A gestão do cabaré Realeza: as relações de trabalho entre proprietário e boys

SP.71: Perspectivas socioantropológicas sobre las desigualdades en el ámbito del trabajo y la vida de las/os trabajadora/es

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Roberto Carlos Nunes Queiroz de Mendonça Universidade Federal do Rio Grande do Norte

introdução2

a cerca de um ano tenho desenvolvido minha pesquisa de doutorado num cabaré de homens que chamo de realeza. aqui descrevo provisoriamente o realeza como um estabelecimento comercial que, ambientado numa casa, se organiza pela prestação de serviços sexuais por intermédio de um terceiro. ao longo desse trajeto de pesquisa, tenho encarado um contexto em que a prostituição é compreendida pelos meus interlocutores enquanto trabalho, tanto quanto as formas de desigualdade e exploração implicadas nele. averso a essa percepção, no brasil a relação entre agenciador(a) e prostituta(o) é ainda regulada pelo seu código penal e desta forma endossada por uma visão criminalizante. digo em particular sobre formas de penalizar aqueles(as) que favorecem e se beneficiam da prostituição, com base numa suposta proteção daquelas(es) que são consideradas(os) “persuadidas(os)” a prostituição (alves, 2010; piscitelli, 2013). penso que essa forma de regulação penal, e não trabalhista, do agenciamento da prostituição, desconsidera a autonomia de escolha das(os) prostitutas(os), lhes atribuindo a condição de sujeitas(os) passivas(os) e vitimadas(os), que precisariam ser protegidas(os) e/ou salvas(os) de outrem (piscitelli, 2013). nessa linha de raciocínio, como já fortalecido por outras tantas pesquisadoras (prada, 2018; juliano, 2005; fonseca, 2004), reflito sobre o cabaré realeza a partir da capacidade agentiva dos “boys”3 de escolher, atuar e negociar por suas vidas. 

considero que os boys que trabalham no realeza optam por prestarem serviços sexuais no modelo de agenciamento e, no curso dessa relação, refazem (ou não) suas trajetórias no mercado do sexo. além de quê, noto que ambas as partes se percebem na posição de patrão e empregado e, a partir dessa visão, organizam um contexto específico de trabalho sexual. por esses dois motivos, mas não apenas, enquadro o cabaré realeza como um estabelecimento comercial que tem como prioridade a prestação de serviços sexuais. na mesma direção, compreendo que o cabaré realeza compõe uma das muitas formas que o mercado do sexo tem se organizado no acesso a bens e/ou serviços sexuais, e que neste caso, assume uma estruturação “comercial e empresarial de obtenção de lucro” (piscitelli, 2013, p. 25). alinhado ao que disse, me proponho a refletir de forma situada as relações de trabalho entre proprietário e boys, entre as posições de patrão e empregado.

o proprietário do realeza, que aqui chamarei de baronesa, é um homem negro, gay, de 57 anos, que trabalha no ramo das artes e que não tinha agenciado boys até a fundação do realeza. segundo ele, a ideia de montar um cabaré, ou fazer da sua casa um cabaré, surgiu em 2020 na/por causa da pandemia de covid-19. em seus quase quatro anos de funcionamento, o realeza precisou mudar por várias vezes sua locação e devido a transitoriedade do estabelecimento, opto por ambientar brevemente a sua última residência. localizado num município de médio porte do nordeste brasileiro, o realeza é uma casa que está temporariamente situada nas proximidades do centro comercial da cidade, possuindo ao seu entorno: restaurantes, magazines, conveniências, farmácias, postos de gasolina e residências familiares. na sua parte interna, destaco a presença de quatro quartos e um bar. o primeiro ambiente se refere a cômodos compostos em geral com camas, redes e/ou colchões no chão, com ventiladores e outros objetos diversos, alguns deles pessoais. os quartos também costumam ser separados entre os boys e a baronesa, de modo que eventualmente, a depender do quantitativo de clientes, todos podem ser utilizados na hospedagem e/ou para o sexo pago. o segundo ambiente se refere a uma varanda ao fundo da casa, composta basicamente de mesas, cadeiras e um som. é nele que os clientes costumam permanecer (quando permanecem) no realeza, são acompanhados pelos boys, paqueram, conversam, bebem e dali podem (ou não) fazer “programa”4. além disso, percebo o bar como um ambiente central na socialidade dos meus interlocutores e por isso, neste texto, ocasionalmente me referenciarei a ele.

quanto aos boys, por ora, lhes caracterizarei genericamente enquanto homens na faixa dos 18 a 30 anos, de classes populares e em sua maioria negros. todos eles são originários de outros municípios, e desta forma, falarei de rapazes que estão em trânsito. digo mais que a transitoriedade dos boys soma-se a uma permanência provisória deles no realeza. a cada visita ocasional que fiz, observei uma rotatividade de boys no estabelecimento que dificultava o prolongamento de nossas relações. por isso, optarei por descrever meus interlocutores ao longo do texto, já que tive contato com uma variedade de boys e acesso a informações distintas entre eles. ao mencionar sobre uma permanência provisória, não significa dizer que não há percursos5 (díaz-benítez, 2009) dos mais diversos, como os boys que se mantém por meses ou anos em intercursos temporários ao município de origem, que saem e retornam a residir no realeza, que são expulsos, ou mesmo que reconstroem seus projetos de vida a partir das redes construídas com o cabaré, mantendo algum nível de relação com ele.

quando, então, os boys optam trabalhar no realeza, é cobrado pelo proprietário uma taxa semanal pela hospedagem deles. também é consensualizado que a circulação externa dos boys, enquanto residem no estabelecimento, deve ser informada e negociada. quanto aos programas, eles são facilitados ou mediados pela baronesa, de forma que os boys possuem completa autonomia de escolha e negociação. em ambos os casos, os clientes devem pagar o preço do programa diretamente para o boy e o preço da “saída”6 diretamente a baronesa. os boys também podem realizar programa fora do estabelecimento, mantendo suas próprias redes de contato e realizando o programa em outros modelos de prostituição, como via aplicativos e sites, no entanto, nesses casos, eles também devem pagar a baronesa pelas suas saídas, já que estão hospedados no realeza. no que corresponde aos ganhos financeiros com o consumo de bebidas do bar, são totalmente destinados ao proprietário do estabelecimento. embora aqui descreva genericamente alguns acordos públicos, venho notando que eles não deixam de ser renegociados, ou desfeitos, por ambas as partes, numa complexa relação de poder, interesse e valores.

dito isso, neste artigo, me centralizarei nas formas cotidianas de organização do trabalho, a partir das relações de hierarquia entre proprietário e boys. de modo geral, tenho compreendido que há maneiras específicas de dramatizar as relações de hierarquia entre as partes, e assim reiterar suas posições de patrão e empregado. como também, por vezes, há antagonismos que se expressam em situações conflitivas. quanto ao último, tenho amadurecido a ideia de que a sua presença são atos comunicativos (gregori, 1993) entre proprietário e boys, em que se barganha interesses, impõe limites e no seu extremo, desfaz vínculos. nessa mesma direção, tocarei de forma geral nas expressões de poder e resistência, em que num jogo de “discipliná-los” e “indisciplinar-se”, o proprietário e os boys estão constantemente (re)negociando o regime de trabalho no realeza, de modo a se aproximarem ou se afastarem do que é narrado por eles como ideal.

relações de dádiva: dramatizando a hierarquia entre proprietário e boys

começo este tópico com dois casos que compreendo compor uma relação de dádiva entre a baronesa e os boys.

caso 1:

final da tarde de domingo e um cliente já estava a vinte horas no bar. ele me pede que compre uma carteira de cigarros numa conveniência próxima dali. quando retorno, o cliente me diz que vai embora e deixa na mesa do bar a carteira de cigarros recém comprada. algum tempo depois, a baronesa, segurando em mãos a carteira de cigarros que estava na mesa, me pergunta se ela é minha. digo a baronesa que não. após minha resposta, a baronesa guarda a carteira de cigarros no bolso e me diz que vai vender a algum cliente. alguns dias depois, aquela carteira de cigarros é dada para rodrigo, quando ele não mais tinha cigarros.

(readaptação do diário de campo, dia 8 de outubro de 2023).

caso 2:

noite de terça-feira, eu estava num jantar organizado pela baronesa. numa mesa a parte dos convidados, eu esperava richard. vindo da cozinha, ouço a baronesa gritar: “richard, você acha que eu sou o banco do brasil?”. alguns minutos depois, quando richard estava na mesa comigo, a baronesa se senta conosco e diz: “enviei os cinquenta reais para a sua mãe”.

(readaptação do diário de campo, dia 24 de janeiro de 2023).

não por acaso trago, nos casos que antecedem, duas situações de dádiva. por várias vezes ouvi ser tematizado pelos boys os bens dados pela baronesa, descritos por eles como “ajuda”. por mais que nem sempre de forma explícita, escutava as ajudas serem mencionadas como algo esperado e constituinte da relação entre proprietário e boys. um exemplo era os comentários impugnantes dos boys sobre as ajudas diferenciadas que a baronesa tinha com alguns deles, como se através dessas críticas se reivindicasse uma igualdade de tratamento, explicitasse uma dessemelhança nas relações, ou mesmo, ao fazerem isso, findavam por reiterar a ajuda como uma parte esperada da relação proprietário-boys. de toda forma, nas narrativas dos boys, não me parecia passar despercebido os bens dados, como igualmente, não se passava despercebido as formas locais de devolver a dádiva. não havia banalidade nos cigarros (caso 1), nem nos empréstimos de dinheiro (caso 2), ou mesmo em outros bens que eram dados pela baronesa. eram todos eles desejados. também quanto as ajudas, era sabido pelos boys que a “espontaneidade” delas era revogáveis caso não retribuídas por eles e sobre isso, deveriam ser expressas no seu compromisso e esforço com o trabalho. um caso exemplar, é a narrativa corrente entre clientes e boys, e de queixa (gregori, 1993) da baronesa, sobre as “saídas” não comunicadas, como algo capaz de mudar os vínculos estabelecidos na relação de dádiva entre o proprietário e os boys, ou dito de outra forma,  nas relações pessoalizadas entre eles. numa entrevista que realizei com richard, um boy de 20 anos e negro, ele evidenciou isso.

roberto: já aconteceu de algum boy da casa tentar fazer algum programa sem pagar a “saída” da baronesa?

richard: já teve. muitas pessoas tentam enrolar ela ali, em cima disso. só que eu fico impressionado com a esperteza da baronesa que não deixa passar nada batido por ela. ela sempre descobre. chega alguém e fala, soltam, ela termina descobrindo. quem perde a confiança é o boy, podendo ser por ela, que ela toda vida é pela gente, tenta fazer alguma coisa pelas costas dela.

roberto: no caso, ela [baronesa] expulsa da casa?

richard: ela não expulsa da casa, mas ela [baronesa] fica com um pé atrás. ela perde a confiança [no boy]. [o boy] perde alguns privilégios. pronto, a pessoa passou três a quatro dias sem fazer nada [programa], chega nela e pede uma ajuda, ela ajuda. agora se for uma pessoa sem mais a confiança dela, ela não vai ajudar. a pessoa que se vire. vá atrás de quem ela tentou encobrir.

roberto: ajuda em quê?

richard: pronto, teve casos de eu estar sem dinheiro, pedir uma ajuda para minha família e ela me dar. às vezes eu estou sem dinheiro para o cigarro, ela vai e compra.

(entrevista realizada com richard, 21 de janeiro de 2023).

na entrevista com richard, ele não somente me explicou parcialmente a lógica da dádiva, mas também ao longo de toda ela buscou reafirmar sua própria fidelidade com a baronesa, ao destacar sua comunicação honesta dos programas que realizava durante o trabalho (e fora dele). em outras circunstâncias que estive com richard, ele também marcava de outras formas um compromisso com o seu trabalho no realeza. por vezes ele me contou que optava em beber mais, em especial bebidas quentes e energéticos7, ou fazer programa com um cliente que não gostava, pois era de “bom tom” a baronesa.  numa noite de quarta-feira, escutei de igual modo a richard, rodrigo me contar sobre sua fidelidade com a baronesa. ele me disse que no seu primeiro programa no realeza, fez o cliente comprar para ele somente bebidas quentes e contribuiu para o cliente fazer programa com todos os boys que estavam no cabaré. rodrigo não me contava isso despretensiosamente, ele reafirmava as virtudes do seu trabalho, de um “bom empregado”. no mais, percebia a reciprocidade ser posto à prova nas diversas ocasiões de trabalho, em que a baronesa esperava, ou cobrava, um maior rendimento dos boys: em acompanhar um cliente, aceitar um programa, não sair do cabaré por longo período de tempo, entre outros. e nesse sentido, entendo que a dádiva não está apenas produzindo relações interpessoais entre a baronesa e os boys, ela também intermedia as relações monetárias, já que contribui nas possibilidades de lucratividade do realeza.  

tenho pensado, a luz das reflexões de coelho (2006), que na relação entre proprietário e boys há um modelo de dádiva unilateral, obrigatória e interessada. essa dádiva, a meu ver, não somente produz relações pessoalizadas com a baronesa e contribui na classificação dos boys – daqueles mais comprometidos ao trabalho, em oposição aos menos comprometidos8 – como também dramatiza as relações de hierarquia entre patrão e empregado. há, pois, um roteiro esperado dessas relações de trabalho que são reafirmadas, dentre muitas formas, por um modelo específico de dádiva. de um lado se dá bens, do outro se deseja fidelidade (ou compromisso) e gratidão (ou esforço a mais). quando aqui me refiro a dramatizar hierarquia falo da expressão diferenciada de status entre as partes – pois os bens não podem ser devolvidos da mesma forma –, mas também entendo que ao roteirizar a dádiva se reafirma o lugar de subordinação (digo obediência) que há no vínculo entre patrão e empregado. não menos importante é dizer que a docilidade esperada pelos boys na dádiva, não é tratada de forma ingênua por eles – como mais a frente desenvolverei (tópico 3) – e nem faz dos bens serem menos desejado pelos boys. na pesquisa de brites (2000), ao mencionar sobre as dádivas entre patroas e trabalhadoras domésticas, a autora discute as escolhas conscientes e espertas das últimas em manter, na medida do seu interesse, os laços de reciprocidade com as primeiras, pelas vantagens materiais dessa relação. faço, pois, a reflexão de brites (2000) a minha.

em adição ao que foi dito, não me parece que o modelo de dádiva descrito se produz exclusivamente pelos bens e nem que esses bens deixam de estar significados com outros valores aquém da “ajuda”. como mais a frente retomarei (tópico 2), compreendo que os bens dados pela baronesa são simbolizados por ela como gestos de afetividade, muito embora não seja compreendido pelos boys dessa forma. não quero afirmar com isso que o afeto exista (ou não) na relação de trabalho, mas chamar atenção para como o simbolismo dele é posto pela baronesa nos bens que ela dá. para então falar daquilo que na dádiva excede os bens dados, opto por contar parcialmente um momento crítico da vida de rodrigo. ele me narrou essa história a sós, reafirmando ao fim dela seu sentimento de gratidão pela baronesa. mas antes, pretendo partir da história do recrutamento de rodrigo ao realeza.

rodrigo é um homem negro de 19 anos de idade. segundo rodrigo, ele conheceu a baronesa aos seus 17 anos, quando ela estava trabalhando na cidade de origem dele. por causa da menor idade de rodrigo, a baronesa precisou pedir permissão aos seus responsáveis para levá-lo para trabalhar em outro município. rodrigo deixa seu município de origem para trabalhar na área das artes com a baronesa, não sabendo ainda que seu destino era um cabaré. aos poucos rodrigo descobriu que os boys que residiam na casa da baronesa estavam ali para fazer programa, diferente dele. aos 18 anos, rodrigo retorna para o realeza agora para ser um boy que faz programa. a história do recrutamento de rodrigo em muito se assemelha com as de outros boys. porém, no momento, quero destacar a aproximação da baronesa com a família dele. da última vez que estive no cabaré, uma mesma história me foi contada por rodrigo – sobre sua gratidão a baronesa – e pela baronesa – sobre a ingratidão de rodrigo por ela. a história se inicia com rodrigo e joão “fugindo”9 do cabaré para morar com uma travesti. lá na casa da travesti, rodrigo me contou que eles cheiravam “pó”10 ao longo de todo o dia. após uma semana ali, rodrigo entra numa crise de choro devido a intensidade do consumo de pó. rodrigo liga para a sua mãe que liga para a baronesa. rodrigo é “resgatado” daquela situação e assim retorna ao realeza. tenho pensado que essas ações de ajuda que precedem e se fazem num envolvimento da baronesa com a vida pessoal e familiar dos boys são, tão quanto os bens, parte da relação de dádiva. penso isso, não apenas pelas ações também serem descritas como ajuda, mas por efetivamente produzirem, ou delas serem cobradas, a retribuição.

fazer a cena, queixar dos boys: a dádiva não retribuída

até então venho discutindo como a dádiva está presente nas relações entre proprietário e boys e, quanto a isso, chamei atenção para como a dádiva dramatiza uma hierarquia entre as posições de patrão e empregado e, não menos relevante, contribui para reafirmar uma docilidade dos boys para com o trabalho, e para com a baronesa. no entanto, o que acontece quando a relação de dádiva se desfaz? sobre essas circunstâncias, aprofundo ao dizer que qualquer gesto de indisciplina dos boys me parece passível de ser interpretado pela baronesa como falta de reciprocidade. ainda que os ruídos nos vínculos causados pela não reciprocidade se mostrem, como já apontei na fala de richard, nas ausências de ajudas, não eram somente nelas. para algumas situações de indisciplina dos boys, tenho pensado em como a hierarquia e o poder também se expressam através da sua forma coercitiva. é sobre esses casos que abordarei neste tópico.

cena 1

dia de festividade na cidade, ouvi a baronesa dizer que haveria maior circulação de clientes. durante toda a tarde foi tema de discussão a saída, tanto da parte dos boys quanto dos hóspedes do realeza, para a festa da cidade. pela ocasião a baronesa negociou com os boys a saída deles, que ficaria até as oito horas da noite daquele mesmo dia. após o horário estipulado todos os boys deveriam estar no estabelecimento para trabalhar, com a advertência de serem cobrados pelas suas “saídas”, caso não estivessem a tempo no realeza. entre os boys que saíram do cabaré estava biel, um rapaz negro que me parecia estar na casa dos 20 anos. por volta das oito horas da noite, encontrei biel no bar. ele me disse que comunicaria a baronesa sobre seu retorno com um amigo para a festa da cidade. vejo, então, se montar uma “cena” que vai resultar na saída de biel do cabaré. a baronesa advertiu a biel que ele não poderia mais sair, pois já alcançou o horário limite, anteriormente estipulado: “o bar já estar aberto!”, disse ela. pela insistência de biel, a baronesa aumentou o tom de voz e reafirmou a necessidade da presença dos boys no realeza, principalmente num dia de maior circulação de clientes: “você acha justo eu passar a semana inteira sustentando vocês para no momento de maior movimentação você não estar aqui?”. a baronesa, então, passa a questionar biel: “quem é o amigo?”, “onde o amigo estar?”, “ele vai pagar a sua ‘saída’?”. biel respondeu que o seu amigo já estava na festa. biel tenta retrucar a baronesa. entre argumentos e contra-argumentos, a discussão finaliza com a baronesa afirmando: “se você quiser ir para a festa pague a “saída” ou então poder ir, mas não volte mais”. ao fim da cena biel foi embora com seus bens pessoais, enquanto a baronesa se queixava da ingratidão de biel. até as 10 horas da manhã do outro dia, quando ainda estive na casa, não vi mais biel.

(readaptação do diário de campo, dia 03 de junho de 2023).

cena 2

noite de sábado, dia de festa na cidade, expectativa de maior quantidade de clientes no realeza. era por volta das nove horas da noite e richard ainda não tinha dormido. ele estava acordado desde a noite passada. a baronesa passa a insistir que richard durma, para que ele ainda consiga fazer algum programa. richard estava de forma geral inquieto. após um longo tempo de a baronesa monitorar e aconselhar que richard fosse dormir, ele decide se recolher no quarto. logo em seguida, a baronesa comunica aos boys que estavam na casa que não entrem no quarto dela, pois richard estava dormindo lá. assim vejo ser montada uma “cena”. vindo do quarto em que estava richard, ouço uma discussão entre a baronesa e emerson, um rapaz negro que aparenta estar na casa dos 20 anos. como soube depois, a baronesa tinha se estressado com emerson por ele a ter desobedecido e entrado no quarto dela. o conflito se intensifica quando emerson aumenta o tom de voz e retruca a baronesa. a baronesa passa a circular pela casa, ordenando em gritos que emerson fosse embora do cabaré. raivosamente, dizia a baronesa: “eu não vou deixar ninguém me desrespeitar na minha casa”; “a casa é minha, quem manda sou eu”; “manda esse menino pegar as coisas dele e esperar lá fora”; “eu vou chamar a polícia, tenho um primo que trabalha como policial”. emerson não mais retrucava a baronesa. com o tempo, a baronesa muda o conteúdo da sua fala e, não mais em gritos, disse: “eu não falei que ele era para ir embora, disse que ele tinha que me respeitar na minha casa”. ao fim daquela discussão emerson não foi expulso e nem optou em deixar o cabaré.

(readaptação do diário de campo, dia 03 de junho de 2023)

em ambas as cenas (gregori, 1993) descritas, a briga se inicia com um ato de indisciplina dos boys. seja a insistência de biel em sair do cabaré num dia com maior circulação de clientes, ou a desobediência de emerson em entrar no quarto que estava richard, foram igualmente geradores de conflito. eu via a baronesa expressar sua desavença com os boys por meio do aumento do seu tom de voz, ameaçando expulsá-los do cabaré, cobrando deles a reciprocidade das suas “ajudas” e/ou delegando o pagamento da “saída” aos boys, de forma que através dessa linguagem ela comunicava sua autoridade. a meu ver, não se tratava de chegar a uma conciliação dos desejos de ambas as partes, mas de impor os interesses dela pela força, restaurar a hierarquia ameaçada. tenho refletido que a linguagem de autoridade da baronesa e a produção de uma “cena de briga” são situações montadas e coreografadas. quando digo isso, tomo por base as reflexões de gregori (1993). ao discutir sobre casais que mantém relações violentas, a autora evidencia o “fazer a cena” como o começo de um diálogo conflitivo em que a agressão, quando parte dele, impõe a “última palavra” e com isso, “não existe propriamente acordo, entendimento ou negociação de decisões” (gregori, 1993, p. 183). o começo da cena de briga, as réplicas ordenadas e as eventuais agressões, são todas coproduzidas e roteirizadas pelo casal. para melhor aproximar da ideia que estou trazendo, narro uma situação ocorrida numa manhã de domingo, após o dia da briga entre emerson e a baronesa.

eu estava com a baronesa no seu carro, em caminho ao centro comercial da cidade. a baronesa comenta que emerson vai retornar a seu município de origem e só retornará após alguns dias. ela tinha pedido que ele fosse temporariamente embora do realeza. apesar de saber que emerson foi o boy que mais fez programa no dia anterior, a baronesa optou por retirar ele do cabaré para que “aprenda”, para que a atitude atrevida não mais se repita. relembrando o dia da briga com emerson, a baronesa me confessa que não tinha intenção de expulsá-lo, como me disse: “você acha que uma assalariada (mãe de emerson), teria condições de arrumar um táxi que deixasse ele no seu interior?”. segundo a baronesa, ela fez aquela “cena” para não ser desrespeitada em sua casa. naquela manhã de domingo, as confissões da baronesa me ajudavam a reenquadrar o conflito entre ela e emerson como algo encenado, e com isso digo sobre a intencionalidade da baronesa de disciplinar, de “fazer calar”, de impor sua vontade, ou em outros termos, de “fazer a cena”. em correlação, penso que não somente a baronesa agia na construção da cena, como os boys também me pareciam as coproduzir através da sua desobediência, do seu desejo de se indisciplinar, de não aceitar completamente a docilidade da subordinação. algo que me parece claro ao notar que tanto biel (cena 1) quanto emerson (cena 2) tinham consciência de estarem transgredindo um acordo. apesar de no fim de quase toda cena que presenciei os boys demonstrassem uma aparente aceitação das vontades da baronesa, nem sempre era esse o desfecho. quando, por exemplo, biel se recusou a permanecer no cabaré (cena 2), ele se negou a reafirmar a hierarquia (desobedeceu) sobreposta aquela cena. biel desfez as posições de patrão e empregado, ao menos naquele dia.  

as indisciplinas dos boys apareciam de muitas formas e por diferentes gestos, e quando ciente delas, a baronesa costumava se queixar a outrem. por vezes eu acabei me tornando seu ouvinte de queixas e confesso que quase sempre, persuadido pela sua narrativa, concordava com ela. aqui, ao falar de queixa, novamente me aproprio de um conceito de gregori (1993). digo sobre narrativas que ao expor uma situação de sofrimento produz discursivamente a posição de vítima, para aquele(a) que queixa, e de culpado dos infortúnios, daquele(a) da qual se queixa. as queixas da baronesa, tão recorrentes, eram para mim momentos ritualizados que ela falava das indisciplinas dos boys e que, por efeito de seu conteúdo, acabavam por: (a) reificar díades de representações sobre ela e os boys; e (b) reforçar uma reciprocidade rompida. nessa mesma direção, sigo então refletindo sobre os momentos de queixa da baronesa que presenciei.

*

na tarde de uma segunda-feira, soube que emanuel, um homem negro de 19 anos, tinha “fugido” do cabaré. emanuel tinha, na manhã daquele mesmo dia, arrumado suas coisas e partido com um cliente, sem comunicar a baronesa. ele não foi o primeiro a fugir do cabaré, mas nem por isso o acontecimento deixou de ser tematizado ao longo dos dias. não sei os motivos que levou emanuel a fugir dali, a não ser através da narrativa de rodrigo, que quando estávamos a sós, me contou sobre a manhã da segunda-feira. disse-me rodrigo que recebeu uma ligação de emanuel lhe perguntando se a baronesa estava em casa. a baronesa não estava. ela tinha saído para outro município em busca de uma nova locação para o cabaré. emanuel pediu a rodrigo que guardasse suas roupas na bolsa. rodrigo negou, pois não se envolveria nos problemas de emanuel. um tempo depois, emanuel chega de carro no realeza, pôs suas roupas na bolsa e fugiu do cabaré com um cliente. segundo rodrigo, o cliente de emanuel tinha lhe prometido dá um dinheiro. ao fugir do cabaré, emanuel se desvinculou abruptamente com o realeza e, como consequência, a baronesa não foi comunicada e nem é pago a ela a “saída” de emanuel com o cliente.

na tarde da segunda-feira foi a primeira de tantas outras vezes que a história de emanuel foi contada pela baronesa, ora direcionada para mim, ora direcionada aos clientes. nas palavras da baronesa, emanuel que tinha chegado ao cabaré aos prantos por não ter dinheiro nem para comprar comida para o seu filho, e que tinha sido acolhido por ela, agora, “sem consideração” alguma a ela, saia do realeza sem comunicá-la. em todas as vezes que ouvi a história de emanuel ser (re)contada pela baronesa ela nunca estava isolada, na verdade, ela era uma entre outras narrativas que se assemelhavam entre si. por isso opto por contar mais uma outra história. a história se passa com ivan e rodrigo. na época, ambos estavam trabalhando como funcionários braçais num grande evento cultural do município. eles tinham conseguido o emprego através de clientes que mantinham uma relação afetivo sexual de longa data com eles e que estavam trabalhando na organização do evento. o emprego temporário de ivan e rodrigo resultou no ganho de três mil reais para cada um deles. disse-me a baronesa que após eles receberem seus salários fugiram do cabaré, em retorno a seus municípios de origem. a baronesa se queixava que ivan e rodrigo, ao fugirem do realeza, deixaram empréstimos não pagos e não se preocuparam com a situação dela, que ficaria sem boys no cabaré para mantê-lo. na mesma história, disse a baronesa, que ivan conseguiu transporte para retornar a seu município de origem, já rodrigo não. somente após a mediação de marcos, o cliente que se relacionava a longa data com rodrigo, a baronesa permitiu o retorno de rodrigo ao realeza.

nas queixas que presenciei, notava ser central o conjunto de condutas dos boys e da baronesa. a ela se associavam os mais diversos gestos de bondade, de ajuda e por afeto, e a eles restavam a maldade, o interesse e o egoísmo. no momento da queixa, a baronesa era uma sujeita virtuosa e que por vezes tinha suas virtudes reforçadas por aqueles que lhes ouvia. como exemplo, nas palavras de um cliente, a baronesa tinha “o coração muito bom”! e na constatação do mesmo cliente, para ser dono de um cabaré tinha que ter um “coração de pedra”! era também ao falar dos gestos de alguém de “bom coração” que se contava das “coisas” dadas pela baronesa, não associadas ao interesse ou a monetarização envolvida nas relações e sim pelo afeto. ainda nas queixas, os boys eram sujeitos “ruins”, como me disse a baronesa. a eles lhe faltavam gratidão (digo reciprocidade) para com ela. penso que se essas posições opostas eram produzidas na queixa, eram feitas para apontar uma reciprocidade rompida, era feita para evidenciar o comportamento inadequado do outro de um roteiro esperado. arrisco a dizer que se a queixa nada podia fazer a não ser “enlaçar o outro [ouvinte] e se autoaprisionar em um modelo em que nada se exige de si mesmo” (gregori, 1993, p.191), ao menos era um jeito da baronesa de ritualizar a desaprovação, de narrar sobre a (des)ordem.

ao fim deste tópico, quero me deter ao sentimento de “ingratidão”, ou de não se mostrar grato, que percebi existir nas queixas da baronesa. em todas elas se chegava aos mesmos fins: se os boys eram ruins, eram por serem ingratos aquilo que a baronesa dava. eles não sabiam, ou não queriam, serem recíprocos (digo gratos). segundo rezende e coelho (2010), a luz de simmel (1964), na dádiva, quando se aceita vincular ao outro através daquilo que não se pode, ou não se deve, retribuir de igual forma (digo estar em dívida), sente-se grato. a gratidão, nesse sentido, é um sentimento que expressa um vínculo social pela hierarquia, pois em dívida, o sujeito ocupa uma posição inferior na relação entre as partes. na mesma direção, a autora compreende que nas relações de dádiva, e nela o sentimento de gratidão, pode dramatizar ou reforçar posições sociais de hierarquia. aqui tenho evidenciado as posições de patrão e empregado, mas também outras posições de hierarquia são reforçadas junto com ela, como a de classe. um exemplo é notar como no caso de emanuel a baronesa reforça sua ingratidão a partir das condições socioeconômicas dele e de sua família, a quem ela ajudou.

assim se a gratidão é “um sentimento capaz de atuar no reforço dos vínculos hierárquicos”, a ingratidão é um sentimento de “contestação das hierarquias sociais” (rezende; coelho, 2010). não diferente ao que disseram rezende e coelho (2010), penso a ingratidão como um sentimento que reitera a oposição dos boys a autoridade da baronesa, de contestação aos vínculos de hierarquia entre patrão e empregado. em retorno aos casos acima, a ingratidão já me parece tão dramatizável quando a gratidão. as histórias de fuga dos boys, que ouvia se repetir entre eles, era mais um entre os seus diversos roteiros de insubordinação. as formas que os boys escolhiam sair do cabaré expressavam sua negação em manter o vínculo de hierarquia. eles não mais deviam a saída, empréstimos e muito menos satisfação. os boys rompiam a relação de dádiva.

acompanhando os boys: algumas formas de indisciplinar-se

“os boys são solidários apenas a eles”, assim começou mais uma queixa da baronesa.  dessa vez, a queixa se desdobrava na “decepção” dela com richard. disse-me a baronesa que antes de richard se desvincular do realeza pela quarta vez, ele tinha mudado de comportamento, chegando a lhe retrucar. nas palavras da baronesa, richard era um menino “bondoso”, porém joão tinha “feito a sua cabeça”. joão disse a richard que ele não devia obediência a baronesa, pois ela “não era sua mãe, era apenas um viado”. e assim richard replicou a baronesa: “você não é minha mãe, não tenho que te obedecer!”. igual ao que discuto no tópico anterior, a queixa da baronesa traz uma situação conflitiva entre proprietário e boy que excede aos espaços públicos do cabaré. nela a tensão entre patrão e empregado se torna uma contestação direta, as claras. embora fosse esse o resultado, em que ao fim richard tornava-se o centro da queixa, também era relatada uma trama entre joão e richard, que as escondidas da baronesa, contestavam a hierarquia, compactuava a desobediência. aqui me centrarei nessas situações, que por ora entendo como discursos ocultos (scott, 2013).

estar em companhia somente com os boys era por vezes ouvi-los se opor as mais diversas situações de trabalho, que eu não ouvia ser dito abertamente. também era lhes acompanhando que via ser calculado gestos de desobediência aos regramentos da baronesa: eles mentiam, ocultavam, sabotavam, falseavam sua submissão, faziam “corpo mole”, eram cúmplices da desobediência dos outros, entre outras atitudes de contestação. penso que essas eram formas cotidianas que os boys encontravam de resistir a autoridade da baronesa, mas também penso que eram nessas indisciplinas cotidianas que eles conseguiam renegociar os limites do trabalho, ou dito de outra forma, recusavam aceitar o que não achavam justo. nesse alinhamento reflexivo, me aproximo da pesquisa de scott (2013). o autor, ao discutir os conflitos de classe e os aspectos da dominação, evidencia outras linguagens que coexistem aquela expressa a frente do que detém o poder. scott (2013) chama isso de discurso oculto. para ele o “discurso oculto” é toda prática, gesto e/ou enunciação que se contrapõe a aceitação da dominação, ou de igual sentido, as recusas em dramatizar e/ou reiterar a hierarquia e a autoridade. ao invés de tratar das formas coletivas de organização de classe, scott (2013) chama atenção as formas silenciosas, individuais e cotidianas de resistência ao poder, que embora sutis, estão constantemente pondo “a prova os limites da dominação e desafiando as suas fronteiras” (scott, 2013, p. 9). dito isso, seguirei trazendo dois casos de discurso oculto.

caso 3

noite de sábado, saí para jantar com igor, um rapaz branco com 18 anos de idade. na lanchonete que estávamos, igor se queixa do excesso de controle da baronesa sobre a circulação dos boys. para exemplificar, igor decide me contar um caso. dias anteriores igor tinha comunicado a baronesa que lavaria suas roupas na casa de uma mulher que ele estava se relacionando afetivo e sexualmente. embora a baronesa tivesse permitido, não tardou para ligar para igor pedindo que ele retornasse ao realeza e que caso não voltasse seria expulso do cabaré. igor compreendia aquela atitude da baronesa como abuso, pois excedia o controle da sua circulação. ali coube fazer analogias com “liberdade” e “prisão”, ou mesmo reafirmar sua rebeldia contra os regramentos da baronesa: “diferente dos outros boys, eu faço o que bem quero”.   naquela mesma noite, igor me chamou para passear, ele me disse querer beber e ficar com mulher. enquanto procurávamos um bar, igor me confessava que a baronesa não iria gostar do seu atraso, mas que não importava, pois ele faria o que ele queria. ao fim do passeio não fomos ao bar, mas não deixou de ter uma vontade de desobedecer, de se insubordinar.

caso 4

na noite de terça-feira, rodrigo convida eu e igor para jantarmos fora. percebi que igor e rodrigo esperaram a baronesa dormir. naqueles instantes iniciais, antes da saída, vejo eles abrirem cuidadosamente a porta de ferro, que ficava ao lado do quarto da baronesa. eu fui o último a sair e por isso, igor me ensinou a fechar a porta, de forma a não fazer barulho. quando não era cuidadosamente fechada, a porta de ferro fazia ruídos capazes de serem escutados no fundo da casa. na lanchonete que fomos jantar, rodrigo grava um vídeo da gente comendo e diz: “pra aquele viado não ficar reclamando”, em referência a baronesa. na mesma lanchonete, rodrigo compra “pó” e nos diz: “não diga a baronesa que comprei o pó”, a baronesa estava fiscalizando o uso de droga de rodrigo. na noite seguinte, na quarta-feira, saímos novamente para jantar. nesse dia, rodrigo e igor aproveitaram que a baronesa estava no quintal para sairmos. pergunto a rodrigo se ele avisou a baronesa, ele me responde que avisaria quando estivéssemos lá. ele não avisou. na noite de quarta-feira passamos horas fora do cabaré e ao longo delas, a baronesa mandou mensagem pelo whatsapp de rodrigo perguntando onde estávamos. disse a rodrigo e igor que deveríamos voltar, se não a baronesa ia ficar preocupada. rodrigo me respondeu: “ela não é minha mãe, pra dizer a hora que devo voltar”. naqueles nossos passeios, era no consumo de droga não comunicado e na saída não informada, que rodrigo e igor desobedeciam.

nas situações descritas, e outras que presenciei, os boys se queixavam de alguns comportamentos e/ou regramentos impostos pela baronesa que lhes geravam indignação. algumas dessas situações de/no trabalho que os boys me relatavam, eram nomeadas por eles como “exploração”, “abuso” e/ou “humilhação”. quando assim descriminadas, eram reconstruídas cenas, em que ao fim delas os boys realçavam os motivos da sua ofensa. digo também que não necessariamente os desabafos resultavam em respostas extremas, como desvinculação temporário ou permanente do realeza, e mesmo assim não deixavam de ser insultantes a eles. ao pensar sobre os descritores que os boys utilizavam para classificar algumas situações no/de trabalho, tenho considerado que com eles os boys: (1) as marcam como um insulto moral, e (2) evidenciam uma “fissura” nas dinâmicas de trabalho e nas relações interpessoais.

das vezes que ouvi ser contextualizado os descritores “abuso”, “exploração” e “humilhação” havia nos relatos uma excedência, ou mesmo uma ruptura, nas dinâmicas de trabalho. a linguagem de autoridade da baronesa era relatada com ameaças, excessos de cobrança, “cenas públicas”, entre outras expressões de poder que já foram discorridas em casos e cenas acima. um exemplo é perceber como igor (caso 3) convive com o controle de circulação e que só torna queixa os excessos, como as ameaças (ou abuso, nos termos dele) para retornar ao cabaré. era essa linguagem autoritária que me pareciam “agredir moralmente” os boys, e não necessariamente os regramentos anteriormente negociados. quando aqui me refiro a “agressão moral”, faço a luz de oliveira (2008). em diálogo com o mesmo autor, refiro-me a gestos, que quando pensados em sua dimensão simbólica, “desrespeitam”, “desconsideram” ou “negam” a pessoa moral. desdobrando essa minha linha de pensamento, dialogo parcialmente com a pesquisa de diaz-benitez (2015), em que a autora utiliza o conceito “fissura” para se referir a fronteira entre a concessão e o abuso. por mais que deslocado ao seu uso original, o conceito “fissura” tem me ajudado a pensar como os boys classificam e significam os limites morais das dinâmicas de trabalho, ou mesmo das relações interpessoais com a baronesa. ou seja, o que para eles é considerado aceitável, ou não, quando produz agressão moral, ou não.

aqui trouxe a agentividade dos boys de se indisciplinarem, e dela me resta falar de mais um ponto. os atos de indisciplina, embora nunca previstos, não deixavam de alguns deles serem sabidos e permissíveis pela baronesa. em certa medida a permissibilidade está associada a própria dependência da baronesa com os boys, e que me parece se evidenciar na escolha de manter vínculos ao invés de desfazê-los. também enquanto a indisciplina, penso que da mesma forma que se dramatiza a hierarquia em gestos de obediência, a desobediência também é roteirizada e até certo ponto esperada. com isso digo, que há formas de se fazer indisciplinado. no fim deste tópico contarei sobre raí, um homem negro que me aparentava estar na casa dos 20 anos, e através dele, quero apontar as situações de insubordinação que vi não serem permitidas.

caso 5

começo da noite de sábado, um cliente se senta à mesa. como de costume, a baronesa inicia alguma conversa com o cliente, recepcionando-o. logo após essa conversa inicial, a baronesa chama um dos poucos boys que estava na casa, pois a maioria deles tinham ido para as festividades da cidade. raí sentou junto ao cliente, mas não manteve nenhum diálogo com ele, mesmo com algumas tentativas do cliente. após algum tempo, o cliente se levanta apressadamente e chama o boy para o quarto, falando em voz alta que era melhor ir logo aos finalmentes, enquanto desabotoava a sua calça. na volta para o bar, o cliente chama a baronesa para conversar. mesmo a distância eu consigo escutar o cliente reclamando sobre o programa. segundo o cliente, o boy tinha negociado com ele as restrições e possibilidades do sexo, mas na hora da transa o boy não quis fazer o que disse que poderia ser feito. na tentativa de mediar o desconforto do cliente, ouço a baronesa respondê-lo questionando o motivo de ter permanecido com o programa: “porque você não saiu do quarto?”, “essas coisas precisam ser negociadas com o boy”. após aquela discussão, vejo a baronesa conversar com o boy, alertando que ele deve ser comunicativo e que também deve servir o cliente com as cervejas. naquela situação a baronesa que precisou servir o cliente. no começo da manhã de domingo descubro a partir de emerson que raí ia embora: “ele não se deu bem aqui, é muito cheio de frescuras”, disse-me emerson. fiquei pensando se em parte não tinha relação com a situação vista, ou mesmo com o pouco engajamento de raí com a dinâmica do espaço. bem, naquele mesmo dia, enquanto eu e a baronesa íamos para o centro da cidade coletar as decorações das festividades do município, escuto a baronesa se queixar de raí. disse a baronesa que raí era um “neguinho atrevido igual ao irmão”, que parecia não ter “educação” familiar. raí era atrevido porque não respondia a baronesa e recorrentemente desobedecia a suas ordens referente a convivência, por isso, a baronesa não o queria lá no realeza. raí saiu de cena.

a essas infrações, neste caso, das frescuras e/ou as desobediências excessivas da rotina, não se era permissível, se rompia os vínculos.

considerações finais

para finalizar, quero enfatizar os jogos de poder entre proprietário e boys, entre as posições de patrão e empregado. ao longo deste texto analisei as formas que meus interlocutores têm negociado as dinâmicas de trabalho do cabaré realeza, e com isso quero dizer, que por vezes se aproximavam, outras se afastavam, dos discursos públicos (scott, 2013). longe de ser uma excepcionalidade, esse duplo movimento de aproximação e afastamento faz parte da cotidianidade da relação de trabalho dos meus interlocutores. dito de outra forma, falo de como que as relações de trabalho por vezes dramatizavam, reforçavam ou contestavam os vínculos de hierarquia entre patrão e empregado: se os boys desejavam produzir a imagem do bom trabalhador, em outras eles se insubordinavam; se a baronesa era a sujeita que ajudava, em outras ela era aquela que impunha sua vontade por uma linguagem autoritária. penso que quando assim agiam, faziam de forma interessada e calculada, quando não mais, apenas se rompiam os vínculos. ainda que aqui seja minha primeira tentativa de textualizar minha pesquisa de doutorado que está em curso, suponho que ela se soma a como em contextos a margem da legalidade e da regulação do estado, o trabalho sexual tem se organizado.  

Notas de la ponencia:

1. neste artigo as referências bibliográficas estão no modelo da associação brasileira de normas técnicas.

2. este artigo é um desdobramento da minha apresentação no grupo de trabalho: “migrações, sexualidades, gêneros e saúde”, da xxi semana de antropologia da universidade federal do rio grande do norte, com o título: “gestão, poder e emoções: uma etnografia sobre as ‘fugas’ e ‘expulsões’ dos boys do cabaré realeza”. além disso, o presente trabalho foi realizado com apoio da coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior - brasil (capes) - código de financiamento 001. ainda sobre este artigo, devo meus agradecimentos a juliette santos, josé rolfran tavares e lucas do nascimento, pela leitura atenta e pelas sugestões de alteração.  

3. há uma recorrência dos clientes e do proprietário do cabaré em chamarem os homens que realizam sexo pago como boys, por isso utilizo tal nome. essa forma de nomear também pode ser encontrada na pesquisa de barreto (2017), cuja leitura me ajudou a identificar a categoria êmica.

4. programa é um termo êmico utilizado pelos meus interlocutores para descrever a prestação de serviços sexuais, e tem por explícito o sexo pago com dinheiro.

5.  percurso (díaz-benítez, 2009) se refere a uma trajetória de investimento e engajamento não linear, que se faz circulatória, móvel e alternante, ao invés de uma percepção de estabilidade, de ordenamento e/ou de carreira (becker, 2005).

6. aqui “saída” é uma categoria êmica, que costuma ser utilizada para descrever: (a) o preço a ser pago pelo cliente ao proprietário pelo programa com o boy; ou (b) o preço a ser pago ao proprietário para que o boy possa circular fora do realeza, caso ele esteja em experiente de trabalho.

7. as bebidas quentes e os energéticos são as mercadorias do bar que dão maior lucratividade ao proprietário.

8. por ora tenho notado que os boys são diferentemente valorizados pelo proprietário e, portanto, classificados desde seu manejo no contato com os clientes, como também na sua capacidade de lucrar.

9. opto por usar a palavra “fugir” enquanto uma categoria explicativa que melhor descreve um dos modos que os boys optam por se desvincular do realeza. aqui fugir não está associado a privação de liberdade, já que os boys podem se desvincular do realeza a qualquer momento. fugir descreve uma ação premeditada, organizada e não comunicada de se desassociar do realeza.  

10. “pó” é como meus interlocutores se referem a cocaína. 

Bibliografía de la ponencia

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 67 junho/2008

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