Cine, juventud y ciudad: prácticas de jóvenes cineastas en la reinvención y ocupación de territorios urbanos

SP.61: Juventudes, Cidades e Imagens

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Francisco Alves de Oliveira Júnior Universidade Federal do Ceará

Introdução

Durante o período em que desenvolvi minha pesquisa de mestrado na Universidade Federal do Piauí, sobre o filme brasileiro Bacurau (2019), fui apresentado ao Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens - NUPEC, espaço em que tive a oportunidade de, em contato com outros pesquisadores, realizar investigações que envolveram a feitura de documentários. Um desses documentários, intitulado Poucos que Sobrevivem (2021), provocou a ocupação de um teatro abandonado em 19 de dezembro de 2020 no bairro Jacinta Andrade, zona periférica da cidade de Teresina, Piauí, no nordeste brasileiro. No ano seguinte, em 06 de novembro de 2021, acontecia o Rolê Beira de Rio, que exibia, pela primeira vez, o documentário Cidade Entre Rios (2021), nas margens do rio Parnaíba, também em Teresina. Nas incursões de pesquisa de campo para o doutorado, entro em contato com um movimento parecido, agora em Fortaleza, Ceará, ainda no nordeste brasileiro: Os realizadores do filme Urubu Aterrado (2023) organizaram uma exibição do filme no bairro Carlito Pamplona em Fortaleza. Os três filmes têm algo em comum, quer seja por abordarem a cidade em que os jovens realizadores habitam, reinventando-a, quer seja por ocuparem o espaço público em suas exibições, envolvendo a comunidade do entorno e mobilizando afetações em torno da experiência da cidade, reocupando também espaços residuais (Souza, 2020) como as margens dos rios urbanos e locais públicos abandonados. Esse trabalho aponta para o lugar das práticas artísticas de jovens realizadores de cinema e sua relação com a ocupação e (re)invenção dos territórios urbanos em Teresina, Piauí e Fortaleza, Ceará, a partir das experiências anteriormente mencionadas.

Desde os teóricos clássicos das ciências sociais, as cidades foram objetos de discussão e entraram no centro do debate acadêmico. Simmel (1902) debatia os efeitos da vida na metrópole e Weber (1912) discutia o conceito de cidade. Com Robert Ezra Park (1916) na Escola de Chicago, inicia-se uma tradição de pensar as pesquisas na cidade, Wirth (1938) trabalha a ideia de urbanismo, o direito à cidade e o meio urbano são trabalhados, dentre outros nomes contemporâneos, como Harvey (2008) e Castells. As cidades apresentam espacialidades diversas, sendo espaço de vínculo, interação e também do conflito, abrigando cenários de violência, segregação, controle, o que influencia em um interesse das áreas da Sociologia e Antropologia no estudo das cidades (Barreira, 2007). 

Partindo de reflexões suscitadas por alguns desses teóricos, pretende-se um encontro entre a sociologia e antropologia urbana e as práticas de jovens realizadores no cinema documentário com vias de reinvenção do espaço urbano e seus usos. As ruas, prédios, praças e outras estruturas físicas do urbano estabeleceram-se como suporte de um sem número de transeuntes, imagens, cheiros e sons, a identificação com a cidade faz parte de um processo a um só tempo cognitivo e afetivo (Durán, 2008). Em um caminho que traça aproximações com essa perspectiva, pretende-se uma reflexão a partir da produção de imagens como iniciativa para experimentar as dinâmicas e movimentos da cidade. A construção de experiências na cidade, pode ser entendida como um tipo de dispositivo mobilizado por jovens realizadores de cinema em territórios urbanos. Os realizadores compartilham de experiências e cotidiano de seus interlocutores para a construção de narrativas que necessariamente estabelecem uma interface com o debate sobre a cidade em que vivem. Em face do corpo empírico do trabalho, seja de relatos orais ou das imagens, as tensões entre o significado objetivo, administrativo e jurídico dos territórios urbanos e os significados subjetivos e simbólicos atribuídos à cidade pela construção imagética de sua representação se revelam. 

Nesse sentido, três filmes realizados no nordeste brasileiro foram escolhidos, assim como a observação nas ações que possibilitaram suas respectivas exibições públicas fora de circuitos comerciais do cinema, em “um olhar de perto e de dentro” (Magnani, 2002), para debater  estratégias de reinvenção e ocupação de territórios urbanos por meio da imagem e do som, seguindo caminhos e partilhando espaços de convivência e criação (Diógenes, 2022).  Os filmes são Cidade Entre Rios (2021) realizado em Teresina, Piauí, Brasil; Urubu Aterrado (2023), realizado em Fortaleza, Ceará, Brasil; e Poucos que Sobrevivem  (2021), realizado em Teresina, Piauí, Brasil. Para isso, foram utilizados procedimentos da análise fílmica (Aumont, 1999; Sorlin, 1985) e da investigação qualitativa com imagens e sons (Bauer; Gaskell, 2008), e fundamentos teóricos da antropologia do cinema (Piault, 2000) e da sociologia do cinema (Sorlin, 1985). Também foram realizadas entrevistas abertas com dois realizadores, uma vez que o filme Poucos que Sobrevivem (2021) foi gravado com minha participação como pesquisador na equipe, em uma condição de pesquisador-realizador.  

Neste texto, no primeiro momento, apresenta-se como a juventude grava a cidade, estabelecendo conexões com as práticas juvenis, criatividade e usos da cidade em cada filme. Em seguida, apresenta-se as narrativas enfrentadas pelo discurso fílmico, na tarefa de reinvenção da cidade na prática de fazer filmes. Por fim, o debate sobre a difusão deste tipo de material em circuitos de circulação protagonizados por esses mesmos jovens em mostras de cinema no nordeste brasileiro, aponta para um tipo de organização e prática comum ao denominado por eles mesmos como “cinema independente” ou “cinema periférico”, terminologias êmicas que aparecem no campo de pesquisa abordado e que serão discutidas com mais profundidade em um outro momento em um trabalho em andamento.

As Juventudes gravam a Cidade: Criatividade e outras derivas

Para iniciar a reflexão, é relevante situar os enfoques da pesquisa, não se objetiva discutir as intenções ou sistemas de disposições subjetivas dos autores, mas o debate sobre imagens e cidade vinculado ao lugar do cinema e das redes de interdependência de realizadores de cinema no Piauí e Ceará como um arranjo de reinvenção do espaço em que vivem, o discurso sobre seu contexto e sobre tensões ocasionadas no cenário urbano da cidade. Dito isto, foca-se nas categorias de análise do Espaço Público, da Cidade e das práticas de produção cinematográfica de jovens no contexto urbano e social da cidade de Teresina e Fortaleza a partir dos filmes escolhidos. Barreira (2019) aponta os usos conceituais de espaço público em duas acepções, uma ligada a ideia de Habermas, que diz respeito aos espaços que não fazem parte dos espaços privados, e um ligado a Certeau, que aponta muito mais para as relações, vínculos e usos do espaço de maneira mais ou menos espontânea no cotidiano dos indivíduos. Assim, essa última perspectiva mais empírica será enfatizada nos usos do termo neste trabalho. As práticas cotidianas encenadas no uso da cidade como o palco em que se desenrolam a produção de filmes são experimentadas e focalizadas não por quaisquer olhares, são jovens realizadores que produzem, aprendem fazendo e redescobrem a linguagem e seus sotaques linguísticos próprios do tipo de produção que mais se identificam. A criatividade é evidente não somente na criação de um material com pretensões artísticas, mas nas estratégias de uso da cidade. Narrar a cidade por meio do audiovisual é uma elaboração de percurso, as formas e ruídos no campo e extracampo da tela são parte das unidades semânticas da cidade como texto fílmico pelo olhar incorporado dos jovens realizadores.

Os filmes são resultados de um tipo de produção cinematográfica derivada de um movimento que Migliorin (2013) denomina de dispositivos de criação, utilizando da ideia de dispositivo como propulsor de acontecimentos no sentido deleuziano (Deleuze, 1998), produzindo assim, “mundos que não se constituem como desdobramentos em profundidade do que já conhecemos, mas que são ampliações em extensão de possibilidades de cruzamentos de subjetividades e potências de invenção” (Migliorin, 2013, p. 6). Cada documentário se valeu de uma estratégia, que se traduz em um âmbito que os realizadores detém o controle, mas que provocará acontecimentos que fogem do manejo, esperando  “efeitos imponderáveis” sob os quais os realizadores não têm nenhum controle, mas anseiam e desejam por isso. Em Cidade Entre Rios, promover práticas de uso da cidade, das margens dos rios ao pico de prédios abandonados; em Poucos que Sobrevivem, promover conversas sobre a rua no ambiente privado da casa de pessoas que tiveram a vida afetada pelo crime, no liame da reencenação; em Urubu Aterrado, realizar o reencontro de Dona Jovina com o mar e o lugar do qual foi removida pelas intervenções urbano-administrativas, os projetos de revitalização das cidades. Essa reinvenção da cidade torna-se possível sempre que compreendemos o acontecimento como algo relacional, seja referente aos corpos que interagem, ainda que não se confunda com eles - pois o acontecimento é incorporal -, seja em relação ao espaço. O cinema-dispositivo proposto pelos realizadores abre vias para o inesperado, ao passo que se relaciona com o espaço e tudo o que compõe o dispositivo como estrutura ou estratégia narrativa acionada pelos realizadores. Nesse sentido, comunicar a cidade por meio do audiovisual torna-se uma possibilidade no momento em que “as estruturas narrativas têm valor de sintaxes espaciais” (Certeau, 2014, p. 182). A expansão das possibilidades de usos dessa concepção pelas ciências sociais se encontra também na força das imagens em relação à escrita ou outras formas de descrição e interpretação criativa do mundo, uma vez que a imagem proporciona a “contextualização da emoção” (Piault, 2000, p. 24). A relação cidade-imagem obviamente não se inaugura com esse tipo de produção. 

“A cidade no neorrealismo marcava nossas impossibilidades, nos afetando mais do que nossa  possibilidade de construí-la. Pois se no cinema contemporâneo as coordenadas espaciais não  estão cartesianamente refeitas, as circulações em O céu sobre os ombros ou Avenida Brasília  Formosa também não isolam o espaço dos personagens. O que vemos é propositivo, uma cidade que se modula com as vidas. Às vezes mais violenta – às vezes doce, lisa, surfável” (Migliorin, 2011).

Os primeiros filmes marcaram o movimento da cidade, como a chegada do trem na estação e o movimento dos trabalhadores saindo de uma fábrica, micronarrativas que remetem ao microcosmos de um espaço mais amplo. O cinema moderno estava cada vez mais marcado pela fragmentação dos espaços, a solidão e o sentimento de impotência. O espaço era apresentado como algo que se impunha ao indivíduo de modo que este não poderia fazer outra coisa senão perambula-lo, os problemas sociais como desemprego e a fome moldavam um certo grau de desesperança. No neorrealismo italiano as cidades modernas se impõem na tela deixando aos indivíduos, digamos, pouco espaço para agência, essa percepção espacial da cidade no cinema moderno ganha continuidades e novos contornos no cinema contemporâneo (Migliorin, 2011). A questão estabelecida com a ideia de cinema-dispositivo, no momento em que relacionamos a construção desses dispositivos com os usos das cidades, passa a tensionar a passividade em relação ao espaço, de certa maneira algum marco em relação ao cinema moderno referido por Migliorin (2011), e romper com o mero espaço de passagem para um espaço de significações. As práticas de uso das cidades estão agora no centro do debate fílmico. 

Cidade Entre Rios (Filme)

O documentário realizado por Weslley Oliveira e Leonardo Mendes, dois jovens que foram estudantes do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí, acompanha o percurso de Leonardo nas margens do rio Parnaíba, em Teresina, Piauí. O filme acampa nos espaços residuais da cidade (Souza, 2020), as margens do rio, consideradas como espaços perigosos, estimulantes do medo e da apreensão, são apresentadas por um outro olhar de quem convive cotidianamente nas beiras, pescando, banhando e experimentando o espaço. A cidade é ao mesmo tempo observada de cima de um prédio abandonado, o movimento do centro, do deslocamento dos carros, das motocicletas, dos transeuntes, o acender das luzes e a mudança de ritmo no horário da volta dos trabalhadores do centro da cidade para os bairros mais distantes.

O filme inicia com o som: Ouvimos um som metálico, som do vento, dos pássaros e da água. As sonoridades remetem à quebra da noção da natureza intocada, o metal invade o som dos pássaros e co-habita o espaço sonoro junto com a água e outros elementos não resultantes direto da ação humana. Quando a imagem aparece, vemos lixo, plástico, papéis de planos de saúde, juntos da terra, pedras e folhas secas caídas. Leonardo, o jovem portando uma mochila, sentado observa e ouve o cenário, um dos realizadores do filme, que explora as margens do rio gravando um documentário que vai se revelando aos poucos como uma cartografia das práticas de jovens nos usos da cidade que ignora os rios. Acompanhamos (pelo olho da câmera) Leonardo até chegar a uma estrutura metálica, e é dessa estrutura, uma ponte acima do rio, que ocorre os primeiros diálogos e as primeiras inquietações do documentário, entre dois jovens realizadores de cinema:

“[...] a manifestação que ela vai pra além da poesia, da poética, da estética. Não só as coisas ruins, mas também as evidências das formas de relação ou de consumo. Pessoas banhando, sempre vou pensar no ambiente, no ambiente rio e nas coisas que se faz nele e tal, e vejo as coisas como Teresina mudou e o calor só aumenta e as pessoas reclamam muito disso, reclamam de muitas coisas, e aí a gente tem uma opção assim ainda, mas tende a não estar, e bom, eu quero continuar banhando nesse rio para ser resistência na hora de defender ele dizer que eu preciso do rio. Eu sou uma pessoa que tem um vínculo de pertencimento com esse lugar e eu acho que o rumo que Teresina expande né? Cresce... A gente mostra pras pessoas e cria esse imaginário popular, pelo menos. Mostra né, é isso. Quem quiser que crie seu próprio imaginário sobre esse ambiente”. (Leonardo conversa com Weslley em trecho do filme Cidade entre rios, 2021)

A preocupação dos realizadores com uma possível repercussão e debate ocasionado por suas práticas é um ponto de partida interessante. Uma parte das artes brasileiras historicamente tem uma significativa vertente bastante interligada às preocupações com problemas sociais. Artistas como Adriana Varejão, Vik Muniz, Portinari, no cinema, principalmente com o movimento cinemanovista com Glauber Rocha, Joaquim Pedro Andrade, dentre outros, e elemento presente nas cinematografias do cinema contemporâneo brasileiro, que não se desvincula do seu contexto sócio-político, marcado por crescente agravamento dos problemas sociais, econômicos e políticos do país e um reposicionamento epistêmico em relação às imagens produzidas nos cinemas brasileiros diversos. Aponta-se menos na inferência a partir do relato oral dos realizadores sobre suas motivações para tratar de suas disposições mentais e mais para localizar os realizadores e seus filmes em uma vertente do cinema ligada a um tipo de prática próxima das produções do denominado cinema político, social, marginal ou “independente” (Vasconcelos-Oliveira, 2019), nomenclatura adotada por diversos grupos de jovens realizadores como Labcine, Cual, VDC, Quebramundo, dentre outros. Dessa forma, observa-se que os sentidos acionados estão mais ligados aos vínculos e afetos entre realizadores e as espacialidades incursionadas e seus personagens. Nesse sentido, a possibilidade agenciadora do filme é um meio para exercer resistência frente a processos de segregação espacial e outros tipos de opressão. O filme e a ação desenvolvida nas margens do rio foram veiculadas no principal jornal do estado, dentre outros meios de comunicação. O debate de alguma forma chegou a mais pessoas.

“Às margens do rio Parnaíba, Teresina sai do anonimato e deixa um secular isolamento. O Piauí tem como tradição a hospitalidade. Uma das mais belas metrópoles do nordeste: Teresina. As novas gerações crescem fortes e sadias. Criamos condições básicas para o turismo, novas rodovias ligando o Piauí a outros estados” (Áudio extraído do documentário Turismo no Piauí de 1974, citado em Cidade Entre Rios)

Cidade Entre Rios (2021) explora a ideia de progresso e modernidade das cidades, com impacto direto no modo de vida de seus habitantes e na reconfiguração do espaço — ou desconfiguração, segundo o filme. O deslocamento rápido pelas ruas e avenidas contrasta com a sobreposição de um pescador remando em sua canoa no tempo do rio, múltiplas temporalidades e múltiplas formas de experienciar a vida no espaço urbano. Em contraste com o moderno, e parte constituinte deste, a cidade é também o espaço dos mais diversos problemas sociais, do conflito e da segregação. Estrategicamente situada nas margens dos rios, a capital também enfrentou um problema recorrente: as enchentes. Moradores desabrigados, pessoas que morreram afogadas, foram manchetes de vários jornais, enfatizados nas fotografias que preenchem a tela em Cidade Entre Rios (2021). O problema das cheias do Poti e Parnaíba tem relação direta com o projeto moderno de expansão e racionalização da cidade de Teresina, projetada a partir da lógica da arquitetura da época, racional cartesiana, passando por cima dos nivelamentos e contornos físico-naturais, a modernidade transformando o mundo em um problema aritmético (Simmel, 1902).

“A zona Leste, área conhecida como nobre da cidade localizada na margem esquerda do rio Poti teve em seu processo de ocupação e urbanização o aterro de várias lagoas que regulavam as cheias do Poti, uma vez que foram aterradas e ocupadas por prédios, asfaltos e uma drenagem ineficiente além das enchentes é uma região notoriamente conhecida pelas inundações e alagamentos que ocorrem durante o período chuvoso em Teresina” (Brandão; Paula, 2019, p. 4-5).

Em entrevista para Rede Clube, uma afiliada da rede de televisão brasileira Globo, os jovens realizadores revelam: “A gente descobrindo esses ambientes, em torno de Teresina, por isso que o nome é ‘Cidade entre Rios’, porque a gente pelas margens acabou descobrindo muitas outras coisas” (Weslley Oliveira), Leonardo completa: “O filme acaba sendo uma busca por entender um pouco essa memória, essa memória que acaba sendo coletiva, compartilhada e registrada na mídia”. Os ambientes redescobertos se tratam principalmente das margens dos rios, ambos os realizadores já trabalham em produção anterior intitulada de Pier do Poty, com uma temática parecida: O ato de caminhar pelas margens do rio, de explorar, utilizando uma câmera como instrumento de extensão do olhar e da memória, de expansão dos limites humanos em relação a imagem. Pier do Poty apresentava um pequeno pier, de onde Leonardo tinha a prática de mergulhar, uma prática muitas vezes solitária a julgar pelo isolamento do local. Os rios estão em contato constante e direto com a cidade, com todas as consequências ambientalmente devastadoras deste contato. No entanto, a cidade não está em contato com seus rios. O tipo ideal de modo de vida cosmopolita almejado por uma das menores capitais do país exclui a compreensão de seus elementos naturais como parte da cidade possível de ser experimentada, Cidade Entre Rios chama atenção para esse fato e provoca em sua exibição um convite a uma ocupação das margens do rio Parnaíba. Assim como pode ser observado em uma transformação possível e constante das grandes cidades, “pontos de passar são assim transformados em pontos de ficar, alterando o esvaziamento do que era considerado intervalo ou passagem” (Barreira, 2019, p. 48), um tensionamento entre o esvaziamento, esquecimento e desolação de zonas da cidade que não interessam ao capital financeiro e o as práticas desejantes de seus habitantes que insistem em continuar banhando, como relata Leonardo: “para ser resistência”.

Urubu Aterrado (Filme)

No Cinema São Luíz, um cinema de rua localizado na Praça do Ferreira em Fortaleza, Ceará, acontecia a estreia de Urubu Aterrado (2023), filme de Cris Sousa, cearense, profissional de cinegrafia e sonorização e moradora do bairro Carlito Pamplona. Cris foi aluno do curso de Realização Audiovisual da Vila das Artes, espaço de formação com vinculação com a Universidade Federal do Ceará. Na Vila, Cris entrou em contato com outros realizadores, estabeleceu relações afetivas e profissionais, um desses realizadores era Weslley, que também foi um dos criadores no filme Cidade entre Rios e participou da montagem do filme Poucos que sobrevivem, sendo um realizador com vínculos e trânsito nas três produções e em uma das mostras de cinema abordadas neste trabalho. O filme Urubu Aterrado (2023) é fruto do encontro de jovens fazedores de cinema, que colaboraram mutuamente na realização do trabalho de cada um. Não se pode atribuir a construção da relação entre os realizadores de Urubu Aterrado unicamente pela vinculação institucional e pelas obrigações formais junto aos requisitos de avaliação do espaço de formação em que se conheceram. Mais que isso, as identificações, motivações e desejos se interconectam pela vontade de fazer filmes e pelo ponto em comum de contar histórias de vida que se entrelaçam com a vida nas cidades. Os vínculos afetivos se estabeleceram para além do objetivo final da produção do filme, desdobramentos em relações que envolvem desde a celebração pela conquista pessoal até a busca por estar juntos na virada de ano e em momentos festivos. Eu me deslocava com o Weslley para um bairro do município de Caucaia, ele ia fazer direção de fotografia em um filme chamado Natália. Pegamos o ônibus pela manhã e ele me sinalizou: “Você tem que conhecer o Cris, vai gostar dele. Nós vamos fazer um filme que conta a história dele e da família dele, eles foram retirados do lugar que viviam”. As notas no diário de campo nem sempre vêm com a precisão da fala, mas sempre que em uma dessas caminhadas, encontros ou algo do tipo, ocorria uma menção a outra pessoa, costumava anotar. Então, pouco tempo depois, Urubu Aterrado se revelava com o filme em questão. Não consegui participar da première, no Cinemas São Luiz, a única imagem que chegou a mim neste momento foi Cris emocionado nas redes sociais do cinema. Só consegui assistir o filme em um segundo momento, na exibição organizada por Cris na porta de sua casa, no bairro Carlito Pamplona. 

Urubu Aterrado é um curta-metragem que conta a história de Dona Josefa Jovina e seu filho, Cris Sousa, que ainda muito novo foi removido à força de onde vivia, na favela do Urubu. As estratégias estabelecidas pelo governo como revitalização ou renovação são parte também de processos de higienização, ponto refletido pelos realizadores do filme, um movimento muito comum em grandes cidades pelo mundo em sua lógica capitalista. “Renovação, requalificação, preservação, revitalização, memória, são vocábulos que hoje integram as agendas políticas de diferentes cidades, incluindo a capital cearense” (Barreira, 2019, p. 47). Em uma cena que contrasta uma memória de infância, por meio de uma fotografia, com as construções de prédios da beira-mar de Fortaleza ao fundo, Cris introduz por meio de uma narração poética que foi removida de seu lugar: “Tentaram nos apagar. Não tem nada escrito sobre nós. Nada nos jornais, na televisão, no rádio”. O filme é um relato não-contado, uma contranarrativa que emerge do contato com uma cidade reconstruída em cima dos antigos espaços de convivência. Urubu Aterrado reflete sobre as desigualdades e práticas de distinções de Fortaleza, entre a necessidade e a impossibilidade, o filme aborda o direito à cidade. “Tá tudo caro, o povo tá cobrando mil, dois mil reais numa casa com dois ou três quartos” (Cris em trecho de Urubu Aterrado).

No primeiro momento do filme, as cenas se passam dentro da casa de Dona Josefa Jovina, Cris utiliza da realização do filme como oportunidade para levar a mãe de volta ao mar, depois de muito tempo sem pisar na areia. Diferente de Cidade Entre Rios, que começa no espaço público, e se detém predominantemente no espaço público, Urubu Aterrado escolhe iniciar o filme no espaço privado. Essas distinções, cada vez mais borradas, entre o público e o privado são colocadas para reflexão pela câmera que adentra, ainda que com permissão, o espaço privado e a intimidade, revelando uma história que começa pelos desejos, as emoções e o íntimo. A cidade é o lugar de contato, ela se estabelece na relação entre pessoas, objetos e lugares, e ainda, com a reflexão trazida pela investigação com Urubu Aterrado, de efeitos de toda ordem produzidos por esses espaços relacionais, inclusive subjetivos. Dona Jovina fala sobre um trauma. Um trauma em encarar novamente o mar, pela impossibilidade de re-habitar próximo a ele. Pela saudade das amigas trazida no movimento das ondas. “Quando eu vou pra praia, aí eu não quero mais voltar. Eu recordo muito aonde eu morei muitos anos. [...] Eu lembro das minhas amigas” (Dona Josefa Jovina).

De carro, Cris e sua mãe vão recordando de uma antiga configuração da cidade, passando pela estátua de Iracema, sua mãe relembra que ali era o “comercial”, “ex-comercial” agora. Dirige até a barraca de Priscila. “Quando foi pra sair, foi a maior tristeza”. “Dentre as várias expressões de desigualdade urbana, a moradia foi se tornando uma das mais paradigmáticas” (Barreira, 2019, p. 55). “Eu não quero mais ir, porque toda vida que eu for eu vou recordar, eu vou lembrar: Porque que eu saí daqui?”, pergunta a senhora ao recordar do que viveu. Cris conta em entrevista realizada no dia 14 de fevereiro de 2024 que após a remoção, tiveram que se mudar para um bairro pior estrutura e menos abastecido de serviços públicos, na região conhecida como Serviluz, que segundo ele, era um espaço perigoso. O motivo desse deslocamento para a Serviluz foi que a indenização recebida pela família de Cris era muito baixa, e lá era o único lugar onde eles puderam realizar a compra de um novo espaço para morar. Ele relata que os moradores reclamaram de danos em móveis, já que a mudança era feita em caminhões de transporte de areia e material de construção, não havia um transporte de mudança adequado. Depois de algum tempo, Cris e sua família conseguiram se mudar para um bairro que foi conhecido como bairro de operários, devido a quantidade de fábricas de alumínio e outras fábricas que empregavam trabalhadores na região, o bairro Carlito Pamplona, onde o filme foi gravado e exibido. Para Cris, o documentário que realizou se define como “Uma tomada, uma reapropriação”, ainda que simbólica de sua própria história com a cidade de Fortaleza.

Poucos que Sobrevivem (Filme)

Conheci o Guilherme, estudante de ciências sociais, na Universidade Federal do Piauí, ambos frequentamos o NUPEC. O sociólogo Marcondes Brito apresentava a possibilidade de, a partir de suas pesquisas anteriores, acessarmos algumas pessoas que experienciaram as gangues teresinenses na década de 1990. Durante dois anos fizemos visitas à casa de pessoas que tinham em comum o fato de terem suas vidas afetadas pelas dinâmicas do crime. Eu saí do bairro Dirceu Arcoverde II e seguimos de carro até outros bairros de Teresina. De um extremo da cidade ao outro descobrimos afetos e desafetos nas entrevistas, excitação e desejo, alívio e dor. Ao mesmo tempo, realizando essa pesquisa-documentário, a cidade apresentava-se nos relatos de seus narradores como um espaço de segregação e exclusão, em que para sobreviver era necessário estratégias que muitas vezes envolviam a violência. Uma panorâmica, gravada de cima de um mirante da torre da ponte metálica de Teresina, permitia observar de cima, como um olho alheio ao movimento constante da cidade, a mesma distinção espacial, por meio das formas e estruturas arquitetônicas diferentes entre a zona leste da cidade e as regiões populares. A escolha de inserir cenas que mostravam o deslocamento dos realizadores do documentário pelas ruas e vielas da cidade não era gratuito, a grafia urbana da violência também era estampada nas paredes e na vigilância incessante da polícia pelas ruas.  Os realizadores apresentam um grau de reflexividade em relação à produção de imagens, pensando a imagem sempre com alguma horizontalidade nos processos, que, na esteira de uma etnografia visual, em razão da construção coletiva, visam respeitar alguma simetria das relações culturais e afetivas (Vale, 2014). 

“O filme é um curta-documentário de 24 minutos, com direção de Oliver. Não houve financiamento estatal nem privado, portanto, foi realizado com recurso dos próprios pesquisadores. O curta apresenta as paisagens urbanas das periferias de Teresina, são visitados 7 bairros nas regiões indicadas na Figura 01: Palitolândia, Santa Maria da Codipi, Quilômetro Seis, Quilômetro Sete, Lourival Parente, Vila Santa Cruz e Jacinta Andrade, lugares com o “estigma” do “lugar violento” (Goffman, 1975; Silva, 2005). As paisagens urbanas contrastam entre si. Da zona leste de Teresina às periferias, o ambiente se altera, revelando complexidades e problemas estruturais do espaço urbano.” (Oliveira Júnior; Costa; Silva, 2023, p. 170)

Poucos que Sobrevivem (2021) adota uma estratégia curiosa para falar sobre a vida nas ruas, os relatos são enunciados no espaço privado, no espaço da vida íntima. No entanto, para uma demarcação de diferença de Urubu Aterrado, o documentário Poucos que Sobrevivem não é um relato sobre o íntimo, ainda que venha a se desdobrar em questões de foro íntimo, mas sobre práticas da juventude na formação e manutenção de gangues e galeras. E ainda, como sobreviver a uma dinâmica da cidade em que o que está em jogo é continuar vivo, com todos os sentidos do termo, especialmente no sentido de viver a cidade, poder usufruir e deslocar. Em Poucos que Sobrevivem, um simples ato de deslocar-se, de ir de um bairro para outro põe em risco a vida daqueles que estão envolvidos em grupos X ou Y podem envolver-se em conflitos. A cidade revela-se em Poucos que sobrevivem como um lugar de produção de tensões e conflitos, o espaço privado como o desejo último do sossego e da manutenção da vida. A cidade é entendida como “local de acontecimentos sociais, comportando tensões, interdições e criações que são cotidianamente respostas” (Barreira, 2019, p. 50). Durante a realização do filme, alguns entrevistados não podiam simplesmente encontrar-se no mesmo espaço, ainda que a cena dos conflitos tivessem se desdobrado em um passado, a década de 1990, os afetos perduram no tempo, de modo que ao assistir o documentário, os participantes reconheciam seus afetos e desafetos, trazendo a tona desejos dos mais amistosos aos mais violentos. Desejei escrever algumas linhas sobre a relação entre o documentário Poucos que Sobrevivem e o espaço urbano de zonas periféricas em Teresina, Piauí. Descrições sobre os modos de fazer, reflexões subjacentes ao uso de imagens e territórios de conflito e violência foram tratadas em um trabalho já publicado que aborda em detalhes este filme específico. Dessa forma, em se tratando de Poucos que sobrevivem, escolhi abordar apenas aquilo que se refere à abordagem dos usos da cidade e reinvenção do espaço. 

Territórios urbanos: Reinvenção e ocupação

Não se encontra o espaço, é sempre necessário construí-lo” (Bachelard, 1966).

Três eventos organizados pelos jovens realizadores de cinema aconteceram após as gravações e incursões da prática de realização audiovisual no set de filmagem que se constituiu nas cidades. Os eventos foram realizados em locais distintos, assim como os filmes, escolhidos a partir da relação que os lugares detinham com algum aspecto abordado pelo filme. O Rolê Beira de Rio, evento que reuniu a exibição do filme Poucos que Sobrevivem e outras atividades, como pintura com geotinta, instalações e projeções, apresentações circenses e de grupos musicais, foi o evento que apresentou Cidade Entre Rios, um filme que tratava da ocupação de espaços residuais da cidade de Teresina, realizava a possibilidade de uma ocupação, ou uma reocupação das margens, agora com o intuito de exibir o material que tratava desta temática. A ideia de ocupação cultural se torna cada vez mais comum, em Teresina houve o exemplo do Salve Rainha, um evento que tinha a proposta de ocupar espaços vazios e abandonados da cidade com atrações artístico-culturais, o Rolê Beira de Rio seguia proposta semelhante. Para exibir Urubu Aterrado, filme que abordava a relação entre um filho, sua mãe e a cidade em que viviam, entre o local do qual foram removidos, onde hoje se encontra a beira-mar de Fortaleza, Ceará, e a nova morada, no bairro Carlito Pamplona, foi realizado o evento Do Rio ao Mar - que também exibiu Cidade Entre Rios - na calçada dos vizinhos de Cris Souza, reunindo moradores na calçada e transformando temporariamente a rua, linha de passagem, em um local de fruição artístico-cultural, reinventando a rua para um uso diverso do que seria o habitual. Em Poucos que Sobrevivem, a estratégia foi chamar atenção para um teatro abandonado no bairro Jacinta Andrade, em Teresina, Piauí. O evento aconteceu por meio da mobilização de várias extensões de energia, que vinham da casa de moradores até o local, onde foi colocado um data show, luzes, e um som para apresentação musical que ocorreu após a exibição do documentário. Os três eventos realizados chamam atenção para sua conexão com a própria realização dos documentários e com a colocação para o centro do debate dos usos da cidade, na medida em que espaços residuais, locais abandonados e lugares de passagem servem, ainda que temporariamente, como um espaço de elaboração dos modos de uso das cidades. Lembro da leitura que fiz de Hakim Bey, em seu TAZ - Zona Autônoma Temporária, em que celebra os locais de festa como parte daquilo que chamou de TAZ, espaços relativamente autônomos, que fogem da regra, caracterizados pela efemeridade e potência criativa. Em alguma medida, os eventos descritos a seguir convergem para estes caminhos. 

Rolê Beira de Rio (Teresina/PI)

Em Teresina, ninguém se banha de rio. Em Teresina, ninguém se banha de mar. - O som Severo

Teresina, a capital do Piauí, começou a ser povoada no século XVII, fica localizada na região norte do Estado e surgiu entre os rios Parnaíba e Poti, no vale do rio Parnaíba, tem população estimada em pouco mais de 866 mil habitantes. A Capital Teresina é ligada diretamente ao projeto político econômico de desenvolvimento e da modernidade, projetada junto ao discurso do progresso (Gandara, 2011). Nomeada em homenagem à imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon, que mediou os processos junto a Dom Pedro II para mudança da capital de Oeiras para Teresina, a cidade almeja aderir às lógicas dos grandes centros urbanos e da metrópole como um tipo ideal a alcançar. A região dos rios foi escolhida para sediar a nova capital do Piauí, já que Oeiras era de difícil acesso naquela região do semiárido (Abreu, 1983). O processo de ocupação do espaço urbano de Teresina se deu ao longo de um processo histórico que remonta ao século XVII, no entanto, o crescimento populacional comparado a outras capitais brasileiras se mantém estável. Segundo dados do IBGE, na década de 70, Teresina tinha em torno de 220 mil habitantes, passando no ano de 2000 a 715 mil, e em 2010 passando a 814 mil habitantes. Seguindo a tendência da América Latina e Caribe que projeta uma taxa de urbanização para 89% em 2050, a região da Grande Teresina (Teresina, Altos, União e José de Freitas) concentra 30% de toda a população do Estado do Piauí, e a população urbana do estado é duas vezes maior que a população que habita as zonas rurais.

“Chegar à teia de representações articuladas em torno da transferência da capital de Oeiras para Teresina é conseguir ver, na contramão da história, que a própria noção de modernidade está informada por um contexto de simbolização do espaço como lugar híbrido. Lugar de imensas possibilidades e identificação, lugar do novo e da inovação, local do encontro de mundos. Sabemos que, ao se tentar mudar de um lugar em busca de um estilo de vida mais satisfatório, em termos de localização, de comunicação e de economia, tende-se a buscar as fronteiras que, por sua vez, configuram-se também em lugar venturoso, de futuro promissor” (Gandara, 2011, p. 91).

A lógica da racionalidade da modernidade se impõe: Construções metálicas abrem caminhos sobre os rios, avenidas alargadas, novas rotas e a crescente modernização avança a cidade para as margens dos rios, quase sem mata auxiliar. Os rios Poti e Parnaíba são o motivo pelo qual a população se estabeleceu naquela região, no entanto, o problema da memória e pertencimento sempre foi uma questão cheia de arestas em Teresina. A cidade agora avança aos rios, em forma de dejetos tóxicos, lixo, construções, poluição sonora e também de uma forma silenciosa, a forma do medo. O rio como espaço de lazer logo se transformou em um espaço estigmatizado pela população, lugar de um perigo imaginário à espreita, e os usos do rio para o lazer logo foi substituído por outras práticas, assim como os espaços de lazer se estabeleceram em outras regiões da cidade, como parques, shoppings, bares e pequenas casas de show.

No ano de 2021, após uma flexibilização das medidas sanitárias do período pandêmico, às margens do rio Poti na cidade de Teresina, um grupo de pessoas realizou uma série de atividades, dentre elas a exibição e estreia do documentário intitulado Cidade Entre Rios, do coletivo de cinema independente Labcine. No horário da exibição do filme, muitas pessoas já haviam se reunido no local, em sua maioria jovens, ligados a grupos artísticos, acadêmicos ou relacionados de alguma forma com estes. As margens do Poti, espaço notoriamente estigmatizado na cidade, associado a prostituição, tráfico, assaltos e problemas sociais diversos, era ocupada naquele momento para uma atividade artístico-cultural protagonizada pela juventude e com contornos políticos que ecoavam em uma reflexão sobre os usos dos espaços públicos em Teresina. O espaço público das margens do rio Poti, excluído das políticas urbanas e do projeto de cidade vigente, ganha novos sentidos na ocupação de jovens realizada e provocada pelos encontros do filme. Irlys Barreira (2019, p. 47), afirma que na perspectiva de Certeau (1994), é possível pensar “as potencialidades dos usos espaciais, nem sempre objeto de uma determinação do poder urbanístico, mantendo a virtualidade da invenção e do inusitado da convivência entre indivíduos”. A produção do filme percorreu os espaços públicos de Teresina, especialmente as margens dos rios Poti e Parnaíba. Seguindo a esteira de uma herança do espectro Torquato Neto do cinema piauiense, o cinema produzido pelo coletivo LabCine também apresenta como elemento a forte presença das paisagens urbanas da capital piauiense, no entanto, apresenta a especificidade de explorar as imagens para além dos espaços públicos convencionais, como o Centro ou bairros mais centrais, passando a percorrer as periferias, as margens do rio, o transporte público dentre outros espaços.

De maneira semelhante à geração espectro Torquato Neto, o Coletivo LabCine tenta ressignificar e propor novos sentidos aos espaços urbanos da cidade de Teresina, na trilha de uma guerra semântica onde o que está em disputa são o imaginário, os modos de vida e as subjetividades no espaço público. Dessa forma, a ação coletiva se dá no sentido não só dos esforços para produzir o filme percorrendo as áreas urbanas da cidade, mas ocupando essas mesmas áreas na difusão do material, propondo um espaço de sociabilidades beira-rio. Ao se apropriar do espaço beira-rio, ocupando e promovendo uma série de atividades culturais, encontros entre diferentes, espaço aberto e livre para circulação de projetos diversos que integram cidade, cultura e o espaço urbano, os grupos Rolê Beira de Rio e LabCine para além de uma guerra semântica também disputam politicamente os usos e desusos do espaço público e a própria redefinição do termo, uma vez que reconfiguram novos espaços para além daqueles formalmente inscritos no projeto urbanístico da capital, como praças, parques, clubes, ruas, dentre outros espaços. Abre-se espaço para a discussão dos usos de territórios não ocupados pelo poder público, pertencendo a estes, pelo movimento e mobilidade dos jovens da cidade, sejam de grupos artísticos ou outras manifestações culturais das mais diversas possíveis. Obviamente, os usos dos rios e seus habitantes não se limitam a isto, a atividade pesqueira, aqueles que à margem das políticas de moradia procuram as margens dos rios para abrigar-se abaixo das pontes, dentre outras atividades pontuais ligadas ao rio. Assim, ainda na esteira de Simmel (1902), também considera-se a cidade não só como território, mas em seus efeitos totais, o que inclui as consequências do modo de vida urbano, os encontros, interações e possibilidades que o espaço urbano apresenta.

Do Rio ao Mar (Fortaleza/CE)

Fui de Uber para o bairro Carlito Pamplona, eu não conhecia as rotas de ônibus para chegar no bairro, e além disso, o convite me foi feito um pouco em cima da hora, aproveitei a carona do uber compartilhado do Weslley, que também iria exibir seu filme no bairro. Chegamos bem antes do início da exibição, as cadeiras de plástico estavam sendo organizadas na calçada e tomavam um pouco da rua. O telão foi montado, era bastante grande, um daqueles telões de eventos. Cris trabalha profissionalmente com audiovisual, fotografia e eventos, portanto, têm esse tipo de equipamento de exibição que auxiliou na realização da Mostra. Aos poucos as pessoas foram chegando, algumas vieram de ônibus, outras de moto e outras de carro, mas a grande maioria do público era composta pelos vizinhos de Cris. Sua mãe, Dona Jovina, esperava da sacada de sua casa, não quis descer. E para aproveitar todas aquelas pessoas reunidas, os comerciantes da frente não pensaram duas vezes, montaram barraquinhas de venda de alimentos. Os filmes começaram e imediatamente os ruídos se transformaram, ouvia-se apenas o som que saía das caixas de som. Todos estavam em silêncio. O primeiro filme exibido foi Natália, seguido de Cidade Entre Rios e por fim, a exibição de Urubu Aterrado, o filme que os vizinhos souberam que Cris tinha realizado, e que por ventura, algum deles estariam na tela. Quando Urubu Aterrado começou, o silêncio quebrou-se em comentários simultâneos. Alguns lembraram do dia em que determinada imagem foi gravada, outros acharam divertido ver seus conhecidos em tela, outros comentavam sobre os objetos, casas e coisas que apareciam na imagem, tudo era familiar. A noção de ver filmes em silêncio, do cinema como um espaço quase sacralizado, poderia ficar para as mostras e festivais de filmes de arte. Cris, sua mãe e seus vizinhos assistiam as cenas da experiência do cotidiano na cidade.

Ver filmes juntos tornou-se uma prática cada vez mais reservada a quem pode se deslocar na cidade até um cinema de shopping ou, nas cidades que este tipo de cinema ainda resiste, nos cinemas de rua. A prática de consumo de filmes “juntos” foi substituída pelo celular sozinho, assim como muitas outras práticas que antes eram mais comum serem vistas em compartilhamento de uma experiência coletiva, foram individualizadas por um processo que Sennett (1999) aponta como característica de nosso tempo. Em outra obra, Sennett (2013) observando políticas de cooperação, chama atenção para a relevância do fazer junto. Esse convite às experiências compartilhadas também faz parte das dinâmicas da cidade, que não se cristaliza em um ente individualizante, mas passível de transformações pela agência de seus praticantes, em uma prática da cidade e seus usos. O que essas experiências de reunir-se para assistir filmes propõem é um tipo de estratégia de manutenção de sociabilidades na cidade em torno do seu próprio uso. “O tema do espaço público remete à questão de como assegurar o convívio coletivo em cidades desiguais e mobilizadas por interesses de classe nas formas urbanas de uso” (Barreira, 2019, p. 55). Nesse sentido, a realização da Mostra Do Rio ao Mar na calçada dos vizinhos de Cris e Dona Jovina nos convida a uma reflexão sobre a cidade e os seus outros modos de uso, em relação aos usos cotidianos de um espaço de trânsito como as ruas.

Teatro abandonado do Jacinta Andrade (Teresina/PI)

Considera-se o ano de 2021 como ano de estreia oficial do curta-metragem Poucos que Sobrevivem, uma vez que foi nesse ano que foi exibido pela primeira vez em uma mostra ou festival de cinema, no entanto vale lembrar que houve uma exibição anterior organizada pelos realizadores em 2020. O evento foi organizado pelos próprios realizadores, pesquisadores do NUPEC em parceria com o coletivo LabCine, que durante as filmagens disponibilizou equipamentos de iluminação e na estreia um data-show, notebook e participou auxiliando na projeção do filme. O local da estreia foi um espaço abandonado, um prédio do Centro de Cultura do Bairro Jacinta Andrade, espaço de cultura inaugurado na periferia, mas que foi deteriorado, sem manutenção e atividades. O residencial Jacinta Andrade é o maior residencial do Piauí, oriundo de investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O Centro de Cultura também é fruto dos investimentos do PAC, mas abandonado, nunca serviu sua finalidade. A escolha do local se deu pela possibilidade da ocupação e para chamar atenção para esses problemas. 

          Durante a exibição, a TV Clube afiliada a Rede Globo de televisão realizou uma cobertura para uma matéria jornalística do jornal Bom dia Piauí. Alguns artistas se somaram à ação e junto da exibição do documentário participaram com batalhas de rap e apresentações. O grupo Reação do Gueto, que aparece no documentário de mesmo nome já citado, apresenta suas músicas e em seguida o rapper Preto Fúria, do Maranhão, também se apresentou. “Palavras e imagens, em forma de poesia, literatura, de teatro de rua, da produção audiovisual têm mobilizado o cotidiano de jovens das periferias” (Diógenes, 2020, p. 375). Interessante perceber como ações conjuntas de grupos diferentes se unem com objetivos que se comunicam, aqui por exemplo o debate acerca da questão da violência desde as periferias. O filme Poucos que Sobrevivem (2021) foi exibido na I Mostra de Cinema Piranhão (Maranhão e Piauí), nas cidades de São Luís do Maranhão e Teresina no Piauí; na V Mostra Sesc de Cinema (2022) - Panorama Estadual Piauí, exibido na cidade de Teresina, Piauí; na Seleção Oficial na Mostra Especial do IV Festival de Cinema de Rua de Remígio na Paraíba (2021); foi selecionado e indicado ao prêmio de melhor roteiro no 9º Festival de Cinema Curta Pinhais (2021) no Paraná. O filme também foi exibido em um evento científico, transmitido via Youtube, na Universidade Federal do Piauí, realizado pelo curso de Ciências Sociais, intitulado Vozes Situadas e Saberes Localizados, na roda de conversa Epistemologia Marginal: Uma complexa tecnologia política. Essa capilaridade do debate proposto em um material audiovisual é onde está uma das grandes potências do cinema e audiovisual, acontecer e afetar diversas vezes, em lugares distintos, corpos diferentes.

Considerações Finais

A partir da análise das práticas cinematográficas de jovens realizadores no nordeste brasileiro, o cinema emerge como uma poderosa ferramenta de reocupação e reinvenção dos espaços urbanos. Ao investigar o processo de construção desses filmes, observou-se não apenas uma expressão artística, mas também um profundo mergulho na dinâmica das cidades em que vivem. Os filmes estudados, Cidade Entre Rios (2021), Urubu Aterrado (2023) e Poucos que Sobrevivem(2021), revelam a relação entre os realizadores e seus entornos urbanos. Esses jovens não apenas registram a cidade, mas também a reinterpretam, a ressignificando através de suas narrativas audiovisuais que podem ser pensadas como cinema-dispositivo. Nesse processo, encontramos processos criativos para além da mera plástica cinematográfica, refletindo-se nas estratégias de ocupação e uso dos espaços públicos. A ocupação de locais abandonados para exibições públicas, como teatros e margens de rios urbanos, não só democratiza o acesso ao cinema, mas também revitaliza esses espaços, transformando-os em centros de cultura e convivência comunitária. Além disso, a produção desses filmes envolve um fazer coletivo, onde os jovens realizadores compartilham experiências e cotidianos, criando uma rede de relações que se reflete nas narrativas cinematográficas horizontalizadas. Essa pesquisa pretendeu uma contribuição para o entendimento das relações entre os habitantes das cidades e o espaço público, destacando a importância da criatividade e da expressão artística nas práticas de usos da cidade, que acabam por rearranjar temporariamente trajetos, lugares e relações. A prática de jovens realizadores de cinema, neste contexto, não apenas registra as transformações na teia urbana, mas também é parte constituinte delas, promovendo uma reflexão sobre os usos, ocupações e significados dos territórios urbanos.

Notas de la ponencia:

1 Utilizou-se neste trabalho do sistema de referências bibliográficas da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT.

2 O endereço eletrônico de acesso para os materiais fílmicos encontra-se disponível na seção de referências.

3 “[...] partilhar espaços de convivência, de produção de eventos, estar em shows, exposições, saraus, exibições torna-se por vezes mais rico do que a edição prévia de um mapa em que o pesquisador pré-define os sítios da pesquisa, seus instrumentos e técnicas” (Diógenes, 2022, p. 373).

4 As personagens de Urubu Aterrado, a partir de um retorno à praia de Iracema em Fortaleza, Ceará (Brasil), relatam sobre um deslocamento forçado daquele local, a partir de transformações espaciais da cidade realizadas pela gestão urbana administrativa.

5 Realizador audiovisual, na época da realização de Cidade Entre Rios, habitava a cidade de Timon, Maranhão (Brasil), separada de Teresina, Piauí apenas pelo rio Parnaíba. As duas cidades são trafegáveis por uma ponte. Weslley é membro fundador do coletivo de cinema “independente” LabCine.

6 Realizador audiovisual de Teresina, Piauí. Membro do Coletivo de Cinema “Independente” Labcine. Leonardo é filho de pescador e faz uso dos rios teresinenses, o que o motivou a realizar o filme.

7 Posteriormente às gravações, Weslley convidou-me para trabalhar como colorista do filme, na finalização (pós-produção). Essa informação se tornou relevante na medida em que analisar plano por plano do filme no trabalho de coloração permitiu realizar literalmente os procedimentos de análise plano a plano para posteriormente ter uma noção do todo do projeto. Como um tipo de procedimento de decupagem, método que pode ser encontrado em Sorlin (1985).

8 C.f.: Brasil empobrece 10 anos e tem mais da metade dos domicílio nas classes D e E, disponível em:https://g1.globo.com/economia/noticia/2022/01/23/brasil-empobrece-em-10-anos-e-tem-mais-da-metade-dos-domicilios-nas-classes-d-e-e.ghtml

Ver também: O agravamento da desigualdade no Brasil, disponível em: https://www.ufsm.br/midias/experimental/integra/2022/02/04/o-agravamento-das-desigualdades-no-brasil/

9 Cris já trabalha profissionalmente com audiovisual. O contato com jovens estudantes na Escola de Audiovisual da Vila das Artes, aparelho cultural da cidade de Fortaleza, Ceará, proporcionou encontros que possibilitaram a realização de Urubu Aterrado em um dos ateliês de criação do curso.

10 Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens da Universidade Federal do Piauí.

11 Gentílico de quem nasceu em Teresina, Piauí, Brasil.

12 Em Poucos que Sobrevivem, participei como diretor do filme. Assim como outros pesquisadores assumiram funções em um tipo de divisão do trabalho que se organizou mais como mediações horizontais do que funções hierarquicamente estabelecidas. Também fiz a montagem do filme, outro procedimento de escolhas que permitiu conhecer mais profundamente plano a plano o material analisado.

13 Oliveira Júnior, F. A. de; Costa, M. B. da; Silva, E. G. dos S. (2023). Poucos que sobrevivem: relatos de violências, galeras e cinema no Piauí. PluralRevista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v.30.2, jul./dez., 2023, p.168-189 https://doi.org/10.11606/issn.2176-8099.pcso.2023.212614

14 Estimativa do IBGE. Em dados de 2022, habitavam a cidade cerca de 866 mil pessoas. Teresina, assim como outras capitais, também tem uma característica de certa população flutuante, pois recebe pessoas de outras cidades e estados para uso dos serviços de saúde ou educação.

15 Agora Labcine Filmes, uma pequena produtora de filmes.

Bibliografía de la ponencia

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