Devires pandêmicos: sonhos e aflições em meio a COVID-19 no Rio de janeiro

SP.3: Después de la COVID-19: urgencias, desigualdades y desafíos en América Latina y el Caribe

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Eduardo Baptista Prisco Paraiso Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Júlia Fleury Ferreira Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Introdução:


Parece que eu nunca vou chegar aonde eu gostaria. Eu já tinha dificuldade de imaginar que eu iria chegar aonde eu gostaria de chegar. E agora parece que é real. Parece que, de fato, eu não vou conseguir chegar. Porque algo está me impedindo e eu não sei até quando vai me impedir. O fato de estar me impedindo e não saber até quando vai me impedir me agonia demais (Margarida).


A pandemia do novo coronavírus chegou abrindo a segunda década do século XXI, interrompendo trajetórias temporária ou definitivamente, e fechando as portas de casas, comércios e possibilidades. Dada a alta taxa de propagação e graves complicações advindas do vírus, do qual, à época, pouco ou nada se sabia, rapidamente foram instauradas medidas de isolamento social no Brasil. Aulas e trabalhos foram suspensos a princípio por duas semanas, mas com possibilidade declarada de extensão. Entre idas e vindas, momentos de maior e menor flexibilidade, durante cerca de dois anos, as pessoas viram suas relações, sonhos, trabalho, projeções, e a vida de maneira mais ampla colocados em uma espécie de estado de suspensão. Novas formas de agir, se relacionar com e imaginar o mundo foram instaladas; agora, tinha-se que viver e planejar futuros incertos em um cenário ainda mais imprevisível. 

Isoladas em casa ou no leito do hospital, nossas interlocutoras agonizavam tanto com o presente como com as perspectivas por vir. Margarida, uma mulher negra de 32 anos, grávida e moradora de uma favela em Duque de Caxias, remói-se com as possibilidades que o futuro guarda para ela e seus descendentes. Após as interrupções provocadas pela pandemia da covid-19, pensa que talvez não consiga conquistar o que havia planejado para si e sua família. Isabel, uma mulher branca de 59 anos, moradora de um apartamento no Leblon, área nobre do Rio de Janeiro, chora em uma Unidade de Terapia Intensiva para pessoas com o novo coronavírus; teme a possibilidade de não conseguir terminar de criar sua filha adolecente. Conclui que se saísse daquele quarto com vida, seus valores iriam mudar, seria menos superficial e valorizaria somente as coisas que realmente importam. 

De acordo com Claudine Herzlich (2005), a doença tem a capacidade modificar a vida individual, a inserção social do indivíduo e o equilíbrio coletivo, sendo fruto frequente de interpretações da sociedade de maneira geral. Já Veena Das (2015, p. 01) atesta que as doenças podem vir a provocar “a sensação de que as coisas não estão como deveriam, ou mesmo uma sensação de sufocamento e mau agouro, deixa cicatrizes na vida ordinária.” Inseridas em uma realidade em que a doença se mostrava quase como iminente, nossas interlocutoras, enfermas ou não, tiveram suas vidas irremediavelmente atingidas. Muito além de um fenômeno exclusivamente biológico, a pandemia do COVID-19, pode ser lida como um fato social total, dado a magnitude de seus impactos econômicos, políticos, sociais, ambientais etc. (Biehl, 2021). Seguindo a mesma lógica, Birman, psiquiatra brasileiro, define que a experiência pandêmica é caracterizada pela “marca insofismável da complexidade” (2020, p.8). 

Com estas histórias em vista e levando em consideração o amplo enredo do momento atravessado, temos como objetivo neste artigo refletir sobre como as diferenças sociais, econômicas etc, presentes nas vidas de nossos interlocutores, influenciaram não só sua forma de atravessar a crise, mas também suas imaginações de futuros cenários pós pandêmicos. Apesar de enfrentarem a “mesma crise”, a análise conjunta dessas histórias e narrativas desvelam diferentes nuances de habitar um cenário pandêmico. Quem sonha quais futuros? Que planejamentos de vida são possíveis? O que as aflições do presente dizem sobre o que está por vir?


Fabulações metodológicas:

Este artigo foi construído com base no material colhido por ambos os autores em suas respectivas pesquisas de Mestrado. O trabalho realizado por Júlia, tinha como objetivo investigar as experiências de adoecimento grave e internação entre pessoas das camadas médias cariocas em meio a pandemia do COVID-19. Já o de Eduardo, por sua vez, buscou estudar os impactos psicossociais das medidas de isolamento social em favelas da região metropolitana do Rio de Janeiro. Ambos os estudos possuem um viés qualitativo, tendo seus dados colhidos através de entrevistas com roteiros semiestruturados e contaram com 10 interlocutores cada. As entrevistas que dão origem à pesquisa de Eduardo, foram coletadas entre maio e junho de 2020, de forma virtual, enquanto as de Júlia ocorreram entre abril e julho de 2022, majoritariamente de forma presencial.

Optamos por selecionar duas narrativas, uma de cada pesquisa, costurando um encontro entre nossas interlocutoras, suas histórias, sonhos, aflições e perspectivas. Além de traçar um diálogo entre o referencial teórico dos autores, propomos a ampliação da  análise de ambos os casos. Sem nos ater a uma perspectiva exclusivamente comparativa, buscamos pôr em diálogo cenários, realidades, experiências e histórias distintas vividas em um mesmo estado, ao longo da mesma crise sanitária. Dessa forma, nas próximas páginas iremos explorar esse fragmento das histórias dessas duas mulheres, as formas como elas se aproximam, se afastam e como elas têm muito a dizer sobre o momento dramático vivenciado e sobre o Brasil contemporâneo. É importante ressaltar que enquanto a entrevista de Margarida, parte do trabalho de Eduardo, foi feita em meio ao período de isolamento, a entrevista de Isabel, realizada por Júlia, se deu cerca de 1 ano após sua internação, já ao fim do período de emergência sanitária no país.


Margarida 


Em 2020, momento de realização das entrevistas, Margarida possuía 32 anos, e  há 20 anos, residia em Duque de Caxias, um dos municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro mais afetados pela COVID-19.  Há 11 anos havia se mudado para a casa dos sogros em uma favela da região. Ela conta, que junto ao seu companheiro possuía a expectativa de passar uma temporada provisória na residência dos familiares de seu marido, enquanto construíam sua casa própria no mesmo terreno.
No entanto, esta ‘temporada provisória’, já durava mais de uma década, visto que ainda não haviam conseguido concluir a obra ou deixar a casa em condições ‘habitáveis’. O que a obrigou a passar o período de isolamento social, junto com suas filhas e marido na casa dos sogros, que apesar de espaçosa, não possuía cômodos suficientes para todos os seis membros da Família. 


No caso, eu durmo num quarto eu, minhas filhas e meu esposo. E minha sogra dorme com meu sogro. A casa não é muito espaçosa, mas também não é muito apertada, como a gente consegue ver em favelas, periferias. É um pouco espaçosa. (Margarida).


Apesar do pouco espaço, do grande número de familiares e da dificuldade para concluir o projeto de sua casa própria, ela considerava suas condições de vida, mais confortável do que a de outros moradores de sua vizinhança.


Se eu comparar a minha vida com a vida de pessoas piores que a minha, eu me sinto muito mais confortável, porque a gente vive em uma realidade no Brasil onde, por exemplo, tem uma pessoa com cinco filhos morando em um cômodo só. E dali se vira. Aí eu me sinto confortável porque aqui, por ter mais cômodos, somos em seis. Por ter mais cômodos, eu consigo me sentir mais confortável do que com as pessoas em situações bem mais difíceis do que eu. Então, nesse aspecto, sim, me sinto confortável (Margarida). 


Pouco antes do início do período de isolamento social, Margarida havia perdido seu trabalho fixo como empregada doméstica. E relata que, com a chegada da pandemia, seu esposo também perdeu o emprego, o que contribuiu para deixá-la angustiada não só com a pandemia, mas também com aquilo que o futuro reservava para ela e sua família.


 Tensa, no sentido de saber como é que vai ser o meu futuro. Porque quando você trabalha, por mais que não vá ser um salário que dê pra você viver assim, se manter bem, você tem uma perspectiva. Mas agora assim, sem trabalho, é horrível, eu me vejo sem perspectiva [...] É um misto de sentimentos, eu não vejo uma clareza lá na frente. Eu me preocupo, na verdade, mais com o meu futuro, porque o meu presente eu já estou vivendo, o meu futuro que me preocupa muito (Margarida).


Naquele ano, ainda antes  da pandemia,  seu marido havia planejado pedir um acordo no trabalho e tinha a intenção  de utilizar o dinheiro que iria receber para finalizar a obra de sua casa. Com a chegada da COVID-19, seus planos foram suspensos, o que a levava a crer que seus objetivos estavam cada vez mais distantes. 


Antes disso, da pandemia acontecer, a gente tinha tido uma conversa e ele falou: “Margarida, como a gente está onze anos pra terminar a nossa casa e não consegue porque a gente não quer mexer nas nossas filhas, não quer tirar elas do colégio particular para botar no público, o que a gente faz? Você está trabalhando, eu também. Aí eu faço um acordo no meu emprego e o dinheiro que eu pegar no acordo a gente bota na nossa casa, quando tiver pronto a gente sobe”. Então eu já estava animada com esse projeto. E quando veio a história da quarentena, ele ficou desempregado devido à quarentena. Eu senti de novo um balde de água fria, não consegui de novo. Foi mais um ano perdido na minha vida. Então isso me chocou de uma forma muito profunda. Agora parece que vai ser mais um ano, e mais um ano, e mais um ano, e aquilo vai me sufocando, vai me agoniando. Porque imagina, se antes que eu tava trabalhando a gente projetou e não conseguiu, agora que eu não estou trabalhando e ele não está trabalhando, o que vai demorar pra conseguir de novo? Eu fico assim, vão ser mais onze anos na minha vida, entendeu? (Margarida). 


Para além da interrupção da construção de sua casa, o desemprego foi responsável por  impactar diretamente os gastos de sua família, principalmente na alimentação: “Antigamente eu conseguia trazer carne no prato com mais facilidade. Hoje a gente se aperta mais” (Margarida). Para ela, sua situação financeira que já era difícil, tinha ‘duplicado’  em termos de dificuldade: 


Muito difícil, já era difícil, agora duplicou. Muito complicado, a gente tenta fazer render porque como eu estou desempregada e o meu marido também, vai ficar [inaudível] por conta do desemprego. E minha sogra é aposentada, mas a gente não recebe a aposentadoria por causa de um empréstimo que ela fez. Então a gente faz de tudo pra render o dinheiro. Eu pago luz, a gente não paga água, mas eu pago luz. É compras, é escola também que nossas filhas estudam em colégio particular. E a gente tentava fazer ao máximo render o dinheiro. Aí, por exemplo, o que pesa e sempre fica de lado por exemplo é o lazer, é uma roupinha nova. A gente vai sempre deixando isso de lado, até quando de fato for necessário ou se de fato precisa sair pra esfriar um pouco a cabeça (Margarida). 


Durante o isolamento, Margarida foi pega de surpresa por um outro acontecimento inesperado. Uma gravidez não planejada que, consequentemente,  ampliou a tensão e a insegurança que já vinha sentindo, antes mesmo desse período. “Já tenho duas filhas e agora engravidei no período da quarentena, isso está me deixando muito, muito tensa” (Margarida)


Estar gestante neste momento pra mim está sendo horrível. Primeiro porque não era uma coisa desejada. Eu não desejei engravidar, eu tive que parar de tomar o anticoncepcional porque descobri que tinha um cisto no seio e estava me precavendo com camisinha. E aí, quando eu descobri, foi uma coisa que me tirou o chão, e tem a preocupação com a doença, a preocupação financeira e tem a preocupação assim de: “Meu Deus, será que eu vou saber amar como eu amo os outros? Será que elas vão se sentir menosprezadas porque tem mais uma criança chegando?”. Então é uma preocupação a mais. Não está sendo fácil, mas eu procuro me equilibrar às vezes. Mas eu me sinto muito perdida nisso. Porque não era uma coisa que eu queria e eu tenho medo disso demorar a passar. E enfrentar muitas dificuldades na gestação e depois da criança nascer e ter que, por exemplo, tirar as meninas da escola. Coisa que eu não queria, eu queria, por exemplo, que elas tivessem um ensino bem melhor do que eu tive. Só que pelo fato de vir uma criança e as despesas aumentarem, eu tenho medo de ter que tirá-las devido a mais uma criança (Margarida).


Margarida aponta diversas vezes que uma das suas maiores preocupações, e consequentemente um de seus maiores desejos, era dar às filhas condições de vida melhores do que as que teve em sua própria infância. Para ela, a chegada de um novo filho, em meio ao cenário pandêmico, junto ao desemprego  fazia com que as incertezas do momento influenciassem diretamente na criação de suas duas filhas. 


Assim, eu não consigo me encontrar assim nesse momento. Esse momento, pra mim, está muito obscuro, tanto pra mim quanto pro meu esposo. Eu não consigo encontrar uma fonte nele também. Tipo um porto seguro que se eu cair, eu vou ter alguém ali para me segurar. Eu não consigo encontrar isso nele, porque ele também está passando por essa situação difícil. E o meu medo é respingar nas minhas filhas. Essa é a minha maior preocupação. Eu consigo lidar com a situação sozinha, mas quando eu paro e penso nelas o desespero bate muito forte. Eu não queria que essa coisa... Já que a crise econômica sempre existiu, mas agora devido a essa pandemia vai ser uma coisa bem mais complicada... Então eu não queria que isso resvalasse nelas. Às vezes eu fico meio perdida tentando encontrar um momento onde eu não deixe isso atingir elas (Margarida). 


Outro sentimento que apareceu em sua fala foi o sentimento de culpa, de ter feito “uma burrada” por ter engravidado mesmo se precavendo. 


Estar grávida na pandemia, isso eu acho que é muito complicado. E pelo menos aqui onde eu moro, não tenho conhecida nenhuma que está na mesma situação do que eu, e nem conhecida de uma conhecida. Então, eu fico assim: “Cara, eu fui a única que fiz essa burrada”. Levo pra esse lado. Por que eu fiz isso? Então, assim, me sinto um pouco culpada, né? Porque a responsabilidade é nossa, a gente engravida quando a gente não se precaveu. Mas, ao mesmo tempo, eu encontro apoio do meu esposo. E em nenhum momento ele me condenou de falar: “Por que você fez isso?”. Eu sinto que a gente podia ter brigado mais. Mas ele e a minha família foram bem receptivos. Não houve julgamento nem dos meus sogros, nem dele. Mas eu me cobro muito, nesse sentido. Isso era uma coisa que eu poderia ter evitado. A gente tem controle disso [inaudível]. Eu fico: “Meu Deus, por que eu fiz isso?”. Mas ao mesmo tempo eu me vejo com as mãos assim atadas porque eu fiquei com medo, né? No ano passado a gente ter recebido a notícia que eu tava com o cisto. Aí fiquei com medo de continuar com o medicamento, o cisto aumentar e eu ter que procurar a cirurgia ou virar uma coisa mais séria. Aí eu, por conta própria, parei, já que é uma coisa que aumenta e fui me precaver de outra forma. Eu tenho medo de ganhar a criança [inaudível] sei lá, uma depressão pós-parto. Ou ter que prejudicar as minhas filhas de alguma forma. Porque com dois já é muito difícil e eu não sei o que eu vou ter que fazer. Eu tenho muito aceso na minha mente de não deixar elas passarem o que eu passei. E isso todo dia passa na minha mente (Margarida). 


Todos esses atravessamentos fizeram com que Margarida considerasse estar passando por uma fase de muita oscilação: “Uma hora eu estou feliz, outra hora eu estou chorosa. Semana passada mesmo eu não consegui conter minhas lágrimas, aí eu saí de casa sozinha” (Margarida). Para ela, a sensação de sufocamento, incerteza frente ao futuro e medo eram tão grandes que ela considerou que seu mundo havia obscurecido e que portanto jamais conseguiria alcançar o que tinha como objetivo. 


Quando eu me vejo... Às vezes eu acordo e parece que dá um apagão na minha mente. Me dá uma vontade de sair sem destino, eu não consigo pensar nada, não consigo. Tipo, por exemplo o que eu te contei. Que segunda agora simplesmente acordei com aquela agonia no peito, aquela coisa me sufocando e eu comecei a chorar, a chorar. Meu esposo me perguntando o que era, eu falei para ele que não era nada, nada, nada. Porque eu sou uma pessoa fechada, não consigo externar meus sentimentos. E eu simplesmente peguei e saí, sem dar satisfação, nem lembrei das minhas filhas naquele momento. Tipo assim, a gente não tinha almoçado, nem falei para dar comida para as meninas, só peguei e fui. Por exemplo, da onde eu moro para onde eu fui andando é um bom pedacinho, parece que eu nem senti o cansaço porque eu estava muito sufocada. Então eu me vejo completamente perdida e sem perspectiva de nada. Porque parece que eu nunca vou chegar aonde eu gostaria. Eu já tinha dificuldade de imaginar que eu iria chegar aonde eu gostaria de chegar. E agora parece que é real. Parece que, de fato, eu não vou conseguir chegar. Porque algo está me impedindo e eu não sei até quando vai me impedir. O fato de que está me impedindo e não saber até quando vai me impedir me agonia demais (Margarida). 


O relato de Margarida explicita como seu sofrimento, extrapolava a crise da COVID-19. Margarida não tinha necessariamente medo do vírus, tão pouco “estar isolada” era uma questão central. No seu caso foram os  impactos indiretos da pandemia, como o desemprego e a crise financeira, somados a acontecimentos “imprevisíveis” como, por exemplo, sua gravidez inesperada, os responsáveis por mudanças em seus hábitos, rotina e pela emergência de uma série de preocupações, tensões e angústias.



Isabel

Isabel é uma mulher de 58 anos, moradora de um bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro, onde reside junto do marido e da filha; corretora de imóveis de luxo, “maromba” (como se descreveu para indicar que gostava muito de fazer exercícios físicos) e cristã protestante. Ela disse que costumava sair bastante, ia para bares e restaurantes e shows, mas com a pandemia perdeu o hábito e ganhou o medo, então ela e o marido estavam ficando mais em casa, indo para a praia e frequentando lugares abertos. Isabel sentiu muito medo durante a pandemia, tanto de pegar o vírus, quanto de não resistir a ele. Ela passou 9 dias na UTI de um hospital particular do Rio no início de março de 2021, nos quais ficou cercada das angústias de “entrar para a estatística” de mortes e de forte indignação com as ações e palavras do governo federal e do ex-presidente. Ela me contou que essa experiência produziu nela uma forma diferente de lidar com a vida, seus “valores mudaram completamente” e agora, ela estava determinada a trabalhar com formação política junto ao seu grupo de mulheres evangélicas.

Em nossa conversa, ela afirmou que tomava as medidas necessárias para evitar o contágio desde o princípio, cumprindo uma “quarentena radical” tanto em termos de higienização do ambiente, como de isolamento social. No entanto, no final de 2020, Isabel acreditava que a pandemia estava melhorando e começaram a se tranquilizar um pouco, até que veio “a famosa segunda onda, (...) foi aquele período da tragédia em Manaus, aí começaram a morrer 4000 pessoas [por dia] e foi aquela tragédia em fevereiro, aquilo era um pesadelo”. Concomitante a isso, sua filha adolescente estava tendo dificuldades em passar pelo isolamento social, já vivenciado há um ano, então combinaram que ela poderia ir à academia. Alguns dias depois da primeira ida, próximo ao aniversário de 58 de Isabel, em fevereiro de 2021, sua filha começou a sentir dor de garganta, uma “moleza” e “meio febril”. A mãe tentou se afastar da filha e, de imediato, ligou para a irmã, médica, e providenciou testes para todos da casa; não tardou para chegar o resultado positivo dos três.

Seu marido estava em estado parecido e os dois foram algumas vezes até o hospital particular para serem examinados. No décimo dia de sintoma, falando por telefone com a sua irmã, ela contou que sua oxigenação, que ela media pelo oxímetro, tinha baixado ainda mais, chagando a 93, então a irmã mandou que Isabel voltasse para o hospital, onde ela foi surpreendida pela plantonista com duas notícias, uma boa e uma má:

“A má é que seu pulmão está muito comprometido, você tá com taquicardia, seu quadro se agravou muito. - Isso era uma quinta feira, - seu pulmão, quando você esteve aqui semana passada, seu pulmão tava menos de 25%, ele está agora mais de 50% tomado, sua oxigenação tá muito baixa. A boa notícia é que estamos vivendo esse horror, esse caos, e se você viesse ontem a gente não teria vaga para você e nós temos uma vaga para você na UTI e a indicação é que você fique aqui e seja internada agora.” (Isabel)

         Isabel levou a nova informação como “um punhal no coração, porque você não sabe o que vai acontecer. Porque a covid, além de você ter um risco real de morte, você tem um risco de morte iminente, porque você pode morrer em dias.” Seu marido começou a chorar do seu lado e os dois se despediram, tendo no ar, o pensamento não dito de que aquela poderia ser a última vez.

         Isabel ficou em um quarto privado e individual, uma área que havia sido adaptada como UTI devido à grande quantidade de pacientes em estado grave que estavam recebendo naquele momento. Mas Isabel achou bom, pois as acomodações eram mais confortáveis que uma UTI normal. As primeiras coisas que fez ao se acomodar foram “agradec[er] a Deus pelo privilégio” de se internar em uma UTI particular de alto padrão, “fechada, uma suíte”, e chorar, pensando na filha recebendo a notícia e pensando “será que eu vou sair?”.         Sua irmã rapidamente providenciou o médico chefe do setor de pneumologia, seu amigo, como médico assistente – por fora do plano de saúde – da Isabel, porque “o caso merec[ia] uma atenção especial”.

         Isabel repetiu diversas vezes o quanto que ela se considerava privilegiada por todo aquele tratamento, o qual ela atribuía grande parte da sua melhora. Seus privilégios se estendiam desde a contratação de um médico, especialista em pneumologia e amigo da família, até a internação em um hospital de alto padrão, ou à comida que era oferecida lá dentro.

         Ela passava seu tempo no hospital acompanhando Paulo Gustavo, ator e comediante que admirava muito e que ficou internado no mesmo período que ela.

Era fã dele e sabe que [a morte dele] mexeu muito comigo, porque eu estava internada nos mesmos dias que ele, então eu acordava tomava café. Aí fui criando uma rotinazinha, aí eu ficava ali sentadinha, ai via o celular, aí vi ele postando. Aí quando ele foi entubado eu fiquei triste e quando ele morreu, isso mexeu muito comigo, porque o tempo todo eu achava que podia ser comigo também. Porque era exatamente como eu, ele tava lá e ele botou o cateterzinho. Só que ele piorou de um dia pro outro, como acontece. (Isabel)

         Apesar de manter um quadro geral relativamente bom, dado que Isabel não teve que se submeter a procedimentos mais invasivos, ela ficou muito abalada com a sua condição, principalmente no período em que esteve pior. Se sentia terrivelmente impotente, por não conseguir fazer nada sozinha, nem andar até o banheiro, e, ao mesmo tempo, se sentia muito sozinha. “Tem muita solidão ali, você fica em um quarto fechado, ele [médico assistente] falava “vagou um” e eu pensava ‘vagou um que morreu alguém.’ (...) Porque você tá tão deprimido, você nem faz questão, se é dia ou noite, você tá em uma viagem assim.”. A solidão é um aspecto da covid repetido inúmeras vezes por diversos interlocutores, inclusive Isabel. A solidão era presente em múltiplas dimensões da covid e da fala dela, desde o momento em que você é diagnosticada e tem que se isolar, à falta de visitas no hospital, até, em casos de morte, o velório vazio.

Em meio à melancolia e à solidão, uma das coisas que mais lhe deprimia era ver a reação da filha quando conversavam, Isabel se esforçava ao máximo para parecer bem, até tirava o cateter com o respirador, porque sua filha chorava quando via a mãe mal. A filha de Isabel tinha amigos que perderam os pais e tinha muito medo que isso acontecesse com ela. Também se sentia muito culpada por ter sido ela a transmitir a covid para a mãe, “além de ser um vírus mortal, ainda traz isso. A pessoa que foi visitar, encontrou ou que transmitiu, carrega essa culpa pro resto da vida.” E essa era uma grande preocupação de Isabel, ela não queria que a filha tivesse que carregar esse fardo. Mais do que isso, ela repetia que não podia morrer, pois tinha que terminar de criar sua filha.

 

“Quem passa por isso não sai a mesma pessoa”. Principalmente no primeiro momento depois da alta, Isabel sentiu transformações profundas na sua maneira de conceber e agir no mundo, bem como a forma como as pessoas lhe tratavam. Passado pouco mais de um ano após a sua alta, ela sente que as coisas estavam voltando para uma “normalidade”, como eram antes da covid, mas ainda carregava e carregaria aquelas marcas e mudanças consigo, provavelmente por toda a vida.

         Isabel saiu do hospital “com muitas sequelas”, que foram desaparecendo com o tempo, “sequelas físicas” e “sequelas emocionais”, como ela categoriza. Passou três meses com fisioterapia respiratória e “fisioterapia comum”, que ajudaram a recuperar o pulmão e restaurar sua plena mobilidade. Teve também dores de cabeça insistentes. A parte emocional, que ela conta que foi a pior, “emocionalmente você fica em frangalhos.”. Saiu “mentalmente, emocionalmente, muito sequelada. Crises de choro, tinha pesadelo, eu acordava achando que estava no hospital. Você sai muito machucado psicologicamente. É uma experiência muito intensa, você lidar com o risco mesmo de morte.” Como mencionado acima, Isabel entrou em um processo depressivo, e para contorna-lo, fez psicoterapia e tomou antidepressivos; na época em que conversamos já tinha parado com ambos e se considerava bem.

         Seus valores foram completamente abalados, o que se manifestou de forma mais acentuada principalmente, no momento em que saiu do hospital, em relação à vaidade. 

“Eu normalmente quando acordo... às vezes eu até passo uma maquiagem, para tomar café com o marido. Nem me olhava no espelho, não queria saber, como eu estava, eu não tinha um creme. Imagina dormir sem passar um creme! (...) Você sai sem ligar para nada. Para aparência, para roupa. (...) Você realmente, valoriza a vida. Você é outra pessoa. Muita coisa que eu dava importância, hoje eu não dou mais.” (Isabel)

         Não se olhava no espelho, não conseguia ver fotos suas do período durante a internação, “não queria mais saber da imagem”, ao invés disso, estava valorizando a vida. Quando conversamos, não estava mais tão “radical” quanto nesse primeiro momento, já usava seus cremes faciais e até tinha aplicado botox, mas afirmava que sua “vaidade [era] mais comedida”, não só em relação a aparências, mas também ao intelecto, “uma porção de coisas”. Também se tornou menos consumista e suas “comprinhas online”, do início da pandemia, se tornaram bem menos frequentes. Passado o momento inicial de tristeza, Isabel é muito feliz, grata e se sente privilegiada por estar viva – algo que afirmava que pessoas pobres não tiveram. Mais uma vez, a felicidade e gratidão pela vida era proporcional à mágoa e aborrecimento com a desigualdade social – “apesar de estar desse lado”. Constatou que o “direito à vida, até isso o pobre é negado”, que homens e mulheres “sequer chegaram ao jornal. Essas histórias tristes, nem histórias tristes virou. Nem estatística. Às vezes nem soube que os familiares morreram de covid. Não tem para onde ir, não tinha UPA não tinha nada.”

         Isso fez crescer a vontade de se engajar politicamente e ficar mais certa dos seus posicionamentos políticos. “Se eu era [de esquerda], agora eu tenho os dois pés. Porque isso me fez ter mais certeza de que lado eu ocupo. Nesse sentido me mudou muito.”. Apesar dessa convicção recente, Isabel disse que ainda não tinha tido coragem para agir, porque é “um pouco covarde”, mas queria “levantar a bandeira que ninguém tem aqui, evangélicos da esquerda.” Em nossa entrevista realizada em maio de 2022, ela disse que era um espaço que precisava ser ocupado pela esquerda e, por sua influência dentro do seu grupo de mulheres evangélicas, ela poderia ter uma boa entrada. Dessa forma, ela gostaria de colaborar para acabar com a extrema direita no Brasil que, durante a pandemia ocupava a presidência do país e que acreditava ter prejudicado sua saúde, através do atraso da compra e distribuição de vacinas e da disseminação de informações falsas sobre o vírus e medidas de prevenção, como consta no relatório da CPI da pandemia. (Brasil de Fato, 2021).

“(...) eu não tenho coragem de comprar essa briga. Penso muito nisso. Mas eu pensei isso, que poderia atrair muita gente para esse lado. Porque essa igreja que eu frequento, presbiteriana, tem muita gente, mas eu sou subdividida em um grupo de orações com senhoras. Então se eu levantasse uma bandeira dessas, eu ia trazer muita gente pro lado de cá. Tô amadurecendo a ideia, vamos ver, tem que ter coragem.” (Isabel)

A relação com a sua família também mudou após a sua hospitalização pela covid-19, passou a ser muito “paparicada”, tanto nas reuniões de família, quanto em casa. “A minha família toda, os amigos e esse carinho é muito bom também”. Assim, sua rede de apoio e afeto foi fundamental para a sua melhora. Ela conta que é a irmã caçula de uma família muito grande, então já a mimavam de alguma forma, mas percebe que após a doença, existe uma preocupação muito maior com o seu bem estar e uma mobilização coletiva para que ela não se contamine de novo.

Mesmo todo esse esforço não foi suficiente para evitar uma nova contaminação, mas já com três doses da vacina, ela ficou bem; com febre baixa, sinusite forte e muito medo. Diz que se sente bem mais segura com as vacinas e “é muito grata à ciência”. Mas mesmo já estando em outro momento da pandemia da covid e da sua vida, Isabel ainda sentiu um eco do que passou um ano antes. O resultado positivo lhe deixou muito ansiosa e, mesmo achando que não iria dar em nada – como da outra vez – no fundo, estava apreensiva. Sua filha começou a chorar no segundo em que a mãe testou positivo, o medo de perdê-la voltou fumegante, como se nunca tivesse ido embora, e com ele, a culpa, por ter sido, de novo, o vetor para a contaminação da mãe. O desespero multifatorial da filha faz com que Isabel fique mal. A família inteira ficou marcada pela covid de Isabel e esse é inclusive um marco temporal; se referem ao período pré covid da Isabel, ou pós covid da Isabel, ao lembrarem de acontecimentos dos últimos anos. Espera que contar sua história, “essa experiência tão dolorosa, sirva de alguma coisa, porque um dia isso vai entrar pros livros escolares, ainda não porque a gente ainda tá vivendo. A minha filha vai poder falar pras filhas dela, vivi a pandemia.”

Aflições

Com a pandemia da covid-19 Margarida teve sua situação financeira e sua maternidade tensionadas. Seu trabalho como empregada doméstica não se manteve, seu marido também estava desempregado o que os levou a adiar seus planos de ter uma casa própria onde morariam somente eles e as filhas. Ela chocou-se e culpou-se com a notícia de um novo filho a caminho e sua maior angústia era não conseguir possibilitar aos filhos - presentes e futuros uma infância diferente da sua. 

Já o principal receio de Isabel, que possuía outra condição econômica e social, era morrer e deixar a filha adolecente, o que após sua hospitalização tornou-se ainda mais latente. Seu adoecimento a colocou em uma situação de fragilidade e vulnerabilidade, que  nunca havia vivenciado, ou se quer observado nas pessoas ao seu redor. Isso lhe despertou vontades de agir de modo diferente, olhando menos para o seu reflexo no espelho e mais para o combate ao extremismo político do país. 

A partir desses dois relatos, percebemos que, apesar de nossas interlocutoras viverem a uma hora de carro de distância e estarem ameaçadas pelo mesmo vírus, as formas como isso se dá e as suas consequências são inteiramente distintas. Se Margarida está preocupada em se manter financeiramente durante a pandemia, esse problema não passa pela mente de Isabel. Se Isabel sofre pela proximidade da morte, isso não assusta tanto Margarida, que vive em um cenário de mortes repentinas e constantes. Se a maior angústia desta refere-se a chance de não conseguir dar aos filhos a condição de vida que ela gostaria, como uma boa educação, lazer e uma casa para a família, aquela remoi-se diante de um cenário em que sua filha sofreria e ficaria marcada pela perda da mãe. Enquanto uma olha para o futuro sem ver saídas para os problemas enfrentados no presente - principalmente financeiros - ou enxergando pouquíssimas, a outra vê o futuro como um campo de esperança para agir. 

A pandemia da covid-19 serviu para escancarar e aprofundar desigualdades anteriores (Bógus, Magalhães, 2022). Em 2013, o sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro “A riqueza de poucos beneficia todos nós?” já apontava o quanto a concentração de renda no mundo vinha crescendo ao longo da história, com um salto aparente a partir da revolução industrial e seguindo pelos séculos seguintes. No Brasil, o oitavo país com o maior índice de desigualdade social do mundo (Godoi, 2022), 

A concentração de renda cresce fortemente na década de 1980 e chega ao seu ápice em 1989; decresce a partir da década de 1990, com mais intensidade do início dos anos 2000 até 2015, quando atinge seu menor valor; volta a crescer a partir de 2015, estando em 2019 no mesmo patamar em que estava em 2009. (Godoi, 2022, p. 64). 

Com a pandemia da covid-19 essa situação se tornou ainda mais gritante. De acordo com o Relatório de Metas de Desenvolvimento Sustentável 2021 da ONU, “Em 2020, a taxa global de extrema pobreza aumentou pela primeira vez em 20 anos, centenas de milhões de pessoas foram levadas à extrema pobreza e à fome (tradução nossa). Ao falar da realidade social e econômica do Rio de Janeiro, nota-se especial aumento da vulnerabilidade da população, elevada inclusive quando colocada em relação com outras metrópoles do país. (Bógus, Magalhães, 2022). 

Também se observa, em sua paisagem social urbana, os efeitos mais visíveis do aumento da desigualdade: elevação do trabalho informal, crescimento da população em situação de rua e, ainda, expansão do processo de favelização, estas cada vez mais densas e verticalizadas, tanto na RMSP [Região Metropolitana de São Paulo] como na do Rio de Janeiro. (Bógus, Magalhães, 2022, p. 12). 

Essa discrepância fica explícita na vivência das nossas interlocutoras. Isabel pode manter seu trabalho de forma remota e não tem sua financeira abalada pela covid-19 de forma preocupante. Enquanto isso, Margarida, que trabalhava como doméstica, não podia, nesse momento, exercê-lo. As angústias e aflições de Margarida estão, a todo o momento, atravessadas por questões financeiras, visto que, em uma sociedade capitalista, o dinheiro é fundamental para a sua sobrevivência. Já Isabel, de uma camada social mais elevada, não possui esse tipo de preocupação.

Nesse sentido, buscamos refúgio no conceito de sofrimento social tal como elaborado por Veena Das, Arthur Kleinman e Margaret Lock. Segundo o qual, o sofrimento deve ser compreendido como uma experiência social (Ibidem). “O sofrimento social é resultado daquilo que os poderes políticos, econômicos e institucionais infligem nas pessoas e, reciprocamente, de como essas formas de poder influenciam respostas a problemas sociais” (Ibidem, p.09, tradução nossa). Questões como a violência, a pobreza, epidemias etc. possuem tanto uma dimensão política, quanto cultural. E, consequentemente, o sofrimento advindo destas também é permeado por tais dimensões (Ibidem). Em Affliction: health, disease & poverty (2015), Das aprofunda a sua investigação sobre as consequências do sofrimento na vida comum de seus interlocutores. A autora nos convida a olhar para os momentos através dos quais “a vida pulsa com as batidas do sofrimento e com os pequenos prazeres da vida cotidiana” (Das, 2015, p.01, tradução nossa).
Aflição [Affliction] para Veena Das é  um conceito que tenta dar conta de um tipo de sofrimento que, apesar de geralmente ser “absorvido no cotidiano”, é responsável por causar uma sensação de sufocamento ou de “que as coisas não estão como deveriam”, deixando assim cicatrizes nas camadas ordinárias (Ibidem).  Este conceito, tal como desenvolvido por ela,  tenta “carregar o peso de vidas” que atravessadas por certos acontecimentos, sobretudo relacionadas à saúde e que, a despeito do desfecho, são mantidas em uma espécie de  “mundo obscuro” o qual perdera parte de suas características positivas (Ibidem).

Este tipo de sensação fica explícita, por exemplo, no discurso de Isabel sobre a falta de autonomia e a solidão enfrentada durante o isolamento no hospital. E na fala de Margarida isso também aparece em seu relato sobre o quão sufocante é uma vida sem perspectivas. Tal como apontado por Das, foi possível observar no discurso de ambas as interlocutoras, esta sensação de asfixia metafórica e literal frente às incertezas do período. 

Considerações Finais

Ao analisar as narrativas das nossas interlocutoras, notamos que apesar de ambas sofrerem, suas experiências de sofrimento são distintas. As duas se veem vulneráveis frente a pandemia do novo coronavírus, mas as posições que ocupam são diferentes. Se, por um lado, Margarida se encontrava em uma situação de vulnerabilidade estrutural, característico do território  em que vivia, com habitação precária, presença de violência e do desemprego que afligia sua família. Por outro, Isabel atingiu uma posição de vulnerabilidade a partir  do seu adoecimento e internação. Dessa forma, enquanto nas camadas baixas essa sensação de vulnerabilidade sempre se fez presente, “pessoas que gozavam de um status socioeconômico comparativamente mais elevado se viam alçadas à vulnerabilidade através da doença e, por ela, se depararam com a finitude e imprevisibilidade da vida, com suas angústias e com seus demônios.” (Ferreira, Paraiso, 2023). 

Das (2015, p. 19) aponta para os impactos da doença na vida ordinária:

Doenças revelam que a vida cotidiana pode ser caracterizada por uma, ou por todas, as formas a seguir. Primeiro, ela pode ser compreendida como o local ao qual os pequenos infortúnios mudam o direcionamento dos comportamentos de forma tão sutil e que, portanto, não rompem completamente com o ordinário. [...] Segundo, como o campo em que as tecnologias do Estado e do mercado atuam externamente, distorcendo relações próximas como parentesco e localidade. E por fim, (o local) onde podemos nos encontrar entregues ao ceticismo, tornando a própria percepção da vida cotidiana como uma cena de transe e ilusão (tradução nossa)

Apesar de não ter, até o momento da entrevista, contraido o coronavírus, Margarida teve sua vida afetada nas três dimensões apontadas pela autora. Em um primeiro momento, suas funções como mãe continuaram as mesmas, uma vez que permanecia responsável por cozinhar para a família e cuidar dos afazeres domésticos. No entanto, tanto o desemprego como a crise financeira advinda da pandemia e da gestão neoliberal brasileira frente à crise e, posteriormente, a sua gravidez, a levaram a repensar sua vida e conceber uma outra relação com sua família e entorno. Tudo isso a levou a um estado de desilusão e medo frente ao futuro, que a fez, segundo seu próprio relato, esquecer da alimentação das filhas e vagar sem rumo pelas ruas da favela que habitava. 

No caso de Isabel, podemos pensar na transformação da sua relação com sua família e com os ambientes que ultrapassavam a porta da sua casa a partir da pandemia de modo geral e do seu adoecimento em particular. Sua família passou a tomar mais cuidado dela e preocupar-se mais com sua saúde. Tornou-se uma pessoa bem mais caseira e evitava espaços fechados, primeiro com as medidas de distanciamento social, e mesmo depois que elas foram flexibilizadas. Ganhou um medo latente de morrer e, com isso, gerar sofrimento em sua filha; também de não ser capaz de “terminar de criá-la”. 

Dessa forma, a vida cotidiana tal como apontada por Das, se tornou para ambas as interlocutoras umas espécie de transe, onde o que era habitual, deu lugar a uma sensação de aflição, ou angústia, frente ao medo daquilo que estavam atravessando e principalmente daquilo que ainda estava por vir. (Das, 2015). 

Outro ponto no qual se encontram e, ao mesmo tempo, se distanciam diz respeito à maternidade. Para ambas as mulheres, ao falarem sobre futuros incertos e projeções em um momento de crise, exercer a condição de mãe se destacava como uma preocupação. Isabel aponta para o medo de morrer e de deixar sua filha adolescente sozinha com a culpa de ter “transmitido” a doença para sua mãe. Enquanto Margarida se preocupa com as condições possíveis para a criação de suas filhas e do bebê que ainda está para nascer.

A forma como o coronavírus atravessou nossas duas protagonistas foi distinta, em decorrência de suas trajetórias particulares e, principalmente, da lacuna sócio-econômica que as dividia. Enquanto a história e o sofrimento de Isabel, mulher branca oriunda das camadas médias apontam para uma preocupação com as possíveis consequências de sua morte, o relato de Margarida, mulher negra e periférica, demonstra uma angústia relacionada a como viver em um cenário pandêmico e/ou pós pandêmico.  

Por fim, apontamos que, apesar de a pandemia do novo coronavírus ter sido um evento crítico vivenciado em escala global, tanto seus impactos concretos quanto as afetações subjetivas advindas deste foram vivenciadas de formas diferentes, mesmo em âmbito local.  Marcadores sociais da diferença, como classe, raça e questões territoriais apareceram nas análises de nossas pesquisas como determinantes nas vivências de nossos interlocutores.


Notas de la ponencia:

1. Referências bibliográficas formatadas de acordo com as normas ABNT ( Associação Brasileira de Normas Técnicas)

Bibliografía de la ponencia

Bauman, Z. A Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2015

Biehl, J. Descolonizando a saúde planetária. Horizontes Antropológico [On line], 59, v. 27, p. 337-359, 2021. Disponível on line em 25 abril 2021, consultado em 28 de abril 2024: http://journals.openedition.org/horizontes/5259.

Birman, J. O trauma na pandemia do Coronavírus: Suas dimensões políticas, sociais, econômicas, ecológicas, culturais, éticas e científicas. Civilização Brasileira. 2020 Edição do Kindle. 

Bógus, L. M. M.; Magalhães L. F. A. Desigualdades Sociais  e espacialidades da COVID-19 em regiões metropolitanas. Caderno CRH v. 35 p. e022033, 2022.

Brasil de Fato; Leia a integra do Relatório Final da CPI da Pandemia apresentado por Renan Calheiros no Senado. Brasilia, DF, 2021 Disponivel em: https://www.brasildefato.com.br/2021/10/20/leia-a-integra-do-relatorio-final-da-cpi-da-pandemia-apresentado-por-renan-calheiros-no-senado. Ultimo Acesso em: 29 fev. 2024

Das, V. Affliction: Health, Disease, Poverty. New York: Fordham University Press, 2015.

Ferreira, J. F.; Paraiso, E. B. P. Nuances do sofrimento: narrativas de experiências sobre a pandemia da covid-19. in: XIV Reunião de Antropologia do Mercosul : reconexões e desafios a partir do sul global,  2023, Niterói, Anais eletrônicos [coordenação Renata de Sá Gonçalves, Felipe Berocan Veiga]. -- São Paulo, SP : Síntese Eventos, 2023. Disponível em: https://www.ram2023.sinteseeventos.com.br/anais/trabalhos/lista?simposio=169 

Godoi, M. S. Concentração de renda e riqueza e mobilidade social: a persistente recusa da política tributária brasileira a reduzir a desigualdade. Revista de Informação Legislativa: RIL, Brasília, DF, v. 59, n. 235, p. 61-74, jul./set. 2022. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/59/235/ril_v59_n235_p61

Herzlich, C. A problemática da representação social e sua utilidade no campo da doença. Physis, Rio de Janeiro, v. 15, supl. p. 57-70, 2005.

Kleiman, A.; Das, V.; Lock, M. M. Social Suffering. Berkeley, Calif: University of California Press, 1997.