Mana, você não está só! etnografar sociabilidades no espaço virtual

SP.14: Etnografiar la transformación: géneros, patrimonios y rituales en Latinoamérica

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Louise Tavares Universidade Federal da Bahia

Introdução 

Este trabalho representa uma reflexão sobre o trabalho de campo que desenvolvi durante minha pesquisa de mestrado, cujo tema se relaciona com as elaborações de fé de mulheres dissidentes sexuais nas quais são evangélicas e católicas, com a formação de novos sentidos sobre o religioso. Me aproximo dessas a partir da criação do grupo on-line  Igreja Vale das Bençãos. Uma comunidade na rede social wthasapp que se formou ainda no período pandêmico, com vias de ser um espaço para interações, cultos e reuniões on-line entre mulheres sáficas. 

Essa aproximação se deu no ano de 2020 no momento de isolamento social, e por esse fato a pesquisa se deu em ambiente virtual. Logo, a necessidade de um trabalho de campo voltado ao ciberespaço. As definições de Kozinets (2014) e Polianov (2013) a respeito da etnografia virtual foram fundamentais para o entendimento de como a internet se constitui como um espaço marcado por relações sociais possíveis de serem observadas e com dinâmicas sociais a serem refletidas. 

Outro ponto fundante a ser pensado é como o gênero aparece nessas interações, sendo a internet uma possibilidade de circulação de informações e criação de sentidos de pertencimento a mulheres dissidentes. Logo, trata-se de uma pesquisa que encara a internet como um espaço com sociabilidades específicas a serem entendidas. 

A IVB como é chamada pelas membras do grupo apresenta um modo próprio de encarar a tensão entre religião e dissidências sexuais. Sobretudo na elaboração de um ponto de vista sobre a relação entre gênero, sexualidade e religião. Algo que se evidencia no humor e sarcasmo sobre posições lgtfobicas de religiosos fundamentalistas, assim como no apoio mútuo e nas informações sobre igrejas afirmativas, congressos, cursos de formações sobre teologias contextuais. 

Por conta disso, houve a necessidade de entender as dinâmicas do grupo que ainda na sua formação se encontrava em reuniões periódicas via Google Meet para fazer orações e leituras bíblicas. Algo que me chamou atenção pelos significados dados ao texto bíblico a partir de um olhar generificado e de experiências dissonantes do heteropatriarcado. Mochel (2023) em sua tese apresenta  sociabilidades digitais entre mulheres evangélicas como uma necessidade criar espaços para interações específicas. E assim analisa e expressa a importância de se estudar a materialidade da comunicação.

Nesse sentido, busco pensar como as mulheres do grupo IVB, acabam por utilizar as redes para expressar uma acomodação para os dissidentes. Por essa razão uma dinâmica que se expressou nas redes sociais, e de forma mais acentuada no período pandêmico. Logo,  este  artigo almeja notar como o trabalho de observação participante foi fundamental para a etnografia virtual desenvolvida. Dessa maneira, aqui serão refletidos aspectos da aproximação com o campo, sobretudo no que se pode aprender sobre a comunicação mediada por tecnologia, bem como às alternativas criativas propostas pelo grupo IVB. Isso porque um dos principais aspectos do trabalho etnográfico reside na sua capacidade de construção do conhecimento por meio das relações desenvolvidas em campo.  

Assim, tendo em vista que a etnografia como uma descrição densa de valores culturais (GEERTZ, 1989), compreender as relações em meio virtual é notar a complexidade das teias de significado social (como apontado por Marx Weber) num mundo altamente virtualizado.  Ou como a comunicação em meio virtual pode representar (re)criação de identidades e  modos de pertencer, seja de um ponto de vista de uma inovação sociológica, seja pela problemática que há na velocidade e efemeridade desse tipo de comunicação.

Em Etnografia virtual, netnografia ou apenas etnografia? Beatriz Brandão Polianov introduz aspectos importantes sobre pesquisas conduzidas nesse meio. Nele é possível notar a defesa de como o ambiente virtual representa mudanças significativas no modo de produzir uma relação entre o real e imaginário, sendo o método etnográfico uma maneira de compreender tais mudanças. Por essa razão esse texto assim como outros trabalhos como o Hine(2000) foram importantes para a reflexão e entendimento do meu contexto de pesquisa, já que estudo um grupo virtual no Whatsapp.

Caminhos para uma descrição densa: pregações, orações e interações virtuais

O grupo tem/teve como dinâmica a presença no WhatsApp local onde presenciei o considerável volume de conversas, com os mais variados temas, mas com a marcante discussão sobre o meio cristão evangélico, nas críticas às posições fundamentalistas de certas lideranças e denominações. Naquilo que consideram como a cultura da pureza ou na defesa da castidade aos jovens solteiros héteros e celibato aos homoafetivos. Outra dinâmica observada foi a organização de cultos periódicos ainda durante a pandemia, algo que se estendeu até o final de 2022. Assim o trabalho se divide em dois âmbitos: 

a) inserção no grupo e interações no whatsapp com o registro das conversas com a devida autorização

b) participação e gravação dos cultos onlines

Desse modo, nessa dinâmica a IVB se faz por uma estratégia de fortalecimento e orgulho LGBTQIA+, algo a ser observado, nas potencialidades  e contextualização do texto bíblico para a aceitação entre mulheres dissidentes. Assim, definida as etapas da pesquisa, entre observação dos cultos e conversas, busquei notar a abertura que grupo produz, sem deixar de considerar aquilo que Strathern (2012) defende na construção de uma ficção conveniente e controlada. Isto é, apesar das possibilidades e limites implicadas nessa atividade o produto dessas interações entre saficrentes faz pensar  de forma renovada a interação entre religião, gênero e sexualidade. 

Criatividade nativa e alternativas religiosas: carne, osso e bits 


A minha posição como pesquisadora-insider é o ponto de partida  para a formulação descritiva do meu campo. Desse ponto de vista Amaral (2008) coloca a possibilidade de uma autoetnografia, ou na melhor a adequação da posição insider com o uso em primeira pessoa, numa descrição narrativa “próxima”. Assim, é possível dizer que: “Quando se analisa as comunidades formadoras de uma cibercultura, é preciso levar em conta seu marco social, seus ritos de iniciação, sua função econômica, mas, sobretudo, as metáforas e imagens com que as pessoas criam uma forma de estruturar e significar suas vidas e suas relações humanas” (Rüdiger, 2012, p. 159). 

Desse modo, nas primeiras conversas com o grupo noto um posicionamento claro sobre a sexualidade, na virada de uma concepção da homoafetividade como um pecado. Algo que Natividade (2023) acompanha em igrejas inclusivas numa gestão da homossexualidade. A estratégia da IVB, por sua vez, representa alguma especificidades, seja por ser constituído por mulheres, seja por uma ruptura com modelos mais institucionalizados.  E fazem tal coisa por meio de uma série de estratégias nas quais exemplifico como: 

  1. Posicionamento Político - interações com humor e sarcasmo em relação a posturas ultraconservadoras da igreja cristã, sobretudo evangélica, circulação de símbolos de orgulho e aceitação, troca de memes em que sagrado e profano se misturam; 

  2. Rede de acolhimento - conservas sobre momentos traumáticos, dificuldades na família, relações problemáticas, conselhos amorosos, flerte, histórias sobre aceitação e acolhimento familiar; 

  3. Rede de informações - compartilhamento de textos, livros, manuais, sites em que a temática LGBTQIAPN+ entra em cena, com destaque para o compartilhamento do manual LGBTQIA+ formulado pelo grupo de Católicos pela diversidade; divulgação de igrejas inclusivas e afirmativas, cursos e palestras sobre teologias contextuais; 

  4. Cultos  e ceias - leituras e sermões bíblicos com a interpretação sob um viés de gênero, orações e discussões sobre o contexto político e social do Brasil, liturgia sendo conduzida pelas próprias mulheres do grupo, com o momento da Santa ceia.  

Assim, dentre esses momentos, é comum ao grupo trazer figuras com o intuito de reforçar o orgulho e ser um contraponto ao regime do armário (FREIRE, 2019), algo que pode ser observado em ambientes religiosos para a gestão da sexualidade (Natividade, 2023).  As figuras trocadas põem em relevo temas como orgulho, aceitação, deboche, humor e acolhimento. Em uma delas foi possível notar frases como: “sejam bem viados”. Entre outras saudações, existem termos que remetem ao orgulho sapatão, as cores do arco-íris e as práticas comuns aos coletivos LGBTQIAPN+, como na imagem abaixo:

Figura 1. Boas- vindas ao Vale das Bênçãos.

 

Figura 2. Saudação bom-dia sapatão.

 Assim, no grupo foi possível perceber um ambiente propício para que a religião e dissidências sexuais e de gênero sejam aproximadas. O humor que estava presente nas interações ajuda a compreender como os usos desses símbolos servem para comunicar as principais intenções da IVB. Como exposto nestas figuras:  

Figura 3. Agradecimento pelas lesbicrentes (possível sinônimo para saficrente).

 A imagem acima é bem elucidativa do propósito do grupo que nessas interações costumava interseccionar gênero, raça e sexualidade, como nessa imagem em que “Deus” aparece como uma mulher preta e lésbica. Ou seja, há o uso da intertextualidade para produção de metáforas e ressignificações,  no caso em questão a imagem é a releitura do famoso quadro, A criação, do pintor italiano Michelangelo. 

Mas, além do humor, os memes do grupo trazem, também, fatores que expressam ironia em relação ao imaginário entre ultraconservadores e religiosos sobre relações homoafetivas. Estas são vistas como promíscuas por muitos religiosos. Ao problematizar esta perspectiva,  as saficrentes usam a linguagem do mundo LGBTQIAP+ para exaltar o amor entre dissidentes sexuais. Isso se evidencia na ironia à ideia de brotheragem termo que vem do universo gay. No grupo, é utilizado o termo “amizade” para exaltar o relacionamento entre mulheres, mas criticando uma espécie de apagamento de relações entre pessoas do mesmo sexo, que ora é visto como promíscuo, ora visto apenas como o relacionamento amistoso. Ver figura abaixo:

  

Figura 4. (“amizade”). 

 As saficrentes também criticam a ideia da cura gay, defendida em alguns meios evangélicos e católicos fundamentalistas. A imagem abaixo representa essa crítica:

Figura 5. Ironia reversa com as “terapias” de reversão sexual.

 Portanto, nessas interações, é possível notar que na IVB há uma busca por afirmação e, com ironia e humor, propõe um contraponto a percepção estigmatizada sobre a homossexualidade dentro do meio cristão. Isso fica ainda mais evidente em outras figuras, ao se utilizarem de elementos religiosos, passagens bíblicas e figuras dos santos, para promover críticas à lgbtfobia. As figuras abaixo são representativas:

 Figura 6. figura com imagens de santos católicos num tom irônico para criticar o uso da passagem bíblica do livro de Levítico usado para condenar a homossexualidade.

 Dessa forma, contrapõe concepções e os usos da Bíblia como a passagem do livro Levítico, que é usada para condenar e acusar homossexuais de promiscuidade. É comum, na Igreja Vale das Bênçãos, o uso de símbolos e ideias religiosas sobre a ótica do gênero e das dissidências. Neles, pode-se notar a problematização à ideia de uma moralidade casta, heterossexual, em que termos como culpa cristã são acionados de forma crítica para se falar sobre liberdade sexual, entre o imaginário sacro e pagão. E isso sob a necessidade de uma formulação ética e de conhecimento sobre a própria sexualidade, ou seja, o grupo busca defender um modo pleno e consciente de viver suas experiências afetivas. Por isso é importante a esta pesquisa refletir sobre a agendas morais por parte dos religiosos, e como grupos e igrejas progressistas aparecem nesse contexto com uma abertura às dissidências. Logo, abaixo aparecem figuras em que a tensão entre sagrado e profano é usada, num jogo em que esses significados são postos de maneira relativa e contextual. 

Figura 7. Diversas imagens que brincam com o imaginário sobre santidade, o erótico, dissidências sexuais e prática cristã.

Esse conjunto de informações reverbera num entendimento do tipo de sociabilidade que o grupo produz, campo para uma possível reflexão na relação entre subjetividade, mídias e religião. Algo que Martino (2017) observa e corrobora para as ideias de Pierucci (2008) A (2006) B sobre a dissolução do religioso em favor de concepções mais plurais e na disseminação de novas formas de viver a religiosidade.

Considerações Finais

Esse espraiamento da religião é pensado aqui através das atualizações, ou melhor na reunião e interação entre essas mulheres em que permanece o sentido comunitário: você não está só! Num processo de virtualização em que estão envolvidas onde "se atualiza num texto, e um texto numa leitura (numa interpretação)" (LÉVY, 1996). A atitude de compartilhar relatos, informações e apoio mútuo vão se misturando com a os sentidos de espiritualidade que carregam consigo, numa relação entre interioridade e exterioridade, real e imaginário, cotidiano e ritual. Isto é onde o ciberespaço se apresenta como uma potencialidade para a difusão de novas ideias. Portanto, o caminho traçado até aqui na superação de estigmas relaciona  um tripé interessante de acompanhar onde espiritualidade, feminismos, religião e sexualidade expressam modos de significar a vida através do ritual e da performance. 

   

Notas de la ponencia:

1. saficrentes - palavra utilizada pelo grupo para denominar mulheres com pertença religiosa cristã e que são dissidentes sexuais, a palavra é junção dos termos: sáfica (mulheres que relacionam com outras mulheres) e crente (palavra utilizada para denominar um grupo de cristãs geralmente evangélicos). 

Bibliografía de la ponencia

AMARAL, Adriana. Autonetnografia e inserção online: o papel do pesquisador-insider nas práticas comunicacionais das subculturas da Web. Revista Fronteiras–estudos midiáticos, v. 11, n. 1, p. 14-24, 2009.

FREIRE, Ana Ester Pádua. Armários queimados: igreja afirmativa das diferenças e subversão da precariedade. Belo Horizonte, 2019.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas, Rio de Janeiro: Ed. 1989.

HINE, Christine. Etnografía virtual. Editorial uoc.  2011 (2000). 

KOZINETS, Robert V. Netnografia: realizando pesquisa etnográfica online. Penso Editora, 2014.

JUNGBLUT, Airton. O uso religioso da Internet no Brasil. PLURA, Revista de Estudos de Religião/PLURA, Journal for the Study of Religion, v. 1, n. 1, Jul-Dez, p. 202-212, 2010

Fuentes de la ponencia

LÉVY, Pierre. O que é o virtual?. Editora 34, 2011 (1996). 

LIMA, Sonia Oliveira et al. Impactos no comportamento e na saúde mental de grupos vulneráveis em época de enfrentamento da infecção COVID-19: revisão narrativa. Revista Eletrônica Acervo Saúde, n. 46, p. e4006-e4006, 2020.

MARTINO, Luís Mauro Sá. Mídia, religião e sociedade: das palavras às redes digitais. Pia Sociedade de São Paulo-Editora Paulus, 2017.

MOCHEL, Lorena. Ministérios no WhatsApp: gênero, sensorialidades e transformações ético-políticas no cotidiano de mulheres evangélicas. Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro), p. e22301, 2023.

PIERUCCI, Antônio Flávio. De olho na modernidade religiosa. Tempo social, v. 20, p. 9-16, 2008.

PIERUCCI, Antônio Flávio. Religião como solvente: uma aula. Novos estudos CEBRAP, p. 111-127, 2006.

POLIVANOV, Beatriz Brandão. Etnografia virtual, netnografia ou apenas etnografia? Implicações dos conceitos. Esferas, n. 3, 2013.

RÜDIGER, Francisco. Sherry Turkle, percurso e desafios da etnografia virtual. Revista Fronteira (Cessou em 2008. Cont. ISSN 1984-8226 Revista Fronteiras (Online)), 2012.

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