Comidas Ribeirinhas: alfabetizando em territórios no campo nas águas e nas florestas

SP.18: Um olhar socioantropológico sobre os modos de comer e viver na América Latina e no Caribe

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Ângela Maria Melo Pantoja Secretaria Municipal de educação de Belém/SEMEC

 

COMIDAS RIBEIRINHAS: ALFABETIZANDO EM TERRITÓRIOS DO CAMPO DAS ÁGUAS E DAS FLORESTAS, Ângela Maria Melo Pantoja [1], Adriana Monteiro da Costa[2], Dirceu Bibiano Duarte[3]

Este trabalho constitui-se em um relato de experiência vivificado na turma de Alfabetização de Jovens, Adultos e Idosos da Unidade Pedagógicattf Nossa Senhora dos Navegantes, situada na comunidade ribeirinha do mesmo nome, no meio rural do Município de Belém, na Amazônia brasileira. Na referida turma as comidas ribeirinhas[4] e emblemáticas[5] além de funcionarem como tema gerador dos processos de leitura e escrita da palavra e do mundo, provocam nos sujeitos da turma de alfabetização reflexões sobre a importância dessas comidas na sobrevivência material e simbólica da comunidade, funcionando como marcadores e linguagens de  suas identidades  ribeirinhas e amazônicas. Esta experiência de alfabetização, ao mesmo tempo que se propõe assegurar a leitura e a escrita como direitos humano e social, também busca  valorizar e recontar afetividades a partir da alimentação, numa forte iniciativa de demarcação de identidade regional e de saberes territoriais com histórias, memórias e afetos que falam do cotidiano da comunidade ribeirinha. Palavras-chave: comida ribeirinha, alfabetização, identidade, Amazônia.

RIVERSIDE FOODS: TEACHING LITERACY IN TERRITORIES OF OF THE FIELD OF WATER AND FORESTSThis work is a report of experience experienced in the Youth, Adult and Elderly Literacy class at the Nossa Senhora dos Navegantes school, located in the riverside community of the same name, in the rural area of ​​the Municipality of Belém, in the Brazilian Amazon. In that class, riverside1 and emblematic foods, in addition to functioning as a generating theme for the processes of reading and writing the word and the world, provoke in the subjects of the literacy class reflections on the importance of these foods in the material and symbolic survival of the community, functioning as markers and languages ​​of their riverside and Amazonian identities. This literacy experience, at the same time as it aims to ensure reading and writing as human and social rights, also seeks to value and recount affections based on food, in a strong initiative to demarcate regional identity and territorial knowledge with stories, memories and affections that speak of the daily life of the riverside community. Keywords: riverside food, literacy, identity, Amazon.

OS PRIMEIROS RELATOS: uma breve contextualização A princípio, relatamos que, a Secretaria Municipal de Educação de Belém/SEMEC, por meio da Coordenadoria de Educação de Jovens, Adultos e Idosos/COEJAI, desenvolve o  Movimento Alfabetiza Belém/MOVA/BELEM, um dos programas prioritários da Prefeitura de Belém, em parceria com os movimentos sociais e com as 38 escolas municipais. O mencionado programa foi instituído em fevereiro de 2021 e  pretende tornar a capital paraense livre do analfabetismo até 2025. Para tanto, o programa se constitui em  duas frentes de trabalho: a primeira com turmas da Educação de Jovens, Adultos e Idosos nas escolas municipais, e a segunda, em espaços comunitários  e em parceria com de instituições públicas e movimentos sociais.Ressaltamos, ainda, que o público-alvo do Programa são pessoas acima de 15 anos que por razões diversas foram levadas para longe da escola. Com uma proposta diferenciada de promover uma educação pública de qualidade, socialmente referenciada e comprometida em superar o analfabetismo de jovens, adultos e idosos, a Prefeitura de Belém tem como referência a pedagogia de Paulo Freire, que em 1963 alfabetizou 300 trabalhadores rurais em 40 horas na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte,  tornando assim,  a capital paraense uma cidade alfabetizada, educadora e leitora. Importa saber que a primeira experiência do MOVA/BELÉM foi em setembro de 2021, com 20 pessoas em situação de rua atendidas pelo Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua (Centro POP), em Icoaraci, Distrito de Belém, em parceria com a Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA). A conquista da leitura e da escrita foi comemorada no dia 16 de dezembro do mesmo ano. Já em dezembro de 2022, o Movimento certificou mais duas turmas compostas por pessoas privadas de liberdade que aprenderam a   ler e escrever. Foram 16 pessoas do Centro de Recuperação do Coqueiro (CRC) e 31 do Centro de Recuperação de Icoaraci (CRI). Esta iniciativa tem a parceria com a Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (SEAP). Isso posto, torna-se importante ressaltar que, um  dos caminhos escolhido pelo MOVA/BELEM para alfabetizar  foi a palavra geradora, ou melhor a comida geradora. É que na COEJAI existe um projeto denominado Alfabetização à mesa: sabores e saberes da/na EJAI. O referido projeto ao se propor fortalecer a Política de Educação de Jovens Adultos e Idosos no Município de Belém, traz em sua matriz formativa o “apelo" à valorização da cultura alimentar da Amazônia paraense e de suas comensalidades, dialogando intrinsecamente com os pressupostos da pedagogia freiriana, na qual a cultura dos sujeitos ocupa lugar fulcral. Assim, o  Alfabetização à mesa, ao mesmo tempo que se propõe a valorizar e recontar as histórias, as memórias  afetivas e gustativas, traz a comida cabocla e Amazônica (PICANÇO, 2021), para a cena dos processos de alfabetização. Ou seja, no mencionado projeto, a cultura alimentar, ou melhor, a comida, como linguagem de identidade e pertencimento é concebida como fio condutor, ou como diria FREIRE (1996), como tema gerador dos  processos de Alfabetização dos/as Jovens, Adultos e Idosos que estão sendo alfabetizados/as na turma da 1ª Totalidades do Conhecimento[6], da Educação de Jovens, Adultos e Idosos, na Unidade Pedagógica do Campo Nossa Senhora dos Navegantes, conforme relatamos no que segue.SOBRE O TERRITÓRIO E OS SUJEITOS DA ALFABETIZAÇÃOA localidade dos educandos é o ponto de partida para o conhecimento que eles vão criando no mundo. “Seu” mundo em última análise é a primeira e inevitável face do mundo mesmo. (FREIRE, 1992, p. 86-87).Imagem 1 – Açaizeiro Nossos NavegantesNo meio da mata, Uma escola apareceu, Entre os braços de rios, O sonho só cresceu, Nosso caminho é de água, De árvores como vizinhança, Nossa rabeta é o transporte, De uma escola de esperança.O rio carrega os sonhos, O vento leva a paz, As palmeiras são vibrantes, Nesse solo rico de mais.,O motor é um sinal, Que levará para estudar, Nas ondas transmitindo, Para quem ama navegar, Nossa escola maravilhosa, Entre os rios com a EJAI, Se destaca na aprendizagem Na canoa vão partir, Jamais desista de seus sonhos, Sonhos de bravos estudantes. Braços fortes desse povo, Que é capitão da Escola Navegantes., (Prof. Carlos Santos). O açaizeiro, palmeira do açaí, representado na imagem acima juntamente como o poema de Carlos Santos, ajudam a compreender não apenas quem são, mas como vivem, onde vivem os sujeitos sobre os quais tratamos neste ensaio. São homens e mulheres ribeirinho/as  que estudam na Unidade Pedagógica Nossa Senhora dos Navegantes, fica localizada no meio das águas, no Igarapé Santana do Aurá, um braço do Rio Guamá, próximo à Cidade de Belém. Está no coração da Comunidade Navegantes, origem dos (as) estudantes. A turma da EJAI na Comunidade Navegantes é composta por 18 estudantes, sujeitos com a faixa etária compreendida entre 38 a 75 anos, moradores ribeirinhos e a maioria nunca estudou, mas, suas histórias de vida são recheadas de aprendizagens que fortalecem os conhecimentos. Eles são muito apaixonados pela professora, também moradora ribeirinha e com muita identidade com eles. São catadores de sementes de cacau e peconheiros[7]. Dessa atividade, eles geram a renda familiar e a própria alimentação. São conscientes do seu papel político e sociocultural e suas histórias de vida se associam ao cotidiano escolar, o que vem facilitando a oralidade e o letramento, pois, busca a inserção das experiências de trabalho e sobrevivência desses sujeitos na plantação e colheita do cacau e do açaí, associadas as várias dimensões do conhecimento. Essas vivências específicas fazem parte do processo de ensino-aprendizagem no dia a dia das aulas, como reflexo do conhecimento vivo. Possibilitam aos(as) estudantes ribeirinhos (as) uma educação diferenciada que firma e reconhece a identidade do campo, a organização do trabalho, o meio em que vive, com  suas características, peculiaridades e sua história.Dentre as peculiaridades destacamos o meio  pelo qual o povo da floresta, como os estudantes da escola Navegantes se movimentam cotidianamente e particularmente para acessarem a escola, falamos da reaberta, espécie de canoa que lhes assegurara a mobilidade até a escola, conforme mostra a imagem 2. Para chegarem a escola, alguns (as) estudantes vão na sua rabeta, uma canoa pequena, usada frequentemente no transporte e a maioria é levada pelo barco da Secretaria de Educação. Imagem 2 - Rabeta, canoa pequena que transporta os estudantes Fonte: Prof. Otávio Castro   Imagem 3: No trapiche da rabeta  Fonte: Prof. Otávio Castro. Dito isso, consideramos importante relatar que os(as) estudantes ribeirinhos (as) da turma de alfabetização são  trabalhadores (as), peconheiros (as), isto é  trabalham na colheita de açaí, fruta amazônica, a qual além de ser alimento basilar dos estudantes e quiçá de todas as comunidades ribeirinhas da Amazônia, também  é o principal recurso de suas subsistências. Cabe explicitar que o nome peconheiro faz referência a peconha (imagem 3), artefato elaborado artesanalmente pelos ribeirinhos, cuja matéria prima é a folha do açaizeiro, sem a qual não se pode colher, ou melhor, apanhar a fruta.Imagem 4: PeconhaFonte: Acervo COEJAIMuitas vezes vão direto do trabalho, para não faltarem as aulas, pois, gostam de conversar com a professora que os orienta muito das situações vivenciadas no trabalho e na vida. Eles se identificam com ela, que mora também na comunidade, é ribeirinha como eles. A vida na comunidade, é a motivação para os diálogos entre a professora e os(as) estudantes, são as vozes da comunidade e é assim que inicia a aula. Deste modo a professora é coerente com as palavras de Freire ao caminhar na sua proposta de alfabetização, ela possibilita a todos e todas, o desvelamento e a capacidade de conhecer-se criticamente e entender o conhecimento em que cada um se encontra. As Práticas de Alfabetização da turma de 1ª Totalidades do Conhecimento da Educação de Jovens, Adultos e Idosos, na Unidade Pedagógica do Campo Nossa Senhora dos Navegantes é construída de forma articulada com a realidade dos(as) estudantes. O Diálogo durante as aulas é constante, o que fortalece uma compreensão da vida, onde a educadora abraça a tarefa de ver o(a) estudante como algo mutável, que se está fazendo em constante reconstrução histórica, na busca de condições para avançar em seus níveis de consciência, é aquele que percebe a vida como um processo acontecendo e não como  algo que é determinado  a priori (FREIRE E GUIMARÃES, 1987 p.74). A aprendizagem sofre flexibilizações quando necessário, garantindo uma educação progressista integral e transformadora a partir dos sujeitos que reconhecem a terra, as águas, as florestas, e suas territorialidades como fundamentais para a construção do conhecimento, proteção e dignidade da vida amazônica na sua Totalidade. Desse modo, estamos alinhados ao pensamento de Freire e conscientes do pressuposto que não há prática pedagógica que não parta do concreto cultural e histórico do grupo com quem se trabalha (FREIRE, 1996, p. 270).A Prática de Alfabetização nessa perspectiva, como Freire alerta, considera o(a) estudante ribeirinho (a) como produtor (a) do conhecimento e construtor (a) de hipóteses explicativas sobre a realidade em que vive, é preciso que seja capaz de, estando no mundo, saber-se nele (FREIRE, 1983, p. 16). Este (a) é sujeito de sua história e que pensa sua realidade, que tem direito de conhecer e transformar com autonomia o tempo e o espaço no qual se insere. As aprendizagens são referenciadas pelas experiências de vida dos(as) Jovens, Adultos e Idosos(as) na comunidade vivenciada. Conforme um diálogo da professora com os(as) estudantes da turma que trabalham com a colheita do açaí, são peconheiros (as):Eu tiro o açaí do mato, encho os paneiros e  levo para as vendas, chego lá com os paneiros e com o contrato de venda para levar para a fábrica, mas, você não vai entregar para a fábrica,  existe um atravessador lá no porto que ganha quase todo o dinheiro, ele não faz nadinha, faço tudo eu só pego o mínimo diante de um grande trabalho e os riscos do mato como a ferrada de aranhas, formigas e carapanãs, ele não faz nadinha, fica só no telefone acertando as quantias, três, quatro , cinco  mil reais, e eu ganho só para comprar ou trocar por um pouco de alimentos, arroz, feijão, açúcar. Ninguém vê o nosso lado (Estudantes Waldemir da Costa, informação verbal, 2023). Nós chamamos isso de capitalismo e se acontecer um acidente, ninguém arca com as despesas, aí você como trabalhador vai ter que se virar e torcer para estar alguém com você para te ajudar. É necessária uma mudança, uma fiscalização, para que você não seja prejudicado, na condição de explorado no seu trabalho.  (Professora Adriana Monteiro, informação verbal, 2023).Nesse contexto de vida do(a) estudante, surgem as temáticas geradoras, que articulam novos saberes e novas visões de mundo também vão surgindo. Desse modo, a professora começa a entender a leitura de mundo do(a) estudante, e a partir dessa leitura, aplicar novos conhecimentos, levando o educando a ter uma visão mais crítica de sua realidade. Esses conhecimentos são essenciais, pois preenchem lacunas deixadas pelos saberes acumulados, esses sempre latentes ao novo. Ressaltamos que o homem como um ser histórico, está inserido num permanente movimento de procura, faz e refaz constantemente seu saber. E é por isso que todo saber novo se gera num saber que passou a ser velho, o qual anteriormente, gerando-se num outro saber que também se tornará velho. Nesse contexto, há, portanto, uma sucessão constante de saber, de tal forma que todo novo saber, ao instalar-se aponta para o que virá substituí-lo (FREIRE, 1992, p.47).

ENTREMEANDO COMIDAS E ALFABETIZAÇÃO Começamos esta seção salientando que a proposta de Alfabetização para Jovens, Adultos e idosos ribeirinhos da comunidade Navegante objetiva garantir, por meio das comidas emblemáticas, o direito a leitura e a escrita da palavra, problematizando  mundo-vida, ao qual povoam, reconhecendo-se como sujeitos de direitos, direito a viver com dignidade  na terra, as águas e  as florestas. Assim, a proposta busca potencializar o processo de ensino e aprendizagem da leitura, da escrita na perspectiva dos letramentos críticos, numa cultura política democrática participante, capaz de possibilitar aos sujeitos da Alfabetização  do Campo, das Águas e das Florestas, o sentido efetivo das práticas da cultura escrita garantindo seu desenvolvimento enquanto sujeito social e histórico.Ademais, se faz necessário reiterar que a proposta, ora aqui tratada, esta alicerçada nos pressupostos, epistêmicos, teóricos e metodológicos, freirianos, a problematiza a realidade, ou seja, se propõe a ...  [...] pensar um conteúdo para melhor apreciá-lo, julgá-lo e fazê-lo exequível, conforme as exigências de uma determinada situação. A tarefa do educador, então, é a de problematizar aos educandos o conteúdo que se mediatiza e não a de dissertar sobre ele, de dá-lo, de estendê-lo, de entregá-lo como se se tratasse de algo já feito, elaborado, acabado, terminado (FREIRE,  1975, p.81).É uma concepção filosófica educacional que se inconforma com o formalismo e se faz a partir do universo dos(as) próprios estudantes que se tornam protagonistas de suas histórias, com as memórias de lutas, de entraves sociais, de discussões mais amplas, da construção e transformação de suas experiências. A concepção freiriana ressalta também que a relação da aprendizagem com as práticas sociais  visa a emancipação humana, a luta pela garantia de direitos e de justiça social, na direção de uma educação em todas as dimensões e no envolvimento dos sujeitos no processo educativo. Uma educação que  “[...]  não se faz mediante um trabalho em nível puramente intelectualista, mas sim na práxis verdadeira, que demanda a ação constante sobre a realidade e a reflexão sobre esta ação. Que implica não pensar e não atuar corretamente (FREIRE, 1999, p. 62).Nessa direção, os conteúdos curriculares na UP Navegantes estão vinculados a realidade dos sujeitos no Campo, nas Águas e nas Florestas. Esse campo de vivências e experiências cotidianas são pontos de partida para o acesso a leitura e a escrita, identificam palavras geradores que emanam de suas vivências durante os Círculos de Diálogos, nos quais, os (as) estudantes, ao relatarem histórias dos itinerários e atividades desenvolvidas diariamente, destacam palavras ditas geradoras como açaí e cacau, produtos extraídos do trabalho. Dessa forma a professora acolhe as necessidades educacionais dos(as) estudantes. Ela entrelaça o trabalho a partir da intensa relação dialógica. Tem como princípio a utilização de práticas que favorecessem a criticidade, busca permitir a construção do pensamento reflexivo dialético.Como já enunciava Freire (1975), partir do que o (a) estudante sabe não significa permanecer neste patamar de conhecimento, pressupõe ampliar, criar formas de conhecer outras culturas, abrir um novo mundo de possibilidades e saberes. Esse diálogo acontece em um ambiente marcado pelo prazer da reflexão e da descoberta do novo, conforme a fala da professora: Eles são os donos da mata, catadores das amêndoas do cacau e também, tiram as amêndoas do cacau, separam, secam e levam para pesar. Eles trocam também as amêndoas do cacau por alimentos, fazendo girar a economia na comunidade. Também são peconheiros, apanhadores de açaí. Estamos também na safra do açaí, eles trabalham na colheita, apanham o açaí por meio da peconha e vendem os grãos em basquetas. São os donos do mato e levam as basquetas para vender nas feiras da cidade (Professora Adriana Monteiro, informação verbal, 2023).Os relatos da professora reitera o que já apontamos, os ofícios de coletores (as) de cacau e  peconheiros (as) são  comuns a quase todos os alfabetizandos da U.P. Navegantes,  conforme mostram as imagens, 5 e 6,  que seguem, ambas de autoria do professor Otávio Castro.Então, reiteramos que é a partir da escuta das histórias, dos contextos vivenciados que surgem os temas geradores, relativos as aspirações, ao conhecimento empírico e à visão de mundo dos estudantes que captados pela professora, tornam-se base para o processo de alfabetização. Os temas geradores estão vinculados principalmente ao trabalho, a geração de renda e a alimentação, conforme os relatos: Apanhamos o cacau, tiramos as amêndoas e levamos para pesar; fazemos a peconha, tiramos o açaí, vendemos os caroços do açaí, pegamos o camarão, vendemos, tomamos o caldo do camarão pescamos o peixe, vendemos o peixe, comemos o peixe assado na brasa, ... (Estudantes Waldemir da Costa, informação verbal, 2023).Esse escutar proporciona a professora a sensação da descoberta num ato sensitivo, da capacidade de ouvir o(a) estudante para compreendê-lo, é falar com ele e não para ele. Escutar é ter uma percepção ampliada do outro, envolve reflexão e posicionamento. É a atitude de uma educadora progressista, como diz Freire: [...]escutar é algo que vai mais além da possibilidade auditiva de cada um. Escutar, no sentido aqui discutido, significa a possibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para a abertura à fala do outro, ao gesto do outro, às diferenças do outro (FREIRE, 1986, p.35).A partir dos diálogos, a professora desenvolve atividades interdisciplinares para que o(a) alfabetizando(a)  vá se apoderando  pouco a pouco da linguagem e assumindo a legitimidade daquilo que chamamos de competência linguística, de leitura da palavra, mas, que também estabeleça uma relação dialética entre a leitura da palavra e a leitura do mundo, a leitura da realidade. Entre as atividades, algumas são destaque como: Comidas ribeirinhas, Dicionário da Comunidade; Oficinas de Desenho Artístico e de Abertura de Letras e as  atividades com músicas e poemas regionais, conforme descrevemos abaixo:Comidas ribeirinhas: Imagem 5: peconheiro  Fonte: Prof. Otávio Castro.   O objetivo é provocar reflexões sobre as comidas da comunidade como marcadoras das identidades e de memórias afetivas; como fonte principal de alimentação e de geração de renda. Traz em sua matriz formativa, a valorização da cultura alimentar local e suas comensalidades. Propõe valorizar e recontar afetividades a partir da comida ribeirinha, numa forte iniciativa de demarcação de identidade regional e de saberes territoriais com histórias, memórias e afetos que falam do cotidiano da comunidade. É um processo de alfabetização que se expressa a partir da cultura alimentar Atividade: Observe a imagem e responda as questões abaixo:Imagem 6: Comida Ribeirinha -Mingau de açaí Fonte: Acervo COEJAI, 2023Qual o nome da comida?Quais foram os Ingredientes utilizados?Como se prepara essa comida? Comente com os (as) amigos (as):Que lembranças você tem dessa comida? Comente com os (as) amigos (as):O Dicionário da comunidade O Dicionário da Comunidade é construído pelos(as) estudantes e expressa a cultura da comunidade, representa os espaços geográficos e históricos, é a expressão territorial, a experiência, o trabalho, a alimentação, os remédios caseiros, os meios de locomoção, a sobrevivência, criações e recriações, ligadas aos indivíduos no seu espaço de hoje e na sua vivência do ontem, configurando-se como a real manifestação dos ribeirinhos. As palavras  vão surgindo dos diálogos nas aulas numa devolução organizada e sistematizada. Entre as palavras selecionadas democraticamente destacamos:Açaí – palmeira cujo fruto é muito utilizado na alimentação Cacau – fruto do cacaueiro, utilizado na alimentação e matéria prima para fazer o chocolate.Basqueta – caixa organizadora utilizada para transportar os alimentos. Gapuiá – isolar uma parte do igarapé e pegar peixe e camarão com facilidade. Lanciar – horário da maré mais baixa onde a pessoa pode caminhar e pegar o peixe e camarão da beirada.Peconha – laço de corda ou de pedaços de saco em que os trepadores de árvores apoiam os pés de encontro ao caule.Peconheiro/a – pessoa que usa a peconha para pegar os cachos de açaíPeconhar – apanhar/pegar os cachos do açaí com a peconha.Perequerá – pescar a noite com lamparina na vara para iluminar a água.Rabeta – pequena embarcação com motor, conduzida manualmente....A atividade propicia a leitura, a escrita, a valorização cultural. Pode ser dialogada, impressa ou copiada do quadro de escrever. Representa conhecimentos compartilhados entre os sujeitos pensantes, na busca de significados comuns. É uma educação “libertadora” e percebe o homem social em constante transformação. Cumpre um papel especificamente humano e o educador reconhece a natureza humana dos estudantes, suas necessidades, sentimentos, além de saberes específicos. Reforça Freire ( p.110, 1996), a educação é uma forma de intervenção no mundo. Atividade : Complete as frases com as palavras do quadro abaixo cacau, rabeta, açaí, perequerá, peconha. A economia da Comunidade Navegantes depende principalmente do...e do... O José Antonio foi apanhar dois cachos de ...e levou para ajudar sua...Para garantir o almoço da família seu Walderlei teve que...Para chegar na escola os estudantes utilizam a...O estado do Pará é o principal produtor do... e do...Oficinas: Desenho Artístico, Abertura de Letras e Artesanato.As oficinas contribuem diretamente na aprendizagem, para a melhoria da qualidade de vida, instrumentalizando-a com autonomia e valorização humana. A ação pedagógica é realizada por meio da linguagem artística, cultural e visa estimular a criatividade, a cognição, o planejamento, o raciocínio lógico, a autoestima, o trabalho. Possibilita aos(as) estudantes adquirirem competências, habilidades, práticas e conhecimentos técnicos e comportamentais que podem gerar renda. Expressam o mundo dos (as) estudantes, suas necessidades com clareza e consciência da importância. As Oficinas garantem a certificação com Carga Horária de 24h Músicas e Poemas Regionais: Nossos Navegantes...No meio da mata, Uma escola apareceu, Entre os braços de rios, O sonho só cresceu. Nosso caminho é de água.De árvores como vizinhança. Nossa rabeta é o transporte. De uma escola de esperança. O rio carrega os sonhos.O vento leva a paz.As palmeiras são vibrantes.Nesse solo rico de mais.O motor é um sinal.Que levará para estudar.Nas ondas transmitindo.Para quem ama navegar.Nossa escola maravilhosa.Entre os rios com a EJAI.Se destaca na aprendizagem.Na canoa vão partir.Jamais desista de seus sonhos.Sonhos de bravos estudantes.Braços fortes desse povo.Que é capitão da Escola Navegantes. (Carlos Santos).Atividade: Sobre verso do poema abaixo, marque com um (X) a alternativa correta: Nossos Navegantes...Nosso caminho é de água De árvores como vizinhançaNossa rabeta é o transporte. De uma escola de esperança...  No verso, o autor enfatiza que:  (   )   O transporte é o ônibus (   )   A escola representa a esperança (   )   O caminho é de terra (   )   Não existem árvores no entorno da escola. As músicas e poemas regionais oferecem a essas pessoas o desenvolvimento global como ser social, de valorização territorial, conhecimento, interação e criação. Além das melodias, as músicas trazem ensinamentos que contribuem para o envolvimento com os acontecimentos do cotidiano, sabendo valorizar e respeitar a diversidade, estimula a memória e amplia o vocabulário. Os poemas regionais retratam as experiências produzidas e acumuladas nos espaços de vivências, estreitando os vínculos com o conhecimento e configurando-se como a real manifestação do homem   sobre e com o mundo. Atividade: Leia o texto abaixo e depois responda as questões Sabor Açaí Põe tapiocaPõe farinha d'água, Põe açúcar Não põe nada Ou me bebe como um suco Que eu sou muito mais que um fruto Sou sabor marajoara Sou sabor marajoara Sou sabor...Põe tapiocaPõe farinha d'água... (Nilson Chaves) https://www.letras.mus.br/nilson-chaves/217034) Qual o alimento que se destaca na letra da música?Encontre na letra da música 3 palavras que são alimentos: O que representa a expressão “sabor marajoara”: Por ora...Reiteramos que as Práticas de Alfabetização na turma da 1ª Totalidade do Conhecimento da Educação de Jovens, Adultos e Idosos na Unidade Pedagógica do Campo Nossa Senhora dos Navegantes é construída de forma articulada com a realidade dos(as) estudantes. O Diálogo é constante entre estudantes, a professora da turma,  a equipe de Formadores da Coordenação de Jovens, Adultos e Idosos- SEMEC Belém e também com a comunidade de forma a sofrer flexibilizações quando necessário, o que fortalece uma política democrática participante na Educação Municipal de Belém, garantindo uma educação progressista integral e transformadora a partir dos sujeitos que reconhecem a terra, as águas, as florestas, e suas territorialidades como fundamentais para a construção do conhecimento, proteção e dignidade da vida amazônica na sua Totalidade. Desse modo, estamos alinhados ao pensamento de Freire e conscientes do pressuposto que "não há prática pedagógica que não parta do concreto cultural e histórico do grupo com quem se trabalha” (FREIRE, 1996, p. 270).Essa prática exerce um papel político e sociocultural na aprendizagem dos (as) estudantes ribeirinhos, valorizando, assim, cada vez mais as comunidades camponesas amazônicas, nos seus territórios associados a história de vida, educação e trabalho orientado pela autonomia, liberdade, igualdade, solidariedade, justiça, respeito e o reconhecimento às diferenças, responsabilidade e preservação ambiental.Os (as) estudantes trabalhadores (as) da mata, peconheiros (as) e coletores (as) de cacau, apesar das diversas peculiaridades em suas trajetórias de vida e escolar, como a iniciação tardia aos estudos curriculares e a resistência aos diversos mecanismos segregadores sociais, que os fazem viver diante de várias inseguranças,  agora alfabetizados, conseguem ser identificados como resistentes e de acordo com Arroyo (2017) dão vida a  itinerários que vêm de longe, da infância, da adolescência e estão na escola pelo direito a uma vida justa, humana. A alfabetização possibilita a todos e todas, o desvelamento e a capacidade de conhecer-se criticamente e entender o conhecimento em que cada um se encontra, mesmo diante.Os Círculos de Diálogos realizados, constituem-se como um espaço dinâmico de aprendizagem e troca de conhecimentos. Representam uma situação-problema, representativa de situações reais que buscam levar a reflexão acerca da própria realidade. Fortalecem uma compreensão amorosa da vida, onde a professora abraça a tarefa de ver o(a) educando (a) como algo mutável, que se está fazendo em constante reconstrução histórica. São nos Círculos de Diálogos que as comidas identitárias, como o açaí e o cacau,  são reveladas pelos  estudantes, performando diálogos profícuos, os quais lhes asseguram o direito a leitura e a escrita da palavra; palavra oriunda de seus mundo-vidas, de suas condições materiais e concretas de existir, como homens e mulheres, jovens, adultos e idosos, sujeitos de direitos.



1, 2, 3, 4, 5

[6] , 7

Notas de la ponencia:

[1]  Angela Maria Melo Pantoja - Mestra na Educação de Ciências (UFPA), Especialista na Educação de Jovens, Adultos e Idosos (UFPA), Especialista na Formação de Professores (UEPA), Graduada em Ciências Biológicas (UFPA).

2 Adriana Monteiro da Costa – Graduada em Pedagogia

3Dirceu Bibiano Duarte – Especialista em Psicopedagogia e Educação Especial (FIAMA), Especialista em Garantia dos Direitos e Política de Cuidados à Criança e ao Adolescente (UNB), Graduado em Pedagogia (UFPA).

4 Utilizamos aqui a expressão Comida Ribeirinha, fazendo referência as comidas próprias dos ribeirinhos, os quais são compreendidos como aqueles que povoam as margens dos rios, dos campos e das florestas da amazônia paraenses, os quais estabelecem relações  respeitosas com o território e suas territorialidades, figurando neles e nos ambientes em que vivem modos muito particulares de comer, de viver e de se relacionar com a natureza.  

5 Como categoria própria da Antropologia da alimentação, a comida emblemática aquela portadora de carga simbólica, sendo capaz de performar nas pessoas representações e sentimentos de pertencimento a um dado lugar, ou a uma dada coletividade, (CONTRERAS e GRACIA, 2011).

6- Na Secretaria Municipal de Educação de Belém a EJAI está, desde perspectivas pedagógicas e epistêmicas, organizada na Perspectiva da Totalidade do Conhecimento, isto é, o currículo é pensado interdisciplinarmente, compreendendo e articulando o conhecimento na sua totalidade. Assim, os/as estudantes encontram-se matriculados na primeira, na segunda, na terceira ou na quarta Totalidade do conhecimento.  

7-Peconheiros – pessoas que apanham o açaí, usando a peconha

Bibliografía de la ponencia

CARDOSO, Waldemir da Costa. Entrevista concedida a Ângela Maria, em 20 de junho de 2023, Comunidade Navegante, Belém-Pará. Entrevista para fins de pesquisa.

MONTEIRO, Adriana. Entrevista concedida a Ângela Maria em, em 10 de agosto  de 2023 Comunidade Navegante, Belém-Pará. Entrevista para fins  de pesquisa.

ARROYO, Miguel. Passageiros da Noite. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

CONTRERAS, Jesús e  GRACIA, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2011.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade, 23ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

FREIRE, Paulo e GUIMARÃES, Sérgio. Aprendendo com a própria história. Vol. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

PICANÇO, Miguel. Comida cabocla, uma questão de identidade na Amazônia: desde uma perspectiva fotoetnográfica. Belém: Paka-tatu, 2021.

 

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