Violências e desigualdades entre torcedores no futebol do Rio de Janeiro

SP.1: Haciendo antropología: Cruces y encuentros desde la experiencia de investigación etnográfica a nivel doctoral en América Latina y el Caribe

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Raquel de Oliveira Sousa UERJ

Introdução

            Ao pensar na cultura brasileira, quais elementos mobilizam e integram indivíduos de diferentes estratos sociais, em geral, se referencia ao carnaval e ao futebol. Se concentrarmos, para além dessa integração, no elemento cultural, que move multidões emocionadas, que une, que gera sociabilidades, que colabora para brincadeiras, “zoações” (Gastaldo, 2006) de forma mais abrangente e no decorrer de todo o ano, podemos apontar o futebol. A representação de ser agregado a um corpo que impulsiona, de fazer parte de uma torcida de um clube, com características em comum e quais os outros clubes que são seus adversários contribuem para definir relações sociais e auxiliam na construção de identidades.

Essas são algumas motivações pessoais para me dedicar a essa pesquisa. Analisar as sociabilidades geradas pelo futebol, espaço no qual integra diferentes pessoas da sociedade, e a atuação institucional sobre essa relação social. Todavia, ao ter um olhar mais atento é possível perceber que a presença da torcida nos estádios brasileiros sempre foi marcada por diferentes setores, com condições de visibilidade e valores de ingresso variados, mesmo em períodos históricos que os estádios de futebol eram mais populares.

Esse artigo se dedica a analisar as desigualdades presentes no ambiente dos estádios de futebol do estado do Rio de Janeiro, especificamente no estádio do Maracanã. Observando o ambiente interno do estádio, em jogos de futebol masculino. O trabalho possui como base a etnografia realizada com os operadores de segurança e justiça especializados na atuação em eventos de futebol e análise documental.

A escolha pela observação a partir do estádio do Maracanã se dá pela relevância histórica e social desse estádio que sediou duas copas do mundo e por estar no Rio de Janeiro, local que foi realizada a pesquisa com as instituições que atuam na segurança e justiça no meio esportivo. Outra motivação a ser destacada é devido a esse estádio ter sido criado para a inclusão de diversas classes sociais, apesar de manter as distinções de visibilidade e conforto do jogo (Monteiro, 2001).

As conclusões deste trabalho apontam para os contrastes nos diferentes setores do Maracanã e a atuação de instituições estatais nesse ambiente que aparentemente é inclusivo, no entanto, é fortemente marcado por distinções e status de hierarquia.

Metodologia

            O recurso metodológico aportado para a confecção desse artigo se dá pela etnografia com observação participante (Geertz, 2008; Foote Whyte, 2005) e análise de conteúdo (Bardin, 1977; Cardoso, Oliveira, Ghelli, 2021). A etnografia possui duas etapas: a primeira realizada entre maio a abril de 2019, no Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios (BEPE), vinculado à Polícia Militar do Rio de Janeiro, para a pesquisa empreendida durante o mestrado. Essa etapa se assemelha um pouco com o conceito de “participação observante” de Wacquant (2002), dadas as devidas proporções, pois ele se tornou um pugilista e não me tornei uma policial, apesar de ter participado de muitas etapas da atuação do BEPE (tanto no trabalho no interior do batalhão, como nos dias de jogos e até mesmo na formação dos policiais no Xº Curso de Policiamento em Praças Desportivas).

A segunda etapa do trabalho etnográfico, ainda em curso durante o doutorado, se dá com as instituições que compõem o Juizado Especial do Torcedor e de Grandes Eventos (Polícia Civil, Defensoria Pública, Ministério Público, Judiciário), iniciada em novembro de 2022. Até o momento, foram realizadas entrevistas com representantes do Ministério Público. Assim como foram realizados acompanhamentos do trabalho da polícia civil e da defensoria pública nos dias de jogos e dos demais órgãos em audiências ocorridas no Juizado Especial do Torcedor.

Outro recurso metodológico de caráter qualitativo empreendido para esse trabalho se dá pela análise de conteúdo, em especial, a análise de documento. O tipo do documento analisado é o plano de ação do BEPE, disponibilizado para mim durante a primeira fase etnográfica. Nesse documento são discriminados quantos policiais do BEPE ficarão em cada local do estádio e quantos policiais de apoio (efetivo de outros batalhões) estarão com ele. É importante afirmar que o BEPE atua no perímetro interno e externo dos estádios cariocas, em especial, nos jogos de futebol masculino dos quatro clubes de maior investimento no Rio de Janeiro: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama.

Desenvolvimento

Pessoalmente, comecei a acompanhar o futebol em 2008. Por esse motivo, não conheci, presencialmente, o estádio do Maracanã no período em que existia o setor denominado de “geral”. Geral pode ser considerada como uma gíria brasileira para designar um todo de pessoas, um grande grupo. No contexto do Maracanã, esse era um setor que era praticado um preço de ingresso baixo, esse setor era ocupado por pessoas de estratos socioeconômicos mais baixos. Porém, durante o trabalho de campo, em entrevistas, relatos em conversas informais e memórias afetivas sobre o estádio conhecido como Maracanã, esse setor sempre é mencionado. Geralmente, retratado de modo conflituoso, ora com certo saudosismo e ora com falas de como era um “lugar perigoso”. Esse alerta de perigo foi anotado em meu caderno de campo a partir de relatos e esteve presente em ambas as fases etnográficas. Alguns relatavam confusões, outros que havia muito furto. A maioria afirmava sobre a péssima condição de visibilidade do jogo e a marcante presença da torcida popular, também chamada de “povão”, nesse setor.

É importante destacar que a configuração dos setores do estádio Jornalista Mário Filho, mundialmente conhecido como Maracanã, passou a ser alterada para o recebimento de uma série de eventos esportivos que o Rio de Janeiro sediou nas primeiras décadas dos anos 2000 (desde o pan-americano de 2007). A alteração no modelo dos estádios foi uma tendência internacional que observaremos a seguir.

Grandes eventos e a modernização dos estádios

            Os grandes eventos foram responsáveis por alterações marcantes em várias esferas do Brasil e especificamente no Rio de Janeiro. Houve alterações na organização da cidade do Rio de Janeiro, na mobilidade urbana, impactos econômicos e, também na segurança pública (Castro et al., 2015). Foi um período marcado também por remoções de pessoas de suas casas, para a realização de obras para os eventos. No Estado foram criadas as UPPs que instaladas em locais estrategicamente selecionados, seja em termos geográficos, econômicos e sociais ou por proximidade dos locais dos jogos, ou por pontos turísticos da cidade (Castro et al., 2015, p. 150).

Em relação ao BEPE, à época GEPE (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios)[1], os grandes eventos também trouxeram grande mudança para a unidade. Para pensarmos as mudanças que os grandes eventos trouxeram para o GEPE/BEPE devemos fazer um exercício de observação de um evento anterior a estes da década de 2010, desde a preparação para o Pan-americano de 2007 e o processo de modernização dos estádios impulsionado ao longo de toda década de 1990 no exterior. No Brasil o efeito deste impulso começou a ser sentido durante a segunda metade da década de 1990 e na década de 2000.

De acordo com Simões (2017) a modernização dos estádios passou por duas etapas, são elas:

 1) A modernização baseada no modelo inglês de futebol após as tragédias de Heysel, em 1985 e a de Hillsborough, em 1989[2] com a qual se busca uma reconfiguração da estrutura do modo de torcer. Há uma remodelação dos estádios com o modelo “all-seated” em que não há arquibancadas, somente cadeiras, forçando os torcedores a assistirem à partida, sentados. Segundo o autor, a finalidade deste modelo é “[...] o controle absoluto sobre o comportamento das torcidas [...] e a majoração excessiva do preço dos ingressos [...].” (Simões, 2017, p. 136) tolhendo e criminalizando a atuação festiva dos torcedores, classificando-os enquanto hooligans, em referência aos torcedores, principalmente britânicos, que se enfrentavam em brigas corporais pelas ruas; além do progressivo aumento do valor dos ingressos com a justificativa de evitar estes torcedores nos estádios. 

2) A “arenização” dos estádios, transformando-os em locais multiuso, as “arenas multiuso”, com restaurantes, lojas, e espaços que para além de eventos esportivos; são utilizados para shows, por exemplo. Esta segunda etapa possui grande influência estadunidense de outros esportes altamente monetizados, como o basquete, com a liga National Basketball Association (NBA); o futebol americano, com a National Football League (NFL); o hóquei, com a National Hockey League (NHL); e o baseball, com a Major League Baseball (MLB) (Simões, 2017). Este modelo foi o escolhido pela FIFA como “[...] pré-requisito para a realização das suas competições [...]” (Simões, 2017, p. 142), na Copa de 2014 aqui no Brasil e “[...] principalmente, como elemento de mobilização e articulação de distintos atores políticos e econômicos.” (Simões, 2017, p. 142); apresentando assim, de maneira marcante a atuação das esferas política e econômica no futebol.

O caráter econômico no futebol está cada vez mais marcante e perceptível. Os estádios se tornam “espaços insulares” onde os “indesejáveis” são alijados (Mascarenhas, 2013). Estes movimentos são fruto da inserção da lógica neoliberal no futebol; instituindo uma indústria do espetáculo. Nesta lógica o torcedor se torna um consumidor, cliente e “figurante”, pois a presença dos torcedores ativos não são desejáveis e, esses são classificados como “agressivos e imprevisíveis” (Mascarenhas, 2013).

 

[...] num estádio popular, a cobrança do torcedor é maior, seja pela maior quantidade de espectadores, seja pela atitude ruidosa própria dos indivíduos das camadas populares. Um público menos apaixonado, menos “viril” e mais comportado, típico dos modernos estádios, é certamente mais adequado aos grandes interesses envolvidos no novo formato de futebol espetáculo. (Mascarenhas, 2014, p. 170).

 

Essas novas relações neoliberais do futebol alteraram compulsoriamente os estádios, os clubes, os jogadores e as torcidas, como aponta Simões (2017). As antigas exclusões socioculturais, que separavam as cadeiras numeradas, as arquibancadas e a geral, são alteradas pelas exclusões estritamente socioeconômicas (Ferreira, 2018).

Observando esta modernização no Rio de Janeiro

É possível perceber este movimento de modernização e “arenização” no Rio de Janeiro. Para o recebimento do Pan-americano foi construído o estádio olímpico Nilton Santos, chamado, à época João Havelange, já em um molde de um estádio moderno, inaugurado em 2007 (Simões, 2017). Apesar do estádio Nilton Santos ter sido construído neste formato all-seated repleto de cadeiras em todos os setores, muitos estádios no Rio de Janeiro não se moldaram a este formato; podemos citar o Estádio São Januário, do Vasco da Gama; Estádio Proletário Guilherme da Silveira, do Bangu; e alguns no território do estado do Rio de Janeiro, como o Estádio Giulite Coutinho, do América; e o Estádio Municipal Alair Corrêa, usado pela Cabofriense. Todavia, dentre os estádios mais utilizados no Rio estão o Maracanã, o Nilton Santos e o São Januário, o único dos três que não seguiu este modelo.

Dentre todos os estádios do Rio de Janeiro o que mais sofreu alterações foi o Estádio Jornalista Mário Filho, conhecido como Maracanã. Este estádio foi construído para a Copa do Mundo de 1950, sediada aqui no Brasil. Erguer este monumento tornou-se um símbolo de pujança da nação brasileira, como a autora ressalta, “O estádio será, simultaneamente, um monumento fundador, inaugurando uma nova etapa dos esportes no Brasil, e arquitetônico, testemunho da capacidade de trabalho do povo brasileiro.” (Moura, 1998, p. 39).

Como “prova” desta capacidade, o estádio (que na época era de administração Municipal) foi construído em menos de dois anos em uma obra pública e, inaugurado enquanto o maior estádio do mundo do período. Na ocasião, o presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD)[3], Mario Pollo, afirmou sobre a integração social que o estádio se pretendia “[...] Hoje, que o estádio está aí, na visão real de um sonho de visão, devemos fazer votos para que ele represente a ligação permanente entre os brasileiros de todas as condições sociais.” (Moura, 1998, p. 46).

Apesar da inclusão de diversas classes sociais, havia as distinções socioculturais, como é apontado por Ferreira (2018). A própria Moura aponta em seu livro que o grandioso estádio incorporava diferentes torcedores, “[...] apesar de ter locais com preços e confortos diferenciados.” (Moura, 1998, p. 69). Havia ali diversos setores, desde os mais populares, de ingressos acessíveis, como a geral, em que a área de observação do jogo era ruim e que só poderia assistir ao jogo em pé. Os de valor intermediário como a arquibancada, em que tinha uma condição um pouco melhor que a geral e as famosas cadeiras azuis onde havia o maior conforto, que assistia ao jogo sentado, ao passo que o valor do ingresso era mais caro[4]. Entretanto, com o passar dos anos, este cenário foi sendo remodelado ao seguir os padrões de modernização e “arenização”.

Sua primeira grande alteração se deu na obra de 2005, para o Pan-americano de 2007 em resposta a esta primeira etapa de modernização, como tratada por Simões (2017). Então foi extinto o setor mais popular do estádio, a famosa “geral do Maracanã” [5] (Ferreira, 2018). É importante destacar que este setor popular já havia sofrido ataques durante o governo de Marcelo Alencar a geral foi desativada até 1999 por não estar adequada às recomendações da FIFA (Monteiro, 2001). Durante o governo de Marcelo Alencar o GEPE também foi extinto, ambos (a geral e o GEPE) retornaram no mesmo dia 20 de janeiro de 1999, em um clássico entre Flamengo vs Fluminense.

Apesar de ter passado por reformas para o evento a nível continental em 2007, que acabou com a geral e adotou o modelo all-seated, com cadeiras em todos os setores, ainda manteve a estrutura geral do Maracanã com os níveis inferior e superior. Em 2010, apenas três anos depois, houve outra grande obra. Para os grandes eventos da década de 2010 o estádio sofreu alterações em sua estrutura, foram extintos os anéis superior e inferior dispostos em sentido diagonal, como nas arenas modernas. Apesar de não haver mais os dois anéis, ainda há uma diferença de níveis. Esta alteração da estrutura do estádio é exemplo da “arenização”, mais uma arena multiuso, como tratado por Simões (2017). Estas obras principalmente a ocorrida em 2010 associadas ao grande aumento do valor dos ingressos são frutos dos novos parâmetros capitalistas e de uma “nova economia do futebol” (Mascarenhas, 2014, p. 209). Nos quais, em linhas gerais, afastam os mais populares dos estádios.

Polícia para quem precisa de polícia

Os estádios, especialmente o Maracanã, foram forjados como um meio de identidade e pertencimento, um local para construção e expressão de uma coletividade, atualmente estes são “[...] microterritórios que contribuem, a seu modo, para ampliar e aprofundar os mecanismos de exclusão vigentes” (Mascarenhas, 2013). 

Estas obras estão associadas ao aumento do valor dos ingressos e uma série de alterações que afetam o policiamento do GEPE/BEPE. Durante o decorrer do trabalho de campo era perceptível a diferença dos locais em que o BEPE se postava. É válido ressaltar que o número de operadores de segurança públicos e privados varia de acordo com o apelo do jogo e com a expectativa de público estimada. 

Durante a minha etnografia, ao caminhar pelos diversos setores do estádio do Maracanã é notória a distinção da presença dos policiais do BEPE, assim como da segurança privada (conhecidos como steward). Alguns setores, principalmente do estádio Maracanã são mais ocupados pela segurança do que outros, em geral, quanto mais popular, maior a presença dos agentes públicos e privados, principalmente os policiais.

Os setores Norte e Sul são os espaços atrás dos gols, costumeiramente, onde se localizam as torcidas organizadas, seja do clube mandante quanto o do visitante. Nestes setores, Norte e Sul, assim como no setor Leste, localizado em um dos lados da lateral do campo, de frente para a transmissão de televisão, em todos os seus níveis são os localizados os policiais e stewards.

No entanto, não há a presença aparente de policiais nos setores do camarote e do Maracanã Mais[6]. Foi um verdadeiro espanto a primeira vez que adentrei a área de acesso a estes espaços mais elitizados, dentro deste Maracanã já com claro perfil elitista. Há um belo espaço, com ambiente refrigerado e até com elevadores e escada rolante parecendo muito mais um Shopping Center do que um estádio de futebol. 

Esta área não conta com a presença visual da polícia e poucos stewards o que ressaltou minha atenção. Em contrapartida, os camarotes e o Maracanã mais contam com uma série de mulheres bem apresentadas, sorridentes, educadas e uniformizadas de salto alto e vestido, utilizam o rádio de comunicação[7]. Elas fazem o trabalho de segurança, orientação e ordenação desta área de circulação dos setores mais caros. Substituindo a presença dos policiais do BEPE e dos stewards, que ficam somente nas portas que separam os setores e próximo às cadeiras do setor do Maracanã Mais.

No período da primeira fase do trabalho de campo, me foi permitido o acesso de dois planos de ação[8]. O primeiro do clássico entre Fluminense e Botafogo, realizado no dia 11 de maio de 2019, pelo campeonato brasileiro e o segundo do jogo entre Venezuela e Argentina, no dia 28 de junho de 2019 pela copa América sediada no Brasil.

De acordo com os documentos há uma grande diferença de efetivo destinado para o policiamento interno. Com 97 policiais do BEPE e 123 policiais de apoio, no clássico, e somente 15 policiais do BEPE para o jogo da copa América. Isso se dá devido às diferentes recomendações transmitidas por cada um dos organizadores dos eventos. No caso específico, a CBF organiza o campeonato Brasileiro e a Conmebol organiza a copa América. Comparativamente com os torneios nacionais, em campeonatos internacionais, em especial, aqueles que envolvem seleções, o efetivo do BEPE não atua de modo tão presente no perímetro interno dos estádios.

Retomando ao espanto de ver um Maracanã completamente diferente ao ingressar no setor do Maracanã Mais, a surpresa foi ainda maior ao verificar que não havia nenhum policial designado, de acordo com o documento que define, com base no planejamento da unidade, qual é o número do efetivo do BEPE e de apoio destinado para cada setor. Não tinha tido acesso a nenhum plano de ação anterior, portanto não sabia dessa ausência policial. O local em que deparei a diferença mais notória entre o setor do Maracanã Mais e camarotes, em comparação com outros setores, foi onde o BEPE denomina de área de circulação.

Para fins comparativos, os setores norte e sul, locais mais baratos e onde as torcidas de cada time se localizam, o BEPE designa 44 policiais, 22 (composto por 6 policiais do BEPE e 16 policiais de apoio) em cada setor. A leste, setor misto, que pode ter a presença de ambas as torcidas contou com 15 policiais (composto por 4 policiais do BEPE e 11 policiais de apoio) nesse jogo. Enquanto no setor oeste, não há nenhum policial designado para esse posto.

Porém, essa distribuição do efetivo policial não é um fato recente. De acordo com relato de um sargento que durante o período do meu trabalho de campo tinha entre 6 a 10 anos de serviço no GEPE/BEPE, mesmo antes das reformas para os grandes eventos que o Rio de Janeiro sediou, já havia o padrão de menor policiamento para os setores mais elitizados[9].

Esta distinção da atuação policial até mesmo na maneira como o efetivo do BEPE é disposto dentro do estádio entra em diálogo com a categorização que ouvi durante a pesquisa de campo. De acordo com o termo nativo, no Rio de Janeiro existem três “categorias” de torcedores: os torcedores comuns, os organizados de festa e os baderneiros[10]. Reproduzindo uma lógica que alguns setores necessitavam de maior atuação policial devido ao “tipo de torcedor” que estava presente em cada setor.

Considerações Finais

             No decorrer desse trabalho foi possível perceber que apesar de haver no senso comum a ideia em que, historicamente, os estádios são ambientes que integram muitas pessoas diversas e com diferentes condições socioeconômicas, em nenhum momento a integração foi de caráter igualitário, mesmo nos períodos da geral. O estádio do Maracanã sempre foi marcado por desigualdades, compreendendo desigualdade enquanto um conceito multifacetado (Scalon; Salata, 2016). Se pararmos para observar, anteriormente havia as desigualdades, no entanto os ingressos eram mais acessíveis. Atualmente, como abordado nas seções anteriores, os ingressos se tornaram mais caros e a redução do número do público aprofundaram as desigualdades ao ponto de muitos torcedores não conseguirem mais acompanharem seu clube em partidas nos estádios.

A partir dos fatos discorridos ao longo do trabalho é possível estabelecer duas hipóteses explicativas para essa ausência e ambas podem ser conjugadas. Elas são: 

a)     a “falta de necessidade” de policiamento onde o público é mais elitizado, em contrapartida, a presença dos policiais nos setores com ingresso mais baratos. Isto se dá pela falsa premissa de que os ambientes mais elitizados não possuem violência e, que somente os setores mais “populares” que precisam de policiamento.

b)     Pela presença policial não ser desejada por parte dos frequentadores destes setores. A figura do agente de segurança pública não é bem vista e bem quista, tanto no momento de lazer, quanto em seus ambientes de convívio. Ambos, os motivos dialogam com o conceito de enclaves fortificados da Caldeira (1997); com status de local segregado, que não há, aparentemente, a presença do Estado.

Apesar de serem contextos distintos, dada as devidas proporções, é possível notar o mesmo padrão de diferenciação utilizado pelo BEPE na Polícia Militar do Rio de Janeiro como um todo. Isto é, a atuação da força policial não é isonômica nos bairros elitizados e em comunidades. Levando-nos a questionar quais seriam as motivações para a atuação de uma instituição pública de modo desigual. Esse artigo não se pretende responder essas questões, mas apresentar que há uma atuação institucional desproporcional, mesmo em ambiente de lazer. Ao final da pesquisa empreendida no doutorado, buscará responder se essa desproporcionalidade se encerra na polícia militar, na figura do BEPE, ou se estende por todo o fluxo do sistema de justiça criminal.


Notas de la ponencia:

[1] A unidade adquiriu autonomia administrativa do Batalhão de Policiamento de Choque e foi promovida a batalhão no ano de 2018.

[2] Estas são duas tragédias conhecidas no mundo do futebol. A tragédia de Heysel, ocorreu em 1985, pela final da Taça dos Campeões da Europa, em Bruxelas, onde torcedores hooligans do Liverpool e os ultras da Juventus entraram em confronto, eclodindo em uma grande confusão e com mais de trinta mortos (Hollanda, 2008). A tragédia de Hillsborough aconteceu em Sheffield, no ano de 1989, pelas semifinais da Taça da Inglaterra, entre os clubes Nottingham Forest e (novamente o) Liverpool. Neste jogo 96 pessoas morreram em decorrência da lotação em um número de torcedores além do permitido no estádio. Por muito tempo a culpa deste fato foi depositada sobre os hooligans e sobre a suposta má condição do estádio, entretanto após uma nova investigação sobre o caso, concluiu-se que houve uma má condução das forças de segurança neste jogo e não problemas com hooligans ou problemas com a estrutura do estádio (Simões, 2017).

[3] Organização predecessora da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

[4] Para saber melhor sobre estes setores em um momento anterior às obras que transfiguraram a estrutura original do Maracanã, Monteiro (2001) trata sobre este contexto no sub tópico “O Maracanã: espírito esportivo ou guerra? A interferência das políticas públicas nas arquibancadas.” (MONTEIRO, 2001, p. 30-36).

[5] A “geral” era um setor mais popular que havia no estádio do Maracanã; nela os torcedores assistiam ao jogo em pé e havia pouca visibilidade. Por outro lado, este setor ficou marcado com a presença de torcedores simbólicos (FERREIRA, 2018) conhecidos como geraldinos.

[6] Setor com status abaixo do camarote e acima da Leste (apesar de ter a mesma visão lateral do campo). Setor típico de um estádio multiuso, possui um buffet disponível durante todo o jogo para os torcedores que se dispuserem pagar um alto valor pelo ingresso, que varia conforme a importância do jogo e do clube mandante.

[7] Fotografia em anexo.

[8] A primeira página dos dois estão em anexo. O plano de ação conta com o número de identificação do policial. Devido a presença de informações pessoais, as imagens foram editadas para a preservação dos dados.

[9] Trecho da entrevista com um sargento que estava no GEPE/BEPE entre 6 a 10 anos: “(...) Eu já trabalhei na arquibancada, pouco tempo; trabalhei bastante tempo comandando as cadeiras azuis, com um Sargento de até se reformou, já entrou para reserva, né? E nas cadeiras azuis, eu fiquei boa parte ali; fiquei com a metade do Maracanã na minha responsabilidade com esse sargento; era só dois homens para toda a cadeira azul; é mais ou menos, para você ter uma dimensão, imagina metade do Maracanã, essa metade aqui todinha, do lado direito e esquerdo era minha e de mais um homem.” (grifo nosso, entrevista realizada pela autora no ano de 2019).

[10] De modo geral, entre os torcedores organizados de “festa” estariam enquadradas as torcidas que são inspiradas em modelos de torcida como de outros países sul-americanos e entre os “baderneiros” estariam as chamadas “torcidas jovens”.

Bibliografía de la ponencia

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