A PANDEMIA E AS EMOÇÕES: OS SIGNIFICADOS DA EXPERIÊNCIA DE SER JOVEM NO CENÁRIO BRASILEIRO DE CRISES

SP.3: Después de la COVID-19: urgencias, desigualdades y desafíos en América Latina y el Caribe

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Lúcia Verônica Muniz de Paulo UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

Introdução[1]

A conjuntura em que o Brasil experimentou a pandemia foi caracterizada pela confluência de duas crises: a crise sanitária, causada pela COVID-19, enfrentada por todo o globo; e a crise política e social, fruto das instabilidades nas instituições brasileiras e da ascensão de um governo de extrema-direita e neoliberal (KOURY, 2020). Neste cenário, em que tantas necessidades de readaptação foram enfrentadas, um processo de transformação na significação das emoções entre os grupos de jovens parecia revelar-se. A ideia de que este grupo passou a ser o mais vulnerabilizado emocional e psiquicamente não surgiu isoladamente, e embora tenha tido maior destaque diante do cenário pandêmico, não surgiu exclusivamente em razão das mudanças trazidas por ele (WHO, 2022).

Antes da crise sanitária espalhar-se pelo mundo, o sentimento no Brasil já era de desamparo e de desesperança. As crises sociais e políticas, decorrentes principalmente da instabilidade no Poder Executivo do país, traziam a sensação de que os brasileiros, sobretudo os que mais precisavam da atuação do Estado, tornavam-se cada vez mais “os condenados da terra” (FANON, 2022 [1961]). A partir de análises sobre a situação social e política que formou o cenário brasileiro da pandemia da COVID-19, busquei entender como a pandemia afetou os jovens emocionalmente, sem perder de vista que a crise sanitária atravessou o país em um contexto de crescimento das situações de vulnerabilização.

Parafraseando Margareth Mead (2015), que se perguntou “o que explica a presença do transtorno e da tensão entre as adolescentes americanas?” (p. 31), pergunto-me: o que explica o aumento dos transtornos mentais entre os jovens brasileiros? Com a presente investigação, pude observar a naturalização do jovem enquanto mais “emocionalmente instável” ganhar espaço com a adoção da linguagem médico-psiquiátrica. Diante de pesquisas que apontaram maior vulnerabilidade da juventude durante a pandemia e as consequências do período à saúde mental deste grupo, a interpretação de que os jovens vivem “naturalmente em crises” tem sido reafirmada socialmente.

A vulnerabilidade emocional e psíquica dos jovens, enquanto um fenômeno social, é criada e recriada pelo contexto em que ocorre. Diante do que me fora exposto, acredito que as sucessivas condições de precarização social, econômica e política das vidas dos jovens na sociedade contemporânea (MARCON, 2018) surge também da naturalização das supostas rebeldia e instabilidade que lhes são atribuídas como inerentes. Como a vulnerabilidade é um conceito relacional (RE, 2019), os jovens são vulnerabilizados a partir das relações sociais que lhes são impostas. Por estarem em um estágio que é considerado como “naturalmente” conturbado, estes são estigmatizados e deslegitimados socialmente, o que também os coloca em uma condição social vulnerável. Neste sentido, não há como analisar as experiências emocionais e psíquicas dos jovens no contexto brasileiro da pandemia sem observar a crise sanitária no país como um cenário de ascensão das políticas neoliberais e extremistas, que teve como consequência o aprofundamento das suas vulnerabilidades e o reforço do discurso individualizador das experiências.

Parti do entendimento de que, a evidência da vulnerabilização emocional e psíquica entre jovens brasileiros correlaciona dois aspectos: o que se entende por juventude enquanto uma fase da vida “naturalmente instável”; e esta experiência vivenciada durante a pandemia enquanto uma dupla crise. Ao fazer esta correlação pude chegar as análises dos fatores sociais que transformaram e influenciaram os significados emocionais adotados pela chamada “Geração Viral”, como definiu Feixa, (2021b) – a geração dos jovens que experimentaram os momentos iniciais desta fase da vida durante a pandemia. Observei que as experiências emocionais desta geração de jovens, dentro do cenário brasileiro, não têm suas origens tão somente nas individualidades, e sim na vida social; nas condições políticas e econômicas que intensificaram tanto as “vulnerabilidades pré-pandêmicas” quanto a apreensão do discurso neoliberal individualizador na construção dos significados emocionais.

Embora as experiências de dor psíquica tenham ganhado maior atenção com esses acontecimentos, entendi que essa confluência de crises deu início ao apogeu de um problema iniciado antes do advento da crise sanitária. Esse parece representar um momento em que o paradigma neoliberal individualizador das experiências sai da obscuridade e emerge até a superfície por meio das narrativas de sofrimento. O sofrer é narrado como se tivesse uma origem individual, o que tem induzido jovens brasileiros a observarem suas vivências de dor emocional a partir da autorresponsabilidade e do adoecimento (HAN, 2017).

Notei, a partir dos dados obtidos em campo, que as linguagens e as formas que os jovens expressaram suas emoções traziam relações com o paradigma neoliberal de individualização dos sofrimentos, sobretudo quando os significados atribuídos às emoções surgiam vinculados à culpa e à improdutividade. Acredito que o paradigma interpretativo utilizado por meus interlocutores para analisar os seus sofrimentos é um dos resultados da ascensão do neoliberalismo no Brasil, que tornou a pandemia da COVID-19 um momento de responsabilização individual das dificuldades enfrentadas, mesmo quando estas estavam ligadas ao aprofundamento do empobrecimento e da vulnerabilidade social no país.

Assim como o significado das emoções é variável, de acordo com a percepção de cada grupo social e das circunstâncias em que são manifestadas (REZENDE; COELHO, 2010), a percepção e interpretação do sofrimento também o é (LEBRETON, 2013). Como pude observar, em muitos casos, o sofrimento tem sido interpretado a partir do discurso médico-psiquiátrico do adoecimento da mente. Assim sendo, diante do risco de recair em naturalizações, que podem levar à reafirmação dos estigmas que colocam os jovens como mais instáveis emocionalmente, optei por tratar aqui não de um adoecimento dos jovens – ao menos não precipuamente –, mas sim de como essas narrativas sobre adoecimento surgiram entre os interlocutores e as suas relações com os fatores sociais.

Procurei discutir aqui sobre como os jovens da Geração Viral (FEIXA, 2021a; 2021b) têm narrado e significado seus sentimentos e suas emoções. Feixa (2021a; 2021b) traz a ideia de Geração Viral por perceber que a circulação acelerada do vírus afetou a expansão da pandemia, e, consequentemente, aprofundou a imersão dos jovens no mundo digital. Estes passaram a compartilhar determinados significados vinculados a ideia de adoecimento psíquico, o que têm os feito apreender e significar suas emoções a partir da ideia de saúde em sua dimensão psíquica. Diante desse compartilhamento de significados entre os integrantes dessa geração, aqui trago parte das análises que pude fazer das experiências emocionais dos meus interlocutores para questionar se seus sentimentos fazem parte de um processo de adoecimento – como alguns apontam – ou se essa tem sido a linguagem utilizada para significar os sofrimentos experimentados (LEBRETON, 2013, p. 44). Ressalto que não retiro aqui a importância de observar a saúde mental como um aspecto relevante para o que se entende por saúde integral, mas, ao que pude observar, ligar as emoções às enfermidades da mente, sem observar quais os fatores sociais que as produzem e as significam, pode induzir a uma naturalização da vulnerabilização do jovem. Procurei observar a origem dessa ideia de maior adoecimento das juventudes (WHO, 2022) a partir da conjuntura que lhes dá forma, das relações e imposições decorrentes do poder ao qual estes – os jovens – estão submetidos.


1. Sobre a pesquisa

Para as discussões desse tema utilizei, principalmente, o que fora obtido a partir da aplicação de um Questionário de Pesquisa. Este questionário fora utilizado como um meio de chegar ao universo de informações presentes no campo que eu queria me aproximar. Além das respostas obtidas com o questionário, para as reflexões aqui presentes, considero também os diálogos com os meus interlocutores no momento da aplicação dos questionários, as reações deles ao responderem as perguntas e as interações que aconteceram quando estes estavam acompanhados de outros jovens. Assim, adoto uma perspectiva etnográfica (GEERTZ, 2008) na qual me utilizo do questionário como instrumento para aproximar-me dos jovens graduandos da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e do campo em observação.

Apesar de atualmente ser possível a utilização de questionários que podem ser respondidos de forma virtual, optei por aplicá-los de maneira presencial em razão da perspectiva etnográfica que pretendia adotar para a pesquisa. Assim, embora a forma virtual propicie a tabulação dos dados de forma mais rápida, ao fazer a aplicação dos questionários de forma presencial consegui observar o campo com maior riqueza de detalhes, e, ao dar “um rosto” para a pesquisadora, os alunos sentiram-se mais confortáveis em eventualmente participar de entrevistas. A minha ideia, como fora dito, era a de observar o ambiente, a dinâmica, os alunos.

No Questionário de Pesquisa, busquei formular questões direcionadas às experiências do jovem durante e após a pandemia. Subdividi as perguntas a partir de três perspectivas: o perfil social e econômico do jovem (questões 1 a 9); como foi a experiência do ensino remoto (questões 10, 10a, 10b, 10c, 11 e 11a); como foi a experiência emocional da pandemia (questões 12 a 17a). Formulei as perguntas dessa maneira inspirada em pesquisas desenvolvidas durante a pandemia que buscavam analisar o ensino remoto (BELTRÁN; VILLARREAL, PAZ MEYER, 2022) (DOMINGUEZ; TORRES; ROSARIO, 2022) (FALAVIGNA; LUNA; CASTAGNO, 2022) (OLIVEIRA; SANTOS, 2021) e em bibliografias que discutiam sobre os métodos quantitativos nas Ciências Sociais (LIMA, 2016) (RAMOS, 2013).

Além das perguntas objetivas, deixei um espaço ao fim do questionário que dizia “Caso deseje, use o espaço abaixo para expressar algo sobre sua experiência emocional durante a pandemia, sua experiência emocional depois dela, sobre a presente pesquisa e/ou algo a mais que gostaria de compartilhar!”. Este espaço fora bastante utilizado pelos jovens, e os conteúdos das respostas – que aparecerão ao longo deste artigo – auxiliaram nas análises dos dados obtidos, tanto os que surgiram a partir do questionário quanto aqueles que surgiram a partir das minhas observações em campo. Destaco que, ao citar as narrativas escritas nesse espaço, faço a menção do perfil social dos jovens (identidade de gênero, identidade étnico-racial, idade e curso em que está matriculado) como forma de possibilitar uma observação interseccional (GONZALEZ, 1988) (RIBEIRO, 2018) (AKOTIRENE, 2020) dos atravessamentos sociais que criaram a experiência emocional apresentada.

Apliquei o questionário com 450 alunos da graduação da Universidade Federal de Sergipe, e considerei como válidos 434 destes. Para considerar a validade dos questionários utilizei como base o ano de nascimento da pessoa que o respondeu. Foram considerados os nascidos entre os anos de 1993 e 2005, que no momento da coleta dos dados teriam idades entre 18 anos incompletos ou completos e 30 anos incompletos ou completos. Esta faixa etária é utilizada no Brasil para a categorização de quem é jovem e quem não o é[2] (entre 18 e 29 anos de idade), o que me fez pensar que seria mais abrangente diante da diversidade de alunos que fazem parte da UFS. Além disto, utilizei o ano de nascimento em razão da forma com que os dados desta instituição são disponibilizados para consultas e análises[3]. Assim, de acordo com os dados fornecidos pela própria UFS, o número de 434 jovens alunos que responderam ao questionário representaria 2,8% da quantidade total de alunos do campus São Cristóvão da UFS[4] que participaram das aulas durante o ensino remoto, e 2,77% da quantidade total de alunos matriculados neste campus durante a coleta dos dados aqui presentes – durante o período 2022.2 da graduação – e que nasceram entre os anos mencionados acima[5].

Dentro do universo de 434 alunos que responderam ao questionário e têm idade entre 18 anos incompletos e 30 anos completos, estão presentes estudantes de 63 áreas do conhecimento. Quanto as suas identidades étnico-raciais, declararam-se da seguinte forma: 170 Brancos; 177 Pardos; 85 Pretos; 1 Indígena; 1 Amarelo. Já quanto ao gênero, 194 identificaram-se enquanto Homens, 234 enquanto Mulheres e 6 enquanto Não-binários[6]. Apresento aqui estes números como forma de demonstrar a diversidade de alunos que pude alcançar durante a investigação com o uso do questionário. Apesar de estabelecer qual a representação amostral dos dados coletados, o meu interesse na pesquisa não foi descrever os jovens numericamente. Reitero que esta foi uma pesquisa que teve uma perspectiva etnográfica de investigação, por isto, observei qualitativamente as variáveis obtidas com o questionário e as repetições de padrões de respostas.

As bases desta pesquisa foram apreendidas em campo a partir da observação das narrativas dos jovens sobre suas experiências emocionais vivenciadas tanto no durante quanto no pós-pandemia[7]. Com a observação e a escuta, pude analisar as maneiras com que as juventudes estabeleceram suas interações sociais durante as crises enfrentadas no Brasil, suas inserções neste cenário e os significados produzidos diante destas circunstâncias (ABU-LUGHOD; LUTZ, 1990, p. 10-11).  Busquei, através da Antropologia das Emoções, entender a construção dos significados emocionais destas experiências vivenciadas pelos jovens  (ABU-LUGHOD; LUTZ, 1990) (LUTZ; WHITE, 2021) (REZENDE; COELHO, 2010); por meio da Antropologia da Saúde, apreender como estes significados emocionais contribuem para a percepção individual e coletiva do que é saúde e doença – em especial a doença mental (LE BRETON, 2013) (MALUF, 2020, 2021, 2022) (ALVES, 1994) (DUARTE, 1994); e a partir dos Estudos sobre Juventudes, a particularidade das concepções de tal experiência geracional do “ser jovem” (MARCON, 2018) (MARCON; NETO, 2021) (FEIXA; LECCARDI, 2010; FEIXA, 2021a; FEIXA, 2021b). Destaco ainda que desenvolvi esta pesquisa dentro dos padrões éticos estabelecidos no Código de Ética do Antropólogo e da Antropóloga (ABA, 2012), observando os princípios de participação voluntária e o respeito ao anonimato dos participantes, sobretudo por se tratar de um estudo que se relaciona com a ideia de saúde.

 

2. Adoecimento entre os jovens - significados em comum

Uma experiência geracional, quando atravessada por questões de classe, gênero, étnico-raciais, entre outras, apresenta aspectos que são determinantes para os significados atribuídos às emoções que a envolvem. Apesar da partilha de significados em comum entre os integrantes da Geração Viral (FEIXA, 2021a; 2021b), as experiências de sofrimento não se acomodaram em uma compreensão única de mundo, já que existiram distinções vinculadas às diferentes formas de desigualdade vivenciadas pelos jovens (MARCON; NETO, 2021, p. 254). O fato de um jovem ter escrito no questionário que a pandemia representou “momentos de conflitos emocionais, aumento da ansiedade e medo do que aconteceria. Tratamento psicológico para esse tratamento de ansiedade (Mulher, Parda, 21 anos, estudante de Letras Espanhol)” não elucida os porquês do surgimento desta “ansiedade” e os significados por trás destes momentos de conflito.

O Brasil, enquanto sociedade ocidentalizada, apresenta diversos aspectos que são parte das experiências dos jovens. Margareth Mead (2015), já no começo do século XX, falava sobre a diversidade de padrões na sociedade ocidentalizada, que era tão evidente que mesmo os mais “obtusos”, com pouca curiosidade, não deixariam de percebê-la. Essa diversidade, de acordo com ela, estaria incorporada às semissoluções existentes entre diferentes filosofias de modo que confunde qualquer pessoa (p. 33). Ao considerar que a dor nunca é puramente fisiológica, uma vez que pertence à esfera simbólica (LE BRETON, 2013, p. 16), achei curioso que, mesmo com tamanha diversidade e possíveis explicações para as experiências[8] de sofrimento, a ideia de “ansiedade” pareceu ter surgido como um símbolo comum entre jovens que vivenciaram a pandemia da COVID-19.

No questionário da pesquisa, a Pergunta 16, que dizia: “Se pudesse descrever o período mais intenso da pandemia (os anos de 2020 e 2021) através de um sentimento, qual seria ele?”, por ser uma pergunta aberta, trouxe respostas muito diversificadas. Entre o grande universo de sentimentos mencionados, as respostas que mais se repetiram e suas respectivas quantidades de repetição foram: Ansiedade (69); Medo (66); Angustia (48); Tristeza (21); Desespero (20).  Além de Ansiedade ter sido o sentimento mais mencionado, observei que, percentualmente, em comparação aos outros, ele foi o que esteve mais associado ao que ainda é vivenciado no agora. Na pergunta 17, que questionava se o sentimento escrito na 16 continuava a ser sentido, 88% dos que responderam Ansiedade marcaram “Sim”. Enquanto isso, entre os que responderam Medo ou Angustia, 39% e 50% responderam “Sim”, respectivamente.

Chamou a minha atenção também o fato de que em muitos casos, mesmo quando “Ansiedade” não fora utilizada para responder à Pergunta 16, a palavra aparecia no espaço ao fim do questionário, onde os jovens podiam compartilhar mais sobre suas vivências. Como exemplo, a jovem que tinham escrito como resposta à pergunta 16 a palavra “angustia”, escreveu: No começo pareceu que seria passageiro, mas no decorrer do tempo foi ficando angustiante e a ansiedade tomou conta. Mas depois do período crítico foi amenizando, apesar de ainda ter a ‘ferida aberta’” (Mulher, Parda, 26 anos, estudante de Fonoaudiologia, 2023) (grifo nosso). Nesse mesmo sentido, uma outra jovem escreveu como resposta à questão 16 a palavra “desespero”, e disse a seguir: “No período da pandemia me sentia sufocada e no limite, me cobrava muito e tinha muitas crises de ansiedade. Depois da pandemia esses sentimentos foram amenizando (Mulher, Preta, 29 anos, estudante de Física Médica, 2023) (grifo nosso).

Ao aplicar os questionários, presenciei uma conversa entre dois jovens que respondiam as perguntas sobre este assunto. Um deles, ao se deparar com a Pergunta 16, iniciou o seguinte diálogo:

– O que você colocou nessa pergunta?

– Coloquei ansiedade.

– Mas ansiedade não é um sentimento! – afirmou o primeiro.

– É um sentimento sim... ansiedade. – e a conversa foi finalizada.

Ao ouvir essa conversa, perguntei a mim mesma se ansiedade é um sentimento. Se sim, ela passou a ser um sentimento agora, depois do isolamento trazido pela pandemia, ou ela sempre foi um sentimento? Os números mencionados e a situação descrita me fizeram pensar sobre como realmente é importante observar os discursos relacionados à enfermidade e entender o que dá sentido a eles. Esse discurso só recebe seu sentido conforme é afirmado e reafirmado como real para os indivíduos (ALVES, 1994, p. 98). Os jovens têm ouvido e discutido mais sobre saúde mental. O que esses e outros dados indicam, é que a “Ansiedade” – assim como outros termos vindos do vocabulário médico-psiquiátrico – tem sido utilizada para caracterizar as emoções e sentimentos que a Geração Viral tem experimentado, tanto durante quanto depois da pandemia.

Nesse sentido, vi que mesmo quando as experiências não apresentam outros aspectos sociais em comum além da juventude, a “ansiedade” fora apresentada como a “semissolução” encontrada para significar as experiências de sofrimento e dor psíquica vivenciada. O surgimento dessa indistinção termina por ser útil à deslegitimação indistinta das narrativas juvenis sobre suas dores, como se este fosse um aspecto comum à “experiência conflituosa” da juventude. A adoção desse símbolo comum, mediado pelo discurso médico-psiquiátrico da individualização, me fez refletir como essa semissolução invisibiliza as diversas formas de desigualdade social que incorporam a experiência de juventude em um país de iniquidades como o Brasil. Como, em pleno século XXI, onde tantas “semissoluções” parecem circular com maior facilidade e confundir-nos cada vez mais, um discurso tão “uniforme” pode aparecer em experiências tão distintas? Diante do compartilhamento de significados entre os integrantes da Geração Viral e desta aparente indistinção de experiências, busquei analisar as narrativas sobre as emoções de modo a questionar as razões que fundamentaram essa adoção de uma linguagem comum para significar os sofrimentos experimentados (LE BRETON, 2013, p. 44).

As interpretações culturais do corpo e da mente é que fundamentam quais as soluções consideradas como válidas para aliviar as dores e os sofrimentos. As imagens que esse corpo e essa mente têm em uma sociedade são incorporadas, portanto, nas formas de curar (LE BRETON, 2013, p. 60). No Brasil, ao considerar que estamos vivenciando uma maior adoção das narrativas individualizantes do neoliberalismo, percebo que a forma como a mente tem sido observada faz com que o jovem incorpore essa ideia individual de suas dores. Ou seja, os jovens acreditam passar pelo processo de adoecimento, não pela precarização e falta de perspectiva de futuro, por exemplo, e sim porque essa ideia está de acordo com as interpretações culturais de seus corpos e de suas mentes. Ao recorrer às representações individuais de sofrimento, o jovem relaciona os acontecimentos que o afetam “aos significados que sabe terem a aprovação de seu grupo, e até, eventualmente, de seu grupo de referência” (LE BRETON, 2013, p. 61). Esse jovem que vivenciou a pandemia em meio a difusão das múltiplas possibilidades de adoecimento da mente, incorpora os significados adotados por seu “grupo de referência”, isto é, por outros jovens da Geração Viral, os quais também interpretam suas vivências com base em uma linguagem médico-psiquiátrica. A adoção dessa linguagem e do discurso individualização das dores, em consonância com a sociedade neoliberal ocidentalizada, oferece ao jovem um sistema de sentidos que o permite ordenar a sua dor e a sua “ansiedade” em um sistema simbólico que lhe é apreensível, onde ele mesmo e o seu corpo/mente são os responsáveis por sofrer[9] (LE BRETON, 2013, p. 63).

O momento da pandemia era sentido como uma paralisação do exercício da vida. Criou o sentimento de infelicidade continuada, na qual o não ser atingido de algum modo pelo sofrimento emocional parecia ser um privilégio (LE BRETON, 2013, p. 28). Para salvar-se dessa dor persistente era preciso encontrar uma “identificação concreta” do que era sentido. Adotar o discurso de adoecimento pode ter sido o recurso acessível aos jovens que experimentaram a pandemia para tornar as suas situações “concretas”, o que, sem ele, não seria possível. Dar um nome a dor é também uma forma de aliviar o sofrimento, uma busca por continuar a vida. No nome da doença há o sentido do sofrimento. A partir dele, é possível seguir a vida, buscar tratamentos, partilhar as dores. Esta partilha, ao ser possível, encontra outros que vivenciam este mesmo sofrimento – ou algo semelhante a ele. A vinculação da “ansiedade”, e outros termos da psiquiatria e da psicologia, às experiências da pandemia e após ela, pode ser o que retira a dor dos jovens brasileiros do silêncio e da obscuridade. Tratada, muitas vezes, “como quem não quer nada”, sob um autocontrole jocoso que dissimula a gravidade da questão[10], traz o alívio de entender o sentido das próprias vivências, mesmo que este sentido seja encontrado a partir da ideia de adoecimento (LE BRETON, 2013, p. 151).


3. Narrativas de sofrimento e a ideia de culpa

Uma das falas que mais chamaram a minha atenção durante esta pesquisa foi a de um jovem que escreveu: “Durante a pandemia me culpava por não estudar mais. Após a pandemia passei a me culpar por atrasar o curso” (Homem, Preto, 23 anos, estudante de Ciências Sociais, 2023). Este mesmo jovem, em suas respostas ao questionário, demonstrou que trabalhou presencialmente durante a pandemia, o que o torna parte dos 89 interlocutores que afirmaram em suas respostas ao questionário que trabalharam presencialmente – mesmo em meio ao distanciamento social – durante a pandemia. O que essa fala traz é que independentemente das circunstâncias externas e dos contextos que criaram essa impossibilidade de estudar ou de atrasar o curso, esse jovem sente-se culpado; sente-se como responsável por algo que não deu causa. Esse relato não foi o único que carregava o sentimento de culpa. Essa culpa, apesar de ser sentida e observada como parte da individualidade dos interlocutores, faz parte da ideia de que o indivíduo é autorresponsável na obtenção daquilo que almeja.

A mente, hoje, é o território ao qual se busca conquistar. A mente humana, a psique, é a mercadoria. Por meio do uso e abuso das mentes é que o mercado tem sido expandido. Se hoje as redes sociais são uma grande fonte para o mercado, isso se dá porque, por meio delas, a mente torna-se moeda de troca.  A introjeção da culpa é que faz e mediação da mente das pessoas com o mercado, e faz com que estas percebam-se como responsáveis por fracassos e sucessos. O mercado tem influenciado o novo modo de olhar para as emoções e para a mente, sobretudo depois da crise sanitária, em que as pessoas passaram assumir uma maior necessidade de autocuidado. Esse maior autocuidado carrega a ideia de que o cuidar de si é suficiente para lidar com as situações de sofrimento; como se a fonte das emoções fosse de caráter exclusivamente individual, e não de experiências coletivas (HAN, 2017, p. 71).

Essa perspectiva individualizante torna possível a responsabilização individual das crises existenciais experimentadas, principalmente em contextos de crises. As formas com que os jovens produzem significados para os seus sentimentos não tiveram relação somente com a crise sanitária e as novas demandas causadas por ela – como, por exemplo, a necessidade do ensino remoto e as mudanças nas dinâmicas interrelacionais. As imposições trazidas pela crise têm, na verdade, o papel de evidenciar as interpretações feitas pelos jovens da Geração Viral sobre suas experiências, que cada vez mais utilizam esse discurso individualizador como o paradigma interpretativo para seus sofrimentos (HAN, 2017). Uma outra narrativa obtida em campo também traz como o indivíduo incorpora em sua mente a ideia de responsabilidade por aquilo que experimenta. “No período da pandemia me sentia sufocada e no limite, me cobrava muito e tinha muitas crises de ansiedade. Depois da pandemia esses sentimentos foram amenizando (Mulher, Preta, 29 anos, estudante de Física Médica, 2023) (grifo nosso). Esse “me cobrava muito” demonstra como, a partir do paradigma neoliberal da produtividade, as pessoas colocam-se na posição de autoexploração. A culpa aqui, assim como diversos sentimentos que os jovens vivenciam/vivenciaram, resulta dos moldes impostos pela psicopolítica, como discutido por Han (2020). Narrativas que apontam: “Constante sensação de estar para trás, perda de oportunidades acadêmicas e pessoais limitações” (Mulher, Parda, 24 anos, estudante de Eng. Agronômica, 2023) (grifo nosso) exigem contextualizações para que sejam observadas para além das individualidades. A jovem que escreveu esta, assim como o rapaz mencionado anteriormente, faz parte dos 89 jovens que afirmaram ter trabalhado presencialmente durante a pandemia. Entendo essas falas, assim como outras falas que pude obter com esta pesquisa, como um dos resultados de um cenário de ascensão do paradigma neoliberal de interpretação dos sofrimentos.

Notei que as emoções experimentadas entre os meus interlocutores se apresentaram relacionadas a ideia de declínio no aprendizado, bem como à frustração das expectativas quanto à produtividade. Muitos jovens carregam o sentimento de culpa e angústia, como se suas “incapacidades produtivas” fossem resultadas de escolhas individuais. Entendo que essa sensação de “ter ficado para trás” não surge tão somente em razão do período pandêmico. A introjeção de uma autorresponsabilidade surge do processo de transformação do social para o psíquico. Os sujeitos transformam-se em operadores de performance. A noção de conflito com o externo desaparece, e é mobilizada uma internalização disciplinar de pressupostos morais de produtividade. A culpa surge por uma suposta improdutividade, que, neste processo, é significada subjetivamente como “amoral”. Mesmo diante de uma impossibilidade de exercício de uma atividade tida como produtiva, o indivíduo coloca-se como responsável e sente-se culpado (SAFATLE, 2020, p. 25).

Quando a culpa surge, atrelada a ela, surge também a sensação de que se poderia ter feito algo mais; poderia ter aguentado um pouco mais o sofrimento. “Em vez de superar resistências corporais, processos psíquicos e mentais são otimizados para o aumento da produtividade” (HAN, 2020, p. 39-40). Dentro desta lógica, da qual se faz indispensável uma “otimização mental”, o jovem termina por passar por um processo de “finalização total da mente” [11] para o alcance da produtividade desejada. Quando o jovem não se submete a esse processo de finalização – ou acredita que o seu esgotamento poderia ser maior – introjeta nas análises de si mesmo a culpa como mediadora do conflito interno. A culpa significa para esses jovens o preço de existir dentro da sujeição e da subordinação neoliberal. Condenados a busca por reconhecimento, encontram na ideia de produtividade a possibilidade de existência. A sujeição explora esse desejo de existência, e materializa o sentimento de culpa quando a produtividade ideal não é alcançada (BUTLER, 2022 [1997], p. 29-30). O jovem, na sociedade de produtividade “surge contra si mesmo para, paradoxalmente, ser para si” (BUTLER, 2022, p. 37).

As falas aqui apresentadas estiveram atravessadas pelas desigualdades étnico-raciais, de gênero e de classe. Ao analisá-las em conjunto com os outros dados obtidos, vi como o pensamento de Frantz Fanon (2022 [1961]) permanece extremamente importante para as reflexões aqui presentes. Tendo observado os jovens participantes da pesquisa, entendi que, embora estes tenham diferentes vivências, estão em um lugar comum de subjugação às opressões estruturalmente estabelecidas no Brasil e nos países colonizados – embora em níveis distintos. A ideia de culpa é a materialização – ou a psicologização – dos açoites que dispensam o uso de mãos externas para punir e fazer sofrer.

A valorização da produtividade e das resistências às dores psíquicas favorecem à criação de meios simbólicos que fazem com que os jovens busquem suportar condições que os levam aos extremos emocionais (LE BRETON, 2013, p. 136-137). A dor, interpretada como uma experiência com a qual é necessário conviver, é utilizada como forma de mensurar a produtividade que se pode ou não alcançar. O sofrimento, aqui, é apenas notado e retirado dessa ideia de normalidade quando a intensidade da dor psíquica é tamanha que torna insuportável o exercício da vida cotidiana. É como se a dor psíquica fosse digna de atenção somente quando impede a produtividade das tarefas habituais da rotina (LE BRETON, 2013, p. 133). Diante das condições de existência as quais os jovens estiveram submetidos, pude observar que fora estabelecida uma relação habitual com a dor e o sofrimento psíquico. A adoção da normalidade da dor mostra-se como um dos recursos utilizados por esse grupo em consequência à lógica neoliberal. Esta habitualidade justifica moralmente o porquê de serem experiências que devem ser suportadas. É atribuído moralmente valor ou desvalor às pessoas de acordo com a resistência que essas têm às dores psíquicas, e por isso surge a culpa e a autorresponsabilização. Nesse sentido, “a resistência à dor é um critério de autoafirmação, um motivo de estima geral” (LE BRETON, 2013, p. 131).

Como diz Safatle (2020) “(...) o neoliberalismo nos levou a sofrer de outra forma, procurando retirar de nosso sofrimento psíquico a consciência potencial da violência social” (p. 44). Para o caso específico desta pesquisa, é como se as partilhas das narrativas de sofrimento entre os jovens da Geração Viral evidenciem a percepção de esgotamento da mente como necessário na busca por sobrevivência, em que a culpa surge como um dos elementos que localizam no indivíduo a produção e a reprodução da responsabilidade pelo sofrer.


Considerações Finais

A forma com que as representações dos jovens foram e são feitas durante e após o cenário pandêmico reforçam e recriam as estigmatizações atribuídas à juventude. Vistos enquanto “emocionalmente instáveis”, os jovens passaram a ter seus sofrimentos interpretados e narrados como se fossem produtos naturais de seus corpos e mentes, sem que os atravessamentos proporcionados pelas vulnerabilidades sociais fossem considerados. Nem toda adolescência e juventude é marcada por “perturbações” e doenças da mente, como bem trouxe Margareth Mead (2015 [1928]), quase um século atrás, com o exemplo das adolescentes de Samoa. Ao longo desta pesquisa, tive a impressão de uma naturalização dos problemas de saúde mental entre os e as jovens a partir de uma abordagem da questão como algo inevitável.

Por meio da perspectiva etnográfica, pude observar o fenômeno social do adoecimento mental dos jovens para além da perspectiva restritivamente biomédica (MALUF, 2020, p. 131). Essa perspectiva me fez ver que o possível adoecimento em massa entre os jovens certamente não é inevitável. Também não é inevitável a forma com que a juventude é localizada dentro da sociedade política e socialmente individualista e neoliberal. Por ser fruto de longa história de invisibilização e precariedade (MARCON, 2018), o olhar que percebe os aspectos culturais, sociais e políticos que envolvem a experiência estruturalmente estabelecida para os jovens brasileiros é fundamental para elaboração de respostas eficazes para atual situação psicossocial de uma parcela considerável dessas pessoas.

Vi que, em muitos casos, o processo de adoecimento narrado era um reflexo da “viralização” da linguagem médico-psiquiátrica entre os jovens da chamada Geração Viral. Como resultado de processos interativos e comunicativos – como os memes, por exemplo – em que os jovens construíram uma rede de significados para as suas experiências, o discurso da doença mental entre os jovens ganhou forma e legitimidade no mundo do senso comum (ALVES, 1994, p. 98).

As imposições trazidas pelas crises no Brasil não foram as únicas responsáveis por esse quadro de “desordem generalizada” vivenciada pelos jovens. Essas imposições, na verdade, tiveram o papel de evidenciar as interpretações feitas pela Geração Viral quanto às suas experiências, que cada vez mais utilizam esse discurso de adoecimento individualizado como o paradigma interpretativo dos seus sofrimentos (HAN, 2017). Assim, ao relacionar o contexto de desordem no Brasil – que entendo como produto da organização social brasileira – com o narrado pelos jovens, busquei demonstrar que as vivências deste grupo não são problemas intrínsecos à juventude, mas sim resultado da constante vulnerabilização e empobrecimento imposto a maior parte da população no país.

Acredito que a ideia de adoecimento da mente pode ser o significado que a Geração Viral – que representa uma descontinuidade entre modos de ser e de compreender o mundo, como afirmariam Marcon e Neto (2021, p. 248) – tem partilhado para dar sentido aos sofrimentos experimentados, já que “uma dor identificada com uma causa, com um significado, é mais suportável do que uma dor que permaneceu no nonsense, não diagnosticada, não compreendida pelo ator” (LE BRETON, 2013, p. 71). Nesse sentido, mesmo quando as experiências narradas não apresentam outros aspectos sociais em comum além da juventude, vi que a “ansiedade” fora utilizada como uma “semissolução”, ou até um símbolo, para significar as experiências de sofrimento e dor psíquica vivenciada por meus interlocutores. O reconhecimento de que essas vivências, significadas a partir da ideia de adoecimento, não são originadas pela juventude em si, torna possível a apreensão dos fatores sociais que geram o sofrer e fogem ao controle individual.

 


Notas de la ponencia:

[1] No presente artigo utilizo o sistema de referências estabelecido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas.

[2] Lei Nº 12.852, de 5 de Agosto de 2013. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12852.htm>. Acesso em: 06 nov. 2022.

[3] A instituição classifica seus alunos, em termos etários, a partir do ano em que estes nasceram, e não da idade que têm.

[4] Este é o maior campus da UFS, que é a única universidade pública do Estado de Sergipe.

[5] Estas porcentagens foram calculadas com base nos dados mensurados e fornecidos pela própria UFS.

[6] No questionário era possível marcar: “Homem”; “Mulher”; “Não-Binário”. Busquei mitigar eventuais constrangimentos às pessoas que se propusessem a responder ao questionário e não se percebem a partir das categorias de sexo masculino ou feminino (que é como a UFS classifica os estudantes).

[7]Apesar de utilizar a ideia de “pós pandemia”, destaco que no dia 05 de maio de 2023 a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), e não o fim da pandemia. O vírus que produz a COVID-19 não deixou de ser uma ameaça à saúde humana, e a sua propagação permanece sendo caracterizada como uma pandemia.

[8] Como as questões de étnico-raciais, classe, gênero, entre outras mencionadas.

[9] Apesar de não poder me aprofundar sobre isso neste espaço, destaco que embora essa tenha sido a interpretação mais comum e presente em minhas observações em campo, ela não foi a única. Nem todos que pude ter contato interpretaram suas vivências sob a ideia de sofrimento psíquico – ou ao menos assim não o admitiram.

[10] Pude ver situações assim com frequência, quando boa parte dos meus interlocutores falavam algo em tom jocoso sobre suas “enfermidades da mente” quando eu os convidava para participar da pesquisa.

[11] Trago esta ideia de “finalização total da mente” a partir de Le Breton (2013) que, ao falar sobre a mudança de status do jovem durante ritos de passagem, disse que lhes é exigida, por meio de marcas físicas e da dor, uma finalização social de seu corpo e de sua identidade (p. 20). Entendo que existe atualmente uma “finalização total da mente”, como o rito de passagem para o reconhecimento da produtividade dos jovens dentro da sociedade regida pelo paradigma neoliberal de sofrimento e produção. Pretendo aprofundar essa ideia conceitualmente em outra oportunidade de pesquisa.

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