Ruínas da floricultura e o reflorescer da agroecologia

SP.23: Desigualdades e injusticias ambientales al calor de la expansión de fronteras extractivas: una revisión de prácticas y alternativas de mundos posibles

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Lucas Rocha Salgado Museu Nacional

Ru·í·na

1. Ato ou efeito de ruir; desmoronamento, destroço, destruição.

2. Restos ou destroços de prédios desmoronados; ruinaria

3. Prédio desmoronado ou escalavrado pelo tempo ou por causas naturais ou acidentais.

4. Estado de destruição ou de degradação.

5. Enfraquecimento físico ou moral que conduz à destruição ou perda; abatimento, caimento, decadência

6. Queda ou decadência completa.

7. Perda da fortuna, da prosperidade, da felicidade, do crédito, de bens materiais ou morais.

8. FIG. Causa de destruição, de males, de prejuízos.”1

No calor tropical, o mato cobre tudo rapidamente, nos espaços abertos o capim alto predomina. À beira da estrada há uma casa sem telhado; apenas com os buracos onde um dia haviam portas e janelas; vista de fora, seu interior é repleto de mato no lugar que foi ocupado por mobília e movimento, pela presença e vida de pessoas. Uma ruína em meio a um bairro de muitas ruínas. Com amplos espaços vazios que eram ocupados pela produção intensiva de flores. Galpões degradados de blocos de cimento, ferro e concreto, grandes o suficiente para a entrada de caminhões. Por todo lado há vestígios da falta de uso dos espaços ao longo do tempo, peças de tratores, motores de caminhões e grande quantidade de ferro velho empoeirado. Em meio à penumbra dos galpões há cômodos abandonados e material de construção empilhado, entulhos, tubos para irrigação e lixo. Um posto de combustível antigo com bombas enferrujadas e um velho banco quebrado.

Há também as histórias do passado que assombram o lugar. Das origens coronelistas do Brasil, onde os donos de terras eram responsáveis pela exploração, vigia e violência contra trabalhadores; e dos espíritos que zanzam por aí aprisionados no carma e, por vezes, ávidos pela cobrança de um passado inglório.

Antes de serem erguidos os galpões e plantações de flores – antes das ruínas que vemos mais facilmente hoje em meio à paisagem – esse território presenciou a invasão do regime colonial para o interior do território brasileiro. No início do século XVII, na região de Guararema, no estado de São Paulo, havia um aldeamento jesuíta para indígenas catequizados. Nesse período, o território sempre foi de conflito entre indígenas e invasores europeus que tentavam dominá-los, escravizá-los ou exterminá-los.

As flores vieram no final do século XX, nos anos 1980, quando ali se instalou uma família de japoneses vindos da região de Embu, São Paulo. O bairro tem hoje o nome da família, Fukushima. Dizem que durante algum período foram os maiores produtores de rosas do Brasil, uma produção intensiva altamente dependente de agrotóxicos.

A ocupação do bairro, naquele período, era em grande medida formada por trabalhadores das rosas, que viviam em casas da propriedade rural dos Fukushima. Hoje, há pelo bairro alguns antigos trabalhadores desse tempo, mas não são a maioria. O bairro Fukushima se tornou uma área de avanço da urbanização da cidade de Guararema e está bem próximo aos limites da cidade de Mogi das Cruzes. Além disso, a proximidade a importantes rodovias (Presidente Dutra, Ayrton Sena, Carvalho Pinto e Dom Pedro I) torna a região atrativa para muitas fábricas que vêm se instalando por ali. A oferta de trabalho nessas fábricas, por sua vez, atrai pessoas que se mudam para bairros urbanizados ou condomínios e loteamentos que são criados. No tempo das rosas, as famílias eram buscadas em pau de arara no norte de Minas, conforme me relatou um morador que era criança à época. Ainda hoje, pessoas chegam vindas da região norte de Minas Gerais, geralmente por meio de um parente que veio antes. Agora, pessoas vêm para trabalhar nas fábricas, casas, sítios e plantações da região. As plantações são na maioria de frutas (caqui e lichia) e flores ornamentais (orquídeas).

Um jovem casal, com menos de trinta anos de idade, hoje, empregados como diaristas na roça do Cláudio Fukushima, me contou um pouco da sua história. Afrânio é do norte de Minas, veio pra cá na adolescência trazido pelo irmão. Me disse que “veio um, depois me buscou, depois a gente foi trazendo os outros dois; mas um não ficou e voltou pra lá”. Na escola, ele conheceu a sua companheira, Roseli. Ela é nascida em Guararema, mas seu pai também veio do norte de Minas depois de ter vivido na Bahia. Só quando terminaram a escola foi que Afrânio teve coragem de pedir Rose em namoro para o seu pai, depois que ele cuidou de um sítio enquanto o pai de Rose estava viajando. Hoje eles vivem juntos na casa da mãe dela.

Antes de trabalhar com as hortaliças do Cláudio, ambos já trabalharam em outras plantações da região. Me disseram que o melhor é trabalhar com frutas. Os homens colhem as frutas no campo, enquanto, nos barracões, as mulheres preparam e embalam a colheita para distribuição, geralmente para a CEAGESP (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo). O casal me confessa que o queria mesmo era poder trabalhar em alguma fábrica da região, mas segundo me contaram “elas só empregam gente de São Paulo, veem que a gente é aqui do bairro e não pegam. E, na cidade, também não pegam quando veem que é gente do sítio, discriminam”, falou Rose. Afrânio trabalhou em uma fábrica de blocos de cimento, se acidentou trabalhando e seu patrão não quis afastá-lo e pagar os direitos, ele teve então de deixar o trabalho e ir trabalhar na diária com Cláudio. Afrânio e Rose sabem mexer com as plantas e têm uma horta em sua casa, mas, diante das transformações do bairro, preferem – ou ao menos desejam – um emprego na fábrica com a “estabilidade” que ele traz.

Apesar do amor à agroecologia e da vontade de trabalhar na terra e produzir seu alimento saudável, a questão do trabalho fora da terra paira também sobre os membros do Coletivo Embaúba de agroecologia, sediado no bairro Fukushima. O tempo de trabalho na terra (mutirões e tarefas diárias) é sempre pensado no coletivo de acordo com as possibilidades de tempo das pessoas envolvidas, pois a maioria tem outros trabalhos que lhes tomam tempo. O trabalho de diárias nas roças do Cláudio é um quebra-galho temporário. O cálculo entre a falta de tempo para trabalhar a terra e a falta de dinheiro traz angústias à luta dos que sonham em viver da agroecologia. O Coletivo Embaúba tem consciência da necessidade de distribuição de produtos e de geração de renda, mas essa é uma dificuldade implacável ao trabalhador rural da agricultura não convencional.

Agricultura convencional: grandes escalas

A escalabilidade da produção é uma promessa neoliberal do agribusiness de modo a trazer volume de produto que justifique os intermediários no transporte e distribuição e ainda possa ser um negócio lucrativo ao produtor. Esse exemplo vemos no bairro Aparecidinha, em Pinhalzinho, São Paulo, onde também tenho observado as produções rurais e as transformações de bairros rurais paulistas. Lá, grandes áreas são plantadas com hortaliças e, depois de colhidas, transportadas em caminhões para o Entreposto Terminal São Paulo (ETSP) da CEAGESP, assim como os caquis de Guararema. O Entreposto (ETSP), com significado evidente, é um intermediário. O espaço, como praça de mercado, é uma grande feira, um mercado em proporções gigantescas. Galpões onde se negociam grandes quantidades de um único alimento (imagens 1 e 2).

Nas minhas andanças entre produtores rurais, já ouvi por vezes sobre a dificuldade na distribuição dos alimentos. Ouvi a mãe de um jovem produtor dizer algo que me ficou marcado “produzir eu sei que ele produz fácil, o problema é comprador”. Manter um caminhão para distribuição da produção é difícil para o pequeno produtor. Sair do sítio e ter que distribuir em várias localidades encarece o produto e é algo complicado em uma produção que pode variar devido à sazonalidade e as variações do mercado no decorrer de um ano.

O ETSP e a CEAGESP têm algumas “soluções” para essa cadeia. No entanto, mais do que trazerem soluções a um mercado pré existente, essas estruturas e tecnologias conformam, formatam, enquadram, esses atores (produtores, alimentos, consumidores etc) em uma rede constituinte de um mercado de alimentos que, como a sua estrutura física, se reproduz fractalmente em uma grande escala de produção, intermediários e consumo. Sobre a participação desses lugares de mercado na constituição de um mercado econômico, Marie France Garcia-Parpet (2003) escreveu sobre a construção do mercado de morangos de mesa de Fontaines-en-sologne analisando as características econômicas e sociais da construção desse mercado. No mercado de morangos de Fonataines-en-sologne, mecanismos tecnológicos e estruturais dessa praça de mercado foram construídos colocando em prática valores da teoria econômica.

[…] se as práticas mais imediatas guardam uma correspondência estrita com aquelas que a teoria econômica prevê, é que a própria teoria econômica serviu de quadro de referência para instituir cada detalhe desse mercado computadorizado, principalmente o espaço e os regulamentos, fixando o que é e o que não é admitido. O mercado de Fontaines é o resultado de uma construção econômica e social.” (Garcia-Parpet, 2003 [1986]: 34)

Podemos traçar paralelos analíticos entre o mercado de Fontaines analisado por Marie France Garcia-Parpet e o ETSP. Contudo, creio que é necessário notar que a constituição econômica e social desse mercado não se concluiu com a construção do espaço, mas sim é uma constante construção e, sobretudo, manutenção da rede sociotécnica na qual o ETSP, como praça de mercado, é mais um entre variados atores. Entre as tecnologias constituintes dessa rede sociotécnica – leia-se o mercado de alimentos in natura no Brasil – existe ainda um sistema chamado Prohort, Programa Brasileiro de Modernização do Mercado Hortigranjeiro, criado em 2005 e reconfigurado em 2014 por portarias do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Segundo a descrição do Prohort feita pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)2 em seu site, podemos dizer que o programa tem similaridades com as intenções presentes na computadorização do mercado de Fontaines, ocorrida nos anos 1980, relatada por Marie France Garcia Papert. Por meio do acesso à informação, o Prohort fornece uma base de dados aos agentes envolvidos na cadeia de distribuição e comercialização dos produtos e assume em sua definição uma busca pela ampliação das funções dos mercados atacadistas (como é o ETSP). Para embasar políticas federais, a Conab é responsável por fornecer

Informações detalhadas e atualizadas sobre a produção agropecuária nacional por meio de levantamentos de previsão de safras, de custos de produção e armazenagem, de posicionamento dos estoques e de indicadores de mercado, além de estudos técnicos que viabilizam a análise do quadro de oferta e demanda, dentre outros dados (Conab – Institucional).”3

De maneira prática para os envolvidos nas negociações que se levam a cabo nas diversas CEASAS pelo Brasil, por meio do sistema do Prohort é possível pesquisar os preços pelos quais foram vendidos os produtos em determinada central de abastecimento. Por exemplo, no dia 01 de março de 2023, a batata lavada especial tinha o “preço comum” em R$ 2,65, o “menor preço” em R$ 2,33 e o “maior” em R$ 3,03. Para ter acesso aos produtos a esse preço é necessário negociá-los no atacado, em sacos ou caixas, dependendo do tipo de produto. Geralmente esse preço corresponde em média a um máximo de 50% do preço encontrado no varejo, inclusive na feira varejista que é montada dentro do próprio ETSP nas manhãs de sábado. Perceba-se que o preço negociado no atacado no ETSP já inclui o valor pago ao produtor somado ao frete até o ETSP mais o lucro da banca atacadista.

A partir da construção de um mercado – tanto físico para a negociação de morangos, como econômico em torno aos morangos de mesa da região – observada na análise de Marie France Garcia-Parpet sobre Fontaines-en-sologne, Michel Callon (1998) escreveu sobre a formação de espaços de calculabilidade suscitados por aparelhos e equipamentos (estruturas) que conformam as ações dos (podemos dizer) atores-rede que conformam essa malha sociotécnica. Callon afirma, seguindo e Marie France Garcia-Parpet, que essas estruturas são pensadas a partir da própria teoria econômica, a qual acaba moldando a vida prática e as ações dos atores através dos investimentos feitos nas estruturas de mercado, e não partindo da necessidade prática de organização da vida social.

Todos esses diferentes elementos e dispositivos contribuíram para o enquadramento das transações, permitindo a rejeição de redes de relações e, assim, construindo uma arena em que cada entidade estava desligada das outras. Essa arena cria um espaço de calculabilidade: a técnica de leilão degressivo, a exibição das transações no quadro eletrônico, a qualificação relativa dos lotes de morangos em seus recibos de dados e o conhecimento do mercado nacional tornaram a transação calculável. Como este exemplo mostra claramente, o ponto crucial não é o das competências intrínsecas do agente, mas sim o dos equipamentos e dispositivos (materiais: o armazém, os lotes expostos lado a lado; metrológicos: o contador; e processual: leilão degressivo) que dá forma às suas ações.” (Callon, 1998: 21-22 – tradução minha)4

A construção de uma macroestrutura de mercado de flores, em Holambra, São Paulo, influenciou, segundo contam os guararemenses, na floricultura da região de Guararema. Em 1989 foi criado o Veiling Holambra. Inspirado no modelo holandês, o Veiling é uma cooperativa de floricultores que comercializa seus produtos nos moldes de um leilão virtual, similar com o caso dos morangos de Fontaines-en-sologne. O Veiling Holambra é provavelmente o maior centro de comercialização de flores e plantas ornamentais do Brasil. A estruturação desse mercado baseado em Holambra, também próxima à capital paulista, como Guararema; somada aos problemas ligados à legislação trabalhista e aos impactos da agricultura intensiva à saúde dos trabalhadores, levou ao declínio do império floricultor do bairro Fukushima.

Em relação à produção de alimentos saudáveis, os pequenos produtores são constantemente ameaçados pelo mercado da CEAGESP e seus grandes volumes e oferta de alimentos oriundos de várias partes do Brasil. No ETSP não há espaço para orgânicos ou produções não convencionais, como as ligadas à agroecologia. Para a forma como esse mercado (CEAGESP) está constituído a produção rural deve ser em grandes escalas garantidas por uma agricultura intensiva, latifundista e dependente da indústria de fertilizantes e venenos. Nos anos 1980 e 1990, a produção de rosas no bairro Fukushima se dava nessa base produtiva, o que prejudicou muito o solo e a saúde dos trabalhadores.

A partir da necessidade prática de organização da vida social (e não da teoria econômica neoliberal), para o fortalecimento da pequena produção rural e de práticas agroecológicas de produção de alimentos, em vez de empurrá-los ao comércio da CEAGESP, são necessárias estruturas de comércio locais que eliminem intermediários e gastos de transporte e valorizem o trabalho camponês compreendendo as suas dificuldades e a sazonalidade das produções.

Regime e sistema alimentares globais e suas consequências

O regime alimentar global atual tem sido responsável por intensificação dos impactos ambientais da produção de alimentos; genocídio de populações indígenas; expulsão de populações tradicionais; insegurança alimentar; e danos à saúde humana. A constituição desse sistema é dependente de aparatos legitimadores que formam tendências de produção e consumo e influenciam de maneira global os sistemas alimentares locais. No Brasil, diferentes atores, apesar da sua heterogeneidade de posições e áreas de atuação, operam em concerto na política em variados temas de modo a assegurar seus interesses econômicos, o que Caio Pompeia (2021) chama de concertação política do agronegócio. A partir da análise desses atores, interesses e tendências é possível observar como em parte se constitui e justifica um sistema alimentar tão danoso, predatório e desigual. Digo sistema alimentar para englobar as estruturas de produção, distribuição e consumo.

Em meados dos anos 1950, Antonio Candido acompanhou as transformações dos modos de vida camponeses no interior paulista. Os capítulos 9, 10 e 11 do seu clássico livro Os Parceiros do Rio Bonito: Estudo sobre o caipira e a transformação dos seus mais de vida (1977 [1964]) o autor dedica a análises sobre a dieta local caipira no interior paulista, seu valor nutritivo e as formas de obtenção do alimento. Esse tipo de análise etnográfica, observada pela distância de mais de meio século, nos informa sobre as tendências observadas à época e suas efetivações em modos de vida na contemporaneidade. Minha pesquisa de tese se debruça sobre modos de vida no interior de São Paulo, campesinato e as transformações de bairros rurais, muito inspirado por trabalhos como o de Candido. Sobre a dieta do caipira daquele tempo, Candido escreveu sobre a alimentação de uma família ao longo de uma semana, no verão de 1954

Todos os alimentos são de produção familiar, explicando-se a presença de leite pelo fato de, tendo um filhinho doentio, manter uma cabra para seu uso. O tomate aparece esporadicamente, tendo sido colhido na véspera, durante o mutirão de limpa das cercanias de uma casa desabitada, que se preparava para um cururu. Este parceiro costuma matar um porco de 4 em 4 meses. Na vila, compra macarrão, poucas vezes durante o ano; carne de vaca, menos de uma vez por mês, farinha de trigo, um quilo por mês.” (Candido, 1977[1964]: 134)

Em 2022, conversando com um funcionário de uma grande banca atacadista do ETSP, que me disse trabalhar ali há quase quarenta anos, ele me falou que a empresa proprietária da banca possui também fazendas produtoras no estado, principalmente de tomate, pois, segundo me disse, é um produto procurado durante todo o ano. Diferente da demanda atual apontada pelo vendedor da CEAGESP, no contexto observado por Cândido, nos anos 1950, no mesmo estado, o tomate tinha consumo esporádico, colhido nos arredores domésticos.

A CEAGESP trabalha com oferta em escalas gigantescas, toneladas, que requerem a produção intensiva para uma cadeia de distribuição repleta de intermediários. No consumo das pessoas acompanhadas na etnografia de Candido (duas famílias, ao longo de uma semana, e sete parceiros em um dia de trabalho conjunto para conserto de uma estrada) carne-seca de vaca aparece uma única vez em uma refeição de uma das famílias e em uma das marmitas dos parceiros trabalhando em conjunto. Em uma dieta diária que era composta por desjejum, almoço, merenda e jantar, era raro aparecer o consumo de carne, no geral, frango ou porco, em apenas uma das refeições do dia.

Hoje, na média brasileira, acompanhando as tendências globais para os últimos cinquenta anos (David Tilman e Michael Clark, 2014) o consumo de carnes é muito maior, sendo muitas vezes relacionado à principal fonte de proteínas na alimentação das pessoas. Os impactos ambientais dessa oferta e consumo de carne bovina, por exemplo, são os mais facilmente notáveis. De forma quantitativa, análises ligam a produção de carne de ruminantes aos mais altos níveis de emissão de gases de efeito-estufa (GEE) relacionados à produção de alimentos. Em um trabalho publicado por David Tilman e Michael Clark de análise do período de 1961 a 2009 sobre mudanças alimentares globais e impactos ambientais, eles explicitam o fato de que com o aumento da renda das pessoas há uma tendência de aumento no consumo de proteínas animais em paralelo à diminuição da demanda por proteínas vegetais (leguminosas). Os autores demonstram que dietas alimentares alternativas, com menor consumo de carnes, combinariam melhores índices de saúde humana com redução nos impactos relacionados à emissão de GEE oriundos da produção de alimentos. Ao mesmo tempo, demonstram as trágicas prospecções para um cenário, em 2050, seguindo as atuais tendências de mudança na alimentação mundial, relacionadas ao aumento da renda – como ocorrido no período entre 1961 e 2009 –, no sentido de maior consumo de carnes e de produtos de baixo valor nutricional (gorduras, açúcares e álcool) combinados ao aumento calórico da alimentação. Nesse cenário, de 2009 a 2050 a média per capita global das emissões relativas à produção agropecuária aumentaria em 32%, esse número combinado à expectativa de aumento de 36% da população mundial gera estimativas para 2050 de um aumento de 80% nas emissões de GEE relativos à produção de alimentos.

Em detrimento da produção agropecuária atual ser mais do que suficiente para alimentar a população mundial, a fome é persistente no mundo. O acesso a alimentos pela população é extremamente desigual. Alimentos com valores nutritivos relevantes se tornam artigos valorizados baixo selos de orgânico, artesanal, saudável, natural etc, enquanto ultraprocessados, repletos de gorduras, sódio e açúcares, se tornam cada vez mais acessíveis. Um pacote de bolacha recheada ou uma salsicha são alimentos das crianças nas cidades brasileiras. Ao mesmo tempo, práticas de subsistência e soberania alimentar, como os quintais, hortas e as PANCs, são desestimulados e não incentivados a comporem a base da alimentação da população. Os tomates não são mais conhecidos por dar no mato, na cerca, como no tempo de Candido, mas sim nas gôndolas dos supermercados, depois de passar por vários intermediários, produto fruto de fertilização química, veneno, sementes modificadas e, por vezes, desterritorialização de povos indígenas e populações tradicionais e trabalho precarizado. No Brasil das últimas décadas, o tão canalha “passar a boiada” não cessa de acontecer diariamente, repetido em ataques às populações indígenas e com o avanço da agropecuária expansionista – manifesto no derrubar floresta, tacar fogo e matar tudo que tem lá (mato, gente e bicho) e em práticas políticas que desmantelam o código florestal e os instrumentos de reconhecimento e proteção dos territórios de populações tradicionais. No Plantationceno, se nós cientistas esperamos ou prospectamos o fim do mundo (para 2050 talvez?), alguns seres já o lamentam e outros o estão vivenciando neste exato momento.

Sob os constantes avanço e ataques dos ruralistas às terras de povos indígenas e de populações tradicionais, uma política para mexer na concentração de terra no Brasil de fato nunca aconteceu. Produção de alimentos, combate à fome e sustentabilidade ambiental poderiam ser construídos a partir de políticas de reforma agrária – como já postuladas por Candido (1977 [1964]) – e de demarcação de terras e sua proteção. Criação de escolas camponesas e de formação política; empoderamento das responsáveis por tarefas ligas à terra; formação técnica propulsora de formas de habitar a Terra em complementariedade; processos de criação de refúgios bioculturais (Carney, 2021); aquilombamento (Ferdinand, 2022); e biointeração ([Antonio Bispo] dos Santos, 2015) são algumas alternativas ao Plantantionceno, que fortaleceriam modos de vida no campo não motivados por exploração da paisagem, lucro e expansão de mercados, mas comprometidos com justiça social, reparação histórica, questões ambientais e, sobretudo, soberania e justiça alimentares. Linhas de fuga ao Plantationceno, plots alternativos à plantation (Wynter, 1971), futuros possíveis imagináveis a regiões em constante apropriação violenta pelo capitalismo das mais variadas formas: de suas terras, frutos, paisagem e modos de vida.

Coletivo Embaúba de agroecologia

O slogan do Coletivo Embaúba de agroecologia é “ecologia com amor”. O foco do coletivo é a agroecologia e a produção de alimentos orgânicos em bases comunitárias. O modo prático de transformação da paisagem nesse sentido é a agrofloresta (imagem 3). Conhecendo o coletivo, eu descobri o SAF (Sistema Agroflorestal), um sistema de produção de alimentos que integra hortaliças (em sentido amplo) frutas e floresta. Atualmente, acompanho a construção de um MILPA6 (imagens 4 e 5) e de uma área de SAF que estão sendo implantados pelo coletivo em um processo progressivo. A princípio, são erguidos três canteiros a cada quinze dias, dois canteiros dedicados a hortaliças e um canteiro de agrofloresta. Nas linhas de agrofloresta são plantadas árvores nativas, frutíferas e adubação verde (plantas usadas para gerar matéria verde que retorna ao solo para incrementá-lo com nutrientes e para cobri-lo para manter a umidade). Os canteiros de hortaliças produzem gêneros que complementam a alimentação dos membros do coletivo com verduras e legumes orgânicos. A agrofloresta (imagem 6) gera alimentos respeitando a estratificação das plantas em um sistema de grande diversidade da produção.

A área de atuação do coletivo Embaúba, no bairro Fukushima, possui certificação de produção orgânica, adquirida de maneira participativa por meio da associação APOENA (Rede Agroecológica do Vale e Região), uma rede formada por produtores agroecológicos da região do Vale do Paraíba. Os produtores realizam a atividade de fiscalização dos sítios da rede e garantem a produção e manejo dos alimentos sem uso de agrotóxicos. Quando participei de uma visita da associação, no sítio do Milton, em Igaratá, testemunhei a seriedade e o carinho que envolve o processo participativo de certificação. Primeiro, porque há um comprometimento de todos os envolvidos em manter as bases de produção orgânica, sem uso de agrotóxicos, e de inovar em métodos e tecnologias agroecológicas. A visita é um processo constante de troca de conhecimentos entre os produtores, eles falam de suas dificuldades e compartilham as soluções que encontram a partir daquilo que dispõem nos sítios para gerar um solo fértil, saudável, e boas condições para suas produções. Também é um momento de troca de receitas, geleias, sucos, frutas e pães em deliciosos cafés da manhã.

O selo de orgânico dá ao consumidor a garantia de que está consumindo produtos sem agrotóxicos, o que está atrelado a uma produção em menor escala tornando o produto mais exclusivo em meio à massividade da produção nacional convencional, que é alcançada através de uso intensivo de agrotóxicos. Essa rastreabilidade da produção orgânica agrega valor aos alimentos comercializados com o selo, o que é um importante atrativo para a distribuição da produção. A APROAJ (Associação de Produtores Rurais Orgânicos e Agroecológicos de Jacareí) escoa parte dos alimentos cultivados pelos produtores da região e certificados pela APOENA. Tive a oportunidade de acompanhar Cláudio e Gui em uma entrega de hortaliças para a APROAJ. Cláudio oferta o que terá para a colheita da semana e às terças e quintas feiras entrega esses produtos no sítio da APROAJ, em Jacareí, onde são montadas cestas de alimentos orgânicos que ela entrega a seus clientes. Os consumidores recebem a oferta dos produtos semanalmente e montam seus pedidos para a cesta. Os produtores pagam uma taxam de associação à APROAJ, que mantém a estrutura da associação com duas funcionárias. Uma das responsáveis é Fernanda, esposa do Luiz Henrique, eles são moradores do bairro Fukushima e referências para a produção agroecológica e construção de redes de distribuição de alimentos saudáveis.

Fernanda e Luiz Henrique têm dois filhos, Benjamin (quatro anos) e Bento (um ano). Fora o Cláudio, que praticamente nasceu no bairro Fukushima, eles são os mais antigos do coletivo nesse território. Através deles vieram as outras pessoas que hoje integram o coletivo Embaúba. Eu cheguei no coletivo através do Cláudio, em um encontro na ENFF (Escola Nacional Florestan Fernandes), do MST, localizada em Guararema, próxima ao Fukushima. Mas Luiz trouxe João, através do João vieram Flávio, Vini e Giu e sua família. Luiz e Fernanda saíram da cidade de São Paulo, de uma vida inteira em uma metrópole, e se mudaram para uma terra rural propriedade do avô de Fernanda, próxima à cidade de Viçosa, em Minas Gerais. Lá, Luiz uniu o conhecimento que ele vinha acumulando sobre agroecologia e permacultura ao conhecimento da roça e toda a experiência do avô de Fernanda. Produziram alimentos saudáveis e praticaram a transformação da paisagem daquele território, preservando o solo, a biodiversidade e a água. Também iniciaram, em Viçosa, um processo de articulação da agroecologia em rede através do contato com alunos, professores e pesquisadores da UFV (Universidade Federal de Viçosa), com produtores agroecológicos da região e com a organização de eventos, como feiras e visitas a quintais e produções. Foi nesse contexto, de articulação da agroecologia em Viçosa, que eles conheceram Cláudio e receberam dele o convite para se mudarem para Guararema. Esse conhecimento, não só com a terra mas também com a articulação em redes agroecológicas, Luiz e Fernanda trouxeram para o território do bairro Fukushima. Atualmente há uma feira cultural e solidária sendo organizada no bairro, além de movimentar as ideias e unir entusiastas em torno ao tema da agroecologia, a feira quer unir a população jovem do bairro aos demais moradores da comunidade, os artesãos e comerciantes locais e também os moradores dos condomínios, chácaras e loteamentos da região.

O lugar antes formado por ruínas da produção intensiva das rosas, agora está se constituindo como referência para a regeneração de biomas, agroecologia e vida comunitária, através da atuação das jovens famílias mobilizadas em torno ao Coletivo Embaúba de agroecologia. Um processo de limpeza e transformação da paisagem, mas, sobretudo, de cura. Cura através da transformação das pessoas e das formas de relação e modos de vida no campo. Uma produção de alimentos saudáveis ao mesmo tempo que se regenera a natureza, limpa e preserva o solo e água, e fortalece modos de vida comunitários, educação ambiental e formação política.

A prática agroecológica do Coletivo Embaúba, com base na permacultura, envolve mais do que a implantação de SAFs, há o processo de limpeza do terreno como eu já mencionei, mas há também a construção de práticas comunitárias de articulação: grupos de mulheres; de discussão sobre a construção de espaços pedagógicos e lúdicos para as crianças; de cozinha comunitária, que serve almoço em bases coletivas de preparo e discute práticas alimentares e propostas saudáveis de alimentação; coleta de rejeitos e compostagem de resíduos orgânicos; e as festas. As festas são constantes, muitos aniversários e confraternizações, um momento em que as contradições do coletivo desaparecem e as pessoas se integram de forma mais acolhedora desfazendo tensões do cotidiano.

No manejo agroecológico do coletivo o mato, que facilmente cresce no calor tropical, é de grande valia. Toda matéria orgânica roçada é importante para ser incorporada ao solo e auxiliar na cobertura dos canteiros de modo a conservar a água. O método da agricultura convencional busca eliminar o que tratam como “plantas invasoras”, essas plantas na agroecologia são consideradas plantas espontâneas que contribuem de maneiras diversas ao equilíbrio ecológico do sistema ambiental, seja na incorporação de matéria ao solo ou, por exemplo, atraindo polinizadores ou repelindo predadores.

Manejo” é palavra central à prática agroecológica do coletivo, formas de manejo da matéria orgânica e da paisagem e também da conscientização sobre as maneiras de atuar em determinado território. O manejo agroecológico visa uma prática colaborativa com os biomas de forma a regenerá-los ao passo que produz alimento saudável e abundante na agrofloresta. Uma forma de manejo agroecológico é construída, hoje, na prática do Coletivo Embaúba, no bairro Fukushima. Através de reuniões semanais, debates em grupos de trabalhos e ações de agroecologia, o coletivo tem transformado a paisagem. O que antes eram ruínas do monocultivo agora tem se constituído agrofloresta produtora de alimentos orgânicos; e uma forma alternativa de organização camponesa se mobiliza no interior próximo à capital paulista, no sentido da vida comunitária.

Notas de la ponencia:

1 Dicionário Brasileiro Michaelis da Língua Portuguesa: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/ruina.

2 https://www.conab.gov.br/info-agro/hortigranjeiros-prohort acessado em 14/02/2023.

3 https://www.conab.gov.br/info-agro/hortigranjeiros-prohort acessado em 14/02/2023.

4 “All of these different elements and devices contributed to the framing of transactions by allowing for the rejection of networks of relations, and thus by constructing an arena in which each entity was disconnected from the others. This arena create a space of calculability: the technique of degressive bidding, the display of transactions on the eletronic board, the relative qualification of batches of strawberries on their data slips, and knowledge of the national market all made the transaction calculable. As this example clearly shows, the crucial point is not that of the intrinsic competencies of the agent but that of the equipment and devices (material: the warehouse, the batches displayed side by side; metrological: the meter; and procedural: degressive bidding) which gives his or her actions a shape.” Callon, Michel. “Introduction: The Embeddedness of Economic Markets in Economics.” In Callon, Michel (ed.) The Laws of the Markets, Vol. 46, Issue 1. The Editorial Board of The Sociological Review: 1-51, 1998 – tradução minha.

5 Plantas alimentícias não convencionais (PANCs) são plantas de desenvolvimento espontâneo e potencial nutritivo, porém não consumidas em larga escala.

6 MILPA é uma técnica ancestral pré-colombiana, nativa latino-americana, que combina milho, feijão e abóbora consorciados nos canteiros. Nesse primeiro MILPA do coletivo as sementes de feijões não semearam por estarem velhas, brotando somente as abóboras e milhos.

Bibliografía de la ponencia

Callon, Michel. “Introduction: The Embeddedness of Economic Markets in Economics.” In Callon, Michel (ed.) The Laws of the Markets, Vol. 46, Issue 1. The Editorial Board of The Sociological Review: 1-51, 1998.

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