Saci-Pererê e Jaxy Jaterê Guarani: Diálogos entre mitologia, etnologia indígena e astronomia cultural sobre lua, constelação Tudja’i (Homem Velho), flora, fauna e respeito à floresta

SP.49: Violencias y desigualdades en las relaciones cielo-tierra: la astronomía cultural como abordaje emergente de disputas cosmopolíticas

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Rogerio Reus Gonçalves da Rosa Universidade Federal de Pelotas

Quem um dia não ouviu falar do Saci-Pererê ou sentiu um arrepio na espinha devido à sua proximidade após um estridente assobio? O Saci é um personagem amado e respeitado por infinitas pessoas, sendo narrado em livros, jornais, peças de teatro, músicas, danças, quadrinhos, pinturas, grafismos, internet e streaming1.

Trata-se de um ser que transcende as fronteiras nacionais. Na província de Misiones, Argentina, o Yasy-yateré é um personagem anão, cor vermelha, que manipula um bastão de ouro ou uma varinha encantada. No Paraguai, há o Saci-ave Tapera naevia e o ave Peixe-frito verdadeiro, conhecido também como o Saci-da-mata ou o Saci-faisão. No Chile, entre os Araucanos, aparece o Ketronamun, duende e perneta de aparência similar ao Saci. No Peru, entre os Inca e os mineiros de Julcani, vive o Muqui, um menino de dez anos, que habita o subterrâneo, veste-se como um mineiro, porém com roupas ornamentadas em ouro, seu corpo possui grande genitália, dois chifres na cabeça e olhos vermelhos vibrantes2 (Cascudo, 2002, p. 123-133).

No Brasil, o Saci está associado a um menino, corpo negro, uma perninha, gorro, roupas vermelhas e cachimbo na boca. A impressão inicial da matriz afro-americana é notória. É importante dizer que além da floresta, do mundo subterrâneo das minas de ouro, das residências, etc., diversos povos indígenas reparam sua presença no céu. Então, partindo da clássica imagem do Saci de gorro vermelho e perneta, serão destacados outros nomes e fisicalidades que permeiam esse personagem no mundo afro-indígena.

O Saci Negrinho e O Saci Índio

Em março de 2014 aconteceu o Curso Básico de Formação em Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas – PNGATI/Bioma Mata Atlântica Sul/Sudeste. Durante o evento, eu escutei dos participantes que o motorista da instituição Rui Sérgio Ferreira narrava eventos “estranhos”. Sem pestanejar, decidi conversar com ele na primeira oportunidade. Rui disse-me que manteve até o presente dois contatos com o Saci negrinho, o primeiro aos nove anos; o segundo, aos vinte e cinco.

No primeiro, o Saci chegou rodopiando em uma encruzilhada e o convidou para assustar um grupo de escoteiros acampados na floresta em troca de uma caixa de bombom. Após muita correria das crianças mata a dentro, o Saci desapareceu sem pagar o prometido. Quando perguntei como era o Saci:

"Ele é como o folclore, pelo menos o que eu vi, é um menininho aparentemente de nove anos, da nossa idade, usa o gorro vermelho, um shortinho com a tira, o cachimbo e descalço. Igual a gente andava, a gente andava só descalço na época"3.

Mas, Rui está longe de ser a única pessoa a conhecer pessoalmente tal personagem. Outro narrador, Quito, um jovem de quinze anos, defrontou-se com um Saci, referido como um menino negro como o “carvão”, dez anos, um metro de altura e perneta. Na percepção de Quito, dos olhos vivos do Saci tremeluzem brasas e, ao rir, expele fogo pelas narinas (apud Lobato, 2008, p. 111).

Nhô Vadô Rodrigues, “um velho boiadeiro”, conhece bem o perneta. O Saci que ele presenciou usa camisa e calça de tecido de algodão, na cabeça um gorro pintado de urucum luminoso e os seus olhos expelem fogo. Com as mãos furadas, ele brinca de petecar brasa de fogo enquanto caminha e carrega seu cachimbo de barro. Por sua vez, a Negra Joana adiciona que, além da carapuça vermelha, o Saci usa camisa e calção vermelho de algodão. No seu modo de ver, ele tem nariz adunco, barbinha e unhas das mãos compridas. O preto velho Nhô Urbano comenta que o Saci é o “filho do diabo”, adora trançar as crinas dos cavalos e fazê-los galopar à noite inteira, servindo-se da cauda como rédeas (apud Lobato, 2008, p. 45-262).

Figura 1: Saci Negrinho

Fonte: Pedro Castilhos da Rosa

Algumas características físicas e intersubjetivas apontadas acima do Saci-Pererê são destacadas pelo Clóvis Chiaradia no Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena:

"SACI. 1) entidade fantástica (século XIX), negrinho de uma perna só, de cachimbo e barrete vermelho; persegue ou arma cilada aos viajantes; no vale do Paraíba do Sul, tem um olho doente (eçá-aci) e o outro muito vivo (eçá-pererê) [...]; 2) v. matintaperera (Tapera naevia). [...] do T.G. [Tupi-Guarani] (e)çá-aci o olho doente. SACI-CERERÊ – a) do T.G. saci-cererê = saci-pererê. SACI-PERERÊ – a) T.G. saci-pererê – o saci que anda aos saltos, inquieto. SACI-PERERERÊ – a) T.G. (e)çá-aci = saci – olho doente; (e)ça-pererê = sapererê; olho inquieto" (2008, p. 569).

Por sua vez, um Saci-Pererê com duas perninhas se faz presente na obra do Guarani escritor Olívio Jekupé. No seu livro intitulado O Saci Verdadeiro há duas narrativas. A primeira delas, O Índio Só De Um Braço, traz a intriga do indiozinho Tupã Mirim. Ele possui somente o braço esquerdo, motivo que o impede de caçar, coletar, pescar e, por timidez, namorar. O pai desse menino sempre o recomenda a não andar sozinho, pois uma onça ou um espírito malévolo poderão atacá-lo. Mas, ele não se conforma e constantemente vai à floresta. Porém, mal sabe Tupã Mirim que um personagem sempre o protege, logo ele, o Saci (Jekupé, 2002, p. 6).

No texto seguinte, homônima ao título da obra, O Saci Verdadeiro, Jekupé apresenta o personagem Karaí, uma criança guarani que adora escutar as histórias do Saci narradas pela avó e pela mãe. Mas, aos oito anos, ele vai à escola e lá ele escuta a versão baseada na obra do Monteiro Lobato, enquanto uma criança negra, roupas vermelhas, cachimbo na boca, assobiando e saltitando.  Intrigado, Karaí sai um dia da aldeia em direção a mata, comentando consigo: “Se o Saci aparecesse para mim, eu saberia de que jeito ele é” (Jekupé, 2002, p. 29-32). Eis que Saci-Pererê surge e os dois conversam o seguinte:

"‒ Karaí: Então, quer dizer que não existe nenhum Saci negrinho como eles dizem?

‒ Saci: Não, não existe.

‒ Karaí: E só existe você?

‒ Saci: Não, eu tenho um irmão. Eu sou protetor dos animais e meu irmão, protetor das aves" (Jekupé, 2002, p. 33).

A partir de Jekupé, o Saci é um índio pequeno, bípede, geralmente invisível a todos, espírito generoso, ouvinte dos pedidos das pessoas, trata com zelo a floresta e os seres que nela habitam, possuí um irmão, um protetor dos animais e o outro defensor das aves (2002, p. 33).

Figura 2: Saci Índio

Fonte: Desenho de Capa - Olavo Ricardo; Projeto Design - Mariano L. de Andrade Neto

Editora Uel

Enfim, através das vozes acima somos arrebatados pela presença plural de Saci. Sendo assim, no próximo tópico eu vou discorrer sobre a mitologia – ciência que leva a sério o Saci-Pererê – além de apresentar os saberes ligados à etnologia guarani.

Mitologia e Saberes da Etnologia Guarani

Na perspectiva ameríndia, mito não é sinônimo de falso ou ficção, tampouco uma mera explicação sobre fenômenos da natureza. A mitologia trata-se de uma modalidade narrativa que dá vasão à interação holística e comunicacional, de reconhecimento mútuo entre parceiros humanos (Mbyá, Chiripa, afro-americanos), não humanos (espíritos, animais, vegetais, estrelas) e sobre-humanos (divindades, espíritos, xamãs) em um mundo terrestre, subterrâneo, aquático ou celestial.

Mitólogos e etnólogos compartilham a concepção que mito é um padrão de culturas orais, tendo origem a partir de uma pluralidade de fontes, situando-se entre os grupos, à ideia de tradição, crença, hábitos, regras de conduta, ideologia, história, princípios morais ou teoria oral da prática (Lévi-Strauss, 2004, p. 27; Litaiff, 2018, p. 15). Segundo José Carlos Rodrigues:

"neles o pensamento encontra-se menos submetido às pressões das circunstâncias externas e depende apenas de suas próprias coerções internas. Se, fora do mito, é impossível que onças e jabutis contraiam núpcias, no plano da narrativa mítica é perfeitamente possível que este conúbio tenha lugar" (2015, p. 176).

Tratando-se das relações internas, os mitos enfatizam, tanto em termos do conteúdo quanto da forma, a qualidade da repetição, inversão, reversão, além da ênfase do eixo vertical e a perspectiva da gemelaridade. Para Robert Crépeau, esses enunciados podem estar em relação direta ou indireta com a realidade prática ou ritual (apud Litaiff, 2018, p. 105; Crépeau, 1997, p. 182; Lévi-Strauss, 2004).

Desse modo, enquanto uma linguagem dotada de lógica e gramática específicas, coerência interna, além de movimento sincrônico e intemporal, os mitos se configuram a partir de grupos de acontecimentos que terminam por revelar a lógica da qualidade, o mundo sensível. Segundo Lévi-Strauss, os esquemas que a matéria mítica irradia enquanto um corpo multidimencional se estendem na forma de uma nebulosa (2004, p. 21; Rodrigues, 2015, p. 176-8). Em suas palavras:

"À medida que a nebulosa se expande, portanto, seu núcleo se condensa e se organiza. Filamentos esparsos se soldam, lacunas se preenchem, conexões se estabelecem, algo que se assemelha a uma ordem transparece sob o caos. Como numa molécula germinal, sequências ordenadas em grupos de transformações vêm agregar-se ao grupo inicial, reproduzindo-lhe a estrutura e as determinações. Nasce um corpo multidimensional, cuja organização é revelada nas partes centrais, enquanto em sua periferia reinam ainda a incerteza e a confusão" (2004, p. 21).

Os coletivos ameríndios algumas vezes dão nomes específicos a esse gênero narrativo. Para os Guarani, mito é nhanderekoram idjipy, ou seja, a “história da origem de nhande reko, como chamamos o nosso sistema, nossa cultura” (Litaiff, 2018, p. 26). Nas palavras do Guarani Samuel de Souza, “para nós não significa mito ou lenda, mas sim uma verdade que nossos antepassados presenciaram há muito tempo atrás” (2020, p. 209).

Mas quem são os Guarani? A partir da etnologia, duas designações que os caracterizam são “habitantes da floresta” e “gente que vem de longe”. Chiriguano, Kayowa, Mbyá e Chiripa (ou Nhandeva) são Guarani em mobilidade pela Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. Nesse último país, essas pessoas habitam centenas de tekoá (aldeias do grupo) com ênfase nas regiões sul, sudeste e centro-oeste (Cadogan, 1959, p. 58; Litaiff, 2018, p. 16).

Figura 3: Mapa Guarani Continental

Fonte: Caderno Mapa Guarani Continental: povos Guarani na Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai. / Equipe Mapa Guarani Continental - Emgc. Campo Grande, MS. Cimi, 2016, p. 4.

A partir desse mapa geográfico percebe-se que os Guarani – cerca de duzentas e oitenta mil pessoas vivendo em mais de mil e quatrocentas aldeias de tamanhos diversos – pertencem a um dos povos ameríndios de maior continuidade e presença territorial na América Latina4 (Emgc, 2016, p. 6-12).

Segundo Mártin César Tempass, nesse território, os Mbyá-Chiripa cultivam jety (batata-doce), komandá (feijão), pakoá (banana), mandu’i (amendoim), taquare’ey (cana-de-açucar), além de awaty (milho) e mandió (mandioca). Uma pequena parcela dos vegetais é proporcionada através da coleta, como guãpitá (fruto da pindó), araxa guaxu (goiaba), araxa (araçá), araxiku (araticum), yva pytã (pitanga), guavirá (guabiroba), além do mel silvestre. Apesar das pequenas extensões de floresta, a caça continua sendo o grande tema entre os homens guarani. A produção e a venda de artesanato, ao longo de rodovias e centros urbanos, são outra fonte de renda, possibilitando acesso a bens de consumo (Tempass, 2010, p. 120-1, 140, 177; Litaiff, 2018, p. 17).

Tratando-se da organização social interna, conforme Aldo Litaiff, os Guarani se baseiam “na família extensa bilinear, endogâmica e uxorilocal, composta por pais/sogros, filhos e filhas solteiras, filhos casados, noras e genros”. Essas pessoas se organizam em torno de duas lideranças: uma, política, chamada nhanderuxitcha (cacique); outra, espiritual, karai (xamã) (2018, p. 16-19).

Em linhas gerais, um tekoá é organizado considerando uma área de lavoura coletiva, espaços menores de cultivo, pequenas concentrações de casas (de três a cinco) onde habitam as famílias nucleares, que formam uma família extensa, além da opy (casa de rezas), localizada no centro, onde todos se reúnem durante os rituais. A respeito disso, os Guarani têm as deidades Ñanderú/Nhandecy (Pai Criador, líder de todos, direção leste no céu), Nhãmandú Ru Eté/Nhãmandú Chy Eté, Karai Ru Eté/Karai Chy Eté (leste), Tupã Ru Eté/Tupã Chy Eté (oeste) e Jakaira Ru Eté/Jakaira Chy Eté (centro)5 (Tempass, 2010, p. 116-7; Cadogan, 1959, p. 16-17, 27; Litaiff, 2018, p. 19; Moreira; Moreira, 2020, p. 51).

Tratando-se de nhande rekoram idjipy (mito), os Guarani viveram na origem em Ivy Tenonde (Primeira Terra). Nesse território originário eles foram divindades menores junto a Nhanderu (Nhãmandú), Karai, Tupã, Kuaray e Jakaira. Mas, o evento do incesto gerado pela divindade Karai Jeupié provocou o iporum, o dilúvio, a destruição de Ivy Tenonde. Nas palavras do Mbyá Timóteo Karai Tataendy: “um Karai se casou com a irmã de seu pai, Deus ficou muito zangado, porque nós não podemos casar com parente. Veio então muita água e destruiu Yvy Tenonde”. A partir disso, a maioria dos habitantes da Primeira Terra ascende ao “paraíso”, marcado pela eternidade. Já os seres não virtuosos descem à Yvy Pyau (Segunda Terra), local situado pela descontinuidade e pela morte, enfim, à terra atual (Litaiff, 2018, p. 64; p. 33, 34; Tempass, 2010, p. 106).

Considerando que a mitologia se situa no ponto de articulação de uma língua e uma cultura com outras línguas e outras culturas e que “os Mbyá-Guarani são um ‘junto’, ou um ‘entrelaçamento’ com os demais seres cosmológicos” (Tempass, 2010, p. 156), a seguir será retomada a ligação dos Guarani a Saci-Pererê. Assim, o texto dará os passos na aproximação entre mitologia e astronomia cultural6.

Jaxy Jaterê, Saci-Pererê e Calendário Cosmológico

Meu ponto de partida é uma entrevista do Germano Bruno Afonso ao jornal eletrônico A Nova Democracia, intitulada A Impressionante Astronomia dos Índios Brasileiros. No último parágrafo o etnoastrônomo lança uma pergunta e fornece a resposta:

"Você sabia que o mito do Saci Pererê, que muita gente pensa ser africano, é o Jacy Jaterê dos índios brasileiros? Significa ‘fragmento de Lua’. A origem do Saci Pererê é a mitologia indígena e tem ligação com a Astronomia" (2004, internet).

A propósito, esse dado reaparece a mim através do cacique guarani Adolfo Timótio, no evento Constelações Extraocidentais: Corpos e Palavras, realizado na UFRGS em 2017. Por sua vez, Olívio Jekupé, no livro O Presente de Jaxy Jaterê, escreve o seguinte:

"Para o povo guarani, Jaxy-Jatere é o protetor da floresta e dos animais que nela vivem. Ele usa um colar que lhe dá poderes e não gosta de ver ninguém maltratando a natureza. Por isso, ao entrar na mata, os Guarani pedem autorização a Jaxy, chamando o seu nome. Aqui no Brasil, esta lenda do Jaxy foi difundida pelos escravos africanos, e o personagem ganhou o nome de Saci-Pererê, o famoso menino traquina de uma perna só" (Jekupé, 2015, p. 28).

A partir dessas falas, o artigo percorrerá dois caminhos: primeiro, a vinculação mitológica dos Guarani a Jaxy – até se revelar a relação de Jaxy Jaterê/Saci-Pererê com uma constelação. Segundo, no tópico Saci e Tudja’i Também São Já (dono)!, à vinculação de Saci à lógica do poder guarani.

Os dados etnográficos apontam que os Guarani relacionam sua economia – agricultura, coleta de plantas medicinais, extração de mel, caça e pesca artesanal, produção de artesanato, corte da madeira – além da observação de marés, estações do ano, astros e ventos às fases da lua (Afonso, 2010, p. 64; 2006, p. 49-50; Moreira; Moreira, 2020, p. 41).

Os irmãos guarani Geraldo Moreira Karai Okenda e Wanderley Cardoso Moreira Karai Yvyju Miri afirmam que jaxy pyau (lua nova) é como uma criança. Em sua passagem, todos os seres vivos ficam sensíveis, o tempo muda, chove e há temporais, mas consistindo também em uma lua protetora, recomendável para a semeadura. Já na jaxy endy mbyte (lua crescente) deve-se evitar tanto o plantio quanto o corte de árvores, pois há risco de acidentes. Na medida em que a lua vai crescendo, chega-se à jaxy nhepytũ (lua cheia), momento que o plantio e a fabricação do artesanato são recomendáveis. Por sua vez, a jaxy mbyte py (lua minguante) é uma continuidade da lua cheia (Moreira; Moreira, 2020, p. 49- 50).

Tratando-se de Kuaray (Sol), além de calor e luz para todos os seres na Yvy Pyau (Segunda Terra), os seus raios representam a fecundação da terra e das plantas. A trajetória aparente anual do sol divide o ano em duas estações: ara ymã, período relativo ao outono e ao inverno; e arapyau, ligado à primavera e ao verão. No arapyau, ainda, ocorre a renovação do corpo físico e espiritual na sabedoria (Moreira; Moreira, 2020, p. 49, 52).

Os seres celestiais sol e lua compõem o Apyka Mirim. Nas palavras de Moreira & Moreira, “um protótipo da grande organização cosmológica que nos serve como base de orientação e aprendizado”7 (2020, p. 51). Como mencionado, Kuaray e Jaxy são irmãos e de domínio masculino – o Sol e o Lua. A nhande rekoram idjipy dessa relação de gemelaridade é evocada por muitos Guarani. Uma versão dessa narrativa é apresentada pelo Mbyá Marcelo Bitú:

"A mãe [Nhandexy] de Kuaray (o futuro Sol), quando grávida, se põe no caminho a procurar o pai de Kuaray. De dentro do ventre da mãe, Kuaray vai indicando o caminho correto que devia ser seguido. No caminho Kuaray pedia para que sua mãe lhe colhesse algumas flores. [...] Numa das flores solicitadas havia um zangão que picou sua mãe. Esta ficou irada com Kuaray, julgando que a culpa era do filho que havia lhe pedido aquela flor e acabou batendo em sua própria barriga. Então, Kuaray parou de indicar o caminho correto que eles deveriam seguir. Tomando o caminho errado eles foram parar na morada dos jaguares. Chegando lá só havia uma jaguar velha em casa, que lhes disse para não ficarem ali para não serem comidos por seus filhos, que logo retornariam. Só que a mãe de Kuaray não deu ouvidos à velha e ficou lá. Então voltaram os filhos da velha jaguar e comeram a mãe de Kuaray. Estes separaram o feto para que a velha jaguar comesse, mas não conseguiram matar Kuaray, mesmo após várias tentativas. Sendo assim, a velha jaguar decidiu criar Kuaray. Ele criou o primeiro arco e fez três flechas e passou a caçar para alimentar a velha jaguar, que então ele julgava ser a sua mãe. [...] Depois Kuaray criou um irmão para ele, o Jaxy (futuro Lua). Ambos vão caçar em uma ilha distante, desrespeitando as ordens da jaguar que julgam ser sua mãe. Na ilha tentam matar um papagaio que lhes conta que a jaguar não é a mãe deles, que na verdade a jaguar comeu a sua progenitora. Então Kuaray e Jaxy construíram uma ponte-armadilha. Quando os jaguares estavam atravessando a ponte os dois irmãos a derrubaram, jogando os jaguares na água. Porém, nem todos morreram afogados e o plano dos irmãos de extinguir os jaguares fracassou. Assim, eles decidiram sair de perto dos jaguares procurando seu pai, morador de uma outra comunidade. No caminho os irmãos vão dando os nomes para as plantas e animais, nomeando também os alimentos. Só depois que o Sol e o Lua vão para o céu, partilhando a função de iluminar o mundo. O Sol, mais velho e poderoso, ilumina o dia. O Lua, irmão menor e não tão poderoso quanto o Sol, ilumina a noite. Mas, o Lua, mais fraco, fica cansado e tem que descansar. É por isso que existem as fases 'do Lua'" (Tempass, 2010, p. 109).

Esse mito reforça as aventuras dos irmãos Kuaray e Jaxy na origem de Ivy Pyau, a terra atual. Kuaray é o criador de seu irmão menor, o Jaxy, enquanto Lua. No sentido etiológico, destaca-se o trabalho desses heróis míticos na origem e na nominação das plantas, animais e alimentos, além do sentido assimétrico presente nas relações dos personagens.

Nesse sentido, Luiz Gustavo Souza Pradella afirma que as únicas divindades mortais e imperfeitas dos Guarani são Nhandexy e Jaxy (2009, p. 89). Esse dado será importante ao se considerar as qualidades de Jaxy Jaterê e Saci-Pererê. Dando continuidade à narrativa de Kuaray e Jaxy, o Mbyá Timóteo Karai Tataendy manifesta o seguinte:

"Depois os dois irmãos continuaram a caminhar costeando o rio até ver anham pescando. Então o sol disse ao seu irmão: 'Eu vou assustar esse anham, mas você fica aqui só olhando'. Kuaray mergulhou e foi por baixo d’água até próximo onde anham pescava, puxa a linha fazendo anham cair na água enquanto Jacy observava, rindo muito. Kuaray fez isso três vezes e anham caiu todas as três na água. Quando o Sol estava voltando, Jacy insistiu para também tentar enganar anham, mas Kuaray não permitiu porque ele não confiava no seu irmãozinho, que era muito desajeitado. Mas o irmão menor insiste muito e o Sol acaba permitindo, mas insistindo para que ele puxasse o fio somente com a mão, nunca com a boca. Jacy repetiu a operação duas vezes, mas na terceira, esquecendo o que seu irmão mais velho havia lhe dito, morde o anzol e acaba sendo pescado por anham. Kuaray segue anham e, quando ele estava quase cozinhando Jacy, o Sol chega e diz: 'Como é bom te ver comer'. E pediu para que ele comesse somente a carne de seu irmãozinho, lhe deixando todos os seus ossos e sua cabeça. Anham obedeceu, Kuaray juntou tudo e em seguida bateu palmas e ressuscitou Jacy" (Litaiff, 2018, p. 67-8).

Em consonância com a narrativa de Adolfo Vera, Maria Paula Prates escreve o seguinte sobre Kuaray e, particularmente, Jacy:

"No que diz respeito às diferenças entre sol e a lua, o primeiro é sempre evocado como sinônimo de destreza, coragem e discernimento, já o segundo é mostrado às avessas, como atrapalhado, ‘bagunceiro’. Sobre o cotidiano dos seres celestes, contaram-me: 'Tem vezes que Jacy não aparece, ele tá de folga, Jacy é muito preguiçoso. Kuaray perguntou a Jacy se ele queria vir de dia ou de noite, mas Kuaray não confiou que Jacy pudesse fazer o trabalho de trazer as coisas, iluminar todos os dias e por isso decidiu que quem viria de dia seria ele. [...] Ele não falta nunca. Não pode faltar, caso contrário, a gente morre. Já Jacy tira até férias: é quando a lua desaparece do céu’” (2009, p. 90-1).

O ancião mbyá Antônio Inácio Kuaray, afirma de forma meiga, “Jacy não é mau, ele é apenas um pouco maluquinho, um pouco confuso” (Litaiff, 2018, p. 54). Por outro lado, devido às suas transgressões, Jaxy é muitas vezes responsabilizado pelos Guarani pela origem das doenças e mortes, pela perversão da aliança – o incesto, relação próxima demais – e pelo início da periodicidade mensal – ciclo menstrual e reprodução (Lévi-Strauss, 2006, p. 96). Nas palavras de Prates:

"Contam os Mbyá-Guarani que Jacy [...], quando ainda vivia no mundo terreno fez sexo com sua tia enquanto ela dormia. Ela o marcou com cera de Jate’i (abelha do mato) para que pudesse ter certeza de quem praticava o ato. É por esse motivo que a lua, quando aparece em sua fase cheia, mostra-se com manchas escuras em sua superfície. Jacy ainda hoje faz sexo com as meninas sem elas perceberem, enquanto dormem" (2009, p. 65).

Pode-se dizer que os mitos acima associam três motivos: o incesto praticado pelo Jaxy e sua tia; a periodicidade de Kuaray e Jaxy, definida pela oposição entre Sol trabalhador e Lua preguiçoso; por fim, a cabeça cortada e o corpo despedaçado de Jaxy pelo Anham após a pescaria (Litaiff, 2018, p. 68; Lévi-Strauss, 2006, p. 83).

Esse conjunto de narrativas em torno de Kuaray e Jaxy é denominado pelo Aldo Litaiff de “operadores míticos” e Ciclo dos Irmãos. Trata-se do mito mais evocado por esse coletivo (2018, p. 52). Em determinados contextos etnográficos, tal grupo de mitos pode configurar a elaboração da identidade étnica dos Guarani. Isto é, no sul do Brasil, a origem dos Mbyá pode estar vinculada a Kuaray, devido à conquista do fogo doméstico; já os Chiripa se percebem enquanto filhos de Jaxy, o Lua (Litaiff, 2018, p. 60-2, 133, 147, 129). Nas palavras do Chiripa Alcindo Vera:

"Desde o seu nascimento, Kuaray já caminhava, mas Jacy demora muito a andar. É por isso que hoje as crianças levam muito tempo para andar, pois foi Jacy que desobedeceu Kuaray e acabou na sopa de Anham. Por causa da cabeça quente de Jacy hoje nós temos dor de cabeça, nós somos todos meio malucos e sem-vergonhas como ele. Antes no primeiro mundo, nós éramos todos filhos do Sol, parentes de Kuaray. Hoje, nós, Chiripá, não queremos mais plantar nem colher; só queremos viver como os brancos, comprando comida de saquinho no supermercado" (Litaiff, 2018, p. 129-130).

Além de Kuaray e Jaxy, os Guarani têm profundo saber sobre outras estrelas. Afinal, como afirmam Moreira & Moreira, a ligação entre o céu e a terra é intrínseca, pois “cada ser vivo existente aqui na terra é representado por uma estrela ou constelação no céu" (2020, p. 49).

A partir disso, se Saci-Pererê se faz presente na terra, o desafio será encontrá-lo na ordem das constelações, saber esse registrado tanto nos nhande rekoram idjipy (mito) como na astronomia cultural. Enfim, é chegado o momento de se embarcar em um foguete imaginário rumo ao espaço sideral em direção às constelações guarani.

Constelações e Saci no Céu Guarani

No livro escrito pelo Claude d’Abbeville, intitulado Histoire de la Mission de Pères Capucins en l’Isle de Marignan et terres circonvoisins, em 1614, tal frade capuchinho afirma que os Tupinambá identificavam cerca de trinta constelações. Sobre a observação do céu, ele informa que essas pessoas conhecem a maioria dos astros e das estrelas do hemisfério aos quais denominam de acordo com sua tradição (Lima; Moreira, 2005; Lima et al, 2014, p. 107). Flavia Pedroza Lima e colegas ainda destacam o seguinte:

"Graças à descrição de d’Abbeville, dispomos de algumas informações a respeito do que os Tupinambá conheciam sobre a Lua. Distinguiam-lhe as fases, bem como diversas outras coisas a ela relacionadas, como o eclipse lunar a que chamavam de yasseuh pouyton. Outra observação importante feita por d’Abbeville concerne ao fato de os Tupinambá relacionarem a Lua às marés, demarcando bem as marés que se formam na Lua Cheia e na Lua Nova. Essa observação tem um significado importante, pois, na época em que d’Abbeville escreveu o seu livro, as causas das marés, embora fossem motivo de debates, ainda não tinham sido determinadas [na Europa]" (2014, p. 108).

Os movimentos do sol e da lua e o sofisticado sistema astronômico dos Tupinambá pesquisados por d’Abbeville são homólogos ao atual conhecimento dos Guarani no sul do Brasil, embora sejam povos separados pela língua, pela distância de cerca de três mil quilômetros no espaço e pelos quatrocentos anos de pesquisa científica no tempo8. (Afonso, 2006, p. 48).

Unindo os dados acessados até o presente, Afonso e Moreira & Moreira identificaram as seguintes constelações: Mboré Rapé (Caminho da Anta), Guaxu Virá (Veado), Pypó (Pegada da Onça), Guyra Nhandu (Ema), Maino’i (Beija-Flor), Kuruxu (Cruz), Ambará (Cobra), Eichu (Vespa), Koembidja (Nhamandu Mirim) e Tudja’i (Homem Velho) (Afonso, 2013, p. 1-11; 2006; MOREIRA; MOREIRA, 2020, p. 57-71). A seguir, Afonso e Nadal apresentam Tapi’i rainhykã (Queixada da Anta), Tapi’i Huguá (Bebedouro da Anta), Coxi Huguá (Bebedouro do Porco do Mato), Joykexo (Três Marias), Nhanderu (Ñanderú), Tinguaçu (Pássaro de Bico Grande) e Arapuca (Armadilha de pegar passarinho) (Afonso, 2006, p. 55; Afonso, 2013, p. 5; Afonso; Nadal, 2014, p. 58-9). Por conseguinte, Diogo de Oliveira compartilha as constelações Mborevi Nhakangua (Bebedouro da Anta), Tchivi po (Pata da Onça), Nhanderuvutchu Vutchu Rokẽ (Porta de passagem entre a terra e o firmamento), Kaaru Mbidja (morada de Arumbara Matutina) e Koẽ Mbidja (Morada de Arumbara Vespertina) (Oliveira, 2009, p. 143-4). Após, Lima e Moreira listam o seguinte quadro, a partir de astros e constelações mencionados por Claude d’Abbeville, além de dados acessados na tekoá Paraty Mirim, Rio de Janeiro: Jaceí-tatá (Estrela), Simbiare ra jeiboare (Maxilar de cavalo ou vaca), Urubu, Seichu-jurá (Jirau da Abelha), Tingaçu (ave Alma-de-gato), Suanrã (Vagalume), Uènhomuã ou Guaiamum (?), Januare (Jaguar, Cão), Jaceítatá-uaçu (Estrela da Manhã), Pirapaném (Estrela da Tarde), Jandai (Ave Jandaia-verdadeira), Laçatim (espécie de pássaro), Caí (Macaco), Potim (Caranguejo), Conomy-manipoere-uare (?), Eyre Apouä ou Irapuá (espécie de abelha), Panacon (Cesto Comprido), Tapiti (Lebre), Toucon ou Tucon (espécie de palmeira), Tatá-endeí (Fogo Ardente), Nhaèpucon (Panela Redonda), Caraná-uve, Eixu (Favo de Mel), Tapi’i rapé (Via Láctea), Jakare rainhykã (Queixada de Jacaré), Aka’e Kora (Gaiola de Gralha), Mboikuá (Buraco de Cobra) e Kaguare (Tamanduá) (Lima; Moreira, 2005, p. 6-10). Ao fim, a constelação Sepé Tiaraju, saber dos guarani-missioneiro e popular no sul do Brasil.

Mas, considerando esse conjunto de constelações, onde estaria o Saci no céu? A resposta exige as ferramentas teóricas da mitologia, além de dados fornecidos pela astronomia cultural. Nosso foguete imaginário aterrissa na constelação Tudja’i. Em relação ao corpo do Homem Velho, alguns detalhes chamam atenção: a estrela Bellatrix desenha a sua virilha; as estrelas Mintaka, Alnilam e Alnitak, que formam o Cinturão de Órion (Três Marias), formam o joelho da perna sadia; a estrela Saiph, o pé da mesma perna; por sua vez, a estrela vermelha Beltegeuse representa o lugar em que sua perna foi cortada. As estrelas do escudo de Órion são o seu braço esquerdo, em sua mão direita ele segura um bastão. A cabeça de Tudja’i é formada pelo aglomerado estelar Híliades, onde se encontra a estrela Aldebaran, a mais brilhante da constelação de Touro, de cor avermelhada. Amarrado à sua cabeça, um penacho formado pelo aglomerado estelar das Plêiades (Afonso, 2006, p. 55; Afonso, 2013, p. 5; Moreira; Moreira, 2020, p. 68).

Figura 4: Constelação Tudja’i

Fonte: Moreira; Moreira, 2020, p. 56

Olhando para Tudja’i – com seu bastão em uma mão, a touca na cabeça formada pela Aldebaran avermelhada e, principalmente, a ausência de uma perna – é impossível não lembrar do Saci perneta, narrado pelo Rui Sérgio Ferreira, Nhô Vadô Rodrigues e Clovis Chiaradia. Como é possível que Tudja’i e Saci se pareçam tanto?

Uma das explicações é que, pela mitologia, tanto o primeiro perneta no céu como o segundo na terra estão na ordem da gemelaridade. Mas, enquanto Tudja’i se mostra um ancião guarani, dono de todas as constelações presentes no Caminho da Anta – o Saci se apresenta como uma criança de cor negra ou branca, peralta, mas protetora dos animais e das plantas (Jekupé, 2002, p. 33). Ou seja, nesse caso, Tudja’i e Saci são gêmeos e simétricos inversos, qualidades que evidenciam a vinculação entre mitologia e astronomia cultural – e, ambas, ao saber sensível.

Saci, Tudja’i e Outros Pernetas

Saci e Tudja’i são personagens fora do comum. Mas, eles não estão sozinhos, pois há inúmeros outros seres ligados ao tema da perna amputada a acompanhá-los.

Pela mitologia e pela astronomia cultural, a relação entre Taurepang e Guarani em torno de personagens pernetas chama a atenção. Os primeiros estão situados ao norte do Brasil (Roraima), tendo sido pesquisados pelo Theodor Koch-Grünberg, na virada dos séculos dezenove e vinte, pertencendo à família linguísitca Karib. Tratando-se de pernetas, entre os Taurepang existe o Jilikawaí (ou Jilijoaibu, Jilijuaipu; Jilíke-Pupaí, termos esses traduzidos por “cabeça estrelada”), enquanto que, para os Guarani, aparece Jaxy Jaterê, Kamba’i  e Tudja’i (Koch-Grünberg, 1953, p. 29; Lima et al, 2014, p. 112; Jekupé, 2015, p. 28; Moreira; Moreira, 2020, p. 68; Afonso, 2006, p. 55; 2013, p. 5).

No que diz respeito a sua origem, em Mitos e Lendas dos Índios Taurepang e Arekuna, Koch-Grünberg apresenta o personagem Jilijoaíbu que se transforma em Tamekan:

"Uma vez existia um homem chamado Jilijoaíbu; este tinha uma mulher, Waiúlabe, que não queria saber dele. Ele tinha um irmão bonito, a quem ela amava. Numa ocasião Jilijoaíbu trepou numa árvore para tirar abacates. Ela tinha levado um machado e o mantinha escondido. O homem subiu na árvore para buscar as frutas. Jogou as frutas para baixo e ela juntou-as, aguardando o momento de ele descer. Ele começou a descer. Quando estava a meio do tronco, ela tomou o machado e decepou-lhe a perna direita, como ainda se pode ver. Ela voltou para casa. O irmão estava trabalhando na roça. Lá estava, numa árvore, o pequeno pássaro Kóezag, cantando: 'Jiríjowaíd!'. O irmão perguntou: 'Que diz o pássaro?' Este veio para mais perto, bateu as asas e cantou: 'A perna do teu irmão, a mulher decepou, com o machado!' O irmão jogou fora a enxada e correu para casa, enfurecido. Waiúlale estava deitada na rede. Levantou-se quando ele veio e lhe deu caxiri. Ele perguntou: 'Onde está meu irmão?' Ela disse: 'Ele ficou por lá, tirando frutas!' Ele ficou triste e deitou-se na rede. Ela veio e deitou-se sobre ele. Ele queria pular para fora, mas ela o embrulhou na rede. Anoiteceu. Ela não o queria deixar sair da rede, a danada, nem para mijar. O homem ficou no mato, gritando de dor. Ela disse: 'Deixa teu irmão! Talvez ele fosse pescar. Quando ele vier, sairei da rede. Mas o irmão sabia de tudo, porque o passarinho lho havia contado. [...] O ferido lá fora se ergueu no esteio da porta, subiu no teto, tocou na sua flauta de bambu 'tin-tin-tin'. O irmão dentro da casa chorava, pois tinha pena dele. Este tirou a flauta da boca e disse para o irmão: 'Fica na casa! Cria bons filhos e boas filhas! Muita saúde e felicidade! Vou me embora!' [...] O irmão perguntou: 'Para onde vais?' Ele respondeu: 'Vou para o céu. Quero ser Tamekán, corpo com uma perna que fica para trás!' Então o irmão respondeu: 'Ficarei aqui por algum tempo, enquanto não tiver aborrecimento e nenhuma desgraça me acontecer. Fico triste porque estás sofrendo tanto! Tua mulher um dia pagará pelo que te fêz! Tenho muita pena de ti!' Então o outro disse: 'Quando eu chegar ao céu, haverá muita tempestade e chuva. Então virão os cardumes de peixes e tu comerás muitos!' Até hoje Tamekán marca a chegada do inverno"9 (Koch-Grünberg, 1953, p. 66-7).

Tendo a mesma estrutura narrativa do mito de Tamekán, uma versão resumida é apresentada pelo Germano Afonso, enquanto explicação de seus interlocutores guarani à origem da constelação Tudja’i:

"Conta o mito guarani que essa constelação representa um homem casado com uma mulher muito mais jovem do que ele. Sua esposa ficou interessada no irmão mais novo do marido e, para ficar com o cunhado, matou o marido, cortando-lhe a perna na altura do joelho direito. Os deuses ficaram com pena do marido e o transformaram em uma constelação" (2006, p. 55).

Tratando-se de mitos e personagens pernetas vinculados a diferentes povos, troncos linguísticos e territórios etnográficos, é admirável reparar que a repetição, como categoria da mitologia, tem lugar nos estudos das constelações realizados pela astronomia cultural. Por exemplo, nos Taurepang, o perneta Jilikawaí é formado a partir de Plêiades, Aldebaran e Órion. Por sua vez, entre os Guarani, Tudja’i se remete a Eixu (Pleiades), Tapi’i rainhykã (Hyades, incluindo Aldebaran) e Joykexo (Cinturão de Órion) (Koch-Grunberg, 1953, p. 29; Afonso, 2013, p. 5-6).

Por sua vez, na relação entre constelações e estações do ano dos povos do norte e sul do círculo Equador da Terra, a inversão também se faz presente. Segundo Germano Afonso: “Na segunda quinzena de dezembro, quando o Homem Velho [Tudja’i] surge totalmente ao anoitecer, no lado Leste, indica o início do verão para os índios do sul do Brasil e o início da estação chuvosa para os índios do norte do Brasil” (Afonso, 2013, p. 5-6; Koch-Grunberg, 1953, p. 29; Moreira & Moreira, 2020, p. 68; Lima et alii, 2014, p. 112).

Enfim, a partir desse conjunto de mitos que enfatizou a decapitação da perna de Jilijoaíbu e Tudja’i por uma esposa malévola, aparecem nítidas equivalências para se pensar em novas origens de Saci pernetas esparrados na América Latina.

O passo seguinte será falar sobre o poder de tais personagens. Para essa reflexão, retomando os Guarani, serão realizados dois movimentos. Primeiro, reagrupar Ñanderú, Karai, Tupã, Kuaray e Jaxy em busca de novas conexões. Segundo, no esforço de estender a dimensão de divindade de Tudja’i a Saci-Pererê, pensar esses seres a partir da categoria “já” (dono, mestre).

Saci e Tudja’i Também São Já (dono)!

A ideia dos Tupinambá e Mbyá-Chiripa de que Tudja’i é um guardião, o espírito dono das constelações presentes no Caminho da Anta ‒ dos animais no céu mboré (anta), taytetu (javali), jaixa (paca), guaxu (veado), apykaxu (pomba), guyra nhandu (ema), eixu (vespa), mboi (cobra), Tapi’i rape (tapir) e toró (búfalo) (Moreira & Moreira, 2020, p. 68) ‒ aproxima esse ser das concepções guarani acerca de Ñanderú. Desse modo, na condição de simétrico inverso de Tudja’i, o mesmo princípio referencia Jaxy Jaterê e Saci-Pererê.

É importante destacar que o poder do Saci-Pererê é pensado inicialmente a partir de um objeto ligado ao seu corpo: no Saci negrinho é a carapuça vermelha usada na cabeça; no Xaxim-Taterê, no bastãozinho que carrega consigo pela mão; e, no Saci índio, o colar baêta pendurado no pescoço (Lobato, 2008, p. 276; Jekupé, 2002, p. 6).

Inspirado na ideia que Tudja’i é o espírito dono das constelações, valendo-me da mitologia, astronomia cultural e ornitologia, considerando as ideias de gemelaridade, parentesco e saberes sobre pássaros ‒ igualmente, conectando Ñanderú, Karai, Tupã, Kuaray e Jaxy ‒ eu visarei aproximar Saci-Pererê à categoria “já”. Para Mártin Tempass, já correponde a “donos e controladores das almas de tudo o que é tradicional no mundo Mbyá-Guarani” (2010, p. 360).

Em sua cosmologia, os Guarani postulam a presença de três domínios: a sociedade (Mbyá, Chiripa, outras), a natureza (animais e vegetais) e a sobrenatureza (Ñanderú, Karai, Tupã, Jakaira¸ Kuaray e Jaxy). Tais domínios não são nem estanques, nem separados, mas entrelaçados e interdependentes, eles podem ser transpostos (Tempass, 2010, p. 154; 2012, p. 200).

As divindades possuem prerrogativas que as distinguem dos humanos e não humanos que vivem na Yvy Pyau (terra atual). Segundo Tempass, a primeira é que as deidades habitam “em todos os lugares que os Mbyá-Guarani e os animais ‘moram’, mas os Mbyá-Guarani e os animais não podem ‘morar’ em todos os lugares onde os deuses ‘moram’” (2012, p. 201). A segunda, que os seres sobrenaturais são responsáveis pela criação, alimentação e reprodução tanto dos Mbyá como dos animais e vegetais10.

Como é de conhecimento, as divindades mbyá estão organizadas de forma vertical e cooperativa. Nesse sentido, atribuindo-se a ênfase à condição já ‒ de proteção e controle ‒ Ñanderú ocupa a posição ápice; Tupã kuéry (o conjunto subordinado à Tupã, como o já da chuva, além da própria chuva) e Karaí, o degrau seguinte; por sua vez, Kuaray e Jaxy, o plano abaixo (Tempass, 2012, p. 149, 147; Assis, 2006, p. 92).

Em tal lógica, Ñanderú assume a condição de já de todos os já, o dono dos donos. Por sua vez, considerando o protagonismo de Kuaray e Jaxy – como narrou Marcelo Bitú, “no caminho os irmãos vão dando nomes para as plantas e animais, nomeando também os alimentos”, com essa atitude vinculando-os às suas divindades – e aos já (Tempass, 2012, p. 109, 149, 147).

Considerando isso, a ligação dos Mbyá com os já de plantas e animais resulta em ritos de plantio, caçada e consumo alimentar ‒ o que redunda na preservação da flora e da fauna, haja vista o sentimento de respeito aos respectivos donos. Aliás, são os já que convertem os animais em caça, colocando-os no caminho dos Mbyá, evento esse revelado antecipadamente ao karai através de sonhos e viagens xamânicas (Tempass, 2012, p. 160, 171, 210, 213). Nas palavras de Tempass:

"Se o já de uma determinada espécie julgar que os Mbyá-Guarani estão retirando da mata mais do que necessitam, se estiverem colocando em risco de extinção esta espécie, eles irão castigar os Mbyá-Guarani" (2012, p. 170-1).

Nesse princípio ainda, há determinadas situações em que os já são as próprias plantas ou animais (Tempass, 2012, p. 148). No conjunto, tal aspecto é fundamental para se compreender as formas de aparições do Saci-Pererê aos Guarani, além do parentesco desse personagem em relação a outros seres e, consequentemente, ao seu poder. Para avançar nesse tema, considerando inicialmente as plantas, é necessário retomar Ayvy Rapyta Fundamento da Linguagem Humana, escrito pelo León Cadogan (1959, p. 10-11).

No mito dos gêmeos registrado nessa obra, o personagem que simboliza o primogênito é chamado Pa’i (ao invés de Kuaray). Pa’i é quem dá origem ao irmão menor, a partir de uma planta: “Despues de ésto hizo a quien le serviría de compañero, de hermano menor; él mismo, de su propia divinidad, creó de una hoja de kurupika'y a Futura Luna” (Cadogan, 1959, p. 74, 86).

Segundo Cadogan, para os Guarani de Guairá, a árvore sagrada de Ivy Tenonde de nome kurupika'y trata-se de uma divindade ligada à alta moralidade. A partir do folclore paraguaio, sabe-se que kurupika'y, de cujas folhas o herói Pa’i cria seu irmão caçula Lua, é árvore símbolo do Kurupi, “seres inmortales, habitantes de grandes cavernas” (1959, p. 104, 74; 1950, p. 329). No Brasil, Kurupi é conhecido como Curupira. Câmara Cascudo o apresenta como “um dos mais espantosos e populares entes fantásticos das matas brasileiras. De curu, contração de corumi, e pira, corpo, corpo de menino [...] é representado por um anão, cabeleira rubra, pés ao inverso, calcanhares para a frente” (2001, p. 172).

Em se tratando da importância da árvore kurupika'y (Sapium glandulatum), destaca-se que a partir dela, os Guarani constroem peças do seu artesanato: os vicho ra’anga. Valéria Soares de Assis menciona: “vicho ra’anga significa ‘imagem de pequeno animal’ (vicho = corruptela do espanhol e/ou português ‘bicho’, pequeno animal; ra’anga, a’anga, ta’anga = imagem, representação, imitação)”. A kurupika'y possui uma madeira “mole”, que se molda simples ao talento do artesão (Assis, 2006, p. 246, 265).

Em sintonia com a origem de Jacy através da folha de kurupika'y ou Curupi, na Terra Indígena Sapucaia (Rio de Janeiro), Maurício Gonçalves Karai relata uma versão onde Kuaray origina Jacy a partir da casca do Cedro (Cedrela fissilis). Nas palavras de Karai: “Ele pegou a casca do cedro e fez um tipo de santinho como este aqui. Então, Jacy não tinha nem pai nem mãe, mas somente um irmão mais velho” (Litaiff, 2018, p. 60).

Assim, concebendo a origem de Jaxy, Jaxy Jaterê, Curupira e Saci-Pererê, tanto da árvore Kurupika’i como do Cedro, pode-se afirmar que os dois últimos assumem o domínio de plantas, símbolos, já (dono) e divindades. Nesse sentido, considerando as narrativas de Cadogan e Karai, seguindo a importância de Ñanderú e Tudja’i, o Curupira é o já de Saci-Pererê. Não por acaso, as equivalências entre tais personagens impressionam: são pequenos, de cabeleira ou touca rubra, profunda afeição ao tabaco e deformação ligada aos membros inferiores, o primeiro tendo os pés ao inverso, com os calcanhares à frente; o segundo, perneta. Câmara Cascudo não hesita em dizer que “encontramos o Curupira, verdadeiro pai do Saci-pererê” (Cascudo, 2002, p. 134, 137, 172).

Figura 5: Árvore kurupika'y e Ser Curupira

Fonte: Pedro Castilhos da Rosa

Além de planta, Mártin Tempass afirma que os já também podem ser animais. Trata-se do caso do koxi (porco-do-mato) mencionado como o próprio Ñanderú pelos Mbyá (2012, p. 148, 201). Em relação a isso, Valéria Assis apresenta uma sutil reversão na medida que koxi é apresentado como “animal de estimação de Karaí ou então que Karaí é o seu criador” (Assis, 2006, p. 92).

O ponto de vista de já (dono) e divindade guarani enquanto animal está também presente na tese de Flávia Cristina Mello (2006):

"A maioria dos seres criados pelos nhanderukuery para viver em yvy vaí existem em suas formas ‘perfeitas’ nos outros mundos, apesar dos seres destes planos terem poderes de transformação inesgotáveis. O transformacionismo é um artifício dos nhanderukuery para realizar suas viagens pelos diferentes mundos. Em suas viagens eles mudam a forma de seus corpos. Esta transformação é seu mbaeru (ao mesmo tempo a roupa e o veículo de viagem). As formas de aves e humanos são as formas corporais mais comuns que os nhanderukuery usam para visitar este mundo" (2006, p. 256).

Se as divindades Ñanderú e Karaí se transvestem em koxi (porco-do-mato), afirmo que Jaxy kuéry ‒ formado pelo Jaxy Jaterê, Saci-Pererê, Tudja’i e Curupira ‒ descem à Ivy Pyau, através da lógica da reversão, na corporeidade de homem velho, crianças e pássaros (Tempass, 2012, p. 201; Assis, 2006, p. 92).

Acerca dos pássaros, em Geografia dos Mitos Brasileiros, Câmara Cascudo reserva um tópico inteiro ao Saci-ave, sendo que as informações sobre nomes, genealogia e território se desdobram em muitas espécies: Marrequita do Brejo, Marrequinha do Brejo ou Curutié, Pichororé, turucué, curutié, bentererê, João teneneném, Alma de Caboclo ou alma de gato, Atingaí, Rabo-de-escrivão, Rabilonga, Tinguaçu, Chincoã, Meia-pataca (na Amazônia), Ticoã ou Tincoã, Pássaro-feiticeiro, Pássaro-pajé, uirapajé , Tapera naevia: nordeste brasileiro, conhecida por Peitica, Sem-Fim e Maria-já-é-dia (ou Maria-é-dia, na Bahia), Saci-ave Mati-taperê, Matinta-perere, Matinta-Perera, Matimpererê, Matintapereira, etc. (2002, p. 122-3).

Esses dados reforçam os vínculos de Saci-Pererê e Tudja’i com os Guarani, mesmo onde poderia haver algum mal-entendido, ou seja, na ideia de mobilidade. O fato de tais personagens serem pernetas ‒ ao invés de eles caminharem, saltitarem ‒ não acarreta nenhuma incompatibilidade com os Mbyá-Chiripa, pessoas cuja vida se faz e desfaz na mobilidade (Pissolato, 2007, p. 38). Isso se deve ao fato de tanto o Saci como o Tudja’i  serem deidades e assumirem poderes inimagináveis. Segundo Evaldo Mendes da Silva:

"As divindades, assim como os homens, vivem em movimento, percorrem dia após dia as yvarape, os 'caminhos dos céus', parando de vez em quando para descansar ou visitar seus parentes nos amba, as 'moradas' divinas. [...] Eles não tocam o chão com seus pés, flutuam bem acima da superfície da Terra e abaixo dos céus" (2007, p. 77).

Enfim, esse tópico, ampliou nossa percepção do Saci-Pererê. Partindo de uma criança negra serelepe, agora, considerando a relação de parentesco com Tuda’i e Curupira, o Saci alcança o domínio divino guarani – por conseguinte, um já (dono).

Ñanderú kuery, Saci-Pererê e Tudja'i Também Lutam pela Terra

As narrativas acima mostram uma diversidade de Saci e seres pernetas. Ou seja, nosso personagem principal se mostrou por variados nomes ‒ Atsýyguá, Jacy Jaterê, Saci negrinho, Matinta-Perera, Ticoã, Yasy-yateré, Tudja’i, etc. ‒ e singularidades (Jekupé, 2002; 2015; Lima & Moreira, 2005; Afonso, 2006; Cadogan, 1950, p. 332-3). Segundo Luiz Pradella:

"Enquanto alguns deles assumem características de tricksters armando brincadeiras para os humanos, outros possuem a capacidade de se metamorfosear em humanos (ocultar sua aparência verdadeira) para seduzir aqueles que caminham pela floresta. Há ainda os que agem como protetores da mata, com os pés voltados para trás, perseguem os que pensam persegui-los, vingando-se contra os caçadores e coletores que são abusivos com plantas e animais" (2009, p. 89).

Pode-se dizer que, os personagens responsáveis pela proteção da floresta e das pessoas excluídas, através de processos de homologia, não param de se multiplicar. Marcados pela gemelaridade, Saci-Pererê e Tudja'i, na condição de simétricos-inversos, são personagem, linguagem, sistema, poder, força, espírito dono, mestre, divindade e constelação. Ambos, enquanto ser celestial, criança, velho, planta, pássaro, entre tantos outros, configuram uma moral, respeito, religião, arte, irreverência, gesto, ação política, proteção a humanos e não humanos em seus territórios. Assim sendo, eles se vinculam aos ameríndios de forma visível e consciente, mas, sobretudo, virtual e inconsciente. Segundo Samuel de Souza:

"Todas as histórias, quando são contadas, começam com outro tema, outro seguimento para chegar às histórias em que a gente pesquisa. Todas são interligadas, mas com um só significado, falam de verdades, sobre o conhecimento Guarani. Por isso os mais velhos quando contam as histórias, contam dando voltas para ver se a gente está atento ao que eles estão dizendo. Por isso não se pode chegar direto no sábio e querer saber só de um assunto, mas sim de tudo que eles querem transmitir" (2020, p. 210).

A circulação de Tudja’i entre o início da estação chuvosa e o verão para os indígenas do norte e sul, o rodopio de Saci-Pererê antes de ele aparecer na encruzilhada e a narração pelos sábios guarani em voltas para gerar a atenção na plateia revelam a interação holística e comunicacional desses seres entre o céu e a terra. Para os Guarani, humanos, não humanos e sobre-humanos têm relações sociais. É dessa forma que Ñanderú, Nhãmandú, Karai, Tupã, Kuaray, Jakaira, Jaxy, Jaxy Jaterê, Curupira, Saci-Pererê e Tudja’i orientam, em sonhos e comunicados aos xamãs na opy, os Mbyá-Chiripa na luta pela terra.

O desrespeito do projeto colonial aos saberes milenares oriundos tanto do nhande rekoram idjipy (mito) como da astronomia cultural, além da violenta apropriação dos territórios ancestrais guarani, revelam o desafio que essas pessoas enfrentam cotidianamente na América Latina.

Notas de la ponencia:

O presente texto está baseado nos artigos ROSA (2022), uma materialização escrita baseada em ideias trabalhadas nas disciplinas Mitologia e Ritual – Bacharelado em Antropologia e Etnologia Ameríndia: Mitologia, Narrativa e Território – PPGAnt, além do projeto de ensino Intelectuais e Epistemologias Ameríndias: Um Saber Intercultural em Foco, que coordeno junto ao Núcleo de Etnologia Ameríndia – NETA da Universidade Federal de Pelotas – UFPela versão original foi produzida entre os anos 2020 e 2021, no decorrer da pandemia do Covid-19 e dos impedimentos de contato social por ela implicados. Jaxy Jaterê e Saci me oportunizaram a devida saúde mental para enfrentar esse período tão conturbado vivido no Brasil, marcado pelo negacionismo, milhares de mortes e fake news. Preciso informar que a maior parte dos dados é originária de textos de colegas e amigos/as acadêmicos e indígenas. A partir dos mesmos, busquei manter as grafias originais das escritas guarani. Como espero mostrar, o Saci não para de revelar surpresas e novas conexões. Nessa versão, quero fazer um agradecimento à Profª. Lori Altmann, pelo seu incentivo a minha participação no Simposio: SP.49: Violencias y desigualdades en las relaciones cielo-tierra: la astronomía cultural como abordaje emergente de disputas cosmopolíticas do VII Congreso ALA. Um agradecimento especial à Priscila Faulhaber, Alejandro M. Lopez e Walmir Thomazi Cardoso, organizadores do Simposio.

2 A América Central e a Europa estão também repletas de seres com atributos físicos e morais relacionados ao Saci de nomes Tezcatlipoca, Cambions, Elfos, Empusas, Farfadets, Góles, Gobelins, Kreudes, Koboldes, Lamias, Larvas, Lemures, Brocolacos, Lutins, Vauverts, Willis, Courils, Pulpicans, Troll, entre tantos outros (Cascudo, 2002, p. 131-135).

3 Para saber mais dos detalhes da incrível aventura de Rui Sérgio Ferreira com o Saci-Pererê, leia Rosa, 2022, parte um, p. 5-7.

Ao todo, são mais de dois mil anos de manejo de recursos abundantes em um núcleo florestal e recursos marginais, considerando áreas alagadiças, colinares, cerritos, sambaquis, abrigos e dunas. Mas, após cinco séculos de processo colonial espanhol e português, seu território ancestral se encontra devastado, esgotado e contamidado pela introdução de gado, monocultura da soja, cana de açúcar, plantio de plantas exóticas (eucalipto, pinus e pastos exóticos), além da expansão urbana. Hoje, muitas dessas pessoas dependem do mercado de trabalho agrícola em suas próprias terras ancestrais ou em outras, além de políticas de assistência social do Estado, como cestas básicas, rede hospitalar, moradia, transporte, água e segurança (Emgc, 2016, p. 6-12).

5. Os nomes das divindades nas narrativas passam por sutis transformações, a depender do coletivo guarani e do narrador. Desse modo, os Guarani de Missiones, Argentina, designam Nhamandu como o ser supremo, o verdadeiro pai da humanidade (Cadogan, 1959, p. 16-17, 27). Os nomes Chy Eté são femininos; por sua vez, Ru Eté, masculinos. Sobre divindades e origem dos nomes Mbyá, consulte: Tempass, 2012, p. 140).

6 Há um instigante debate entre os especialistas da Astronomia Física sobre as categorias “astronomia”, “arqueoastronomia”, “etnoastronomia” e “astronomia cultural”. Sem a intenção de reduzir essa discussão, cito as duas últimas. A etnoastronomia “investiga o conhecimento astronômico de grupos étnicos ou culturais contemporâneos que, em geral, não utilizam a astronomia ocidental (oficial), sendo esse o caso dos povos indígenas que habitam o Brasil. Ela requer a colaboração de especialistas de diversas áreas, como Astronomia, Antropologia, Biologia e História” (AFONSO, 2010, p. 65). Por sua vez, a astronomia cultural se atém aos “sistemas de observação celeste dos povos antigos, ou dos povos indígenas atuais, nos quais explicitamente encontram-se integrados aspectos ecológicos, meteorológicos, cosmológicos e astronômicos” (Lima et al, 2014, p. 90). Nesse artigo, eu trabalho com a concepção de astronomia cultural.

Como disse Alcindo Whera: “Tudo que existe aqui é porque está lá também, que o que está lá em cima [céu] é como o que está aqui embaixo, ‘só que diferente’” (Oliveira, 2009, p. 142).

Nas palavras de Germano Afonso: “As observações do céu que realizamos com os indígenas permitiram localizar a maioria das constelações tupinambá e de diversas outras etnias da família tupiguarani” (2006, p. 48).

Em outras versões míticas, Koch-Grunberg remete a novos personagens com membros cortados e relacionados às constelações Plêiades e Cinturão de Órion: Akawoío, Serikoai, Jilikawaí e Makunaíma dos Taurepang-Arekuna; Nohi-a-bassi (literalmente: "Perna-metade") dos Warrau; Epetembo dos Kalinya (Galibi, Karaíb) do Suriname; Mabukuli, o perneta dos Arowak; e, mulher sapo, chamada Ueré, esposa do Pechioço dos Macuxi (1953, p. 162-168).

10 Nas palavras de Mártin Tempass: "Então, os alimentos estão em um mundo, mas os seus donos, seus controladores ou seus protetores residem em outro. Desta forma, o cultivo de qualquer alimento tradicional pelos Mbyá-Guarani passa obrigatoriamente pelo domínio do sobrenatural, por um respeito às prescrições divinas. Ocorre que ao 'dispor' os alimentos na Yvy Pyau os deuses também estabeleceram as formas que estes devem ser cultivados" (Tempass, 2012, p. 142).

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