada pela falta de acessibilidade. Roupas que não cabem em um corpo gordo, assentos e macas que não suportam quem ultrapasse determinado limite de peso pré-estabelecido, aparelhos hospitalares que não acomodam corpos maiores que o considerado ideal. A falta de acessibilidade é extremamente coercitiva e induz o indivíduo à adequação na medida em que todos os lugares imagináveis o repelem, o fazem sentir que ele deve se adequar para caber. A adequação, nesse caso, é diminuir de tamanho, podar partes de quem se é.

De acordo com os discursos evocados por ativistas da abordagem radical, os impactos que a patologização e a falta de acessibilidade causam na vida da pessoa gorda são deveras extensos. A patologização estigmatiza, desumaniza e reduz toda e qualquer pessoa gorda a um corpo doente e incapaz, além de contribuir com a precarização do acesso à saúde. Ademais, ela biologiza um preconceito de ordem estritamente social. A falta de acessibilidade, por sua vez, exclui o indivíduo de diversas dinâmicas de sociabilidade, à medida em que ele não consegue transitar nos espaços de forma confortável. Além de impedir o acesso destes indivíduos a serviços básicos como saúde, educação, lazer e trabalho. Desse modo, é por considerar os graves impactos desses dois elementos determinantes na vida material e concreta da pessoa gorda, que gordoativistas radicais os consideram os elementos estruturantes da gordofobia, logo, os que devem todos os olhares voltados para si.

De acordo com estes e estas sujeitas, ainda, o discurso elaborado pelo body positive não ultrapassa o muro da pressão estética, ficando preso a essa única pauta. Por este motivo, fazem questão de desassociar o movimento antigordofobia do movimento corpo livre, demarcando as diferenças entre gordofobia e pressão estética. A gordofobia, portanto, como já mencionado, é encarada como um preconceito estrutural, que atinge a um coletivo de pessoas gordas, e é manifesta principalmente por meio da patologização e da falta de acessibilidade. A pressão estética, no entanto, estaria relacionada às características estéticas que não correspondem às expectativas normativas impostas pelo padrão hegemônico, podendo, por isso, acometer a qualquer formato corporal, não somente as pessoas gordas. A importância dessa diferenciação e desassociação, segundo gordoativistas, é necessária para erradicar a banalização das pautas antigordofobia e trazer para o rol do protagonismo as questões consideradas mais urgentes para as pessoas gordas. Umas das formas de banalização da luta antigordofobia é reduzi-la meramente a baixa-estima, a insatisfação corporal e a desvantagens no mercado erótico afetivo.

Os descontentamentos e divergências que gordoativistas radicais nutrem em relação ao movimento corpo livre perpassam por duas categorias bastante polêmicas que fazem parte do vocabulário do movimento antigordofobia, são elas: gorda menor e gorda maior. As gordas consideradas menores, como observado em campo (post’s em mídias digitais; material bibliográfico; encontros e diálogos no grupo de estudos Pesquisa Gorda), são aquelas que vestem até o manequim 54, no máximo. Sendo as gordas ditas maiores aquelas que vestem acima desse manequim. Há muitas coisas no entorno dessas duas categorias que valem a pena serem discutidas. 

Primeiramente, elas aparecem majoritariamente no feminino, não é comum ver esse tipo de demarcação entre os homens gordos, ou sequer esse tipo de comparação dentro de algum sistema neutro de gênero. Uma das interpretações possíveis, além do fato de o movimento ser majoritariamente composto por mulheres, é a forma como cada corpo vivencia a gordofobia. Os corpos marcadamente femininos sentem a pressão estética proveniente da gordofobia de forma mais intensa e recorrente, haja vista todos os mecanismos de controle historicamente impostos a estes corpos. As exigências estéticas são cobradas de forma mais atenuada dos corpos marcadamente masculinos, portanto, as nuances entre ser um gordo menor ou maior se tornam turvas em um primeiro momento. Nos corpos femininos, em contrapartida, como essas cobranças são feitas de forma mais ferrenha, tais nuances saltam aos olhos, ficam nítidas. 

No que tange a representação destas categorias em campo, as gordas ditas menores são aquelas sujeitas que se aproximam, em certa medida, do padrão hegemônico de beleza, por isto mesmo, seus corpos gordos são relativamente toleráveis. A gorda maior, no entanto, é lida como um corpo abjeto, indesejável. Os corpos que estão mais próximos do padrão hegemônico possuem algumas vantagens em relação àqueles que estão mais distantes. As gordas menores, por exemplo, conseguem, ainda que com certo grau de dificuldade, acessar espaços pensados para pessoas magras, como cadeiras e transportes por exemplo; conseguem, ainda, encontrar roupas quase confortáveis que as caibam; conseguem, sobretudo, maior acesso ao microfone público, exatamente devido ao caráter tolerável imputado sobre o seu corpo. São estas mulheres as mais cooptadas pelo capitalismo da diversidade, as selecionadas para campanhas de publicidade, as que possuem maior número de seguidores e engajamento nas mídias digitais.

As gordas ditas maiores, no entanto, são completamente desumanizadas, são corpos abjetos. Segundo gordoativistas radicais, são as sujeitas que mais sentem os efeitos da patologização e da falta de acessibilidade. Uma queixa recorrente denuncia que as gordas maiores são invisibilizadas dentro do movimento antigordofobia, haja vista que raramente conseguem acesso ao microfone público e, quando conseguem, são cruelmente violentadas. Um exemplo é a modelo e dançarina Thaís Carla, que tem diariamente as suas mídias digitais tomadas por comentários de ódio em suas publicações. A dançarina coleciona processos de gordofobia e situações de ataques em massa apenas por se mostrar vivendo como qualquer outra pessoa. A imagem de uma mulher gorda maior vivendo do mesmo modo que qualquer outro sujeito, ocupando espaços que fazem questão de a repelir, é demasiadamente incômoda aos olhos dos defensores da normatividade.

Olhando de forma crítica, no entanto, é importante questionar o que determina de fato a fronteira entre o que é considerado uma gorda maior e uma gorda menor. É perigoso estabelecer estes limites levando em consideração apenas algo engessado como uma tabela numérica de manequim. O ser gordo, e dentro disso as nuances entre gorda maior e menor, deve ser encarado como algo que parte da experiência subjetiva dos sujeitos em correlação com as interpretações sociais que são feitas acerca dele. Como menciona Cooper (2018), não existe uma medida universal do que é ser gordo – e nem há como haver –, a pessoa gorda sabe o que é porque se reconhece dentro da sua experiência de vida e é reconhecida pelos demais, ser gordo e todas as nuances dentro disto é situacional, relacional e contextual, portanto.

Contudo, dentro da abordagem gordoativista, ambas as categorias são bem demarcadas e é interessante para estes indivíduos que elas sejam, haja vista que a demarcação responde a uma tentativa de dar visibilidade para as pessoas e as pautas que eles consideram mais necessárias e urgentes. A diferenciação, nesse caso, opera de forma a destacar as experiências diversas que implicam cada formato corporal, cada tamanho e o que significa estar mais distante das medidas consideradas ideais.

Outrossim, a importância de trazer ambas as categorias para a discussão sobre gordoativismo se dá devido ao reconhecimento que os sujeitos que adotam essa perspectiva fazem de si. É comum que as pessoas que militam sob o viés gordoativista se identifiquem como gordas maiores e justifiquem por este motivo a escolha dessa perspectiva, haja vista que não se sentem devidamente contempladas por abordagens que não enfatizam as pautas de acessibilidade e despatologização. Comentários e declarações do tipo “sou gorda, com todas as letras, não uma mina que veste 48 e parou de achar calça com tanta facilidade no shopping!” são bem comuns. Em outros tipos de abordagem, como o é o caso da abordagem acadêmica, dos estudos do corpo gordo – da qual tratarei adiante – essa diferenciação ainda aparece, mas de outra forma. As demarcações entre gorda maior e gorda menor ocorrem em um sentido mais analítico e menos determinista ou engessado.

Por fim, uma das contribuições mais caras da abordagem radical é trazer as masculinidades gordas para a discussão. Como já mencionado, o movimento antigordofobia é majoritariamente protagonizado por mulheres e estritamente relacionado –  externamente –  com as causas feministas. O gordoativismo radical, no entanto, faz questão de demarcar que movimento antigordofobia e movimento feminista são duas coisas diferentes, que devem existir em separado.

Nesse aspecto, as diferenciações entre gordofobia e pressão estética são pontuais. Os corpos gordos, em geral, não importando a identidade de gênero, são afetados pelas discriminações e abusos sistêmicos da gordofobia, como a falta de acessibilidade e a patologização. Um corpo masculino também sofrerá gordofobia médica, também encontrará dificuldades no mercado de trabalho e coisas outras desta ordem. O corpo gordo masculino também carrega as marcas do estigma. No entanto, no que tange a pressão estética que atinge esse corpo, aí sim podemos afirmar, como já mencionado, que seus efeitos são atenuados em comparação a corpos femininos que precisam atingir os ideais de feminilidade.

Sobre a ausência masculina no movimento antigordofobia, gordoativistas radicais atribuem a dificuldade de performar os ideais de masculinidade hegemônica e atuar no movimento simultaneamente. O que se diz é que é praticamente impossível ser um ativista antigordofobia sem abdicar dos ditos privilégios da masculinidade hegemônica – que é branca, heterossexual e cisgênero.


Os Estudos do corpo gordo (ou gordoativismo acadêmico)

A produção teórico científica sobre o corpo gordo assume papel importante no que tange à legitimação do movimento antigordofobia enquanto movimento social. Segundo ativistas acadêmicas, e me incluo entre estas, a produção de trabalhos e o desenvolvimento de pesquisas críticas à gordofobia cumprem o papel de estabelecer uma visão outra do corpo gordo, questionando a discriminação sistêmica que o coloca no lugar do desvio. Discutir a gordofobia de forma crítica dentro da academia representa, portanto, uma ruptura epistemológica com teorias e conceitos hegemônicos já estabelecidos.

Os Fat Studies – ou estudos do corpo gordo – são primeiramente identificados nos Estados Unidos e no Reino Unido, no mesmo interim da emergência do ativismo gordo (Rangel, 2017). No Brasil, no entanto, tais estudos passaram a ser desenvolvidos muito recentemente, anos após o despontar e a forte repercussão da gordofobia. Em meados de 2017 é quando podemos localizar os primeiros estudos expressivos acerca do corpo gordo no Brasil, com destaque para os trabalhos de Mirani Barros e Natália Rangel. Em 2017, ademais, surge o grupo de pesquisa intitulado Pesquisa Gorda, projeto fundado pela filósofa Malu Jimenez, que reúne mensalmente pesquisadoras de todo o país para discussão de textos em reuniões online.

O conhecimento científico produzido por pesquisadores ativistas posiciona-se de forma crítica aos estudos sobre a obesidade e o saber-poder que patologiza e estigmatiza a corpulência e, além disso, visa elucidar outras possibilidades e potencialidades que constituem os corpos gordos (Klimeck e Azize, 2019). Outra característica marcante dos estudos do corpo gordo é sua interdisciplinaridade, eles passeiam pelas mais diversas áreas – como Antropologia, Psicologia, Saúde Coletiva, Nutrição, Medicina Social, Filosofia etc. “Estudos sobre corpo, gênero e sexualidade, sociabilidades, ciência, reflexões médicas, jurídicas e também narrativas autorais com um olhar para a autonomia e a humanidade desses corpos compõem tal campo” (Klimeck e Azize, 2019, p. 2). Ademais, a produção teórica sobre gordofobia e sobre o corpo gordo geralmente tem forte relação com o pensamento feminista – ainda que pesquisadoras ativistas tenham queixas em relação as formas de acolhimento do feminismo para com demandas das mulheres gordas.

É essencial destacar que o conhecimento produzido por ativistas acadêmicas ou pesquisadoras ativistas, é um conhecimento situado e segue uma tradição que não acredita na separação entre sujeito e objeto de pesquisa. O que se tem, desse modo, são pessoas gordas escrevendo sobre pessoas gordas, produzindo novos saberes, propondo uma revisão epistemológica e uma quebra de paradigmas a partir de seus próprios corpos, e não em um movimento hierárquico.

Durante muito tempo, toda a produção de conhecimento realizada acerca dos corpos gordos era feita a partir de corpos localizados dentro dos ideais normativos, em um movimento muito parecido com o que foi feito em relação a outros segmentos socialmente oprimidos – como negros, pessoas com deficiência e indígenas. Isso significa dizer que as imagens produzidas em relação ao corpo gordo partiam de um lugar hierárquico, que historicamente tratou esse corpo como patológico e desviante. Os estudos sobre a obesidade, fortemente enviesados por padrões estéticos e pelo modus operandi mercadológico são exemplo. Ensejar um movimento teórico que parte da premissa do “nada sobre nós sem nós”, portanto, faz parte de um conjunto de práticas que desestabilizam os significados sociais que ditam os limites aceitáveis das medidas corporais.

O ativismo acadêmico, sendo assim, tem como principais objetivos a ruptura com os saberes hegemônicos que violentam o corpo gordo, além da conscientização política das pessoas gordas e da legitimação da gordofobia enquanto um problema social. É, portanto, uma produção de saberes que visa a transformação social e os deslocamentos de poder. Compete a essa abordagem de ativismo investigar os modos de construção e perpetuação da gordofobia, suas razões de ser, os seus efeitos nas dinâmicas sociais e na vida das pessoas gordas. 

Patrícia Hill Collins (2016), ao falar sobre a produção de intelectuais negras para um pensamento feminista negro, aciona categoriais e mobiliza reflexões que podem ser úteis também para a compreensão do campo dos estudos do corpo gordo e da forma de ativismo produzida por ele. Hill Collins ressalta a importância que a autodefinição e autoavaliação tem para as mulheres negras e, voltando a discussão para o ativismo acadêmico gordo, considero que ambos os elementos também são essenciais para a construção política do movimento antigordofobia e são expressos de forma pontual pelos estudos do corpo gordo. A autodefinição, por exemplo, corresponde a quebra de paradigmas hierarquicamente estabelecido pelos “sujeitos da norma”, é uma quebra com as imagens estereotipadas produzidas externamente acerca do corpo gordo. A autoavaliação, por sua vez, enseja o movimento da produção de conhecimento situado, metamorfoseando as imagens estereotipadas em imagens autênticas que emergem diretamente dos corpos ditos marginais. A produção crítico científica sobre os corpos gordos aciona ambas as categorias ao questionar a legitimidade, autoridade e intenção daquilo que tem sido propagado acerca destes corpos. Ao se autodefinirem e autoavaliarem, as pessoas gordas desafiam o conteúdo de imagens controladoras externamente definidas e validam suas potencialidades, sua dignidade, seus direitos e sua humanidade. “Enquanto a autodefinição de mulheres negras dialoga com a dinâmica do poder envolvida no ato de se definir imagens do self e da comunidade, o tema da autoavaliação das mulheres negras trata do conteúdo de fato dessas autodefinições (Hill Collins, 2016, p. 104).”

Hill Collins (2016) destaca ainda que alguns atributos dos estereótipos das mulheres negras são versões distorcidas de aspectos comportamentais que ameaçam o patriarcado branco, como o mito da “negra raivosa”, por exemplo. Diz-se isso em uma tentativa de docilizar esse corpo ao fazê-lo reprimir suas reações frente a um modelo de sociedade hostil, que o segrega e violenta. No caso do corpo gordo, esta analogia pode ser feita. A corpulência de uma mulher gorda pode ser encarada como uma ameaça ao ideal de feminilidade, que atribui à mulher um corpo delicado, naturalmente frágil; no caso do homem gordo, contudo, a corpulência denota menos virilidade, menos masculinidade, menos força, o que ameaça diretamente o ideal de masculinidade hegemônico. A mulher, portanto, deve emagrecer para tornar-se mais delicada; o homem, para tornar-se mais másculo, mais forte. Com este exemplo percebemos ainda o caráter arbitrário do estereótipo que modula seus atributos de acordo com seus fins. 

A partir dos estudos do corpo gordo ocorre um movimento muito importante de definição e valorização de si próprio, que, por sua vez, promove movimentos de resistência frente a autodefinição sob a forma de “outro” objetificado proveniente dos sistemas de dominação (Hill Collins, 2016). Vale ressaltar que o “outro” produzido a partir dos sistemas de dominação é sempre o “outro” em relação à imagem do homem branco europeu/estadunidense, autodefinido como o sujeito da norma – e todo aquele diferente disso é relegado ao desvio e à marginalidade. 

A situação de marginalidade degrada, violenta e oprime, por isso, autodefinir-se e autoavaliar-se corrobora ainda com a construção de arcabouços psicológicos que são transfigurados em força para remar na direção inversa à maré. Ou seja, ao produzirem imagens outras de si, que rompem com a imagem objetificada e desumanizada dos sistemas de opressão, pesquisadores ativistas contribuem para a desestigmatização das pessoas gordas, para a construção de sua autoestima e de sua consciência política, bases que impulsionam a luta antigordofobia.


Conclusão: campos discursivos de ação

Em pesquisa anterior, ao analisar as categorias chaves que circundam o movimento antigordofobia, apontei que ele era constituído enquanto um campo discursivo de ação, baseada na análise de Sônia E. Alvarez (2014) sobre a trajetória dos movimentos feministas brasileiro e latino-americano. A autora mobiliza essa discussão no intuito de promover uma revisão epistemológica, uma linguagem conceitual e novos aparelhos interpretativos para analisar as mudanças do movimento ao longo das últimas décadas. Neste trabalho, busquei elaborar uma discussão mais acurada disso a partir das abordagens do movimento antigordofobia acima caracterizadas e das dinâmicas que elas ensejam. 

Primeiramente, contudo, é necessário mencionar os elementos que, segundo a autora, estão presentes em um campo discursivo de ação. São eles: atores/as que podem ser mais ou menos visíveis, hegemônicos e marginalizados; redes/teias de articulação; pontos nodais; dimensões verticais, horizontais e talvez densidade; discursos definidores; lutas interpretativas e conflitos constitutivos; e, por fim, paradoxos transformadores. Todos estes elementos conformam o movimento antigordofobia de maneira muito evidente, por isso defendo que o encaremos deste modo.

Fazer uma leitura dos movimentos sociais enquanto campos discursivos de ação permite compreendermos e enfatizarmos as suas complexidades. Haja vista que os campos discursivos de ação vão além de meros aglutinados de organizações e sujeitos com objetivos e fins em comum, eles comportam um extenso leque de atores individuais e coletivos e de lugares sociais, culturais e políticos. Ademais, a visibilidade de setores políticos e culturais e os pontos nodais que eles articulam são variáveis de acordo com o tempo. Os campos discursivos de ação são articulados por redes político-comunicativas formais e informais, providas de linhas e nervuras entrecruzadas, emaranhadas. Essas redes interconectam indivíduos e organizações formais e informais, que possuem expressão em setores da sociedade civil e para além dela, no Estado, na construção de saber-poder, na indústria cultural e nas mídias digitais e internet. São articulados ainda discursivamente por meio de linguagens próprias, produção de sentidos e visões de mundo total ou parcialmente compartilhadas. Além disso, disputas político-culturais, disputas de poder e conflitos são partes constitutivas deles. (Alvarez, 2014)

O movimento antigordofobia, que tem raízes históricas no movimento feminista (Rangel, 2017; Barros, 2017; Costa, 2022), surge quando as mulheres gordas reivindicaram a definição e delimitação de sua luta frente ao seu exterior constitutivo, qual seja, o próprio movimento feminista. Por não se sentirem completamente acolhidas pelas pautas do feminismo, elas começaram a delinear seu próprio campo: a partir disso, suas próprias narrativas, linguagens, visões de mundo, códigos de conduta, demandas etc.

Igualmente, é importante destacar que a decorrência de diversas abordagens dentro de um movimento que possui uma luta comum é proveniente do caráter interligado das opressões. São distintas e heterogêneas as abordagens porque assim são os sujeitos. A forma com a qual cada corpo gordo vivencia a gordofobia dependerá dos marcadores sociais da diferença que o constituem. Ademais, visto o caráter situacional e relacional das intersecções, dependerá ainda de onde o sujeito estará localizado territorialmente, culturalmente, socialmente e historicamente.

O movimento antigordofobia, apesar de ter pontos nodais comuns – como evidenciam os conceitos chaves de gordofobia, pressão estética, acessibilidade, patologização, aceitação e saúde – produz diferentes traduções e interpretações acerca deles. Para o gordoativismo radical, por exemplo, a aceitação não detém caráter tão essencial quanto para o body positive. No ativismo acadêmico ainda, as elaborações sobre gordofobia enquanto conceito são diferentes de como aparece para os/as outros/as ativistas e militantes. A instrumentalização que é feita acerca de cada conceito chave depende, portanto, da forma com a qual a hostilidade engendrada pela gordofobia atinge a cada um desses corpos. Depende ainda da natureza interligada das opressões o lugar no qual cada uma dessas abordagens chegará com as suas demandas, quais setores da sociedade elas acessarão, como outros segmentos sociais receberão e interpretarão estes discursos.

O que busco evidenciar é que não há uma única abordagem que defina o movimento antigordofobia legítimo, como alguns sujeitos do campo defendem. O movimento antigordofobia é constituído por todas essas abordagens e a miríade de atores e atoras, conflitos, redes de articulação formais e informais e disputas simbólicas que elas tecem em suas formas de ação política. Cada abordagem ou eixo de luta promove dinâmicas caríssimas ao desenvolvimento, construção e solidificação do movimento antigordofobia, por mais que não haja consenso entre os militantes acerca de um suposto formato correto ou eficiente de se lutar contra a gordofobia.

Notas de la ponencia:

(1) Sistema de Referências de acordo com a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

Bibliografía de la ponencia

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GOFFMAN, Erving. Estigma – notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Tradução: Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2019.


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KLIMECK, Beatriz; AZIZE, Rogerio. "Fat studies" e a produção de conhecimento situado: notas sobre o sexto Congresso Internacional de Estigma do Peso. Enfoques, p. 1-9, 2019.


LOPES, Dailza; FIGUEIREDO, Ângela. Fios que tecem a história: o cabelo crespo entre antigas e novas formas de ativismo. Opará: Etnicidades, movimentos sociais e educação, v. 6, n. 8, n.p., 2018.


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VILLARRUEL, Gloria Soto. GORDOTOPÍA Y BODY POSITIVE: EN BUSCA DE OTRA FORMA PARA EXPERIMENTAR LA GORDURA... In: Anais da Pesquisa Gorda: ativismo, estudo e arte. Anais...Rio de Janeiro(RJ) UFRJ, 2022. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congressopesquisagorda2022/513193-GORDOTOPIA-Y-BODY-POSITIVE--EN-BUSCA-DE-OTRA-FORMA-PARA-EXPERIMENTAR-LA-GORDURA. Acesso em: 09/02/2024