Saberes de benzedeiras e benzedores e sua relação com as políticas públicas de atenção primária em saúde no Brasil.

SP.20: Problemas, debates y desafíos actuales en el campo de la antropología de la salud latinoamericana

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Marivaldo Aparecido de Carvalho UFVJM e ABA

Creditos Adicionales

Nombre Pertenencia institucional Pais
Rosana Passos Cambraia UFVJM - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri Brasil
Bárbara Maciel Guimarães UFVJM - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri Brasil

INTRODUÇÃO

O processo social de cura envolve aspectos culturais e educativos de uma dada comunidade, sendo mais marcante em comunidades tradicionais ou comunidades urbanas periféricas. As formas sociais de curar se relacionam com as condições socio ambientais e estas condições são pensadas como indissociáveis no processo saúde e doença. O presente texto busca demonstrar a importância da presença e da ação preventiva em saúde por parte de benzedeiras e benzedores em localidades rurais. O papel preventivo desenvolvido é fundamental na atenção e cuidado de comunidades que, por vários motivos, principalmente acessibilidade (transporte, estradas rurais precárias dentre outros), e a questão do conflito entre os dias de atendimento em unidades de saúde e os dias de trabalho, se consideram afastadas dos agentes e dos aparelhos públicos de saúde.

O ato de benzer e de indicar plantas como remédios fornece respostas no processo saúde e doença, que são aceitas e validadas pela comunidade e por isso mesmo defendidas localmente. Assim buscamos neste texto demonstrar que a presença desses e dessas especialistas representam formas de resistência e autonomia das comunidades, referendada por seus valores culturais.

Práticas Tradicionais de Cura e o SUS

Atualmente no Brasil práticas tradicionais de cura foram “reconhecidas” pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que incorporou a possibilidade de práticas e técnicas tradicionais e populares através das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, enquanto política pública de atenção primária e promoção da saúde. As práticas integrativas estão regulamentadas no Brasil desde 2006, por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares.

Em vários países, a associação entre os diferentes tipos de tratamentos modernos disponíveis e as práticas populares e tradicionais de saúde tem sido uma das abordagens mais promissoras e eficazes para o tratamento das doenças, especialmente daquelas das camadas populares que vivem à margem dos serviços modernos de saúde e de seus medicamentos quimicamente definidos e estudados (Di Stasi, 2007, p. 10).

Na história da saúde pública brasileira a prática dos/as benzedores/as e do uso de ervas tem uma significativa relevância para a promoção da saúde da população, em especial para o povo rural, tradicional ou vulnerável. Essa cultura passou (e passa) por vários desafios para resistir frente à cultura hegemônica, biomédica e alopática. Apesar das políticas que favorecem e aprovam o uso de plantas medicinais, é preciso a conscientização da população para compreender as vantagens e desvantagens do uso e a forma adequada de fazê-los. Deve-se considerar também a efetiva incorporação das mesmas nos serviços de saúde e o conhecimento pelos profissionais de saúde, a fim de orientar a população para o uso, riscos e benefícios. Mas cabe lembrar que para a população sem acesso aos processos educativos ou conhecimentos preventivos de cura, a presença de benzedeiras e benzadores é pensada como fundamental como ato de cuidado de apoio.

[...] é igual a escola a gente não tinha recurso para ficar indo em médico, procurando auxílio, o SUS não era como ele é hoje, ao alcance de todo mundo. Então, o benzedor era aquela pessoa que dava o suporte imediato, era quem a gente poderia contar para tomar um chá, pedir uma ajuda e se estava com algum problema. Infecção no olho, já tinha a receita do que colocar. Então aquilo ali era o atendimento mais próximo” (Entrevistada, Guimarães, 2023)

Benzedura e Ritual

A benzeção (benzedura) é compreendida por seus praticantes, sejam pacientes ou as/os benzedeiras/dores, como uma forma de ritual que envolve conhecimentos transmitidos por gerações passadas, pelos antepassados do/a benzedor/a, e por isso mesmo validado pela comunidade. Conforme Peirano (2003):

O ritual é um sistema cultural de comunicação simbólica. Ele é constituído de sequências ordenadas e padronizadas de palavras e atos, em geral expressos por múltiplos meios. Estas sequências têm conteúdo e arranjos caracterizados por graus variados de formalidade (convencionalidade), estereotipia (rigidez), condensação (fusão) e redundância (repetição). A ação ritual nos seus traços constitutivos pode ser vista como ‘performativa’ em três sentidos; 1) no sentido pelo qual dizer é também fazer alguma coisa como um ato convencional [como quando se diz ‘sim’ à pergunta do padre em um casamento]; 2) no sentido pelo qual os participantes experimentam intensamente uma performance que utiliza vários meios de comunicação [um exemplo seria o nosso carnaval] e 3), finalmente, no sentido de valores sendo inferidos e criados pelos atores durante a performance [por exemplo, quando identificamos como “Brasil” o time de futebol campeão do mundo] (Peirano, 2003, p. 11).

Os dados de nossas pesquisas também demonstram que as formas de cura pela benzeção e uso de plantas também envolvem processos cognitivos, de experiências que representam o conjunto de feitos e saberes, que sempre serviram como outras formas de cura para uma população que sempre foi afastada e mantida afastada dos processos de cura preconizados pelo mundo urbano e pelas políticas públicas. Assim, as benzeções além de representarem tradições, são formas de manutenção da vida de grupos fragilizados socialmente, mas que produziram formas próprias de cura que são formas de resistência, e se manter vivo é a primeira forma de resistência.

Como diria uma entrevistada:

“Eu acredito que além do papel espiritual, tem um papel importante a tradição de benzer. As pessoas que procuram por benzimento são pessoas que estão tristes, doentes, querendo desabafar e precisando de uma cura, livrar toda dor do peito de tudo o que um dia não falou para alguém.” (Entrevistada, Guimarães, 2023)

As orações são formas de narrações que buscam a cura. Todo “saber-usar”, seja material (plantas medicinais) ou imaterial (orações), não pode se traduzir numa ideia de propriedade ou de acúmulo, mas quem sabe tem que cuidar; uma das maneiras de cuidar é não profanar e manter a reciprocidade ritualística, ou seja, a troca. A cura envolve “trocas” sociais e culturais que visam a manutenção da vida coletiva do grupo. Neste sentido na coleta de plantas medicinais, em épocas mais antigas, evitava-se coletar mais do que se precisava, pois é necessário manter o equilíbrio entre a ação humana e a natureza aqui representadas pelas plantas, e isso se refere a uma ordem clara, ou seja, se várias pessoas precisam de plantas e orações, seria uma indicação de falta de fé, de falta de reciprocidade e de respeito para com os outros moradores e moradoras, ao retirar o acesso a estes recursos por uma ideia de posse privada.

Esta preocupação com o que é bom para a comunidade presente, desde que não prejudique ou inviabilize a comunidade futura, é justamente o que a humanidade de hoje precisa urgente e impreterivelmente - recuperar. A preocupação com o futuro se revela em muitos campos da tradição popular por uma atitude verdadeiramente religiosa de respeito à natureza (respeito este muitas vezes mal compreendido pelas pessoas intelectualizadas, rotulado como "superstição"). Numa pesquisa realizada no Noroeste de Minas Gerais (11:93) constatou-se, por exemplo, que os informantes (um casal de benzedores/curadores de plantas) "não estocam vegetais, por mais longe que estes se achem (e às vezes sucede encontrarem-se os mesmos a um dia de distância); em vez disso, só os recolhem quando é preciso, na quantidade necessária destacando a parte da planta a ser usada, e, na medida do possível, evitando a morte do exemplar. (Carvalho et al., 1982, p. 54)

Pensando com as Benzedeiras e os Benzedores

As práticas populares e as suas bases epistemológicas se assemelham ao "pensamento mítico". Principalmente no que se refere a uma ética de não acumulação. A cura é um processo conjunto entre benzedor/a e paciente, e quando necessário a planta, porém a cura vem de Deus. A relação com a planta por parte dos/as benzedores/as que as utilizam é de respeito e gratidão, pois ela é expressão do divino (criador). A benzedura e o uso de plantas são instrumentos epistemológicos pois envolvem o saber usar e como pensar este uso. Para alguns benzedores/as não se pode acumular plantas, só o necessário para uso.

Tanto no “mato” quanto no quintal, as plantas são coletadas segundo a necessidade. Dificilmente são armazenadas, guardadas. Somente quando há uma sobra de alguma raiz ou casca. Quanto as sementes, estas são guardadas com mais frequência certamente por sua sazonalidade e facilidade de armazenar. Uma entrevistada mostrou um frasco de sementes de cardo-santo (Cnicus benedictus L.) que aprendeu a guardar e a preparar com sua mãe... (Gutierrez, 2015, p. 50)

Este dado é importante pois demonstra a ideia de não acumular, mesmo o armazenamento de sementes não significa uma ideia de acúmulo, mas a forma de uso da planta que se dá pela sua semente, a conservação de sementes é uma prática muito antiga da humanidade que não fere o processo de reprodução da planta, pois coleta-se o necessário para o uso. Essa prática no nosso entender marca a vida das comunidades rurais.

O processo de cura é um processo educativo para a maioria dos povos tradicionais, pois localiza o ser humano no fluxo da vida, e não como centro da vida. Nos parece ser este o ensinamento fundamental destas práticas de cura. Assim a fé não seria apenas uma potência do indivíduo, mas sim sua obrigação e responsabilidade, como uma maneira de acalmar seu ego, assim como o ego do agente/mediador da cura. Esta característica se vincula em uma perspectiva epistemológica que envolve as práticas e saberes dos/as benzedores/ras com o "pensamento mítico".

Ainda com Lévi-Strauss (1975) que ao nos lembrar que,

A cura consistiria, portanto, em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos, e aceitáveis, pelo espírito, dores que o corpo se recusa a tolerar. O fato de a mitologia do xamã não corresponder a uma realidade objetiva não tem importância, pois que a paciente nela crê é o membro de uma sociedade que nela crê [...] a paciente os aceita ou, mais precisamente, jamais duvidou deles. O que ela não aceita são as dores incoerentes e arbitrárias que constituem um elemento estranho a seu sistema [...] a paciente, tendo compreendido, faz mais do que resignar-se, ela fica curada. (Lévi-Strauss, 1975, p. 213)

Ou como comenta um usuário de benzeção:

“Desde que eu entendo por gente, que eu conheço os benzedores. Por eu ser de uma família pobre, a renda nunca sobrava para fazer algum outro tratamento. Então o benzedor era aquela pessoa mais próxima que a gente ia para pedir uma oração, um benzimento e até mesmo a indicação de um chá que poderia tomar para ajudar naquele mal que a gente enfrentava naquele momento.” (usuário entrevistado, Guimarães, 2023)

No que se refere ao benzimento e uso de plantas medicinais existe, segundo nossos dados de campo, a indicação de funções da mulher e do homem em relação às plantas. As plantas que são cultivadas em quintais são respeitadas mas podem ser usadas sem muito controle de salvaguarda de espécie, pois são cultivadas pelo benzedor e pela benzedeira, podendo ser coletadas por mulheres. Mas outras plantas da mata e da floresta são coletadas, principalmente, por homens, seguindo alguns preceitos éticos como a observação da lua e a quantidade colhida, assim como orações indicando a finalidade de uso. Pois esta coleta muitas vezes é pensada como “caçar”:

As plantas do mato são coletadas principalmente pelos homens, mas as mulheres também coletavam e demonstravam conhecer bem as plantas. Como a maioria das pessoas entrevistadas são idosas, sua queixa maior quanto à coleta é o fato de não conseguir, não aguentar mais ir até a mata coletar as plantas. Filhos e netos que moram nas proximidades que conhecem e se interessam, fazem a coleta quando necessário:

- Agora é que eu não estou sentindo bem porque eu não estou podendo ir nas matas caçar os remédio. Não estou sentindo bem as pernas, não está tudo boa. Não pode subir morro a perna, não pode subir morro, como é que faz? Agora é preciso eu mandar ir buscar. Ensinar qual é, falar qual é, para não buscar raiz brava. Para vir tudo mansa (Entrevistada Losna) (Gutierrez, 2015, p. 43) (Grifo nosso).

Compreendemos que essa divisão entre funções realizadas por mulheres e homens de comunidades rurais da região do Vale do Mucuri (Minas Gerais) em coletas de plantas indicam uma moral de não acumulação que se traduz pela fé e respeito, além das condições reais da coleta por parte das participantes da entrevista, que devido a idade evitam buscar plantas nas matas, mas orientam os homens na coleta correta. Como ocorre por exemplo na observação da lua:

Existem alguns critérios para a coleta de raízes que nem todas as pessoas entrevistadas seguiam, mas duas pessoas mencionaram a lua como fator determinante.

Não, na lua nova não, eles tiram mais é na minguante. Falam: “ah, agora eu não vou poder procurar não que a lua nem está boa da gente procurar remédio” - eles fala é assim. (Sálvia) (Grifo nosso)

O cuidado das raízes é sobre a lua. Meu pai falava e eu passei a acompanhar muito, aprendi com ele que a lua, você tem que tirar a raiz é na lua minguante pra ela não fazer mal. (...). Na lua forte, a raiz fica brava, não pode tirar com a lua forte, não. Nem na nova, nem na crescente e nem na cheia, só na minguante. Eu não tiro pra mim nem pra ninguém. (Macaé) (Grifo nosso) (Gutierrez, 2015, p. 44)

A descrição da função das fases da lua, que marca a vida rural tradicional, em relação a raiz é exemplo de um conhecimento que controla o tempo da coleta das raízes, não se pode coletar em qualquer momento, é preciso um tempo para que a planta “vire remédio”, então o respeito pelo tempo, dado pela lua, em relação a planta, é fundamental para a funcionalidade terapêutica da planta, assim como controle de coleta. A autora que citamos (Gutierrez, 2015) enfatiza que só duas pessoas entrevistadas se referiram a influência da lua na coleta das plantas, compreendemos que esta informação indica que o conhecimento pleno e mais complexo do uso de plantas começa a se fragilizar na comunidade pesquisada, ou seja, a cadeia de transmissão de conhecimento sobre as plantas deve ter sido interrompida, por algum fator social e cultural, por isso que cada vez mais, em comunidades tradicionais, se tem a presença de especialistas, de mestres que guardam e resistem na manutenção desse conhecimento, mas que muitas vezes não tem para quem transmitir.

Como nos lembra um autor clássico:

O pensamento mágico não é uma estreia, um começo, um esforço, a parte de um todo ainda não realizado; ele forma um sistema bem articulado; independente, nesse ponto, desse outro sistema que constituía a ciência, salvo a analogia formal que os aproxima e que faz do primeiro uma espécie de expressão metafórica do segundo. Portanto, em lugar de opor a magia e ciência, seria melhor colocá-la em paralelo, como dois modos de conhecimento desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos (pois, desse ponto de vista, é verdade que a ciência se sai melhor que a magia, no sentido de que algumas vezes ela também tem êxito), mas não devido a espécie de operações mentais que ambas supõem e que diferem menos na natureza que na função dos tipos de fenômeno aos quais são aplicadas (Lévi-Strauss, 1989, p. 28).

 

CONCLUSÃO

Entre Fissuras

Me lembro em viagens para as cidades do sul de Minas Gerais, em especial Aiuruoca e Liberdade, em conversas com homens e mulheres das “roças”, dessa região, que versavam sobre o modo de plantar e as relações com as plantas. Isto surgia nas falas, a percepção de que as plantas tinham relações com suas plantadoras e seus plantadores, desde a semente ou da muda que se coleta ou se ganha; evita-se comprar plantas que curam. Relação esta que envolve mãos, terra, plantas, rios, ar, vento, lua, sol, frio, chuva, neblina entre outros seres ativos que envolvem o ato de plantar e de se relacionar com o já plantado, ou seja: o que o ser humano não plantou, o que se encontra plantado, a mata nativa. A sua dimensão selvagem é de caráter paradoxal pois, ao mesmo tempo, representa o que Deus fez e deixou: sendo, portanto, digno de respeito religioso; ou como algo que precisa ser vencido, ser destruído. Nestas visões de fundo ocidental a natureza sempre tem uma existência passiva.

Apesar desta dualidade, que caracteriza o modo de fazer e pensar ocidental, os argumentos que expressavam as ideias e o modo de fazer das pessoas com as quais dialogava apresentavam, de modo diferente, uma percepção de natureza ativa e viva e, principalmente, que se pensa.

 A natureza selvagem encontra-se inextricavelmente ligada à trama do eu e da cultura. O “pós” do termo “pós-humanismo” tem seu fulcro na palavra “humano”. O diálogo a encetar em seguida é entre todos os seres vivos, com vista a uma retórica das relações ecológicas. Isto não significa abandonar o humano: o “objecto de estudo do próprio da humanidade” é o que significa ser-se humano. Não basta mostrarem-nos na escola que somos aparentados com todos os outros animais: temos de o sentir inteiramente. Então poderemos também ser singularmente “humanos” sem termos a sensação de um qualquer privilégio especial. (Snyder, 2018, p. 93-94).

Ao se compreender que uma das características de algumas plantas que curam é sua capacidade de nascer em espaços baldios, frestas de paredes ou calçadas, em espaços degradados ou com restos de construções e por isso algumas espécies, como quebra pedra, mastruz, são assim consideradas rudeiras. Dessa forma dialogar e falar sobre algumas plantas medicinais, como nos lembra Tsing (2022), é também refletir sobre as fissuras como campos de possibilidades de não domesticação, da resistência do diverso de uma dimensão selvagem e por isso mesmo não domesticada, apesar de se encontrar incrustada, mas não assimilada pela ordem do capital enquanto fenômeno monocultural, avesso a diversidade não domesticada.

O pensar das raizeiras e benzedeiras sombreia o sagrado e o profano. Neste sentido palavras ouvidas de amigos antigos que hoje se encontram mortos, amigos habitantes de roças, mulheres e homens lavradores/as, me voltam aos ouvidos da memória e consigo me lembrar, no tom e no sotaque, das palavras como nesta conversa com Seu Tião (hoje falecido) do Bairro da Pedra, em Aiuruoca (Minas Gerais):

- Seu Tião, como o senhor planta seu milho? Quais cuidados?

- O milho tem muitos inimigos, desde a semente, pois quando plantamos a semente no chão tem pássaros que cavucam e as comem, quando começa crescer tem formiga e outros bichinhos, quando tá grandinha capivara come, entre outros , quando tá com espiga tem macaco que come.

- E aí, como faz? Seu Tião!

- Todos comem, se planta prá todos, se plantar prá todos mantém o milho.

Esta versão da minha memória de uma antiga conversa permaneceu pelo fato de o milho ser pensado como algo possuidor de perspectiva e sentidos, se o milho tem seus inimigos deve ter seus amigos, Seu Tião parecia ser um deles. Claro que nessa troca multiespécie as vidas se alimentam de si mesmas.

Neste sentido o artigo aqui trabalhado tem como intenção demonstrar os encontros entre ervas, orações e humanos em processos de cura no ato de benzeções e nos remédios oriundos de plantas manipuladas por benzedoras e benzedores, compreende-se que esse encontro no momento da cura é um encontro, neste caso pensado, mas nem por isso ausente de acasos, entre humanos e ervas e orações. Elas curam, as orações e as ervas, mas este processo de curar é um diálogo entre a planta, quem cura e quem recebe a cura, a responsabilidade de cada um os coloca num plano ontológico comum, apesar das diferenças somáticas e de percepções. Responsabilidade que o praticante aprende com a benzedora e ou benzedor e com a planta. E a benzedeira com as plantas e as plantas com todos, a planta é o encontro.

A pesquisa também demonstra que as formas de cura pela benzeção e uso de plantas também envolvem processos cognitivos, de experiências que representam o conjunto de feitos e saberes, que sempre serviram como outras formas de cura para uma população que sempre foi afastada e mantida afastada dos processos de cura preconizados pelo mundo urbano e pelas políticas públicas. Assim as benzeções e uso de plantas indicam formas de manutenção da saúde de comunidades que produziram formas próprias de cura, que são formas de resistência diante de uma condição social que resiste aos modelos das relações mercantilizadas que moldam as relações sociais de cura no sistema capitalista. Se manter vivo é a primeira forma de resistência. Assim as plantas e as palavras em forma de oração, são ativas nos processos de resistência e nas relações sociais de comunidades “mais que humanas”. É como se as plantas trouxessem essas comunidades humanas para as fissuras que possibilitam outras existências diversas, as comunidades humanas se tornam rudeiras.

Para finalizar fazemos uma citação que, apesar de seu tempo de escrita, permanece valiosa e corrobora com a perspectiva aqui aventada de um saber tradicional primevo que fundamenta as práticas de cura (benzeção e plantas).

O interesse da Antropologia numa pesquisa como esta não se limita aos efeitos práticos de uma reavaliação das plantas medicinais. Estes efeitos só poderão beneficiar realmente a população, e não as multinacionais, quando a medicina se tornar socializada, quando houver um apoio muito grande a pesquisas nacionais alimentando uma indústria farmacêutica sem fins lucrativos, voltada para o atendimento do povo e para a divulgação de todas as informações, constituindo-se realmente numa medicina preventiva. O interesse em aspectos específicos das práticas populares reside em que essas práticas podem nos fornecer lições preciosas, uma vez que — sendo elas quase tão velhas quanto a humanidade — seus elementos essenciais se formaram no decorrer do longo período em que todos os povos da terra constituíam comunidades simples. Nessas comunidades já pelo fato de não se encontrar nem a propriedade individual do solo, nem a preocupação do enriquecimento individual ou da herança de bens materiais, a realização do indivíduo era canalizada prioritariamente para a solução dos grandes problemas referentes à continuidade da espécie, à garantia de sobrevivência das gerações futuras através de técnicas longamente testadas. (Carvalho et al., 1982, p.53-54)

Frei Chico (Poel, 2018), um grande pesquisador da Cultura do vale do jequitinhonha em sua porção em Minas Gerais, dizia que sem a fé num Deus vivo, qualquer religião perderia o sentido. A experiência religiosa leva o povo a criar formas culturais para celebrar seu encontro com o sagrado, ele ainda complementa com os seguintes dizeres: “A cultura popular não costuma separar vida e religião. Tudo é feito com a fé num Deus vivo e presente. O povo que recebe a graça da revelação tem autonomia para responder e criar formas de culto.” (Poel, 2018 p. 7 e 8).

Compreendemos que as plantas que curam, curam porque participam de uma narrativa e porque possuem uma narrativa que se expressa no encontro da lua com a planta que incorpora narrações de intencionalidades e necessidades, tanto para o humano como para o não humano, onde podemos perceber as perspectivas de multiespécie na cura, no nosso caso, do ser humano.

Nas benzeções (formulas narradas) os mestres e as mestras benzedeiras e benzedores, sempre alertam para a necessidade da mudança de atitude diante das dificuldades da vida, ter fé por parte do/a paciente é o princípio da cura. Para ocorrer a cura se faz necessária uma atitude de equilíbrio por parte do doente e também de quem cura. O mesmo se dá com o uso de plantas como remédios. Respeitar a planta é um dos princípios fundamentais, pois a planta é um instrumento de Deus e sua potencialidade de cura se dá pela fé. A fé, apesar de ser uma atitude humana, descentraliza o poder humano, pois a cura em si não seria um ato humano isolado, mas um ato em conjunto que envolve a natureza (plantas) e o divino (Deus) e as palavras (humano). Assim podemos traçar uma linha tênue entre a ética da fé advinda da benzedura que envolve a necessária troca entre vidas e mundos, que enlaça humanos e não humanos, que visa manter no imaginário visões de mundo (cosmovisão), uma percepção da “natureza” em que o humano se insere na troca e na partilha para com as outras formas de vida e, no nosso caso, com as plantas consideradas curadoras. Assim a distribuição de plantas pelo SUS precisa envolver não só um carimbo da ciência alopática e biomédica, mas também os saberes que tornam essas práticas sociais de cura integrativas e complementares aos saberes biomédicos, observamos aí ainda a prevalência de um saber sobre o outro.

Notas de la ponencia:

ABNT - Associação Brasileira de Notas Técnicas.

Bibliografía de la ponencia

Carvalho, S. M. S.; Delgado Sobrinho, A. T.; Ravagnani, O. M. Transmissão e cura da arte de benzer e curar com plantas. Perspectivas, São Paulo, v. 5, p.53-72, 1982.

Guimarães, Bárbara Maciel. Entre práticas e rezas: a intermediação das plantas medicinais para o benzimento e consumo, por benzedores na cidade de João Pinheiro – MG. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Saúde, Sociedade e Ambiente - PPGSaSA/UFVJM. 2023

Gutierrez, D. F. Plantas medicinais, cultura e saúde nos quintais rurais do Vale do Mucuri. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Saúde, Sociedade e Ambiente - PPGSaSA/UFVJM. 2015. Disponível em: http://acervo.ufvjm.edu.br/jspui/handle/1/1057

Lévi-Strauss, C. O pensamento selvagem. 7. ed. Campinas: Papirus, 1989.

Lévi-Strauss, C. Antropologia estrutural. Tradução Beatriz Perrone-Moisés. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975, 456p.

Peirano, M. G. S. A análise antropológica de rituais. Departamento de Antropologia, Universidade de Brasília, 2000.

Poel, F. V. D Com Deus me deito e com Deus me levanto. São Paulo: Paulus, 2018.

Snyder, Gary. A prática da natureza selvagem. Lisboa: Editora Antígona, 2018.

Tising, Anna Lowenhaupt. O cogumelo no fim do mundo: sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. São Paulo: N1 edições, 2022.