O TAMBOR DE MINA NO CIBERESPAÇO: UMA ANÁLISE DA PLATAFORMA YOUTUBE COMO PALCO DE RESISTÊNCIA AFRO-RELIGIOSA

SP.14: Etnografiar la transformación: géneros, patrimonios y rituales en Latinoamérica

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Arlindo Figueiredo do Rosário Júnior Instituto Federal do Pará (IFPA)

Creditos Adicionales

Nombre Pertenencia institucional Pais
Arlindo Figueiredo do Rosário Júnior Instituto Federal do Pará Brasil
Breno Rodrigo de Oliveira Alencar Instituto Federal do Pará Brasil

O TAMBOR DA MINA NÃO É CIBERESPAÇO: UMA ANÁLISE DA PLATAFORMA YOUTUBE COMO CAIXA DE RESISTÊNCIA AFRO-RELIGIOSA

SP.14: Etnografando a transformação: gêneros, heranças e rituais na América Latina

 

 

Arlindo Figueiredo do Rosário Junior

(Autor)

(Especialização em Conhecimentos, Linguagens e Práticas Educacionais na Amazônia), Instituto Federal do Pará – IFPA,

arlindofigueiredo2814@gmail.com.br

 

Breno Rodrigo de Oliveira Alencar

(Conselheiro)

Doutor em Sociologia e Antropologia

Professor do Instituto Federal do Pará

breno.alencar@ifpa.edu.br

 

 

Resumo

O Tambor Mina é uma religião de origem africana que nasceu no estado do Maranhão e se espalhou pelo resto do Brasil, mas especificamente no estado do Piauí e nos estados da Amazônia. É uma mistura de culto africano e ritual ameríndio, com fortes traços sincréticos do catolicismo popular (M. Ferretti, 2000, p. 25). Inspirada nos modelos das sociedades secretas, esta religião cultua seus deuses através de uma tradição oral passou há mais de dois anos pelas mais novas (S. Ferretti, 2009, p. 230). Ao observarmos que esta religião sofre grandes mudanças devido à era tecnológica, onde as mídias digitais possuem grande hegemonia, levantamos a seguinte questão: o que leva os religiosos afros do tambor de mina a criarem conteúdos religiosos na plataforma YouTube? Essa problemática nos leva a compreender, sob diversas perspectivas, a inserção dos seguidores do Tambor da Mina no ciberespaço. A netnografia, abordagem utilizada nesta pesquisa, é uma forma de etnografia que utiliza a comunicação mediada por computador como aquisição de dados para compreender um objeto estudado (Kozinetz, 2014, p.61). Entre outras coisas, nosso objetivo é analisar as principais formas de resistência praticadas pelos adeptos dos tambores de minas na Amazônia, utilizando a plataforma YouTube como base de estudo. Uma das contribuições de nossa pesquisa diz que respeitamos as análises sobre como o Tambor Mineiro, referido como uma religião centrada na tradição oral, será incorporado às tecnologias de comunicação e aos meios digitais, únicas localidades entendidas como espaços democráticos em que pode ser difundiu conteúdos afro-religiosos. O estudo sobre o processo de midiatização das religiões afro-brasileiras é indicado para as formas como o Tambor de Mina se adapta à moderna sociedade da informação, indicando importantes efeitos e consequências futuras. Os resultados desta pesquisa mostram que os religiosos dos segmentos afrodescendentes têm resistido à discriminação vivida há anos na mídia. Observa-se que as interações que acontecem nos canais da plataforma estudaram apenas praticantes ou simpatizantes do Tambor de Mina, onde se observa claramente a ausência de curiosos ou seguidores de outras religiões. Por outro lado, entraremos num canal oficial de alguns padres famosos como Padre Zezinho ou Padre Fábio de Melo. Não é difícil encontrar pessoas afro-religiosas. Os canais que o Tambor de Mina divulga não constituem representação religiosa, como os referidos pais, mas este é o grande desafio que, não só o Tambor de Mina, mas toda a religiosidade dos moluscos afrodescendentes.

 

Keywords : tambor de mina; YouTube; ciberespaço; resistência.

Introdução

As religiões de origem africana, incluindo o Tambor de Mina, foram alvo de discriminação e preconceito ao longo da história do Brasil. Porém, com a popularização e o acesso à Internet, essas religiões encontraram no ciberespaço um ambiente propício à divulgação de suas práticas e crenças, além de se tornarem um espaço de luto e resistência contra a intolerância religiosa.

Ao longo da história, os meios de comunicação, como os noticiários e a televisão, desempenharam um papel significativo na perpetuação do preconceito contra o Tambor de Mina e outras religiões de origem africana (Lindoso, 2008, p. 03). Com o acesso à Internet, as religiões de base africana terão a oportunidade de expandir a sua visibilidade e alcance. Está disponível em sites, blogs, redes sociais, fóruns de discussão, canais no YouTube, podcasts, entre outras ferramentas digitais. Nestes espaços, os seguidores destas religiões podem partilhar os seus conhecimentos, trocar experiências, tirar dúvidas e desconstruir estereótipos. Além disso, a presença de dois seguidores do tambor da mina no ciberespaço também contribui para a promoção de eventos religiosos, como festas, rituais e encontros, facilitando a conexão de praticantes e simpatizantes de todo o país e do mundo. Isto proporcionou um fortalecimento da identidade e das práticas das religiões de base africana, que são muitas vezes marginalizadas e invisibilizadas na sociedade.

Contudo, a presença de religiões de base africana, como o tambor da mina, no ciberespaço também tem sido marcada por desafios e resistências. A intolerância religiosa se manifesta de diversas formas, como por meio de discursos de ódio, fake news, ataques virtuais e até invasões de páginas e grupos dedicados a essas religiões. Isso demonstra que lutar por visibilidade e respeito no mundo digital também é uma realidade constante para os praticantes dessas crenças.

O Relatório sobre Intolerância e Violência Religiosa no Brasil (RIVIR-2015) revela dados alarmantes, entre os anos de 2011 e 2016, os relatos de intolerância religiosa aumentaram de forma alarmante. Entre estas reclamações, 31,9% foram dirigidas às religiões de origem africana. Esses números alertam para a urgência de combater ou preconceber a violência baseada na fé. A Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (RENAFRO), em relatório divulgado em julho de 2022, mostra histórias preocupantes 78% das lideranças dos territórios relatam que membros de suas comunidades sofreram algum tipo de violência, seja física ou verbal , por intolerância religiosa (Tavares e Vaz, 2019, p. 06).

Apesar de dois desafios, Mina Drum e outras religiões de origem africana, resistimos. Em 2007, o Tambor de Mina foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil. Sacerdotes e sacerdotisas continuam a realizar cerimônias ricas em simbolismo, dança e música. A luta contra a intolerância religiosa persiste, mas a fé e a tradição mantêm viva esta manifestação singular.

O procedimento metodológico utilizado neste processo foi a netnografia, nos seus termos observacional, descritivo e analítico. O seu campo de estudo, que afirma respeitar os procedimentos de recolha e análise de dados, restringe-se ao ambiente Internet, mais especificamente, à plataforma YouTube.

Apesar de dois desafios, as religiões de base africana estão a mostrar a sua força e resistência, tanto no mundo offline como no ciberespaço. Através da divulgação de conteúdos educativos e informativos, da denúncia de casos de intolerância e da promoção do diálogo inter-religioso, os adeptos destas religiões têm conquistado cada vez mais espaço e voz no ambiente virtual.

 

Referência teórica

A fundamentação teórica desta pesquisa foi fundamental para a construção do conhecimento sobre o objeto estudado e as conclusões obtidas. M. Ferretti (2000) juntamente com seu marido S. Ferretti (2009) contribuem com excelência para a compreensão antropológica das características fundamentais do tambor da mina maranhense. Esses pesquisadores fundamentam os estudos de outros pesquisadores que dizem respeitar a teogonia, a mitologia, a antropologia cultural e outras categorias do tambor da mina maranhense.

No Pará, podemos encontrar dois antropólogos que apresentam estudos muito importantes sobre os elementos comunitários, políticos, teológicos e históricos do tambor da mina. Luca (2003) e Silva (2015) discutem as relações de poder na Federação dos Cultos Afro-Brasileiros do Estado do Pará (FEUCABEP). Silva (2015) é um estudo realizado em seu mestrado de pós-graduação que posteriormente foi publicado em livro intitulado “O tambor de flores: uma análise da federação espírita umbandista e dois cultos afro-brasileiros do Pará”. Este estudo nos ajudou a compreender as relações burocráticas que permeiam as comunidades afro-religiosas do Estado do Pará, além de sua estrutura interna e relações sociais por meio de um ritual público denominado tambor de flores. A teoria de Anaiza Vergolino Silva é uma das contribuições mais importantes para o estudo das religiões afro-brasileiras, especialmente do tambor de mina. Silva (2015) parte da ideia de que as religiões de matriz africana não se constituem apenas a partir de um processo histórico, social e cultural de interação entre diferentes matrizes religiosas, como o tambor de mina, ou o candomblé, ou o espiritismo, ou o catolicismo e como indígenas religiões . Um antropólogo entende que o tambor de mina é uma religião que expressa a diversidade, a pluralidade e a criatividade do povo amazônico, que busca na espiritualidade uma forma de lidar com os problemas, os conflitos e as contradições da sociedade. Afirma ainda que a afro-religiosidade não tem papel político, o que se manifesta na defesa de dois direitos, da cidadania e da dignidade de dois de seus seguidores, que sofrem como preconceito, discriminação e violência por parte de grupos intolerantes e conservadores setores. Silva (2015) propõe uma metodologia de pesquisa que valoriza a participação, a observação, o diálogo e a reflexão com sujeitos religiosos, buscando compreender a afro-religiosidade a partir de sua própria lógica, de sua própria linguagem e de sua própria cosmovisão. Vinte e sete anos depois deste belo estudo, Luca (2003) concluiu sua dissertação de Mestrado com o título revisitando “Revisitando o tambor de flores: uma federação de espírito umbandista dos cultos afro-brasileiros do Estado do Pará como guarda de um tradição." Neste estudo, o pesquisador paraense nos ajuda a compreender a ideia de organização social, poder burocrático e poder religioso das comunidades tradicionais de terreiro, cuja religião principal é de matriz africana ou tambor de mina.

Para compreender a ideia de ciberespaço, buscamos analisar os estudos de Pierre Lévy que, em sua análise do ciberespaço, oferece uma visão profunda de como esse ambiente virtual se relaciona com a comunicação, a cultura e a memória. Lévy (1999, p. 17) sugere que o ciberespaço é um local comunicativo que surge da interconexão global de computadores. Essa rede de conexões permite a troca de informações, ideias e significados entre pessoas ao redor do mundo. A memória refere-se à capacidade de dois computadores armazenar e recuperar dados. O ciberespaço é um repositório de memórias digitais, onde a informação é partilhada e perpetuada.

Lévy (1999, p.17) considera o ciberespaço um ambiente simbólico. Nele, as pessoas não trocam apenas informações concretas, mas também significados, representações e experiências. Essas mudanças simbólicas ocorrem por meio da linguagem, das imagens, dos símbolos e das interações digitais. O ciberespaço transcende o físico e permite a construção de realidades partilhadas. Lévy (1999, p. 18) reconhece que o ciberespaço não é apenas uma ferramenta técnica, mas também um espaço cultural. Ele está imerso no cotidiano das pessoas, moldando suas experiências e relacionamentos. Como parte da cultura contemporânea, o ciberespaço influencia a forma como comunicamos, aprendemos, crescemos e nos relacionamos com o mundo.

Muitos apenas os teóricos que estudam o conceito de resistência afro-religiosa no nosso mundo contemporâneo, ou seja, como as formas como as religiões de origem africana enfrentam e superam as situações de opressão, discriminação e violência que sofremos na sociedade. Contudo,  Mariza de Carvalho Soares (1990), dedicou a sua carreira ao estudo das religiões afro-brasileiras, com especial enfoque no Candomblé. A sua investigação centra-se não apenas nos aspectos religiosos, mas também nas formas de resistência política, social e cultural que estas tradições espirituais representam.

O candomblé e o tambor de mina constituem religiões de origem africana, traçadas até o Brasil pelos escravos durante o período colonial. Estas tradições sincréticas, que combinam elementos africanos com influências indígenas e católicas,   enfrentarão perseguições, discriminação e repressão ao longo da história.

Segundo Soares (1990) ou candomblé apresenta uma identidade de resistência cultural, espiritual, política e social que dividiremos em dois tópicos:

1-               A Resistência Cultural e Espiritual se dá através da preservação da Identidade, da resistência à Conversação Forçada e de dois terrenos como Espaços de Empoderamento: O candomblé serve como espaço de preservação da identidade africana. Os rituais, cantos, danças e oferendas mantêm vivas as tradições dos nossos antepassados, mesmo sob a opressão colonial. Os praticantes do candomblé resistirão à conversação forçada com o catolicismo. Eles mantêm suas práticas religiosas em segredo, muitas vezes sincretizando seus orixás com santos católicos. As terras de candomblé tornam-se centros de resistência e empoderamento. Os líderes religiosos, como a maioria no país sagrado, desempenham papéis importantes na comunidade, promovendo a auto-estima e a coesão social.

2-               Resistência Política e Social: luta contra o racismo religioso, participação em movimentos sociais e afirmação da identidade negra: Mariza de Carvalho Soares enfatiza como o candomblé enfrenta o racismo religioso. A criminalização das práticas religiosas afro-brasileiras é a marginalização de seus seguidores para desafios constantes. Os praticantes do candomblé estão envolvidos em movimentos sociais, como a luta contra a escravidão, a busca pelos direitos civis e a valorização da cultura negra. A religião serve como espaço de organização e mobilização. O candomblé contribui para a afirmação da identidade negra no Brasil. Através das suas práticas, os seguidores recuperarão a sua herança africana e resistirão à assimilação cultural.

A forma como Soares (1990) apresenta a identidade política e os artifícios de resistência do candomblé não difere do tambor de mina, que entendemos como uma forma multifacetada de resistência. Além de ser uma expressão espiritual, esta religião desempenha um papel vital na preservação da cultura africana, na luta contra o racismo e na construção de uma identidade negra forte e resiliente. Sua obra nos convida a reconstituir e valorizar as contribuições das religiões afro-brasileiras para a diversidade cultural e social do Brasil.

 

Procedimento metodológico

O percurso metodológico necessário nesta pesquisa nos ajudou a compreender conceitos, observar analiticamente a comunidade estudada e melhorar a compreensão sobre o tambor mineiro na Amazônia. Desenvolvemos uma pesquisa qualitativa que toma como meio de estudo a netnografia.

Netnografia é um termo cunhado por Roberto Kozinets, (2014) que significa a realização de pesquisas etnográficas online, ou pesquisas sobre culturas e comunidades digitais, como blogs, fóruns, redes sociais, jogos, etc. É uma adaptação da etnografia tradicional, que consiste na observação participante e na interação com os sujeitos da pesquisa, mais aplicada ao ambiente virtual, levando em consideração suas especificidades, vantagens e desafios .

Para realizar nossa pesquisa por meio da netnografia foi necessário seguir algumas etapas que se iniciaram como o planejamento da pesquisa, definição do tema, ou problema, os objetivos, assim, hipotetizar a justificativa do estudo. Entramos então no campo virtual, utilizando o YouTube como plataforma base para observação participante, estabelecendo uma relação ética e respeitosa com os usuários desta plataforma. Posteriormente, os dados são coletados, registrando as informações relevantes, como imagens, vídeos, áudios, quantidade de postagens, comentários, links, etc., que são produzidas ou compartilhadas com os sujeitos da investigação, e também interagindo com eles, quando necessário, através de comentários, mensagens, e-mails, etc. O próximo passo é analisar dois dados, organizando, categorizando, interpretando e comparando esses dados coletados, utilizando técnicas qualitativas, buscando responder dúvidas e testar hipóteses de pesquisa. Por fim, a netnografia é a última etapa para apresentação dos resultados, desenvolvendo uma literatura que sintetiza os principais achados, conclusões, implicações e recomendações da pesquisa.

 

Resultados e discussões

Dentre os vídeos selecionados para analisar o papel do tambor de mina na plataforma YouTube, encontramos seis vídeos postados na plataforma estudada, que nos permitirão analisar a resistência das comunidades de tambores de mina tanto no Pará quanto no Maranhão, ambos pertencentes ao o território amazônico.

 

Código

Canal

vídeo

tema

Número de visualizações

Nº de comentários

Nº de bronzeamento

Link

Dados de publicação

01

Cultura televisiva

Meu Tambor / Retratos de Fé

Sagrado, Cultura, intolerância religiosa

87 mil

95

 

2,8 mil

 

https://www.youtube.com/watch?v=GHE0PCkDFa4&t=1101s

11/04/2019

02

Coleção Maracá

Coleção Maracá de Renata Amaral

Cultura, Resistência, Tradição, Sagrado

132

04

24

https://www.youtube.com/watch?v=3VWPLeELxLY

em 9 de novembro de 2023

03

Tribuna Jurandiense

Meu tambor no chão do templo

racismo religioso

69.835

100

1,8 mil

https://www.youtube.com/watch?v=tFZIkVZ5sZc&t=320s

15 fora. de 2019

04

DPU

Agenda Ipadê: construindo estratégias de enfrentamento ao racismo religioso no Maranhão

racismo religioso

79

0

6

https://www.youtube.com/watch?v=aTLgq9wlQ-g

23 de novembro de 2022

05

 

SBT Pará

SBT Pará (25/04/19) Mãe de Santo sofre amor e discriminação

racismo religioso

 

5.018

47

134

https://www.youtube.com/watch?v=C4mRLKqacbw

  25 de abril de 2019

06

 

SBT Pará

SBT Pará (02.04.2022) Mãe de Santo sofre discriminação e intolerância religiosa.

racismo religioso

630

41

Desativado

https://www.youtube.com/watch?v=KjQtt2DNlkg&t=86s

4 de fevereiro de 2022

07

 

SBT Pará

SBT PARÁ (13.10.21) O evento aconteceu após visita ao terreiro de candomblé em Belém.

 

racismo religioso

599

Desativado

22

https://www.youtube.com/watch?v=lx1YGPo1eBU

 

 

13 fora. de 2021

Fonte 01: Dados coletados na Plataforma YouTube.

O vídeo intitulado “Retratos de fé” (código 01 na tabela) é um documentário produzido pela TV Cultura para um programa do canal aberto onde são apresentadas as principais características do tambor da mina do Maranhão. Este vídeo mostra e explica vários elementos da teologia mineira. Entre os 96 comentários, chamamos a atenção para um longo comentário escrito por @tugidovictor48 onde nos deparamos com ensinamentos bíblicos e livros referentes à moral cristã. Este comentário nos faz perceber que um Cristo convida os mineiros a se converterem ao cristianismo, para que esses afro-religiosos obtenham a salvação.


Imagem 01 - Comentário intolerante que sugeria a salvação para os praticantes de tambor de mina.


No vídeo intitulado “Tambor de Mineração no Território do Templo” (código 03 da tabela), aparece outro comentário:


Imagem 02 – Comentário racista que repercutiu na postagem de um vídeo sobre um ritual de tambor de mina.

A postagem deste comentário causou indignação entre outros internautas que também comentaram, gerando uma breve discussão.


Imagem 03 – Primeira parte da repercussão do racismo religioso na postagem do vídeo sobre o ritual de tambor de mina.


Imagem 04 – Segunda parte da repercussão do racismo religioso na postagem do vídeo sobre o ritual do tambor da mina.

O racismo religioso no Brasil não se limita apenas às comunidades de terreiro de tambor de mina. Ele afeta diversas outras comunidades religiosas de maneiras distintas. As religiões de matriz africana, como o candomblé, a umbanda e o tambor de mina, são frequentemente alvo de racismo religioso. Isso se manifesta por meio de intolerância, violência física, discriminação e estigmatização.

Práticas como a demonização dos orixás, a criminalização dos terreiros e a destruição de símbolos sagrados são exemplos de como o racismo religioso afeta essas comunidades. A imposição de religiões cristãs e a proibição de práticas tradicionais indígenas ao longo da história do Brasil são exemplos de como o racismo religioso afeta essas comunidades. Além dos terreiros, outras religiões afro-brasileiras, como o samba de roda, o jongo e o maracatu, também enfrentam preconceito e discriminação.

O racismo religioso se manifesta na invisibilidade dessas práticas culturais, na apropriação cultural e na falta de reconhecimento oficial. A região amazônica abriga uma diversidade de culturas e religiões. Embora não haja estatísticas específicas apenas para a Amazônia, é importante reconhecer que as comunidades religiosas dessa região também enfrentam desafios relacionados ao racismo religioso. No Pará, os casos de racismo religioso têm sido frequentes, especialmente contra as religiões de matriz africana, como a umbanda, o candomblé e o tambor de mina.

Em 2022, foram registrados quase 700 ataques em locais como igrejas, templos religiosos e centros espíritas. Ações de vandalismo, hostilização e agressões verbais são exemplos das manifestações de intolerância religiosa no estado. O Maranhão também enfrenta um aumento nos casos de racismo religioso. Em 2021, foram registradas 586 denúncias de intolerância religiosa no estado. Ataques a terreiros, depredação de símbolos religiosos e hostilização de praticantes são algumas das ocorrências relatadas (Tavares e Vaz, 2019, p. 06).

O combate ao racismo religioso exige ações conjuntas da sociedade, das autoridades e das próprias comunidades religiosas. É fundamental promover a conscientização, fortalecer e aplicar a legislação e garantir a proteção dos espaços de culto e das tradições afro-brasileiras.

Outros dois vídeos produzidos através de reportagens mostram o racismo religioso presente no dia a dia dos participantes do tambor de mina no Estado do Pará. Os vídeos intitulados “SBT Pará (25.04.19) Mãe de santo sofre ameaça e discriminação” (código 05 da tabela) e “SBT Pará (04.02.2022) Mãe de Santo sofre discriminação e intolerância religiosa” (código 06 da tabela) apresentam dois casos de intolerância religiosa no município de Ananindeua. Nestes dois vídeos a atuação de coletivos e organizações voltadas para a defesa dos direitos das religiões de matriz africana tem sido fundamental para fortalecer a presença dessas religiões no ciberespaço. Através de campanhas de conscientização, mobilizações online e parcerias com instituições e influenciadores, tem-se buscado combater a discriminação e promover a diversidade religiosa no ambiente digital. Os casos foram offline, mas o das maiores emissoras de televisão local apresentar o fato a sociedade, já nos chama a atenção para o papel da mídia tradicional no combate a intolerância religiosa.

A mídia tradicional desempenha um papel crucial na formação de opinião pública e na disseminação de informações. Quando se trata de intolerância religiosa na Amazônia, a mídia precisa ter uma responsabilidade significativa em moldar a percepção do público e promover o entendimento mútuo. O Papel da Mídia Tradicional é de Informação e Conscientização; Combate aos Estereótipos; Promoção do Diálogo Inter-religioso: A mídia tradicional, como jornais, rádio e televisão, tem o poder de informar o público sobre questões relacionadas à intolerância religiosa. Ela pode destacar casos de discriminação, ataques a templos religiosos e preconceitos enfrentados por diferentes grupos religiosos na região amazônica. Ao fornecer informações precisas e imparciais, a mídia pode conscientizar as pessoas sobre a gravidade do problema causado pelo racismo religioso. A mídia deve evitar perpetuar estereótipos negativos sobre religiões minoritárias. Em vez disso, ela pode apresentar histórias que humanizem os praticantes dessas religiões, mostrando suas contribuições positivas para a sociedade. A mídia pode ser uma plataforma para promover o diálogo entre diferentes grupos religiosos. Ela pode destacar eventos inter-religiosos, debates e iniciativas que buscam a compreensão mútua e a coexistência pacífica.

A mídia tradicional tem o poder de moldar atitudes e influenciar a sociedade. Diante da intolerância religiosa na Amazônia, ela deve assumir a responsabilidade de informar, educar e promover a harmonia entre as diversas comunidades religiosas. Somente através de uma abordagem sensível e equilibrada, podemos construir um ambiente onde a diversidade religiosa seja respeitada e celebrada.

No Maranhão e no Pará, estados amazônicos base de nossa pesquisa, temos uma grande parcela das lideranças afro-religiosas que lutam contra o racismo religioso o vídeo intitulado “IPADÊ AGENDA: construindo estratégias de enfrentamento ao racismo religioso no Maranhão -01” (Codigo 04 da tabela) é apenas um dos dois vídeos que compõem o registro de uma cerimônia de combate ao racismo religioso no estado do Maranhão. Este vídeo tem pouco mais de 2 horas de duração e conta com a presença de várias lideranças religiosas e representantes de várias entidades governamentais e não governamentais o vídeo tem pouquíssimas visualizações, nenhum comentário e poucas curtidas. No entanto, o que nos chama atenção é o interesse das comunidades de Tambor de Mina pela construção de estratégias de enfrentamento ao racismo religioso.

Este interesse de desconstrução do preconceito religioso na Amazônia é uma bandeira de luta muito presente nas comunidades afro religiosas, o que não podemos perceber tal a atuação entre os cristãos de um modo geral. Várias são as formas de resistências que podemos encontrar nas ações e no dia a dia dos praticantes de tambor de mina na Amazônia, uma região com sua rica diversidade cultural e ambiental, e é também palco de desafios enfrentados pelas comunidades religiosas de matriz africana. Os terreiros de tambor de mina, espaços sagrados onde se cultuam os orixás e entidades ancestrais, sempre foram alvo de preconceito e discriminação. Estes terreiros têm raízes profundas na cultura afro-brasileira e são herdeiros das práticas religiosas trazidas pelos escravizados. Na Amazônia, essas comunidades enfrentaram séculos de opressão, desde a época colonial até os dias atuais. O racismo religioso manifesta-se por meio de estereótipos, intolerância e violência, prejudicando a liberdade de culto e a identidade desses grupos.

 

As formas de resistência presente na atuação do tambor de mina se dão de 3 formas:

 

1. Preservação das Tradições

Os praticantes do tambor de mina resistem ao racismo religioso mantendo suas tradições vivas. Eles continuam a realizar cerimônias, festas e rituais, transmitindo conhecimentos ancestrais às gerações mais jovens.

A oralidade desempenha um papel fundamental na preservação das práticas, pois muitos ensinamentos são transmitidos verbalmente, evitando assim a apropriação indevida. Como exemplo de resistência podemos criar o vídeo intitulado “Acervo Maracá por Renata Amaral” (código 01 da tabela).

2. Articulação Política e Social

As comunidades de terreiro têm se organizado para combater o racismo religioso. Elas participam de redes de apoio, movimentos sociais e fóruns de discussão.

A luta por reconhecimento legal e respeito aos direitos religiosos é uma estratégia importante. Ações judiciais têm sido movidas para garantir a proteção dos terreiros contra ataques e intolerância.

3. Educação e Conscientização

A educação é uma poderosa ferramenta de resistência. Como comunidades promovemos palestras, oficinas e eventos para conscientizar a sociedade sobre suas crenças e práticas. A desconstrução de estereótipos e a promoção do diálogo inter-religioso são passos essenciais para combater o preconceito.

Assim, as comunidades de tambores de minas na Amazônia enfrentam desafios diários, mas a sua resiliência é inspiradora. Ao preservarem suas tradições, articulando-se politicamente e educando a sociedade, afirmam sua identidade e contribuem para um Brasil mais plural e igualitário. Devemos apoiar esta luta e reconhecer a importância destes espaços sagrados na construção da nossa história e cultura.

 

Considerações Finais

 

A região amazônica, com sua rica diversidade cultural e ambiental, também abriga uma pluralidade de crenças e práticas religiosas. No entanto, essa diversidade nem sempre coexiste harmoniosamente. A diversidade inclui tradições indígenas, afrodescendentes, cristãs, judaicas, islâmicas e outras. Contudo, esta mesma diversidade também pode gerar tensões e conflitos. A intolerância religiosa persiste, devido a atos discriminatórios, violência física ou disseminação de preconceitos nas redes sociais.

O racismo religioso, infelizmente, encontra terreno fértil na Internet, onde a disseminação de preconceitos e estereótipos pode ocorrer de forma rápida e ampla. A Internet, apesar de ser um espaço de conexão global, também abriga discursos de ódio e intolerância. As redes sociais, os fóruns, as plataformas digitais, especialmente o YouTube, são palcos de manifestações racistas e discriminatórias. Não num contexto religioso, isto se traduz em ataques contra crenças e práticas que não se enquadram na norma dominante. Por outro lado, o ciberespaço também promove um ambiente de discussão, debate e resistência contra o racismo religioso.

Religiões de origem africana, como Tambor de Mina, Candomblé e Umbanda, enfrentam hostilidade online. Segmentos das religiões pentecostais frequentemente rotulam essas tradições como cultos de “ruínas” ou associam-nas com “demônio”. Esta demonização perpetua estereótipos prejudiciais e contribui para a marginalização das comunidades religiosas.

Embora a Constituição Federal de 1988, artigo 5º, inciso VI garanta a liberdade religiosa como direito fundamental (Brasil, 1990), a realidade é diferente. A violência e a perseguição religiosa persistem. Os líderes das religiões de base africana enfrentam dificuldades no exercício dos seus rituais e na propagação da sua cultura e conhecimento, mesmo quando a lei os protege.

A programação religiosa veiculada na televisão aberta no Brasil também desempenha um papel importante. Infelizmente, as religiões de base africana são muitas vezes invisíveis neste contexto. Além disso, há uma defesa explícita da eliminação destes cultos, reforçando a intolerância e o preconceito.

Para combater o racismo religioso na Internet, é crucial promover a consciência da diversidade religiosa e dos direitos fundamentais através da formação intelectual e comunitária. Outra estratégia para combater o racismo religioso é o diálogo inter-religioso que pode facilitar a compreensão mútua entre diferentes tradições. Por último, devemos encorajar as vítimas e os testemunhos a denunciarem casos de intolerância, porque a luta contra o racismo religioso exige esforços coletivos para construir uma sociedade mais justa e inclusiva, onde todas as crenças sejam respeitadas e protegidas. 

Bibliografía de la ponencia

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1990.

FERRETTI, Mundicarmo. Desceu na Guma: O caboclo no Tambor de Mina. Originais da 2ª ed. (1996). Pub. EDUFMA, São Luís, 2000.

FERRETTI, Sérgio F. Querebentã de Zomadonu: Etnografia da Casa das Minas. São Paulo: Pallas, 2009.

KOZINETS, Robert V. Netnografia: Realizando pesquisa etnográfica online. São Paulo: Penso Editora, 2014.

Levy, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

LINDOSO, Gerson. Revisitando o passado e apontando para o presente: alguns olhares sobre a relação entre mídia e religiões afro-brasileiras. In: X Congresso de Comunicação da Região Norte-Nordeste, 2008, São Luís-MA. Anais Intercom Nordeste 2008: mídia, ecologia e sociedade, 2008. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/regionais/nordeste2008/resumos/R12-0636-1.pdf>. Acesso em 29/01/2023.

LUCA, Taissa Tavernad de. Revisitando o Tambor das Flores: A Federação Espírita e Umbandista dos Cultos Afro-brasileiros do Estado do Pará como guardiã de uma tradição. Dissertação (mestrado em Antropologia) - Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2003. Disponivel em: <https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/732> Acesso em 20 jul. de 2023.

SILVA, Anaíza. Vergolino e. O tambor das flores: uma análise da federação espírita umbandista e dos cultos afro-brasileiros no Pará (1965/1975). Belém/PA: Pakatatu, 2015.

SOARES, M. de C. Guerra santa no país do sincretismo. Sinais dos tempos: diversidade religiosa no Brasil. Cadernos do ISER 23 (1990): 75-104.

TAVARES, Denise; VAZ, Dayane. Formação e testemunho: o YouTube como alternativa para a “des-demonização” das religiões de matriz africana. In: Anais do 42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Belém, 2 a 7 de setembro de 2019.

Fuentes de la ponencia

Fonte 01: Dados coletados na Plataforma YouTube.

Imagenes Adjuntas