Gênero, poder e assédio sexual nas redes sociais: análise de relatos presentes na página do Facebook “Meu Professor Abusador”

SP.14: Etnografiar la transformación: géneros, patrimonios y rituales en Latinoamérica

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Arienny Carina Ramos Souza INSTITUTO FEDERAL DE EDUÇAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO PARÁ (IFPA)
Breno Rodrigo de Oliveira Alencar Instituto Federal do Pará

Gênero, poder e violência sexual nas redes sociais: análise de histórias presentes na página do Facebook “Meu Professor Abusador”

 

Arienny Carina Ramos Souza

Breno Rodrigo de Oliveira Alencar

 

Com o surgimento da era digital, a sociedade se depara com um novo contexto tecnológico, fruto do processo de globalização, que traz consigo novas modalidades de conexão e intensifica a migração das relações físicas e interpessoais dos indivíduos para o ciberespaço (Carvalho e Martins , 2003). Como aumento expressivo dessa virtualidade, as interações criminosas no ambiente online tornam-se mais evidentes, dada a menor vigilância por parte das autoridades competentes, resultando em uma passagem despercebida de práticas violentas, especialmente em relação às mulheres usuárias do ciberespaço. Enquanto for um ambiente igualitário, o ciberespaço amplifica e perpetua frequentemente a violência de género, contribuindo para a reprodução simbólica de desigualdades históricas por dois utilizadores masculinos de plataformas online (Bourdieu, 1998).

Dado um contexto virtual marcado pela desordem e por comportamentos sexistas, há necessidade de compreender primeiro como a violência de género se espalha através das tecnologias digitais, especialmente no que diz respeito à agressão sexual contra mulheres usuárias do ciberespaço, e como este problema se manifesta na hierarquia hierárquica. dinâmica entre professores e alunos. Sob esse viés, este projeto de pesquisa é considerado como objeto de estudo a agressão sexual online praticada contra estudantes do sexo feminino do Instituto Federal do Pará (IFPA), campus Belém. O interesse pelo tema está na origem de histórias, reclamações e discussões realizadas por grupos de iniciação científica do Núcleo de Pesquisa em Educação e Cibercultura (ligado ao Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Cultura, Educação e Política – GICEP/IFPA) a partir de projetos de pesquisa que abordam processos midiáticos (Alencar e Souza, 2020), tecnologias digitais de informação e comunicação aplicadas à educação (Alencar et al. , 2021) e cibercultura e mídias sociais (Alencar, Dias e Barbatovci-Oliveira, 2022; Alencar et all . , 2022), cujas leituras e reflexões ensinam questões sobre suas próprias trajetórias como mulheres frequentadoras do ciberespaço.

Como estudante do IFPA, fiquei chocada com notícias de violência sexual perpetrada por docentes, que me atravessam em múltiplos contextos históricos. Essa prática é frequentemente relatada nas instituições, principalmente por indivíduos pertencentes a grupos sociais marginalizados, como mulheres negras e de classe baixa. Além disso, a instituição tem enfrentado diversos processos administrativos sem resolução envolvendo professores acusados ​​de agressão sexual (Tabela 1). Ao mesmo tempo, o protesto de dois estudantes, ocorrido na manhã do dia 14 de setembro de 2022, que interrompeu o trânsito na Avenida Almirante Barroso, em frente ao campus Belém, tem um impacto profundo em todos os membros da comunidade académica. O caso foi repercutido e documentado em matéria do Jornal Liberal. Segundo as reportagens, o objetivo do protesto foi dar visibilidade às denúncias de estupro estatutário praticadas por uma professora de Química em duas ocasiões contra a mesma aluna.

 

Tabela 1: Processos de Violência Sexual no Instituto Federal do Pará por ano, campus e situação (2015-2022).

 

ANO

CAMPUS

STATUS

2015

Conceição do Araguaia

Ativo

2016

Belém

Ativo

2017

Belém

Ativo

2018

Belém

Ativo

2018

Belém

Ativo

2018

Belém

Ativo

2018

Abaetetuba

Demissão do servidor

2018

Abaetetuba

Suspensão do servidor

2018

Parauapebas

Ativo

2022

Marabá Industrial

Ativo

2022

Castanhal

Ativo

2022

Ananindeua

Ativo

Fonte : Sistema Integrado de Patrimônio, Administração e Contratos (SIPAC/IFPA).

 

O objetivo deste estudo também coincide com a publicação, em outubro de 2022, da Medida Provisória nº 1.139 que instituiu o Programa de Prevenção e Combate à Violência Sexual nas instituições de ensino federais, estaduais, municipais e distritais, nas esferas pública e privada. Entre os objetivos da medida estão: prevenir e combater a prática de violência sexual, capacitar professores e equipes pedagógicas para o desenvolvimento e implementação de ações que visem discutir, prevenir, orientar e solucionar problemas nas instituições de saúde. mas, A implementação e divulgação de campanhas educativas sobre comportamentos de agressão sexual, com vista à informação e sensibilização dos atores envolvidos no processo educativo e da sociedade.

            Vale ressaltar que a agressão sexual é enquadrada como crime (art. 216-A do Código Penal, incluído na Lei nº 10.224, de 15 de maio de 2001) de constrição praticada contra alguém com intenção de

 

obter vantagem ou favor sexual, prevalecendo-se ou agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerente ao exercício de emprego, cargo ou função (Código Penal, toque nosso).

 

Na vida quotidiana, a prática do crime de agressão sexual refere-se a investidas sexuais indesejadas, pedidos de favores sexuais ou outras condutas verbais ou físicas de natureza sexual que criem um ambiente intimidador, hostil ou ofensivo. Pode ocorrer em vários ambientes, incluindo locais de trabalho, espaços públicos e instituições educacionais. Exemplos de agressão sexual podem incluir comentários, toques ou gestos sexuais indesejados, pedidos persistentes de encontros ou favores sexuais, exibição de material sexualmente explícito e uso de uma posição de poder para coagir alguém a uma atividade sexual, o que pode causar lesões graves e duradouras. efeitos físicos e mentais da vítima, bem como na sua vida profissional e pessoal.

Nenhum caso específico de agressão sexual on-line contra mulheres, nem levantamento bibliográfico preliminar, não encontrou nenhuma publicação em língua portuguesa que discuta um tema de maneira específica, preocupações em dois empregos ou assunto que tenha sido abordado no contexto mais amplo da agressão sexual contra alunos de cursos técnicos integrados pertencentes a dois Institutos Federais: IFPI e IFSC (Melo, 2022; Moreira, 2016, respectivamente).

Nesse sentido, a principal fonte de pesquisa disponível concentra-se em questões de sites que contêm denúncias contra professores que utilizam plataformas online para assediar e explorar sexualmente estudantes (Santos, 2020; Maciel, 2022; Lins, 2020). Algumas das formas comuns de assédio sexual online presentes nestas queixas incluem tirar fotografias e escrever comentários nos perfis das pessoas, ou enviar mensagens ou imagens sexualmente explícitas e solicitar favores sexuais em troca de benefícios académicos.

A investigação visa, portanto, investigar o fenômeno das agressões sexuais perpetradas contra estudantes do sexo feminino na página do Facebook “Meu Professor Abusador”. A página do Facebook publica histórias de agressão sexual e moral enviadas por alunos por meio do Google docs ou e-mail, ou é utilizada para envio de material multimídia que envolve algum tipo de violência causada por professores. Além disso, as descrições são organizadas apenas por uma hashtag seguida do número da história, sem identificar o nome da vítima, para garantir a proteção dos denunciantes. Os resultados elucidam um comportamento ritualístico dos agressores que entram em contacto com as suas vítimas e uma suposta preferência por raparigas com idade inferior ao ensino básico, dois dos quais 12 casos estudados em 640 relatórios publicados, sugerindo o fenómeno da agressão sexual online, observado em mais detalhes frequência na rede social Facebook. A partir daí, é possível afirmar que o fenômeno da agressão sexual online ocorre devido ao contínuo crescimento da midiatização e da virtualização das relações interpessoais no ciberespaço, onde as primeiras tentativas de agressão sexual são iniciadas por meio de insultos, comentários e elogios em fotos. das redes sociais, por enquanto, não acontecem no espaço presencial. Dessa forma, precisamos urgentemente de medidas contra a agressão nas escolas, como proteção às vítimas e morte ou exoneração do agressor. Isto demonstra a cultura de violência de género enraizada nas instituições académicas e a dificuldade em punir casos de agressão sexual, principalmente de natureza virtual.

 

Continuidades históricas: a agressão sexual como ferramenta de controle de gênero                                       

O uso da linguagem e do discurso na construção das identidades de género transcende a sua função como mero meio de expressão humana, constituindo-nos também através de dois quais como normas de género que apenas são disseminadas, internalizadas e perpetuadas (Scott, 1989). No âmbito das categorias históricas de género, a linguagem assume um papel crucial no reforço de estereótipos presentes nos discursos sociais, como os provenientes dos meios de comunicação social, da política, da religião ou de outros contextos sociais, contribuindo assim para a manutenção e criação de símbolos específicos que os definem como homins.As mulheres devem comportar-se, vestir-se e expressar-se. Estas normas, transmitidas linguisticamente, moldam a nossa compreensão da identidade de género, permeando as esferas culturais, literárias, mediáticas e conversacionais da vida quotidiana.

Uma perspectiva de gênero revela que o universo feminino está inserido na esfera masculina, sendo esta última responsável pela sua criação e regulação. Esta é a origem do patriarcado enraizado nas relações sociais entre homens e mulheres, onde os homens criam símbolos que definem ou que uma mulher precisa reproduzir para ser considerada um sujeito com vagina, num contexto patriarcal (Scott, 1989). O gênero, sem contexto, é concebido como uma categoria social imposta aos corpos sexuados, identificados e definidos como masculino e feminino a partir de sua genitália (Heilborn, 2004, p. 19). Tal categorização traz consigo expectativas e significados associados à forma como esses corpos deveriam se comportar, viver e vivenciar a vida, com base em simbolismos de gênero historicamente enraizados. Ressalta-se que o gênero transcende sua manifestação puramente biológica e se configura como uma construção cultural, conferindo significados e expectativas aos corpos sexuais, principalmente não que esteja relacionado à representação de ser mulher ou homem em uma sociedade patriarcal.

Não que se trate da compreensão do patriarcado, a sua abordagem não diz respeito à subordinação das mulheres, visando elucidar a perpetuação da violência de género. Segundo Mary O'Brien (1981), a dominação masculina tem tendência a subjugar as mulheres, derivada da necessidade do homem de transcender sua alienação no processo reprodutivo, uma vez que sua presença não é um fator determinante neste aspecto influente da vida. A liberdade das mulheres reside, portanto, na compreensão do processo reprodutivo e na apreciação da contradição subjacente à mistificação biológica perpetrada pelos homens. Numa outra perspectiva, Shulamith Firestone (1970) concebe o sistema reprodutor feminino como um “armamento amargo”, defendendo que a emancipação da mulher no sistema patriarcal se deve à eliminação da necessidade de reprodução, possibilitando o surgimento da vida através de metodologias alternativas .

Além disso, enquanto algumas autoras feministas atribuem o patriarcado como chave para questionar a reprodução da violência de género, para outras a sexualidade assume um papel central de reflexão. Segundo Catharine MacKinnon (1989, p. 51), “A sexualitye é para o feminismo, aquilo que o trabalho é para o marxismo”, indicando que aquilo que é intrinsecamente feminino foi usurpado. Neste contexto, a objetificação sexual das mulheres aparece como a principal forma de sua subordinação, uma vez que esta ideologia favorece a dominação e a domesticação no espaço social. Assim, o marxismo e a dialética materialista configuram-se como uma forma teórica de violência, para MacKinnon, o método de análise feminista é orientado pela conscientização da violência sexual, como sujeito que é objetificado. Dessa forma, as mulheres têm a possibilidade de compartilhar suas experiências, visando transformar o cenário opressivo. Ou seja, a promoção da mulher configura-se na recusa da subordinação masculina.

A própria Nessa, ou agressão sexual, configura-se como uma manifestação de violência de gênero, intrinsecamente relacionada a normas, relações de poder e construções sociais de gênero. A agressão sexual envolve uma dinâmica de poder desigual entre o agressor e a vítima, refletindo as desigualdades estruturais presentes nas sociedades patriarcais, onde os homens têm maior poder e privilégios do que as mulheres. Dessa forma, a agressão sexual surge como expressão da desigualdade de poder, atuando como forma de exercício de controle e domínio sobre as mulheres.

A agressão sexual está intrinsecamente ligada às questões de género e à construção social das identidades femininas e masculinas. O assalto é concebido como uma forma de expressão de poder e controle, onde os agressores procuram afirmar o seu domínio. Esta dinâmica opressiva reflecte o poder sustentado pelas sociedades patriarcais, onde as normas de género e o controlo sobre o corpo feminino são utilizados como método para manter a hierarquia social entre os géneros. A agressão sexual praticada por professores do sexo masculino frequentemente reflete e perpetua as normas hierárquicas estabelecidas pela sociedade. Para ilustrar, os comportamentos abusivos baseiam-se frequentemente em estereótipos femininos, objectificação sexual, orientação sexual, relações étnicas e normas de comportamento socialmente oprimidas. Isso mostra como a linguagem instituída no gênero contribui para a oleosidade e reprodução do assédio. Segundo Bourdieu (1998), como as relações de dominação entre os gêneros são apenas simbólicas, remetendo uma linguagem às principais ferramentas utilizadas para a prática da dominação, transmitindo relações de poder enraizadas em uma sociedade androcêntrica.

Diferentemente, existe a violência física e direta, bem como a violência simbólica através de significados, símbolos e valores internalizados pelas pessoas, moldando suas percepções, ações e personalidade. Não é o âmbito da violência de género, ou do patriarcado, como estrutura de poder predominante na sociedade, que penetra na formação de homens potencialmente sexistas e violentos, que reproduzem agressões sexuais contra corpos femininos. Nesse sentido, ou patriarcado, revela-se através das suas manifestações simbólicas, materializando o fenómeno da agressão sexual perpetrada por homens. A partir da compreensão desse paradigma histórico, esses indivíduos moldados pelo patriarcado expressam o assalto em suas esferas sociais e profissionais. Não que se trate do trabalho docente, investiga-se como esse corpo de poder masculino enfrenta o uso inadequado do cargo docente para disseminar a violência de gênero contra as mulheres. Esta, por sua vez, é composta por experiências desde a infância, práticas culturais e valores internalizados pelo homem. Essas crenças são legitimadas pelas mulheres e consideradas normais. Dessa forma, o agressor sente-se incapaz de violar sexualmente corpos historicamente oprimidos, como os das mulheres negras e periféricas, tornando a agressão sexual uma prática comum na realidade de diversos grupos que apresentam esses fenótipos marginalizados.

Aqueles que possuem maior capital simbólico, como homens em posições de poder, sentem-se mais autorizados a praticar comportamentos abusivos com os estudantes, enquanto as vítimas podem hesitar em denunciar devido ao método de represálias. Este sentido, ou agressão sexual, pode ser considerado uma forma de reforçar as noções tradicionais de masculinidade, onde o poder está intrinsecamente ligado à capacidade de subjugar e controlar as mulheres. Esta construção da identidade masculina baseia-se muitas vezes em ideias de domínio e superioridade sobre o sexo oposto.

Bourdieu (1998, p. 56) explica:

 

Se esta divisão parece estar na ordem das coisas, como às vezes se diz para afirmar que é normal, natural, na iminência de ser inevitável, e porque está presente, em estado objectivado, no mundo social e também, num estado incorporado, não habitus, onde funciona como um princípio universal de visão e divisão, como um sistema de categorias de percepção, pensamento e ação.

 

Este contexto adverso implica a normalização de condutas ilícitas, nomeadamente a agressão sexual, não dentro do ambiente académico, onde tal comportamento é incorporado no corpo institucional como elemento intrínseco da cultura ou da dinâmica social. As estruturas de poder, quer apoiem o ataque, dificultam a sua erradicação.

Um aspecto a ser considerado refere-se à influência do capital cultural na capacidade dos estudantes de denunciar situações abusivas. Muitos estudantes carecem de formação educacional, conhecimento e competência para expressar as suas experiências de violência, o que tem impacto na abordagem à denúncia de agressões. A ausência de capital cultural pode criar obstáculos à denúncia, dado que vários estudantes não reconhecem as práticas abusivas por parte dos professores como manifestações de violência sexual. Assim, muitos desses estudantes suportam o silêncio ou a agressão, legitimando involuntariamente a própria subordinação.

Nesse sentido, as instituições acadêmicas desempenham papel relevante na ocorrência de casos de violência sexual perpetrada por professores. Estas instituições seguem uma norma cultural sexista que sustenta, perpetua e reproduz a violência de género. A impunidade, a minimização do problema e a ausência de mecanismos eficazes para lidar com a agressão reflectem frequentemente as normas sociais que toleram ou mesmo legitimam comportamentos agressivos com base no género.

Bourdieu (1998) retrata o sexismo

 

“O sexismo é um essencialismo. Tal como o racismo, de etnia ou de classe, visa imputar diferenças sociais historicamente instituídas a uma natureza biológica que funciona como uma essência da qual todos os factos da existência são deduzidos implacavelmente. E entre todas as formas de essencialismo, é a mais duvidosa ou a mais difícil de erradicar.”

 

Dado um contexto caótico e permeado por preconceitos, o presente projeto visa, através de uma análise exaustiva da literatura e de dois casos de violência sexual estudados, incentivar o desenvolvimento de uma consciência crítica e transformadora entre as mulheres, através da participação em atividades de iniciação científica. O objetivo é capacitá-los para que não tolerem mais casos de violência sexual perpetrados por membros docentes da comunidade acadêmica, ao mesmo tempo em que busca promover a igualdade de direitos e o esclarecimento moral para todos os membros da comunidade acadêmica. Nesse sentido, este estudo se propõe a investigar o fenômeno da agressão sexual contra estudantes matriculadas e/ou concluintes do Instituto Federal do Pará, Campus Belém, com uma abordagem não ciberespacial, especificamente nas redes sociais online. A pesquisa busca compreender a dinâmica das relações sociais no ambiente virtual, especialmente o que diz respeito à relação hierárquica entre professores e alunos, a partir de uma perspectiva socioantropológica. O trabalho foi realizado com o intuito de responder de forma detalhada ao problema de pesquisa, a fim de elucidar a presença da agressão sexual no campus e identificar seus autores, bem como compreender as formas como essas práticas ocorrem no ambiente virtual.

 

A Perpetuação do Assédio Sexual na Relação Hierárquica “Professor e Aluna” através das Redes Sociais Online

Com o objetivo de identificar casos de agressão sexual praticados por professores fora do ambiente online, a investigação apresenta resultados parciais de um levantamento realizado em bancos de dados. O estudo consistiu em duas facetas de análise. Primeiramente, foi realizada uma pesquisa em dias virtuais utilizando palavras-chave para obter materiais publicados em formato impresso que relatam casos de agressão sexual em redes sociais online. Na segunda etapa, foi realizada uma análise na página do Facebook “Meu Professor Abusador” com o objetivo de expor casos de violência sexual cometida por professores contra alunos de diferentes níveis de escolaridade por meio de redes sociais. Estas análises ajudam a compreender como ocorre o fenômeno denominado agressão sexual online, possíveis comportamentos ritualísticos entre agressor e vítima e quais redes sociais são mais utilizadas nas práticas de agressão virtual.

Numa primeira análise dos dados fornecidos pela imprensa, é possível notar que na maioria dos casos é evidente que os estudantes de 15 anos do ensino básico são mais assediados, ou que expressam as relações de poder dos professores homens. no corpo feminino dos estudantes (Scott, 1989). Também foi possível identificar que grande parte dos agressores apresenta comportamento persuasivo e desrespeitoso com as vítimas durante as práticas de assédio nas redes sociais, envolvendo benefícios acadêmicos, financeiros ou sociais para estudantes que recebem favores sexuais. Essas atitudes básicas podem ser verificadas nos trechos retirados dos depósitos das vítimas:

 

“Em entrevista à RBATV, Emanuela Amorim, diretora do DEACA/Santa Casa, disse que a educadora envia mensagens pelo WhatsApp para a vítima pedindo favores sexuais em troca de boas notas .”

 

“Uma conversa chega com uma mensagem que o professor fala “Fala comigo” . Para alguém sem atenção e, algum tempo depois, o professor fez uma nova tentativa. E ou chocolate preferido? “, afirmou homem. Um jovem disse que não queria. E ele respondeu: “ Desistiu? Você está conversando comigo? “, Disse o professor”.

 

“[...] Os professores as convidavam para sair, beber, e também escrever comentários nas redes sociais das meninas e conversar sobre gostosas . Ele também teria enviado “emojis com corações” .

 

A inegável reflexão social presente nos versos “Fala comigo” e “E o prefere chocolate?”, sugerindo um possível pertencimento do aluno a uma classe socioeconômica desfavorecida, pois o professor parece tentar cativá-la por meio de incentivos materiais. O verso “Desistiu? Você está conversando comigo?”, observa a persistência do professor na abordagem, revelando um discurso que sugere intimidade com o aluno, pois a mudança de mensagens constrangedoras constitui uma prática recorrente e oleosa.

As histórias apresentadas fornecem insights sobre os padrões de comportamento dos invasores no ciberespaço. Se observarmos comentários diretos dirigidos aos estudantes, percebemos também um sentimento de impunidade em relação aos acontecimentos narrados, aliado a uma ausência de empatia e responsabilidade por parte de dois agressores que serão identificados. Dessa forma, a normalização da violência reflete os achados de Linz, Machado e Escoura (2016), que analisam as diversas manifestações de violência no contexto escolar e como esses comportamentos são lubrificados e reproduzidos, muitas vezes como justificativa para a violência de gênero.

Não obstante as reportagens veiculadas na imprensa brasileira, as histórias das vítimas podem estar sujeitas a distorções ou modificações por parte de dois veículos de comunicação. Tal fenômeno corresponde ao objetivo principal da mídia, que é transmitir informações de forma rápida e direta, muitas vezes sem verificar a veracidade de dois fatos ou das partes envolvidas.

Diante desse cenário, é comum encontrarmos os casos analisados ​​com preocupação quanto à autenticidade das histórias das vítimas, como evidenciam os títulos dos artigos:

 

“Professor é investigado por supostamente agredir estudante de 10 anos” (Agência Brasil);

 

“Mais estudantes relatam supostos casos de agressão em escola militarizada” (Correio Brazilienze);

 

“Professor investiga suspeita de agressão sexual a adolescente de 14 anos [...]”.

 

A expressão “suposto agressão sexual” em nossos títulos destaca a presença de um machismo estrutural enraizado no ambiente midiático institucional, outrora governado predominantemente por homens brancos e heterossexuais. Isto fortalece o discurso opressivo de que a vítima é provocada ou agredida ou de que os alunos têm maior probabilidade de acusar os professores, resultando na culpa das vítimas.

Uma segunda análise de dois dados obtidos na página do Facebook intitulada “Meu Professor Abusador” foi realizada para investigar a exposição e os relatos do fenômeno da agressão sexual online pelas vítimas envolvidas. Esta página foi criada em 9 de fevereiro de 2016 por estudantes do curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a finalidade de permitir a divulgação de denúncias anônimas relacionadas a casos de agressão sexual perpetrados por professores contra estudantes. As histórias foram carregadas na página através do Google Docs e e-mail, permitindo às vítimas enviar, se disponíveis, provas dos crimes cometidos, como capturas de roupas, fotografias e material multimídia. Para este estudo foram selecionadas doze histórias da referida página, duas novas evidências do fenômeno da agressão sexual nas plataformas de mídia social, como pode ser visto nas seções a seguir:

 

#MeuProfessorAbusador na aula de Ciência Política da Faculdade de Direito da PUCRS. Mesmo sendo extremamente católico, com opiniões ultraconservadoras (sexistas, homofóbicas, transfóbicas) e casado com filhos, ele assedia os alunos em troca de notas extras e repetidamente faz lances por dinheiro nas redes sociais com mensagens invasivas, elogios não autorizados [...]”.

 

“Desde o início eu queria fazer bacharelado, depois sempre fui muito próximo de alguns dos meus professores durante a faculdade. Acontece que ela acaba ficando próxima de dois dos professores mais temidos da escola. Temido porque era rigoroso com questões de horário, conversas e etc; aí ele acaba sendo bastante “respeitado”. Ele me adicionou no Facebook e começou a comentar minhas postagens , o que considerei normal. Mas, a certa altura, ele começou a enviar a mensagem “LINDA” e a tentar bater um papo. [...]”.

 

“Quando entrei na faculdade comecei a entender melhor que seria um abuso por parte de um professor. Vou simplesmente citar 3 casos que aconteceram comigo nos últimos anos na universidade: o primeiro professor quando me viu não me bloqueou para ir no quarto dele tomar um café e no Facebook me mandou mensagens do tipo “Ei Linda " , e sem resposta minha Por outro lado, ele insistia em enviar cada vez mais mensagens. [...]” .

 

#meuprofessorabusador na época que tinha mais de 40 anos e dava (ou dá) aulas particulares de matemática, química e física em Poa. Tenho uma sala com dois alunos de 12 e 15 anos [...] Mesmo quando não estamos em sala de aula, ele sempre comenta minhas fotos e tenta bater um papo na internet [...]” .

 

“Em 2014 não, eu era o reserva particular mais famoso de Natal/RN. E quem conheceu foi ela o #meuprofessorabusador , que tem 34 anos, cerca de 1,80m de altura, usa óculo, é moreno, tem sotaque de outra cidade, dá aula de HISTÓRIA. [...] Já se passaram dois meses, ou meu professor abusivo me mandou uma guloseima no Facebook , e foi aí que comecei a abrir os olhos sobre isso, porque eu não alimentava sempre havia comentários errados, postou um professor em rede social, tipo: “aquele show da aluna” “que gata, eu adoro” [...]”.

 

“O meu professor abusivo leciona na Univates em Lajeado/RS. Ele o “querido” entre os alunos e muitas meninas não percebem ou abusam em nada do formato próximo. Portanto, quando estamos treinando, ele cria grupos não só para se exibir, ele vive falando e postando coisas obscenas, ele convida muitos alunos para irem na casa dele. [...]”.

 

Os textos analisados ​​revelam uma suposta prática ritualizada de agressão por parte do professor em alunos em ambiente virtual, em que ele inicia o processo de agressão por meio de comunicação, elogios e interação nas redes sociais dos alunos, visando posteriormente consumar fisicamente a agressão sexual. A partir do primeiro contato com uma vítima selecionada na internet, o professor tenta persuadir o aluno a compartilhar presentes, convites para sair em troca de benefícios acadêmicos, com o objetivo de fortalecer o vínculo afetivo e obter a confiança do aluno para favores sexuais.

Diante do exposto, torna-se evidente que há negligência por parte de dois órgãos competentes na abordagem deste problema de gênero nas instituições de ensino, e deixam de tomar medidas como exoneração ou demissão de professores responsáveis ​​por agressão sexual, tanto presencialmente e ambientes on-line. Nessa perspetiva, frequentemente, a vítima procura apoio emocional e psicológico juntamente com outras figuras femininas, em vez de denunciar o incidente às autoridades policiais ou à própria instituição de ensino, ocultando assim a violência sofrida devido ao recebimento de acusações e possíveis represálias por parte do professor. envolvido, ou que reforce a dinâmica de poder entre os gêneros (Scott, 1989), como evidenciado no trecho da história 639:

“[…] Seus alunos não vão alegar nenhuma orientação de aula e também de coordenação e não houve nada de errado, mesmo o tiroteio do sarro das mas fora da sala de aula e por conta de serem histéricos e exagerados, pois as coisas não passam por uma “brincadeira”. […]“

 

A página de Facebook “Meu Professor Abusador” representa inequivocamente a demonstração de confiança por parte das vítimas femininas e masculinas que optam por denunciar casos de agressão sexual a outras mulheres, possivelmente em virtude do reconhecimento e receptividade que estas demonstram na sua relação. estudantes que sofreram assédio.

 

Considerações Finais

            Conclui-se que à medida que o ciberespaço evolui para um ambiente intrincado de interações entre professores e alunos, o fenómeno da “agressão sexual online” surge como uma preocupação significativa, destacando as complexas interações entre género, poder e tecnologia. Identifica-se que, mesmo na esfera virtual, as raízes da violência de género estão profundamente enraizadas nas estruturas de poder da sociedade, sendo as dinâmicas de dominação, objectificação e desrespeito frequentemente perpetuadas pelo falso sentimento de impunidade dos agressores. Isto não só afeta diretamente as vítimas, mas também molda a configuração da cultura online. Neste contexto, observa-se que faltam medidas eficazes para lidar com o assédio, incluindo o apoio às vítimas e a responsabilização dos assessores, como a demissão ou exoneração do professor envolvido. Isto evidencia as dificuldades em punir casos de agressão sexual em instituições de ensino, especialmente aqueles que ocorrem em ambiente virtual.

            No âmbito da análise linguística, no contexto do discurso dos agressores investigados, identificaram a projeção da violência de gênero no ciberespaço, evidenciando de uma forma como os corpos femininos marginalizados estão associados a esse tipo de agressão. Tal constatação baseia-se na observação de elementos linguísticos presentes nas histórias analisadas, que nos permitem compreender o contexto histórico e social dos alunos, bem como a forma como os professores se utilizam dessas fragilidades históricas para perpetrar o assassinato. Isto ocorre sob uma perspectiva que considera a influência do patriarcado estrutural sobre esses indivíduos. É lamentável notar que, fora da esfera profissional, os professores parecem abusar da sua posição docente para objetivar e assediar os seus alunos. Ainda mais preocupante é a necessidade de investigar por que esta dinâmica professor-aluno parece propensa à violência. Essas discussões continuam nesta pesquisa, visando compreender como as intrincadas relações de gênero e poder se manifestam não apenas no ambiente físico, mas também no ambiente virtual do ciberespaço.

 

Notas de la ponencia:

Este estudo foi realizado em colaboração com o Núcleo de Pesquisa em Educação e Cibercultura (NUPEC) do Instituto Federal do Pará, campus Belém, com a orientação do eminente antropólogo Breno Alencar, por quem temos profunda admiração e respeito. Além disso, esta pesquisa tem origem no meu Projeto de Iniciação Científica (PIBIC), ou que recebe apoio financeiro do CNPq.

Bibliografía de la ponencia

Referências

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ALENCAR, MANO; CARVALHO, JP; CARVALHO, C.; ALVES, WB; BRITO, MV; VEIGA, AB; BARBATOVCI-OLIVEIRA, M. Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) aplicadas à educação: em busca de uma reconstituição histórica do Ensino Remoto e seus impactos no Ensino Remoto Emergencial durante a Pandemia Convid-19 em conjunto com o Instituto Federal do Pará, Campus Belém . Relatório Final de Pesquisa , Edital 05/2021/PIBICTI/PROPPG/FAPESPA-CNPq, Instituto Federal do Pará, Belém, 2021.

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