Corpos e Resistências: O aldeamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como um movimento decolonial.

SP.25: El derecho a la educación superior en AL: Desigualdades persistentes y prácticas alternativas

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Francine Cristina de Menezes Nunes UERJ
Kelly Cristina Russo de Souza uerj

Creditos Adicionales

Nombre Pertenencia institucional Pais
Francine Cristina de Menezes Nunes Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ Brasil
Kelly Cristina Russo de Souza Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ Brasil

Introdução: Este trabalho, ainda em desenvolvimento, tem como objetivo conhecer as condições de acesso e permanência de estudantes cotistas indígenas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, buscando compreender o processo de invisibilidade que estes estudantes parecem sofrer ao entrarem na universidade. A falta de visibilidade sobre estudantes indígenas na UERJ é parte de um proceso mais amplo em nossa sociedade, que produz o silenciamento desses grupos tanto no contexto urbano quanto no meio universitário. É comum as pessoas criarem uma imagem estereotipada dos povos indígenas, anulando a sua presença na cidade. Ailton Krenak (2018), em um Encontro de Saberes Indígenas organizado pelo PET Indígena Ações em Saúde da UFSCar (Universidade Federal de Santa Catarina), aponta que o racismo contra os povos indígenas é uma violência que será marcada por falas e gestos discriminatórios proferidas aos povos originários, enfatizando que estes povos, ao longo de todo o período colonial, sofreram todo o tipo de violência e discriminação, trazendo o colonialismo como sinônimo de racismo. Para ele, os colonizadores criaram uma narrativa de que os povos originários que viviam no continente americano, não tinham as mesmas qualidades humanas que os europeus. Essa visão estereotipada sobre povos indígenas é ainda mais evidente quando habitam na cidade e quando estes grupos étnicos chegam à universidade. Com isso, uma parcela da população acredita que a universidade não é um espaço indígena, porque no imaginário dessas pessoas o lugar desses grupos étnicos é no meio do mato, porque são considerados povos atrasados e sem cultura. No entanto, “É importante reconhecer que a universidade, assim como a escola de educação básica, é mais uma parte de um projeto de colonialismo que buscou acabar com a diversidade, propagar uma história única e, por muito tempo, voltou-se totalmente para as elites” (Kayapó, Schwingel, 2021, pág. 4), promovendo uma barreira na inserção desses indígenas à Universidade. Sendo assim, os próprios processos de seleção excluem os indígenas, porque não têm levado em consideração as especificidades e conhecimentos desses povos (Kayapó, Schwingel, 2021). Com isso, a universidade não reconhece os saberes tradicionais estes grupos étnicos, considerando seus conhecimentos como saberes informais. Portanto, para os povos originários faz-se necessário uma reflexão sobre a importância deles no espaço acadêmico como uma forma de desconstruir estereótipos e garantir uma diversidade cultural e étnica dentro desses espaços e como um processo de resistência e retomada. Metodologia: Para este seminário, apresentaremos um estudo qualitativo, a partir da metodologia de pesquisa inspirada na pesquisa-ação (Borda, 1973) envolvendo os próprios estudantes indígenas no fazer investigativo, que busca compreender a situação histórica de determinados grupos sociais (Bringel e Maldonado2016; Borda, 2016). Para Fals Borda (1974), a pesquisa-ação vai implicar no envolvimento pessoal do investigador, nas situações reais, e a interferência deste nos processos sociais locais, “cujo objetivo é aumentar a eficácia da transformação política e proporcionar fundamentos para enriquecer as ciências sociais que contribuem para o processo.” (Borda, 1973, pág. 175) Com isso, a pesquisa-ação se coloca a “serviço de uma causa política popular concebida em colaboração com as massas, como um esforço de contenção à dominação imperialista e à exploração oligárquica tradicional a quem podia imputar-se boa parte desta crise.” (Borda, 1973, pág. 173) Na pesquisa-ação o pesquisador militante tem um compromisso fiel à realidade, buscando aplicar a observação por inserção. Contudo, o grupo pesquisado não é considerado como um objeto de pesquisa, mas um protagonista, um personagem principal, cuja participação serão em pé de igualdade com os investigadores de fora, estabelecendo um compromisso total e franco entre estes grupos, ajudando a pensar metodologias que os auxiliem na transformação do espaço. Assim, a pesquisa-ação segue um ciclo, que envolverá a nossa participação entre agir dentro do campo e ao mesmo tempo investigá-lo. Esse ciclo está muito relacionado a investigação sobre universitários indígenas na UERJ, buscando entender como se dá a inserção e a permanência destes estudantes dentro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A partir da metodologia da pesquisa - ação buscamos conhecer quem são estes universitários indígenas na UERJ e convidá-los a participarem como co-pesquisadores/as e co-autores do projeto como um processo de formação e construção coletiva. Fundamentação Teórica: Para o desenvolvimento desta pesquisa situamos alguns conceitos fundamentais que darão base ao nosso estudo, são eles: conceito de identidade (Hall, 2006); decolonialidade (Mignolo, 1998); de interculturalidade (Walsh, 2019). O primeiro conceito que julgamos importante trazer para esta discussão é o de identidade, que mostrará todo o processo de construção histórica presente nas relações culturais dos povos indígenas. Para Hall (2006), o conceito de identidade apresenta várias definições que vão conceituar as múltiplas identidades que existem em uma sociedade, abrangendo as diversidades culturais, sociais e linguísticas no qual este conceito está inserido. Vale ressaltar, que a identidade e a diferença serão marcadas por tensões que levam o sujeito a perceber que a identidade não é fixa e nem imutável. Assim, “Como observa o crítico cultural Kobena Mercer, a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza” (Hall, 2006, p. 9 apud Mercer, 1990, p. 43). O segundo conceito é o de Interculturalidade (Wals, 2019), que tem como objetivo desconstruir todo o processo de exclusão, silenciamento e invisibilização a que estes grupos étnicos foram historicamente inseridos. Este conceito é uma resposta contra a geopolítica dominante, porque não existe apenas uma forma de conhecimento que sempre foi imposta por esse modelo colonialista, mas, outras formas de saberes, uma prática política outra, de um poder social (e estatal) outro e de uma sociedade outra; uma outra forma de pensamento relacionada com e contra a modernidade/colonialidade, e um paradigma outro, que é pensado por meio da práxis política. O terceiro conceito é o de decolonialidade (Mignolo, 1998), que defende a ideia de um pensamento outro, constituindo processos de lutas contra a subalternização de indivíduos que foram colonizados e historicamente silenciados, tendo suas culturas e tradições invisibilizadas. Resultado: Este trabalho apresenta resultados parciais de um estudo em andamento. No primeiro momento a pesquisa teve acesso aos dados internos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. A partir destes dados, buscamos contato com estes universitários indígenas e realizamos três rodas de conversas. A primeira roda de conversa aconteceu no dia 19/11/2022, das 14:00h às 18h, na sala do PROINDIO, que fica no décimo segundo andar no prédio da UERJ Maracanã. Nesse primeiro momento conhecemos as universitárias indígenas e conversamos sobre as dificuldades que elas encontram para se manter na universidade. A segunda roda de conversa aconteceu no dia 14/01/2023, das 14h às 17:00h, na sala do PROINDIO. Nesse encontro discutiu-se a estruturação de um coletivo indígena na UERJ, a fim de fortalecer a identidade indígena dentro da universidade. A partir dessa discussão, as universitárias criaram o primeiro coletivo indígena da UERJ, denominado Yandé Iwí Mimbira (“Nós filhos da Terra” em língua Nheengatu). A partir da criação do coletivo, elas organizaram a primeira Roda de Conversa do Coletivo Indígena Yandé Iwí Mimbira, no dia 30 de marco de 2023, às 18h, na sala nº122 -bloco F, 12º andar – UERJ Maracanã. O tema da roda de conversa foi: O indígena em contexto urbano e sua permanência na Universidade. A Roda contou com cerca de cinquenta pessoas entre estudantes internos e externos, incluindo representantes indígenas que não pertencem à UERJ. A terceira roda de conversa aconteceu no dia 19/05/2023, também na sala do PROINDIO. Neste momento, as universitárias indígenas reafirmaram a importância de um vestibular específico para as populações indígenas, levando em consideração tantos os indígenas que vivem em contexto urbano quanto os indígenas aldeados. Conclusão: Consideramos que as experiências e as dificuldades que os estudantes indígenas encontram ao acessar a Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e também os desafios que se deparam para permanecerem nela, permitem uma discussão sobre como o contexto da universidade apresenta uma estrutura colonial que acaba por reforçar o preconceito contra universitários indígenas, mesmo quando utiliza recursos como as ações afirmativas ou cotas para incluí-los dentro do espaço acadêmico.

Bibliografía de la ponencia

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BORDA, Orlando Fals. Reflexões sobre a aplicação do método de Estudo-Ação na Colômbia. In Revista Mexicana de Sociologia, Vol. 35, No. 1 (Jan. – Mar., 1973), pp. 49-62. (Universidad Nacional Autónoma de México), publicado sob licença creative commons.

 

BRINGEL, Breno; MALDONADO, E. Emiliano. Pensamento Crítico e Pesquisa Latino-Americana Militante em Orlando Fals Borda: práxis, subversão e libertação. Rio de Janeiro Janeiro, vol.07, n. 13, 2016, p. 389-413

HALL, Stuart. Para identidade cultural na pós-modernidade; tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro-11. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.


Universidade : Terra Indígena! / organização Edson Kayapó, Kassiane Schwingel. –Porto Alegre : COMIN : Fundação Luterana de Diaconia, 2021. 36 p. : illus. ; 21 cm.3l

 

MIGNOLO, Walter (1998). "Pós-ocidentalismo: o argumento da América Latina", de CASTRO-GÓMEZ, Santiago e MENDIETA, Eduardo (coords.). Teorias sem Disciplina: Latinamericanismo, Pós-colonialidade e globalização em debate. México: Miguel Ángel Porrúa.

 

WALSH, Catarina. Interculturalidade e colonialidade do poder. Um Pensamento e Posicionamento "outro" da diferença colonial. In: CASTROGÓMEZ, Santiago; GROSFOGUEL, Ramon (Comp.). A virada decolonial: reflexões para a diversidade epistêmica além do capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores et al., 2007. 308págs.

 

Link

 

Krenak, Ailton. PET Indígena – Ações em Saúde UFSCar. Encontros de Saberes Indígenas com Ailton Krenak. São Paulo. 28 de maio de 2021. PET- Ações Indígenas em Saúde-UFSCar. Disponível em: Encontro do Conhecimento Indígena com Ailton Krenak | Sejam todes bem vindes! . . Contínuo Tende cuidado! | Por PET Indígena- Ações em Saúde-UFSCar | LinkedIn