"Salvar vidas através do esporte" : narrativas de resgate da juventude periférica em um "projeto social" no norte do estado do Rio de Janeiro.

SP.61: Juventudes, Cidades e Imagens

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Raquel Brum Fernandes Universidade Federal Fluminense

1 Introdução

 

Este trabalho[1] pretende apresentar e discutir trechos de entrevistas realizadas em um projeto social do município de Campos dos Goytacazes, estado do Rio de Janeiro, Brasil. São falas de profissionais e jovens participantes sobre os objetivos da iniciativa e o lugar que ela ocupa nas trajetórias da juventude periférica local. A análise será fundamentada em referências brasileiras e argentinas, buscando demonstrar as semelhanças existentes nos discursos e intervenções sobre a juventude nos dois países.

No Brasil, os estudos antropológicos sobre juventudes há algumas décadas demonstram como os jovens negros moradores de periferias são compreendidos por diversos grupos e organizações sociais como “potencialmente perigosos” (Fernandes, 2013; Ramos 2011), configurando um problema social que fundamenta políticas públicas e ações intervencionistas (Novaes, 2009; Pais, 2006; Vianna, 1997), entre elas os chamados projetos sociais. 

Desenvolvidos para atender comunidades periféricas, em sua maioria localizados dentro de favelas, os projetos sociais são organizações não governamentais (ONGs), religiosas, comunitárias, privadas ou públicas, que recebem esta nomenclatura na medida em que oferecem atividades de educação e/ou ocupação para crianças e jovens dessas localidades. Como sintetiza Helena Abramo sobre essas iniciativas:

 

“Numa primeira visão panorâmica, pode-se verificar que a maior parte dos programas desenvolvidos por estas instituições dividem-se em dois grandes blocos, todos eles visando dirimir ou pelo menos diminuir as dificuldades de integração social desses adolescentes em desvantagem: programas de ressocialização (através de educação não-formal, oficinas ocupacionais, atividades de esporte e “arte”) e programas de capacitação profissional e encaminhamento para o mercado de trabalho (que, muitas vezes, não passam de oficinas ocupacionais, ou seja, não logram promover qualquer tipo de qualificação para o trabalho). É necessário notar, porém, que em parte considerável desses programas, apesar das boas intenções neles contidos, o que se busca, explicita ou implicitamente, é uma contenção do risco real ou potencial desses garotos, pelo seu “afastamento das ruas” ou pela ocupação de “suas mãos ociosas”.” (Abramo, 1997, p.26).

 

Dessa forma, esses projetos atuam segundo a perspectiva de que é necessário “ocupar” os jovens e crianças moradores de periferias com atividades consideradas educativas ou saudáveis, em um processo de concorrência com os atrativos oferecidos pelo envolvimento com o tráfico de drogas. Ao mesmo tempo, a retirada desses jovens de seus momentos de “ócio” e circulação nas ruas, transmite a outros grupos sociais uma certa tranquilidade, vistos os estigmas associados ao seu perfil. Como afirmei em um trabalho anterior:

 

“Já há vários anos o imaginário coletivo de senso comum associa diretamente as condições de jovem, favelado e “bandido”, construindo um perfil definido daqueles que seriam  os  principais  autores  da  violência  no  Rio  de  Janeiro (Ramos, 2011).  Esse  perfil  não  costuma  divergir  dos estereótipos  acionados  por  órgãos  públicos  destinados  a  atuar  em  relação direta com os agentes da violência, como, em um exemplo óbvio, os grupos policiais, além de equipamentos e projetos de assistência social” . (Fernandes, 2013, p. 384).


Nas últimas décadas, os projetos sociais se multiplicaram de tal forma por periferias das grandes cidades brasileiras, que passaram a constituir um mercado próprio, disputando subsídios governamentais, investimentos de instituições privadas e visibilidade enquanto representantes das populações atendidas, muitas vezes mediando suas relações com órgãos de governo, mídias e outros grupos sociais (Coelho;  Durão,  2011;  Novaes,  2006;  Ramos, 2006). Trabalham também na denúncia de violências sofridas pelos moradores, comunicam demandas sociais existentes e contribuem com a construção e divulgação das identidades coletivas dessas comunidades.  Como destacou Lia Rocha:

 

“Atualmente as grandes ONGs cariocas têm conseguido bastante visibilidade para seus trabalhos, inclusive nos grandes canais de televisão. Viva Rio, AfroReggae, Central Única de Favelas, Nós do Morro, etc, possuem grandes financiamentos e projetos bastante bem-sucedidos no Rio de Janeiro e em outros estados. Essas organizações, especialmente as conduzidas por moradores de favelas e espaços periféricos, elencam entre seus objetivos mudar a imagem das favelas e de seus moradores, o que explicaria o investimento em projetos ligados à cultura: audiovisual, música e outras representações artísticas que dão visibilidade a uma “cultura da favela”. Afirmam que assim ajudam a combater o estigma contra o favelado e o racismo, aumentando a autoestima dessa população, mas também buscam intervir nas dinâmicas locais de violência, com o discurso de “tirar os jovens da criminalidade e do ócio” (Affroregae, 2011).” (Rocha, 2011, p.10).

 

Podemos afirmar que o aumento dessas iniciativas ocorre na medida em que os jovens passam a ser considerados um problema social, tornando-se objetos de políticas específicas, tanto públicas quanto comunitárias, privadas ou de terceiro setor. Miguel Abad  (2002) destaca que podemos observar padrões no desenvolvimento de políticas para a juventude nos países da América Latina desde a metade do século passado. Segundo ele, de 1950 até 1980, buscava-se ampliar a educação e o “bom” uso do tempo livre dos jovens. Entre 1970 e 1985, surgem  propostas  de  controle  social  dos  grupos  juvenis  mobilizados, considerados subversivos, sendo reprimidos pelo Estado, muitos em contextos de ditaduras militares.  A partir de 1985, com os processos de redemocratização, destacam-se propostas de enfrentamento à pobreza e prevenção do crime, valorizando-se, a partir da década de 1990, políticas de incentivo à inserção dos jovens marginalizados no mercado de trabalho formal.

 

Na Argentina, os estudos sobre juventude têm se consolidado nas últimas décadas como um importante campo das Ciências Sociais, compreendendo pesquisas com diferentes abordagens e enfoques, nas quais se destacaram inicialmente os temas da educação e do trabalho e mais recentemente temáticas associadas à inclusão/exclusão dos jovens, suas formas de participação, produção, consumo, entre outros (Chaves, 2006). Segundo Mariana Chaves:

 

“Se observa en las investigaciones del siglo XXI y varias de fines del siglo XX, tanto a nivel internacional como nacional, una preeminencia del punto de vista relacional para el análisis de lo juvenil, donde el y la joven son concebidos como actores sociales completos, inmersos en relaciones de clase, de edad, de género, étnicas y raciales. La juventud se piensa como un modo que tiene la sociedad y la cultura de hacer vivir una parte de la vida: es el modo de explicar, dar sentido, practicar, habitar ese espacio social de la experiencia desde diferentes situaciones y distintas posiciones sociales.” (Chaves, 2006, p.15).

 

Nas diferentes pesquisas, também se registra a atuação de organizações não governamentais, privadas e comunitárias, assim como a execução de políticas públicas na oferta de atividades de ocupação e formação dos jovens moradores de periferias, as quais podem ser comparar às diferentes iniciativas identificadas no Brasil como “projetos sociais”. Através da educação musical (Wald, 2016), da assistência em trâmites judiciais, burocráticos e de saúde (Chaves, 2013), por exemplo, esses projetos buscam promover uma inclusão social das juventudes pobres e marginalizadas.

 

2 Dados da Pesquisa

 

Considerando o contexto apresentado acima, a pesquisa “Jovens de Periferia, Projetos Sociais e Identidades” foi desenvolvida entre 2016 e 2020 no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense em Campos dos Goytacazes, tendo a participação de dez alunos de graduação. Após o mapeamento de diversas iniciativas destinadas a atender crianças e jovens moradores das periferias da cidade, escolhemos quatro organizações para observar, realizando visitas às suas sedes, participando de eventos e realizando entrevistas com profissionais e jovens participantes. Buscamos assim compreender os objetivos desses projetos, suas formas de atuação e a maneira como se relacionam com os grupos que os frequentam. Analisamos a participação juvenil nas atividades oferecidas, a fim de refletir sobre as interferências dos projetos nas trajetórias e perspectivas de futuro desses jovens.

A observação dos dois primeiros projetos sociais estudados já foi discutida em eventos acadêmicos e gerou publicações anteriores (Fernandes, 2018; 2019; 2021). Em 2023, após o retorno das atividades presenciais após a Pandemia de Covid-19, regressei aos dados obtidos no último ano do trabalho de campo,a fim de concluir as reflexões proporcionadas pela pesquisa. Dessa forma, apresentarei neste trabalho a terceira iniciativa que acompanhamos, um projeto ao qual chamarei de “Vila Olímpica”[2], por ser assim identificado pela população local desde a sua construção e que está localizado em um bairro popular residencial a cerca de 5 quilômetros do centro da cidade. É importante destacar que Campos dos Goytacazes é um município ao norte do estado do Rio de Janeiro, com aproximadamente 500 mil habitantes e que possui um dos maiores índices de desigualdade socioeconômica da região[3].

A Vila Olímpica, segundo informações de seus administradores, atende a moradores da região em que está localizada, compreendendo duas favelas próximas à sede. Foi inaugurada em 2016 pela prefeitura de Campos, como parte de um projeto que construiu oito “vilas olímpicas” em áreas periféricas da cidade, com o objetivo de oferecer atividades de esporte e lazer para a população. Em uma matéria divulgada no site da prefeitura, que noticiava a construção do projeto, o diretor da Fundação Municipal de Esportes afirmou: “Investir em esporte significa investir em saúde, prevenindo doenças e, consequentemente, despesas futuras com internações e evitar que os jovens em estado de vulnerabilidade acabem se envolvendo no mundo das drogas” (Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, 2014)[4].

O espaço físico do projeto é amplo, contendo duas piscinas, uma quadra de esportes coberta e diversas salas. Em 2019, era coordenada por dois profissionais, um homem, professor de educação física e uma mulher, jornalista. Contava também com profissionais de limpeza e vigilância, além dos professores (todos de educação física) que ofereciam aulas de diversas modalidades esportivas. Naquele momento eram ofertadas aulas de futsal, natação, artes marciais e treinamento funcional, atendendo a todas as faixas etárias a partir dos 07 anos. Além disso, à tarde, ocorria um curso para jovens de 14 a 17 anos com o tema da preparação para o ingresso no mercado de trabalho formal. Esse curso era uma ação da prefeitura em parceria com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do município e, por isso, privilegiava uma formação para a atuação no comércio. Segundo informações contidas no site da CDL, a iniciativa se destinava a jovens em situação de vulnerabilidade social, tendo as seguintes características:

 

“Através de aulas práticas e teóricas, os jovens aprendem sobre os princípios necessários para tornarem-se operadores de comércio, como postura no ambiente de trabalho, atendimento ao cliente e comunicação. A equipe ainda trabalha com os adolescentes a elevação da autoestima, o bloqueio da timidez e ajuda a promover o fortalecimento dos vínculos familiares.” (CDL Campos, 2019).

 

Entre julho e dezembro de 2019, o grupo de pesquisa fez diversas visitas à Vila Olímpica, realizando entrevistas semiestruturadas com 8 profissionais e 11 jovens participantes. Os roteiros utilizados foram os mesmos adotados nos outros projetos sociais estudados, contendo perguntas como “Quais são os objetivos do projeto” para os profissionais e “Quais são os seus objetivos ao participar do projeto”  para os jovens.

 

2.1 Entrevistas com profissionais

 

Entre os 8 entrevistados, estavam os dois coordenadores, o porteiro e cinco professores (uma mulher e quatro homens), sendo um deles do curso em parceria com a CDL.  As entrevistas ocorreram na própria sede da Vila Olímpica, nos intervalos das aulas. A primeira foi com o coordenador, que nos contou como o projeto foi criado e descreveu assim seus objetivos:

 

“Eu costumo dizer que aqui a gente costuma... tirar crianças da rua através do esporte. A gente costuma tentar salvar vidas através do esporte porque a integração dessas crianças... Até se você fizer, se vocês tiverem oportunidade de conversar talvez com os pais, vocês vão ver que os pais vão passar para vocês que o comportamento das crianças muda até dentro de casa, porque a gente cobra. Muda na escola... Aqui a gente forma caráter. Além de atletas, a gente forma primeiro caráter.” (Coordenador do projeto).

 

Depois de informar sobre a organização da Vila Olímpica naquele momento, continuou a reflexão sobre seu trabalho dizendo:

 

“Aqui a gente forma, além do jovem, agente também educa para a vida. Não só a educação diária de cada criança, a gente aqui além de educar, a gente dá amor, carinho, a gente ouve... Muitas vezes nós somos psicólogos daquela criança que às vezes precisa realmente de um tratamento, mas que a família não detectou ou não tem o tempo, ou que teve dificuldade no sistema de saúde do nosso país que realmente ele... existe dificuldades e muita burocracia, entendeu. Então aqui a gente faz um trabalho social e pessoal com cada jovem, a gente tenta... O profissional de educação física ele estudou psicologia, ele tenta entender e detectar aquele jovem. Talvez um, a gente dá uma atenção especial naquele sentido. Muitos, às vezes, acaba a aula, ele quer ficar (...)passam a manhã ou a tarde toda aqui. Então aqui é o lugar que eles se sentem à vontade, se sentem acolhidos, se sentem amados, se sentem ouvidos.” (Coordenador do projeto).

A coordenadora, em entrevista realizada algumas semanas depois, apresenta uma compreensão semelhante:

 

“Eu acho o projeto positivo, no sentido de que a comunidade aqui é muito carente dessas coisas, a criança aqui não tem muita... a não ser que você pague algum lugar para praticar algum esporte, alguma coisa. Então eu acho positivo na criança ter facilidade, não precisar pagar e também ajudar pai e mãe, porque às vezes a criança fica na rua fazendo coisa errada ou se juntando com pessoas que não vão agregar nada para elas. (Coordenadora do projeto).

 

Os trechos acima evidenciam que, por mais que a Vila Olímpica ofereça atividades para diversas faixas etárias, é o trabalho com crianças e jovens (mencionados pelos coordenadores de forma alternada em um mesmo contexto, como sinônimos) o principal foco da organização. Além disso, os profissionais demonstram o entendimento de que os benefícios proporcionados pela participação no projeto não se limitam à prática de atividades físicas e suas consequências para a saúde ou aos conhecimentos obtidos no curso, mas se estendem para uma transformação de todo o comportamento das crianças e jovens. Como pode ser observado na fala do coordenador, o projeto ofereceria acolhimento e atendimento à diversas demandas dos participantes, suprindo lacunas emocionais e sociais deixadas pelas famílias e pelo Estado. A relação com as famílias seria pautada pelo sentimento de gratidão em relação ao efeito protetivo e transformador que o projeto exerceria em seus filhos, como fica claro a seguir:

 

“Eu vejo mães que estão com problemas sérios em casa, com crianças que já estão cometendo pequenos delitos, que vem aqui e agradecem muito a gente, justamente porque é uma porta que ela conseguiu abrir para poder ajudar o filho dela. A criança às vezes se envolve de uma tal maneira, sai daquele mundo que ela estava e entra em um mundo totalmente diferente. Tem contato com outras crianças que têm um ritmo de vida diferente. Isso logicamente, com o tempo, vai mudando a maneira de pensar, o envolvimento (com o tráfico), aquilo já não vai mais fazer parte da vida dela.” (Coordenadora do projeto).

 

Essa fala da coordenadora faz referência à concepção, apresentada no início desse texto, de que a participação no projeto social se opõe diretamente ao envolvimento com o tráfico de drogas. É como se as crianças e jovens de periferias, especialmente os que vivem em favelas, estivessem todos, a todo o momento, correndo o risco de ser seduzidos pelo crime organizado. É a esse perigo eminente que o coordenador se refere quando fala em tirar crianças da “rua”, em “salvar” vidas através do esporte. Há uma compreensão de que esses jovens estariam desocupados se não estivessem no projeto. E o ócio possibilitaria a sua captação por grupos criminosos e práticas ilícitas. O professor de futsal, ao ser entrevistado, demonstrou uma percepção semelhante nesse sentido, quando diz que “aqui fizeram essa Vila Olímpica para poder captar as crianças que estão aí ociosas em casa, que não tem muito o que fazer na parte da manhã ou na parte da tarde aí, vem aqui para fazer a atividade física.”

 

O professor também destacou que o projeto funciona apesar das dificuldades econômicas enfrentadas pelos profissionais, os quais, muitas vezes, ficam com os salários atrasados e sem materiais apropriados para as aulas, por a prefeitura recorrentemente limitar os repasses financeiros para administração da Vila Olímpica. Mesmo assim, segundo ele, os professores cumpriam seus horários para “ajudar as crianças do bairro”. Quando perguntado sobre os objetivos do projeto, ele respondeu:

 

“Muitos sonham até em ser um jogador profissional, mas a gente sabe que de 10 mil, 100 vão ser profissionais. O meu (objetivo) aqui como professor não é ensinar eles a jogar bola, isso aqui é um lazer. Se um dia, um garoto daqui for um doutor, um médico, um professor, um gari, mas se tiver uma profissão, para mim, eu já estou satisfeito. Eu não quero que ele seja um profissional de futsal ou profissional de campo. Eu quero é escola. Eu procuro saber como eles estão na escola. Eu quero que ele seja um pessoa digna e que tenha um futuro na frente e que possa estudar e ter uma faculdade”. (Professor de futsal).

 

Esse propósito de que os alunos tenham uma profissão quando adultos também é destacado pelo professor que trabalhava no curso preparatório. Graduado em Educação Física, oferecendo, segundo ele, aulas que desenvolvam nos jovens habilidades como o trabalho em grupo, o atendimento ao público e a ética, respondeu que:

 

“A missão é levar o maior número de adolescentes para o mercado de trabalho, para o primeiro emprego, que é o mais difícil, né, que todos cobram um certa experiência. E você muitas vezes não tem condição de adquirir essa experiência. Então, essa é a maior missão. E a gente tem alguns objetivos paralelos, que é de certa forma, mesmo que você não saia empregado em um primeiro momento, mas que você tenha uma formação para lá na frente ter uma possibilidade maior de brigar por essa vaga.” (Professor do curso preparatório).

 

O professor explicou que existia a possibilidade de alguns jovens, ao terminarem o curso, serem indicados pela CDL para trabalharem em comércios da região como aprendizes, mas que essa não era uma garantia para todos. 

Os outros profissionais que entrevistamos, apresentaram falas semelhantes, destacando como objetivos do projeto a promoção de saúde a partir da prática de atividades físicas, mas destacando a função de “resgate” das crianças e jovens. Todos disseram que o projeto tem boa relação com as comunidades que atende e que a participação do público nas atividades é satisfatória. Apenas a professora de natação ressaltou que percebe uma diferença na motivação de crianças e jovens em frequentar as aulas, ela disse: “Eu acho que os jovens precisam de mais incentivo para vir. Porque as crianças você vê que tem aquela disposição de vir e fazer, mas adolescente eu acho que eles são meio perdidos ainda, precisam de mais incentivo para fazer esporte” (Professora de natação).

 

2.2 Entrevistas com participantes:

 

Os 11 jovens entrevistados têm entre 12 e 17 anos, sendo cinco mulheres e seis homens. Entre eles, nove participavam do curso preparatório que ocorria à tarde. Quando perguntados sobre como começaram a participar do projeto, cinco destacaram que foram inscritos pelos pais ou pela avó, dois foram indicados pela direção da escola onde estudam e os outros quatro começaram a frequentar através de amigos que já eram participantes, como pode ser observado no trecho a seguir: “Meu amigo estava jogando aqui, aí ele me chamou, eu vim, gostei e estou vindo direto. (...)Aqui é muito bom para jogar, o professor ensina muito bem, não tem briga, é tranquilo.”

Ao responder sobre seu objetivo em participar do projeto, esse mesmo jovem disse:

 

“Meu objetivo é me destacar, jogar bem, isso.

E como você acha que o projeto te ajuda com esse objetivo?

Me ajuda a me dar mais oportunidade de realizar o meu sonho de ser jogador (...) sempre tem vários campeonatos, vai ter um no final do ano. Que no campeonato tenha olheiro, eles olhem, gostem de mim e me chamem para jogar em um clube grande”. (Menino, 12 anos, não participa do curso preparatório).

 

Entre os demais entrevistados, mais dois falaram que estão no projeto para fazer atividades físicas, mas sem relacionar a prática a sonhos profissionais. Um deles, disse: “Eu gosto mais da educação física, porque eu gosto mais de esportes, gosto de queimado, vôlei, não muito futebol, isso.”  (Menino, 16 anos, participa do curso preparatório). Todos os outros, frequentadores do curso, associaram os objetivos de participação à  inserção no mercado de trabalho. Como, por exemplo, nas falas a seguir:

 

Quais são seus objetivos ao participar do projeto? Para poder ter experiência como primeiro emprego, para poder ter capacitação, para poder conhecer mais o ambiente de trabalho, para poder entender”. (Menina, 17 anos, participa do curso preparatório).

 

“O objetivo é ter aprendizado, para o futuro e para o presente agora. E no futuro conquistar meu objetivo que é viajar pelo mundo, ajudar a minha mãe em casa e tal. Eu quero ser um advogado ou um engenheiro, engenheiro elétrico. (...) Aqui eu aprendi a ter ética, que eu não sabia, a professora lá é gente boa, me ajudou, vai ajudar na carreira lá na frente.” (Menino, 16 anos, participa do curso preparatório).

 

“Gosto porque a gente aprende, a gente aprende como lidar com o público, perde a vergonha, sabe respeitar também o meio ambiente e tem muitas coisas mais que a gente aprende”. (Menina, 17 anos, participa do curso preparatório).

 

Apenas um dos entrevistados afirmou não gostar do projeto, mas disse não saber o motivo. Ele informou que passou a frequentar porque a diretora da escola onde estuda falou com a mãe dele para “colocá-lo” no projeto e que o objetivo é “conseguir um serviço, um emprego bom” (Menino, 16 anos, participa do curso preparatório). Quando perguntados sobre seu cotidiano, os jovens destacam que realizam várias atividades, demonstrando um contexto oposto ao ócio que, segundo os profissionais, eles vivenciariam. Seguem alguns exemplos:

 

“Como você descreveria o seu cotidiano?

Meio corrido porque tem escola de manhã, curso à tarde, às vezes eu ajudo meu tio a lavar carro à noite”. (Menino, 16 anos, participa do curso preparatório).

 

“De manhã eu vou para a escola, à tarde venho para o curso todos os dias, tem dia de sexta-feira que eu faço curso à noite, de informática e administração e aos domingos eu trabalho na padaria”. (Menina, 17 anos, participa do curso preparatório).

 

“Eu vou para escola, depois venho para cá, de noite vou para a igreja ou estudo e também saio com minha família”. (Menina, 17 anos, participa do curso preparatório).

 

“De manhã eu me arrumo e vou para a escola. Depois venho para o curso e à noite eu fico em casa, às vezes faço janta”. (Menina, 16 anos, participa do curso preparatório).

 

Ao explicar seu cotidiano e a participação nas atividades da Vila Olímpica, os jovens não mencionam o contexto de perigo eminente percebido pelos adultos, segundo o qual o envolvimento com o projeto retiraria os jovens da “rua” ou os protegeria  do tráfico de drogas. Justificam a presença nas aulas e no curso preparatório de forma direta: “vai me dar oportunidade”, “para ter capacitação”, “para no futuro ajudar a minha mãe”, sem fazer referência a processos maiores  de resgate, transformação ou “salvação”. A ida ao projeto faz parte de suas vidas e de suas rotinas da mesma forma como outros hábitos e espaços, como a casa, a escola, a igreja e outros cursos. Quando, em sua maioria, explicam porque gostam de participar, fazem referência aos professores que são “muito gente boa”, “muito legais”, à diversão proporcionada pelas atividades esportivas, “gosto de queimado, vôlei”, “eu gosto muito de jogar bola” e/ou à possibilidade de encontrar os amigos, de  “estar com o pessoal”.

 

3 Reflexões e análise

 

Diana Milstein (2006) destaca que, tradicionalmente, muitas pesquisas não consideram (ou consideram como dados inferiores) a percepção de crianças e jovens sobre o contexto estudado. Sendo atores igualmente importantes e ativos em qualquer dinâmica social, os grupos de menor idade tendem, muitas vezes, a trazer perspectivas inovadoras sobre o tema, desafiando pré-conceitos e noções naturalizadas pelos adultos. Assim, é necessário “Privilegiar, en el sentido de dar lugar a que lo que cuentan, actúan y explican acerca de las experiencias vividas tenga, en la investigación, una escucha y un impacto similar al de otros interlocutores” (Guerrero; Milstein, 2021, p.5).  Por isso, considerar a fala dos jovens sobre os projetos sociais é importante não apenas para averiguar problemas como a baixa adesão e assiduidade experimentada em algumas iniciativas (Fernandes, 2021), ma para poder compreender o que esses projetos são de forma efetiva. Crianças, jovens e adultos constroem conjuntamente, através das diversas relações sociais que desenvolvem, a realidade da organização, determinando seu funcionamento, princípios e efeitos.

Analisando representações e formações discursivas sobre a juventude na Argentina, Mariana Chaves (2005) relata a predominância da percepção de que o jovem é sempre um ser incompleto, já que:

 

“Se parte de una comparación con perspectiva adultocéntrica, la definición se hace por diferencia de grado en relación al parámetro elegido, lo que lleva a establecer características desde la falta, las ausencias y la negación, y son atribuidas al sujeto joven como parte esencial de su ser. Esta perspectiva conduce a perder de vista la condición juvenil como construcción social, quedando oculto bajo el manto de la naturalidad del fenómeno que estas concepciones son discursos altamente ideologizados y con perspectiva gravemente discriminadora”. (Chaves, 2005, p.14)

 

Essa premissa da incompletude atribuída a todos jovens, justificaria a necessidade de intervenção sobre eles (Chaves, 2005) fundamentando ações não apenas da família e da escola, mas de outras organizações, como os projetos sociais. Atribuída aos jovens de periferia, a premissa se transforma em um medo coletivo, estigmatizante, já que existe a percepção de que crianças e jovens periféricos alimentam o “exército” do tráfico de drogas nas grandes cidades brasileiras (Ramos, 2011).  Dessa forma, a esses jovens só são atribuídas duas possibilidades de trajetória: tornar-se “bandido” ou não, em uma perspectiva totalizante sobre o envolvimento com o crime e violência. Essa generalização e homogeneização discursiva sobre as vidas e identidades dos moradores de periferias fundamenta o argumento de que o projeto transforma e “salva” os participantes. Explica também a idealização da inserção desses jovens no mercado de trabalho formal, valorizada como objetivo máximo da organização. Tradicionalmente, o imaginário coletivo brasileiro opõe a identidade de “bandido” à de “trabalhador” e dessa forma, a obtenção de um emprego determina o fim do perigo eminente, do risco de ser seduzido pela criminalidade violenta (Ramos, 2011). Significa o sucesso das intervenções, entre elas a do projeto social do qual o jovem participou. Entretanto, como afirma Mariana Chaves:

 

“Todos estos discursos quitan agencia (capacidad de acción) al joven o directamente no reconocen (invisibilizan) al joven como un actor social con capacidades propias —sólo leen en clave de incapacidades—.Las formaciones presentadas operan como discursos de clausura: cierran, no permiten la mirada cercana, simplifican y funcionan como obstáculos epistemológicos para el conocimiento del otro.” (Chaves,2021, p.19).

 

Nossas entrevistas demostraram que as percepções generalizantes dos profissionais em relação aos jovens não são reproduzidas por eles. Os participantes da Vila Olímpica, inclusive os que frequentam o curso preparatório, têm objetivos semelhantes aos descritos pelos adultos, mas não os associam a um salvamento ou algo determinante e exclusivo em suas trajetórias. Não se consideram em perigo. Não se compreendem em um contexto homogêneo com apenas duas possibilidades identitárias. Possuem cotidianos diversos, participam de atividades variadas, circulam por diferentes lugares. Têm consciência de suas necessidades, das dificuldades que enfrentam por seu pertencimento de classe e não desprezam a inserção social que o projeto pode promover. Mas não atribuem a essa organização, à ocupação que ela promove e aos saberes que oferece, um significado tão determinante quanto os adultos.



Notas de la ponencia:

[1] Este trabalho utiliza as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para a formatação das referências.

[2] Construído com o nome de Vila Olímpica, fazendo referência às modalidades esportivas que seriam ofertadas, o projeto recebeu um nome diferente quando uma nova gestão municipal assumiu a prefeitura em 2017.

[3] Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, disponíveis em: IBGE | Cidades@ | Rio de Janeiro | Campos dos Goytacazes | Panorama

[4] Disponível em: https://www.campos.rj.gov.br/exibirNoticia.php?id_noticia=25033

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