Conflito entre Mundos: reflexões sobre Migração Warao para o Brasil

SP.52: Caminos de Abya Yala: Intelectuales indígenas, movimientos etnopolíticos y propuestas desde el continente americano para un mundo en devenir

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Kassia Alves da Cunha Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Creditos Adicionales

Nombre Pertenencia institucional Pais
Conflito entre Mundos: reflexões sobre Migração Warao para o Brasil Graduanda em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro Brasil

Resumo: 

Os fluxos de migração forçada aumentaram consideravelmente nos últimos anos, nesse cenário a migração venezuelana vem se destacando devido ao seu grande número de deslocados forçados na América Latina. A partir de 2014, a instabilidade econômica se intensificou nesse país, provocando uma forte escassez de alimentos, medicamentos, serviços básicos e um aumento da violência, gerando assim, a necessidade de migrar. Neste cenário, o Brasil tornou-se para uma parcela de venezuelanos um destino possível para melhores condições de vida. Dentre os perfis e grupos desse fluxo migratório se encontram os povos indígenas Warao, esse grupo será o foco de estudos do presente trabalho. Sendo assim, foi realizado no decorrer da pesquisa observações da presença Warao nas áreas urbanas de Boa Vista/RR e na cidade de Nova Iguaçu/RJ em 2022, a partir dessas observações nota-se como os Warao se mobilizaram e adaptaram suas práticas culturais e de subsistência ao novo ambiente, recriando suas subjetividades, tal como seu ato de procurar rios e lagos na sociedade que escolheram como destino para ali pedir permissão e proteção para entrar naquele lugar. Essa prática é demonstração de uma reconstrução cosmológica, na medida que ela adequa/permite a constituição do princípio de "Alianças Afetivas" que parte da ideia de afetos e trocas entre mundos não iguais, reconhecendo a alteridade em cada ser ou coletivo. No processo migratório, além de mudanças econômicas, provocou mudanças intersubjetivas demonstradas na cosmologia Warao. Desse modo utiliza-se o aporte teórico da área de estudos decoloniais e de uma epistemologia originária, para identificar uma guerra entre mundos que se revela no processo de imigração Warao, em que o Estado/Nação adota concepções modernas e universalista partindo da premissa da existência de um único mundo, natural-humano, objetifica a vida e o mundo esmagando assim o modo de vida dos povos originários, colocando assim os Warao numa condição de subalternidade. 

Palavras-chave: Imigração; Warao; Cosmologia; Roraima; Decolonialidade



     

Introdução

         Os Warao, são um povo indígena pertencente à região do delta do rio Orinoco, localizada no nordeste da Venezuela. São a segunda maior etnia mais populosa desse país, e também uma das mais antiga ( ALANTINO, 2022 p. 75). O grupo em questão não configuram uma unidade étnica, o  próprio termo Warao reúne em si, um conglomerado de subgrupos, totalmente distintos entre si, tais diferenças se desenvolveram com o contato interétnico por cerca de 3 mil anos de convivência com os Arawak e Caribe (GASSON e HEINEN). Sua heterogeneidade se dá devido  “as circunstâncias históricas e o complexo ecossistema do delta contribuíram ao longo do tempo para a formação de diferentes padrões culturais, étnicos de subsistência dentro do denominador comum da linguagem” (GARCÍA CASTRO e HEINEN, 2000, p. 1). 

         Estudos revelam que a partir da década de 1970, este grupo sofreu uma série de desafios para permanecer em seu local de origem, desafios estes provocados pela implementação de projetos desenvolvimentistas em seu território, empregados pelo governo venezuelano. Desta forma, os Warao foram obrigados a se deslocarem para os contextos urbanos, numa tentativa de resistência buscaram adaptar suas práticas de subsistência e culturais ao novo ambiente, recriando suas subjetividades. Ser Warao é ser plural “a resistência é a tensão entre a subjetificação" (Lugones,2014). A partir de 2014 com o agravamento da crise política e econômica na Venezuela esse grupo desloca-se para além da fronteira desse país.

Evidencia-se com isso, que a migração forçada Warao começou dentro do próprio território da Venezuela, ou seja, a migração Warao é uma demonstração clara de um conflito entre mundos. Para aprofundar o entendimento sobre esse conflito foi necessário utilizar o aporte teórico da área de estudos decolonial. Nesse sentido, o texto "Decolonialidade e perspectiva negra" de Ramon Grosso Guelras e Joaze Bernardino, foi importante para pesquisa na medida em que os autores explicam o conceito de colonialidade do poder e de modernidade: “[...] A mais evidente é o entendimento que a modernidade não foi um projeto gestado no interior da Europa a partir da Reforma, da Ilustração e da Revolução Industrial, às quais o colonialismo se adicionou ( pp.17).”

Na passagem acima, os autores revelam como o colonialismo se consolida e se agrava na modernidade, na medida que cristaliza a Europa como centro do mundo:

A partir dessa formulação tornou-se evidente a centralidade do conceito de colonialidade do poder, entendido como a ideia de que a raça e o racismo se constituem como princípios organizadores da acumulação de capital em escala mundial e das relações de poder do sistema-mundo. Esse padrão de poder não se restringiu ao controle do trabalho, mas envolveu também o controle do Estado e de suas instituições, bem como a produção do conhecimento. ( pp17) 


Os autores deixam claro que além do processo de ocupação, exploração e dominação econômica, política e religiosa, a colonização europeia exerceu forças em outros aspectos, esses mais simbólicos, como nas mentalidades e nas formas de Ser e de Saber. Construindo assim, o paradigma da centralização do sujeito histórico branco, e consequentemente na invisibilização da pluralidade real dos outros sujeitos, “[...] essa exorbitante euforia da monoculta, que reúne os birutas que celebram a necropolitica sobre a vida plural dos diversos povos deste planeta”. (KRENAL,2022).

Quijano em seu conceito de colonialidade do poder afirma que este surge de um processo, que começou com a constituição da América e do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado, sendo a ideia de raça, fruto de tal contato. Esta lógica colonizadora, aprisiona as pessoas a características e pensamentos disformes sobre a realidade, de forma que, os povos conquistados e dominados foram colocados numa posição de inferioridade, a partir dessa classificação por raça. A própria identidade do indígena foi construída segundo termos do ocidente, sendo classificados como "índios" termo que homogeneiza diversos povos, retirando e negando suas múltiplas culturas e subjetividades. A essa discussão Ailton Krenak, intelectual indígena, no documentário “Vozes da Floresta”, acrescenta que a continuidade colonialista produz incessantemente uma guerra entre o mundo indígena e o mundo da mercadoria: “a falsificação ideológica que sugere temos paz é pra gente continuar mantendo a coisa funcionar, não temos paz em lugar nenhum, é guerra o tempo todo em todos os lugares”.

Essa estrutura marcada pela colonialidade, se arrasta até à contemporaneidade, servindo de alicerce para a construção dos Estados-Nações, tendo em vista que a mesma se serve da diferença colonial. Os novos colonos agora estão nacionalizados, e ainda possuem os meios de produção de trabalho e de subjetividade, e se utilizam desse instrumento para continuar seu projeto político de extermínio do "Outro", e esse foi o propósito adotado pelo governo venezuelano ao implantar projetos desenvolvimentistas no território Warao. “ Os ancestrais indígenas e de outras tradições, instituíram mundos onde a gente pudesse experimentar a vida, cantar e dançar, mas parece que a vontade do capital é empobrecer a existência. O capital quer um mundo triste e monótono em que operamos como robôs, e não podemos aceitar isso”. (KRENAK, 2022)

Essa estrutura colonial não é apenas o motivo da imigração Warao como também é o que sustenta sua discriminação em todo seu processo migratório e, principalmente, na sociedade de destino. Cabe aqui mencionar seu processo de migração para o Estado de Roraima e refletirmos sobre questões estruturais dessa sociedade que vão se refletir nos Warao a partir de sua chegada nesta região.


Imigração Warao

A partir de 2014 a Venezuela passou por uma profunda crise econômica, que provocou uma escassez de alimentos, medicamentos, serviços básicos e um aumento da violência, gerando assim, a necessidade de migrar. Neste cenário, o Brasil tornou-se um destino  possível para melhores condições de vida. A migração venezuelana para o Brasil constitui-se em um fluxo plural e diverso, dentre os diferentes perfis desse grupo migratório se encontram os Warao, povo indígena originário do nordeste da Venezuela. Registra-se a sua chegada ao Brasil a partir de 2014, através do estado de Roraima, tendo afetado diretamente estruturas mentais e ideológicas dessa sociedade, considerando a preexistência de sentimentos de ódio e preconceito contra os indígenas.

A partir dos anos 1970 e 1980 Roraima, viveu o grande boom do garimpo e do agronegócio, afetando principalmente as comunidades indígenas, muitas delas de povos isolados, sem qualquer contato com o homem branco. Esses primeiros contatos resultaram em conflitos violentos, de mortes para ambos os lados, principalmente entre os indígenas. Cito aqui, o testemunho de um líder indígena Macuxi que relata esse processo:

Há uma história do seu Jacir, ainda na década de 1970, que é inspiradora para as primeiras a nossa luta em assembleias pelos que direitos reuniu os humanos tuxauas e contra a violência. Em uma das Raposa Serra do Sol, seu Jacir e lideranças de sua região levaram um feixe de varas longas com quase dois metros cada uma. Seu Jacir falou sobre a história da invasão da terra indígena e contou sobre a estratégia dos fazendeiros de quebrar um Tuxaua por vez. Alguns eram mortos, outros, enganados e iam para o lado dos fazendeiros. Para dar um exemplo do que estava falando, Seu Jacir pegou uma vara e quebrou. Depois, pegou duas varas e, quebrou; depois partiu três varas, então, ele pegou o feixe todo de varas e mesmo fazendo força, não conseguiu quebrar. Ele explicou que cada vara era como um tuxaua, como uma comunidade e, se estivessem todos unidos, ninguém poderia quebrar o grupo. As varas usadas ficaram expostas por mais de trinta anos na missão Surumu e foram queimadas em 2005, depois de atentados de arrozeiros. As ideias que embasaram essa luta nunca foram destruídas, assim como não serão destruídas pela violência as ideias do fim dos locais de isolamento e das instituições opressoras, do direito à diversidade, do direito de expressão dos movimentos sociais sem que isso seja visto como crime (VERONA, 2011; pp16).


O relato do Tuxaua mostra não só a violência empregada dos novos colonos, mas também o quanto as lideranças indígenas se mobilizaram em resistência, tomando consciência coletiva, se reconhecendo como sujeito de direito, lutando por sua autonomia, para assim manter sua terra e sua cultura.

Como figura de resistência, esses povos foram vistos como "empecilho" para implantação de projetos desenvolvimentistas, projetos esses que só visam a exploração dos recursos naturais em detrimento da cultura e da vida desses povos. Tratados como entrave para o desenvolvimento econômico do estado, o governo de Roraima buscou então construir uma narrativa contra os povos indígenas, criando um estereótipo que os coloca como agente (de)generador do avanço social e econômico. Esse estigma acaba por intensificar um sentimento de ódio e preconceito para com esses povos, que vai se reproduzir em quaisquer povos indígenas, tal como foi o  tratamento dado aos Warao a partir de sua chegada ao estado de Roraima.

Destaca-se como etapa fundamental para desenvolvimento da pesquisa, as impressões e observações da presença Warao nos espaços urbanos de Boa vista e Rorainópolis (RR), no ano de 2022, como também a pesquisa de campo realizada em setembro do mesmo ano, com um grupo familiar Warao, que residia em uma escola abandonada na periferia de Nova Iguaçu (RJ). Aliando essas impressões iniciais a leituras especializadas sobre etno/história Warao, estudos sobre a escrita indígena, entrelaçando com leituras da área de antropologia.

As cenas de vários indígenas Warao nas cidades de Roraima, principalmente, mulheres acompanhadas por crianças pequenas, que falam sua própria língua, pedem dinheiro na rua e semáforos e vendem sua arte, provocaram a aversão e perturbação na sociedade roraimense. Um exemplo desse incômodo se nota na postura etnocêntrica adotada pelo estado de Roraima ao expulsar através da Polícia Federal (PF), cerca de 60 Warao em 2014[1], e, novamente, em 2016, quando aproximadamente, 450 pessoas desse grupo foram levadas à sede da PF para serem deportadas.

O governo estadual realizou tais ações, utilizando o discurso de que os indígenas venezuelanos haviam sido expulsos por estarem indocumentados em Roraima. Entretanto, a verdade é que, a organicidade dessa gente, aliás, dessa “subgente”, “sub-humanidade”, gera na sociedade um determinado incômodo. Logo, estes “quase humanos”, compreendem um contingente de milhares de pessoas, as quais insistem em ficar fora desta “dança civilizatória”, da técnica, do controle do planeta, e por dançarem uma coreografia estranha são tirados de cena, por epidemias, pobreza, fome e violência dirigida (KRENAK, 2019)

A análise das fontes utilizadas no decorrer da pesquisa,  tais como relatórios técnicos da ACNUR e relatos orais de lideranças indígenas Warao, possibilitou identificar alguns problemas em relação ao acolhimento desse grupo migrante. Em 2018, o Governo Federal em parcerias com agências da ONU criou a “Operação Acolhida”, com objetivo de ordenar e atender às necessidades emergentes da imigração venezuelana para o Brasil. Entretanto, no que se refere ao acolhimento da população migrante indígena Warao, a operação se demonstra extremamente ineficaz, posto que não se dispõem a ouvir esse grupo para assim suprir suas reais necessidades. Nota-se isso na fala do Aidamo Euligio Baez em uma entrevista concedida à Agência Brasil: "temos outra cultura, outra forma de convivência. Não há respeito aos aidamos. Nunca nos consultam". Os Aidamos, de acordo a tradição Warao, são os líderes familiares que organizam e orientam o seu grupo em todos os aspectos da vida.

É interessante aqui trazer o conceito de “infantilização” da filósofa e antropóloga Lélia Gonzalez, para entendermos a posição do estado de não levar em consideração a voz Warao. No desenvolvimento de sua pesquisa apresentada no artigo “Por um feminismo afro-latino- americano”, a autora formula esse conceito a partir de ideias formuladas por Jacques Lacan que, neste recorte, basicamente se resumem nas categorias do infante e do sujeito-suposto-saber. O infante é caracterizado como aquele que não é sujeito de seu próprio discurso, já que é enunciado pelo Outro. Esse conceito parte da análise da formação psíquica da criança, que ao ser citada pelos adultos na terceira pessoa, ela é excluída e ignorada, reproduzindo então esse discurso e falando sobre si mesma na terceira pessoa, até o momento que aprende a trocar os pronomes pessoais e se torna sujeito.

A análise de Gonzalez pode ser aplicada à pesquisa sobre os Warao, posto que a política imigratória brasileira não se porta de maneira dialógica, para que eles possam contar suas próprias histórias, suas necessidades e se constituírem dentro da sua própria lógica e tradição.

(Re) existência Warao

A partir da pesquisa de campo realizada com uma família Warao foi identificada a necessidade do uso de novas referências bibliográficas que não fossem pautadas dentro de uma estrutura mental do ocidente, para assim compreender a cosmovisão, suas tradições e costumes. Nesse sentido, buscou-se aperfeiçoar leituras de autores indígenas. 

         Entre eles se destaca Ailton Krenak,  indigena e filosofo com seu conceito de “ Alianças Afetivas” de extrema importância para a pesquisa, o conceito parte da ideia de afetos entre mundos não iguais, que reconhece a alteridade em cada ser, cada pessoa. Através da “ aliança afetiva” torna-se possível experimentar Outros mundos, outras cosmovisões e assim imaginar pluriversos, “ mundos se afetam, experimentar o encontro com a montanha não como uma abstração, mas como uma dinâmica de afetos em que ela não é só é sujeito, como também pode ter iniciativa de abordar quem quer que seja” (KRENAK,2022, p.83).

            Dessa forma o conceito de Krenak permite a elaboração do Nós, indo assim além do paradigma ocidental que coloca o homem como figura central do mundo, ancorado na abstração na objetificação da vida, assim carrega a ideias de oposição dentre cultura e natureza. Esse processo de separação entre sujeito-objeto, humano e não-humano, natureza-cultura, demarca hierarquias, nesta pretensão de objetificação do mundo criou-se escalas de poder.

            Compreender a  ideia de alianças afetivas foi fundamental na minha pesquisa de campo em Nova Iguaçu com uma família Warao. A família em questão morava numa escola abandonada concedida pela prefeitura dessa cidade, cerca de 30 Warao com diferentes idades.  Ao entrar no local me deparei com um grupo de mulheres acompanhadas por seus filhos pequenos trabalhando no seu artesanato. Ali observei diferentes padrões de desenhos nos objetos,  complexas pinturas representando humanos, animais e compostos celestes. Alguns desenhos na  pele da anaconda, cabe aqui, mencionar que na tradição Warao os espíritos ancestrais e deidades astronômicas de um cosmos mítico estabelecido pela primeira xamã, uma divindade chamada “Mãe da Floresta” é representado pela serpente da água.. A  madeira e a pedra são esculpidas para moldar ídolos representando espíritos ancestrais, embora nenhum tenha sido ilustrado.. As imagens de arcos mostram espíritos, neste caso, um espírito antrópico de borboleta. Dessa forma nota-se que o artesanato não é apenas um meio de subsistência mas também uma forma de manter suas tradições e costumes, importante assim para a manutenção da vida Warao.

No documentário  OJIDU- arvore da vida produzido pela UNICEF, em parceria com Museu A Casa do objeto brasileiro, conta  a narrativa de origem do povo Warao,  nos tempos antigos havia um homem chamado “Ojidu”  que provinha a subsistência dos  warao, dando-lhes todos os alimentos e objetos que precisavam, frutas, farinha. até que um (Warao - Homem) invejo o matou, e depois de morto “ Ojidu” se tornou uma árvore de  BURITI. Dessa  forma, o  buriti é tudo como a árvore da vida para os Waraos e dele fazem a fibra utilizada no seu artesanato. 

Na fala de uma anciã Warao se destaca a importância e o sentido do artesanato para os Warao 

“Meus avós me ensinaram que sempre que chegarem em um lugar novo tem que lavar o rosto, para evitar doenças e ter uma boa relação com o lugar pra poder voltar de novo, quando cheguei no brasil era um lugar totalmente desconhecido e não tinha um rio para lavar o rosto, aqui estávamos fora do nosso contexto, fora do nosso lugar mas o artesanato é um elo com nossa cultura, quando vejo buriti nesta cidade sinto muita saudade, sinto como se tivesse na minha aldeia, para mim não é só uma simples árvore, é como família. O artesanato é um elo com sua cultura.”



Uma outra  atividade importante  para os Warao é a prática da mendicância, exercida essencialmente pelas mulheres, acompanhadas por seus filhos, durante toda a atividade na rua. Dessa forma, os homens tiveram que trabalhar  em outras funções que, segundo suas tradições, eram realizadas pelas mulheres, tais como atividades domésticas e preparo de alimentos.

Na tradição Warao as mulheres ocupam um papel central na organização familiar, sendo elas as responsáveis para coletar os alimentos, como também sua opinião é importante nas decisões familiares. A prática coletora, disseminada no delta do rio Orinoco, foi ressignificada nas áreas urbanas, com o ato de coletar dinheiros nas ruas . Dessa forma a atividade faz parte da organização de subsistência da etnia Warao no contexto urbano, realizada, a partir de escolhas e de práticas culturais próprias. Trata-se, portanto, de uma estratégia adaptativa, e é vista pela etnia Warao como um trabalho e não como mendicância, ainda que sujeitas  a todo tipo de violência. (SOUZA, 2018).


Conclusão

       Para finalizar, é  importante mencionar que algumas das questões que levantei no decorrer do texto são frutos da minha experiência em Roraima, posto que vivi lá até o ano de 2016, e assim presenciei a chegada dos Warao. É fruto também, de inquietações que carrego enquanto roraimense; inquietações estas que, refletem a observação da fortes conflitos étnicos no meu estado de origem. Nesse sentido, pesquisar povos indígenas a partir da perspectiva da decolonialidade, é uma possibilidade de romper com a estrutura mental do ocidente e poder olhar nossas raízes e cultura com mais empatia e valorização. Destaco aqui, a fala de  Célia Xakriabá no Congresso Nacional, em Brasília, durante  a votação da PL 490 como elemento fundamental para meu posicionamento no mundo e na pesquisa, “ como vocês querem ser  lembrado nesse Brasil diverso, o povo brasileiro que tem origem com sangue indígena nas veias, ou como povo brasileiro com sangue indígena nas mãos?” Assim, busco assumir  um compromisso enquanto roraimense e mestiça de não ficar omissa e observar criticamente se os direitos dos povos Warao enquanto, imigrantes e indígenas estão sendo cumpridos ou negligenciados .

        Com base no que foi discutido acima, podemos notar que as concepções modernas e universalistas ao partir da premissa da existência de um único mundo natural e humano,  portando apenas uma única noção de tempo linear (passado, presente, futuro), fruto da evolução biológica do homem, que releva a ilegalidade de quaisquer forma de conhecimentos Esta distinção faz com que os territórios coloniais vivam uma constante tensão pela emancipação, um paradigma, como pode-se perceber no caso dos Warao. Observamos também que a recepção é políticas migratórias brasileiras são claramente um perfil do que é desejável e o indesejável. Para Santos (2010) a injustiça cognitiva criada na modernidade cria uma injustiça social.

           Foram apresentados  no decorrer do texto como essa visão etnocêntrica se faz presente na sociedade civil em Roraima, ao receber, em 2014, os povos Warao com preconceito e animosidade. Nota-se também essa lógica nas postura do Estado ao invisibilizar a condição étnica dos Warao no tratamento dado a esse grupo.

Bibliografía de la ponencia

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Fuentes de la ponencia

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