Notas sobre menstruações encarnadas:

SP.65: Corporalidades, ontologías relacionales y metodologías colaborativas

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Eloyza Tolentino Universidade Federal do Estado do Rio Grande do Norte

Creditos Adicionales

Nombre Pertenencia institucional Pais
Eloyza Tolentino Soares Universidade Federal do Rio Grande do Norte Brasil

Seguindo corpo, consumo e outros fluxos menstruais

Para compreender os caminhos em que este trabalho [1] [2] foi desenvolvido, apresento alguns elementos que foram importantes durante a sua construção. Neste sentido, trago um debate que transpassa o que está na letra na lei, compondo uma rede de agentes que seguem um curso também através de objetos – produtos de consumo – que moldam e, se por um lado ampliam a liberdade de um corpo menstruado fazer parte desta sociedade, por outro, exercem controle e higienização da menstruação. Na segunda seção do texto, apresento as reações que aconteceram diante do veto presidencial ao “PL dos absorventes”, reverberando em discussões sobre como a menstruação é vista em ambientes públicos, sejam eles físicos ou virtuais. Desta forma, apresento reflexões iniciais que fazem parte da minha pesquisa de doutorado, trazendo dados que estão em processo de análise e problematizações.

Ao falarmos de corpo, é importante lembrarmos que este é o local onde vivenciamos o nosso primeiro território,  sendo este atravessado e construído através das políticas, de costumes e contextos sociais diversos. Neste sentido, a partir dos feminismos comunitários, Lorena Cabnal (2010), uma das percussoras do conceito de corpo-território fala sobre a importância de reconhecermos este corpo e, através dele, reivindicarmos nossos direitos, reconhecendo potências, desconfortos e agências que nos habitam.

Ao caminhar pelas perspectivas de uma etnografia encarnada, me inspiro nas colocações de Silva Nascimento (2019), a partir do momento em que transito e escrevo num campo onde afeto e sou afetada pela passagem do sangue menstrual no meu corpo, desde uma perspectiva que traz uma visibilidade geradora de inúmeros repúdios, mas também de repleta pela potência dos encontros e estranhamentos.

Observar a menstruação enquanto um agente que é atravessado por múltiplos campos, fez com que esta pesquisa fosse seguindo corpo, menstruação, leis, objetos e padrões de consumo que mudam conforme seus contextos sociais e históricos, além de serem influenciados por questões externas, como afirma Mary Douglas (2007, p.25). A relação entre menstruação e o meio no qual está inserida, varia não apenas entre pessoas que menstruam, mas existe influência do trabalho, da casa, da rua e das pessoas que, direta ou indiretamente, possuem alguma relação com esse sangue.

Inicialmente, comecei a percorrer imagens que traziam um ativismo realizado em ambientes digitais, tendo em vista a realização das observações que faço sobre #pobrezamenstrual, trazendo  o instagram como ponto de partida para as reflexões. O ativismo menstrual através do instagram já vem crescendo há alguns anos e as redes sociais estão sendo utilizadas como forma de denúncia, de divulgação de conhecimento, além de o sangue menstrual estar sendo difundido nas suas mais variadas nuances: através de pinturas artísticas, no corpo, ou como forma de reivindicação política. As controvérsias em torno da menstruação enquanto um campo de batalhas e sua exposição em espaços públicos e digitais vem chamando a atenção nos últimos anos, principalmente através rápida divulgação de postagens na internet. Neste sentido, podemos compreender que

A internet é marcada desde o seu início pela interferência de seus usuários, por parte de expressão de suas opiniões, manifestações e sobretudo, pela composição constante de novos conteúdos, bem como pela reconfiguração dos já existentes. Até aqui tivemos meios de comunicação que eram dirigidos para a audiência. Agora com a internet, temos uma mídia na qual a audiência tem participação efetiva e marcante como autora, promotora ou detratora dos conteúdos. (Borges, 2017, p.118)

O instagram, espaço onde realizo grande parte das minhas observações, está nesse grande palco chamado internet. Por trás de uma tela, com poucos cliques, uma postagem pode viralizar. Foi o que aconteceu com a hashtag “pobreza menstrual”, em 2021, quando ocorreu a votação de um projeto de lei que previa, entre outas coisas, a distribuição de absorventes para pessoas que menstruam e estão em situação de vulnerabilidade. O projeto tinha outros artigos relevantes, os quais não vou me deter aqui, mas o que tomou conta das redes sociais foi o objeto, uma coisa, um produto de consumo: o absorvente.

Durante os anos da pandemia, diversas vaquinhas online surgiram com o objetivo de angariar fundos para conseguir absorventes e distribuir para quem estava precisando. Além das vaquinhas, pessoas se juntavam em coletivos e pediam doações de absorventes. O apelo midiático girou em torno do que estava sendo intitulado como “pobreza menstrual”. As imagens retratavam ausência de recursos para conter a menstruação: mostravam miolo de pão, jornais velhos manchados de sangue, pessoas em sofrimento com dores de cólica menstrual e em situação de cárcere. A pobreza, então, passa a ser atrelada à menstruação e ao absorvente, item essencial para a gestão do sangue durante o período menstrual.

Comecei, então, a observar as rotas que os absorventes percorriam e as marcas que deixavam pelo meio do caminho, através da observação em ambientes digitais. Ao olhar de forma mais atenta para esse objeto, percebi a infinidade de tecnologias construídas para o controle da menstruação: os paninhos, absorventes com e sem aba (sem contar as variações entre noturno e diurno), absorventes internos, coletores, discos, esponjas, calcinhas, maiôs e absorventes ecológicos. Sendo assim, opto por seguir apenas os absorventes para compreender a trama onde estão emaranhados,

(...)pois seus significados estão inscritos em suas formas, seus usos, suas trajetórias. Somente pela análise destas trajetórias podemos interpretar as transações e os cálculos humanos que dão vida às coisas. Assim, embora de um ponto de vista teórico atores humanos codifiquem as coisas por meio de significações, de um ponto de vista metodológico são as coisas em movimento que elucidam seu contexto humano e social. (Appadurai, 2008, p.17)

Olhar para os absorventes me levou a compreensão de alguns movimentos relacionados à menstruação. Citei por cima uma lista de produtos com os quais já tive contato de alguma forma, seja utilizando ou através da internet. Todos esses objetos menstruais são marcadamente regidos por questões limitam ou ampliam o os seus usos, seja por algum motivo financeiro para o acesso, mas também porque alguns itens exigem um conhecimento específico para o seu uso. Para Appadurai (2008, p.54), a história social das coisas e suas biografias culturais não podem ser vistas como assuntos separados. As coisas e sua relação com a sociedade, vão sendo construídas e moldadas no decorrer de suas histórias.

Quando pensamos em paninhos menstruais, utilizados na época da minha avó e da minha mãe, nos remontamos a escassez, pobreza menstrual ou consciência ambiental? Nenhuma dessas categorias eram refletidas naquele período, apesar de a menstruação não deixar de ser um tabu e precisar ser escondida das outras pessoas da casa. Além disso, se o paninho era reutilizável, ele precisava ser lavado para que estivesse pronto para o início do próximo ciclo menstrual. Logo, lembramos de água, recurso que nem todas as pessoas possuem. Certo dia, uma colega de classe comentou sobre o uso de produtos menstruais e pessoas em situação de rua. Ela disse que os absorventes internos são preferidos, ao invés dos absorventes convencionais. A justificativa é porque algumas pessoas não possuem calcinha – ou algum outro item – que possa segurar o absorvente. Os absorventes internos também trazem consigo problemáticas relacionadas ao seu uso, pois podem causar a síndrome do choque tóxico, levando algumas pessoas a morte.

Durante as observações em campo, andei lendo comentários relacionados à distribuição de itens menstruais para pessoas em vulnerabilidade social. Um deles trazia a incrível ideia de distribuir coletores menstruais para pessoas em situação de rua, pelo fato de serem reutilizáveis, logo, uma boa alternativa para quem usa e também para o meio ambiente. Mas quem deu a ideia esqueceu de comentar alguns fatores essenciais: água e conhecimento sobre o corpo. Para o uso do coletor menstrual, uma mercadoria menstrual que promete ser inovadora – e de fato é para algumas pessoas -, é necessária uma série de passos para o seu uso saudável.

O coletor menstrual é um copinho de silicone, em formato ovalado que é inserido na vagina durante o período menstrual. Existem algumas técnicas para sua inserção, visando aproveitar o melhor uso do produto. Caso não seja inserido de forma correta, ele pode gerar desconforto e também fazer com que a menstruação vaze. Existem alguns precedentes do coletor menstrual, como é o caso do saco catamenial:

Vários protótipos de dispositivos menstruais foram patenteados desde o século XIX sem nunca terem sido fabricados quanto menos comercializados. É o caso do “saco catamenial”, registrado pela primeira vez em 1867 por um homem identificado como S. L. Hockert; pode ser considerado um predecessor dos coletores por prefigurar a ideia de um objeto de uso interno que recolhesse o sangue menstrual, mas também apresentava características idiossincráticas como um fio rígido que atravessa o canal vaginal, acoplado por um prego a um cinto em torno do abdômen. (Wons, 2019, p.67-68)

Em seguida, outras reformulações do que hoje chamamos de coletores menstruais, vão sendo apresentada. Diferente do “saco catamenial”, um novo protótipo foi desenvolvido por uma atriz e possuía o objetivo de, entre outros fatores, esconder totalmente o sangue e não gerar incômodos durante performances:

Leona Watson Chalmers, atriz e cantora, vinha desde 1935 elaborando um dispositivo que a permitisse atuar sob as fortes luzes dos holofotes em figurinos diáfanos e alvos sem ocasionar manchas nos tecidos ou marcas de cintas e fivelas sob as roupas. Ela desenvolveu um modelo que inovava em relação aos sacos catameniais catalogados até então, pois sua prioridade era que o dispositivo se sustentasse autonomamente através da anatomia do canal vaginal, dispensando a necessidade de apetrechos externos que dificultavam seus movimentos nos palcos. (Wons, 2019, p.69)

Quando comecei a usar o coletor menstrual, em 2013, era difícil a sua compra. O acesso precisava ser realizado através da internet, pois não existia a venda em lojas físicas. Ao utilizar o coletor menstrual pela primeira vez, senti que ele se perdeu dentro de mim. Fiquei levemente nervosa, mesmo tendo assistido uma infinidade de tutoriais para aprender a manusear. Um outro ponto é que simplesmente esquecia que estava menstruada, o que para mim era bom naquele período. Sempre tive um fluxo intenso e, ao sair de uma posição para outra, sentia que uma cachoeira de sangue saía da minha vagina e o medo do vazamento era constante. O coletor me trazia segurança, mas exigia de mim um conhecimento de fisiologia pélvica e uterina para que eu compreendesse se o meu colo do útero era baixo ou alto, se seria adequado para aquele objeto.

Na internet, podem ser encontradas diversas informações imagéticas e audiovisuais sobre o seu uso. Manusear um coletor menstrual não é simples e requer um capital intelectual para a iniciação ao produto. Citei por cima alguns pontos que vão delimitando os usos dos produtos menstruais conforme vão sendo localizados socialmente, entrando em várias camadas do consumo menstrual. Para Appadurai,

Mercadorias representam formas sociais e partilhas de conhecimento muito complexas. Em primeiro lugar, e grosso modo, tal conhecimento pode ser de dois tipos: o conhecimento (técnico, social, estético etc.) que integra a produção da mercadoria; e o conhecimento que integra a ação de consumir apropriadamente a mercadoria. O conhecimento de produção interpretado em uma mercadoria é bem diferente do conhecimento de consumo que é interpretado a partir da mercadoria. É claro, essas duas interpretações irão divergir proporcionalmente ao aumento da distância social, espacial e temporal entre produtores e consumidores. (Appadurai, 2008, p.60)

Na vida social dos “protetores” da menstruação, podemos perceber como esses produtos foram sendo moldados conforme os contextos em que se encontravam, seja de espaço, tempo ou sociedade. É possível notar que a menstruação vai sendo construída através do controle que é exercido sobre esse sangue, sobre o corpo que menstrua. Esses objetos, repletos de marcadores de gênero, raça e classe, vão se adaptando às demandas do mercado, dos públicos específicos para cada tipo de coisa menstrual requerida por determinadas realidades.

Desta forma, é importante compreendermos como o padrão de consumo e de controle menstrual foi sendo gerido pelas marcas publicitárias e empresas multinacionais, observando a sua transformação ao longo dos anos:

Con la aparición de las toallas y los tampones industriales, esa gestión menstrual no sólo se estandarizó sino que se hizo más práctica e higiénica, especialmente a medida que los diseños de éstos fueron mejorando. Además, dado que la efectividad para ocultar cualquier señal del cuerpo menstrual se incrementó con el uso de estos productos “modernos”, se redujo la ansiedad que generaba la posibilidad de que algún indicio de existencia del cuerpo menstrual quedara expuesto en público.  (Tarzibach, p.9, 2017)

A menstruação - tal como as pessoas que menstruam – foi sendo escondida, seguindo passos que merecem atenção. Eugenia Tarzibach (2017) realiza um grande apanhado sobre a história de alguns produtos que fazem parte da gestão menstrual. A autora traça um percurso entre Estados Unidos e Argentina para comentar sobre questões referentes a gestão menstrual. No entanto, gosto de relembrar a forma como a  minha mãe me ensinou a usar os paninhos, comentando que isso sempre fez parte da sua vida enquanto alguém que morava na zona rural de Mossoró/Rio Grande do Norte - Brasil . Trabalhar na cidade não era requerido naquele período e esse fator exercia influência sobre como a menstruação era gerida, tendo em vista que ela ficava em casa na maior parte do tempo. Em nossas conversas, nunca veio o assunto sobre escassez ou pobreza menstrual. Esse é um ponto que tenho problematizado na construção do texto da tese de doutorado, onde busco perseguir os rumos do que foi categorizado enquanto pobreza menstrual através da grande mídia.

A entrada desse corpo que menstrua no mundo do trabalho, a saída do privado – relações de casa - para o público, exige que esse corpo seja modulado aos olhos dos outros, tendo em vista a indisciplina e o não controle do sangue menstrual. Sendo assim,

(…)la descartabilidad la característica que hizo sumamente atractivos a estos nuevos productos. En lo concreto, aumentó la practicidad para desechar la sangre y los productos. Este beneficio se desplazó simbólicamente en la posibilidad de deshacerse de un cuerpo menstrual pasado de moda que, por utilizar artículos reusables, era descubierto más allá de la propia voluntad y, “por su naturaleza”, limitaba las posibilidades de libre circulación de las mujeres por el mundo público. Algo así como si el desecho de los productos y la sangre hubieran permitido descartar (en el sentido de una desidentificación) un viejo cuerpo menstrual que era considerado una causa “natural” e irremediable de desigualdad social de las mujeres con respecto a los hombres. (Tarzibach, 2017, p.9)

Os absorventes tornaram-se essenciais à vida desse corpo que sangra e precisa ser adestrado conforme as regras de uma sociedade onde o sangue menstrual é visto como impuro. As tecnologias de controle deste sangue nem sempre são acessíveis, seja devido ao custo ou ao conhecimento para utilizá-las. Ainda que fossem, sempre existirá a possibilidade do vazamento da menstruação. A marca visível deste fluido corporal é vista como sujeira, motivo de vergonha e julgamento por parte de quem vê. A construção social da menstruação é atormentadora.

Se num período histórico a menstruação era invisibilizada, representada com o sangue em tom azul nas propagandas publicitárias, se os absorventes eram comprados escondidos e com muita vergonha, a propaganda midiática inicia outros rumos para fortalecer a venda dos produtos menstruais.  Em 2023, fiz um curso sobre menstruação que foi financiado pela Kimberly Clark, uma multinacional que faz parte das indústrias femcare e que inicia sua história com os absorventes no período pós-guerra:

Las toallas femeninas manufacturadas y descartables como objeto industrial de consumo masivo fueron las Kotex de Kimberly Clark publicitadas en 1921 en el Ladies Home Journal (Estados Unidos). La historia de su surgimiento constituye un ejemplo paradigmático del modo en que el cuerpo reproductivo de las mujeres fue colocado al servicio de la maximización de ganancias empresarias y de cómo un producto creado para la guerra fue adaptado para su uso civil en la posguerra. (Tarzibach, 2017, p.23)

A produção dos absorventes Kotex veio devido a uma possível decadência da produção enfrentada pela Kimberly Clark. De acordo com Tarzibach (2017), houve um aumento dos preços de algodão devido a emancipação dos escravos durante a Guerra Civil norteamericana (1915). Assim, a multinacional começa a fabricação de cellucotton, que prometia substituir o algodão, além de ser mais barato e mais eficiente. Esse produto era vendido em hospitais e, a partir da entrada dos EUA na primeira guerra mundial, em 2017, a multinacional começa a vender o item para a Armada Norteamericana e Cruz Vermelha. No entanto, o contrato de fornecimento de cellucotton foi cancelado e a Kimberly Clark se viu em meio a uma grande perda de um produto que não tinha outro fim para o seu uso. Desta forma, reinventa-se o seu uso e são criados os absorventes menstruais (Tarzibach, 2017, p.23-24). Assim,

En 1920 creó una subsidiaria, Cellucotton Products Company, para lanzar la campaña publicitaria de Kotex y de esa manera prevenir que la reputación de Kimberly Clark se comprometiera por presentar este producto que apuntaba a la menstruación. También evitó colocar la palabra “toalla higiénica o sanitaria” en la publicidad, incitando a que las mujeres las solicitaran a los vendedores de las tiendas bajo el “sonido neutro Kotex”, un nombre de marca que sintetizaba la similitud del cellucotton con el algodón, Co-Tex, “cotton-like-texture”. (Tarzibach, 2017, 24-25)

É interessante pensar que a mesma empresa que um dia quis prevenir a sua reputação e não colocar o nome menstruação em sua marca, financiou um curso sobre educação menstrual para 30 pessoas que menstruam. Esse movimento representa que o mercado menstrual tem se reinventado, junto à demanda das pessoas que consomem estes produtos. A Intimus Gel, representante da Kimberly Clark no Brasil, traz em suas redes sociais conteúdos educativos relacionados à menstruação e ao corpo da mulher, através de tons divertidos e atraentes o público jovem. Numa cor predominantemente rosa, transparecendo uma generificação de conteúdo, o instagram desta empresa traz como estratégia de marketing um diálogo aproximado ao público. Fala-se abertamente sobre menstruação, corpo, gênero, raça e emponderamento feminino. No entanto,

(…)las primeras publicidades de las toallas Kotex de Kimberly Clark también fundaron la retórica de la protección femenina (con fuertes connotaciones masculinas), garantizada por la ciencia y los soldados desde la metaforización del cuerpo de las mujeres como campo de batalla y la menstruación como un enemigo que debilitaba y victimizaba a la mujer. (Tarzibach, 2017, p.25)

Mesmo durante a criação dos primeiros absorventes, existia uma contrapartida patriarcal envolvida. Ao analisarmos a pesquisa realizada por Tarzibach, podemos perceber que a menstruação isolada não é um problema, e sim a forma como as pessoas se relacionam com esse fluido. Não há como isolar a menstruação se ela faz parte de um corpo e, não há como isolar este corpo se ele faz parte de uma sociedade. O mecanismo utilizado é o aprimoramento das tecnologias menstruais para que elas facilitem a vida de quem menstrua. Mas essa facilidade gira em torno do manuseio do sangue menstrual e das suas possibilidades de vazamento, de uma sujeira em público. Optei por não utilizar a palavra sujeira entre aspas, pois este sangue é percebido por muitas pessoas enquanto sujo, impuro, que precisa de “protetores” e higienização constante.

Com o avanço dos movimentos feministas e a disseminação dos conteúdos sobre menstruação nas mídias sociais, a relação entre corpo e menstruação foi sendo alterada em alguns nichos. A partir da inserção dos coletores menstruais no mercado brasileiro, em 2010, a proximidade com o sangue tornou-se literalmente mais palpável. Não há como retirar o coletor do canal vaginal sem que se toque no fluido. A partir deste produto que coleta o sangue, outros usos passaram a ser direcionados a ele, para além do simples descarte, como acontece com os absorventes descartáveis. Alguns grupos iniciaram movimentos chamados como o “plante sua lua”, que significa entregar o sangue à terra, como fertilizante para plantas ou fazendo referência a um ritual de transição entre ciclos.

Inicia-se também um movimento contra o uso de absorvente descartáveis, pois estes são prejudiciais ao meio ambiente, além de trazerem materiais tóxicos na sua composição. As empresas dos absorventes descartáveis que antes não produziam estes produtos reutilizáveis, aderiram à causa, pois

Com o deslocamento da definição da questão ambiental, da produção para o consumo – seja através da estratégia de consumo verde ou de consumo sustentável -, os consumidores, individualmente ou organizados em associações, passaram a ser vistos como um dos principais atores deste processo, considerados ora culpados, ora responsáveis, ora principais agentes de ação e transformação e, portanto, chave para busca de soluções. Neste sentido, ações individuais conscientes, bem-informadas e motivadas por “valores ambientalizados” aparecem como uma nova estratégia para produzir mudanças em direção à utopia da sociedade sustentável. (Portilho, 2005, p.163-164)

As estratégias de mercado para venda de produtos menstruais vão sendo adaptadas ao momento histórico em que vivem. Os absorventes descartáveis não pararam de ser vendidos e, pela facilidade do seu manuseio, continuam a ser consumidos por boa parte da população. No entanto, surgiu a consciência do ser humano enquanto um consumidor responsável, agente das suas atitudes, que se preocupa com sustentabilidade. Assim, as grandes marcas aproximam-se de todos os nichos possíveis: desde aquelas pessoas que compram absorventes descartáveis pela praticidade ou necessidade, até aquelas que preferem coletores, calcinhas menstruais ou outros meios reutilizáveis.

Além disso, existem também experimentações com o freebleding, que significa deixar o sangue descer livremente ou utilizar técnicas do corpo, como a contração do canal vagina, para conter a menstruação e só soltá-la no momento desejado. Vale salientar que as pessoas que praticam o menstruar livre, possuem suas localizações sociais determinadas e praticam isso porque possuem também este caminho como escolha. Utilizar o sangue menstrual propositalmente como ferramenta política e não invizibilizá-lo requer coragem e conhecimento. Muitas dessas manifestações artístico-políticas são postadas em redes sociais e estão sujeitas a diversos tipos de reações. Uma reação típica, inclusive, da própria plataforma do instagram, é banir postagens relacionadas à menstruação, seja porque contém sangue ou porque trazem nome menstruação, menstrual etc. A estratégia utilizada é substituir algumas letras por números e escrever, por exemplo m3nstru4ção, como forma de burlar o algoritmo e seguir criando conteúdo.

Iniciei o texto trazendo problematizações em torno das diversas formas que englobam técnicas, tecnologias, corpo e sangue, pois, essas questões vão moldando e construindo a menstruação e a corporeidade de quem menstrua enquanto algo que pode ser controlado, higienizado e invisibilizado. Os absorventes descartáveis fazem parte da construção de políticas públicas no Brasil, sendo colocado na lista de itens prioritários a serem distribuídos em algumas instituições públicas.

Ao seguir um percurso de confronto com o público, visibilizando – seja por agência da pessoa que quer dar essa visibilidade, seja pela própria menstruação que vazou pela roupa - o sangue menstrual e o corpo enfrentam múltiplos embates que geram vergonha, desconforto e, algumas vezes, o adoecimento.

Menstruações encarnadas

Antes de relatar a vivência com o sangue menstrual encarnado e publicizado, gostaria de expor a chave de análise que serviu como base para as reflexões a seguir. Busquei pensar, a partir de Silvana Nascimento (2019), sobre como alguns corpos são atravessados e fortemente marcados pela forma como são construídos a partir dos seus contextos socioculturais. Segundo a autora, ao participarem de seus campos de pesquisa, as pessoas pesquisadoras são lidas por diversas lentes que podem contribuir de forma positiva ou negativa para elaboração dos trabalhos que são construídos.

Ao falar sobre menstruações, vale salientar que nem todas as sociedades, como aponta Cecília Sardenberg (1994), irão tratar o sangue menstrual enquanto algo impuro e/ou assustador. Esta invisibilização do sangue, bem como dos corpos, ocasiona uma série de implicações à saúde física e mental das pessoas que vivenciam este momento. Segundo a autora: “a menstruação possui uma variável simbólica entre sociedades e épocas distintas” (Sandenberg, 1994, p. 335). Assim, este processo de sangrar mensalmente torna-se um marcador sócio-biológico, atravessado não apenas pelas questões de gênero, mas também de classe e raça, além das diferenças intergeracionais.

Pensar sobre “menstruações encarnadas”  dentro do ativismo veio como uma tentativa de trazer à tona uma experiência de ruptura entre privado/público vivenciada com “sangue menstrual” (entre aspas, já que foi utilizada tinta vermelha) no centro da cidade, em Mossoró/Rio Grande do Norte - Brasil. Primeiro, uma definição do que significa encarnar: Verbo intransitivo: encarnar significa criar carne; cicatrizar; avermelhar; tomar forma humana; entrar num corpo; toma vulto ou forma.

Sendo assim, nesta perspectiva, encarnamos a menstruação através do significado de avermelhar, e não necessariamente de tomar forma humana, tendo em vista que estamos falando de um fluido corporal, mas trazendo à vista, dando forma, encarnando num formato literal, corporificando-a do lado de fora, ao invés do lado de dentro, escondido em algum item que torna a menstruação invisível.

Este relato de experiência parte de uma vivência realizada na cidade onde moro, em 2021, após o veto presidencial ao que se chamava à época de “PL dos absorventes”, mas que não se tratava apenas de distribuição de absorventes e trazia outras propostas, como a educação sobre saúde menstrual nas escolas. No entanto, a propaganda midiática digital em torno de imagens apelativas e sofridas sobre o que se chamava de “pobreza menstrual” girava em torno da distribuição de absorventes.

A Lei nº 14.214, atualmente aprovada pelo então presidente Lula, possui uma série de dificuldades em sua implementação, bem como algumas problemáticas nos próprios artigos do texto que trazem o termo “precariedade menstrual”, por exemplo, mesmo que o título do programa seja “Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual”. Dito isso, não vamos nos ater à análise da lei, bem como as diversas controvérsias envolvidas neste processo.

O objetivo desse relato foi trazer a experiência próxima de vivenciar publicamente o sangue menstrual vazando pelas pernas no centro da cidade; de sentir o que significa o nojo, a vergonha, a inquietação, os olhares de espanto e de curiosidade por parte das pessoas que presenciaram este ato.

O ato não foi uma estratégia pensada, estruturada, de pesquisa ou para gerar dados. Entretanto, ao passarmos por diversos componentes curriculares ao longo da nossa formação em Antropologia Social, estamos em constante reflexões sobre corpo, saúde, doença, performances e demais afetações. Porém, a experiência corporificada, a ação de sair da sala de aula, de análises teóricas e movimentar a rua através do sangue menstrual escorrendo pelo corpo, ativa percepções que só conseguimos nomear a partir do momento em que vivenciamos a prática, a corporificação.

Esse movimento nas ruas de Mossoró foi feito por três pessoas: Eloyza, Bianca e Selva. Utilizar o corpo como um território político foi uma forma de mobilizar olhares e outras ferramentas para reivindicar direitos em torno da menstruação. É importante reconhecer aqui a série de privilégios nos quais eu estava inserida, e, além disso, não romantizamos nenhuma situação de risco. As participantes estavam em grupo, à luz do dia e havia muitas pessoas ao redor. O esperado era a repulsa e o nojo. Foi isso que aconteceu.

Então, nós três saímos, em outubro de 2021, sendo observadas por um colega que iria respaldá-las, caso algo acontecesse, além de realizar a cobertura fotográfica. No percurso do parque municipal até o centro da cidade, menos de 1km, enfrentamos olhares esquisitos, xingamentos, frases como “virou moda agora?”, pessoas falando que era sobre aborto; e outras parando para avisar que suas roupas estavam sujas; algumas outras perguntando, em termos de informação, o que estava acontecendo. A caminhada foi pelo centro da cidade e, depois, elas ficaram imóveis paradas em frente a uma praça – Praça do Pax - que possui um fluxo grande de pedestres, bem como de automóveis.

Ao chegar em casa, uma das participantes do ato serviu-se das suas teorias de análise sobre corpo e sangue, e decidiu publicar uma das imagens no Instagram, que também é utilizado como ferramenta de pesquisa acadêmica. A imagem foi postada junto a um texto explicativo sobre corpo e menstruação, comentando o motivo pelo qual o protesto estava sendo realizado.

Não demorou 2h e a fotografia foi republicada numa dessas páginas sensacionalistas que aparentam ser páginas de informações imparciais, de um jornalismo sério, mas que o que buscam mesmo é gerar polêmica. De certa forma, buscávamos trazer visibilidade ao assunto que, aos olhos de muitos, é polêmico. A página tem em torno de 60 mil seguidores. A foto teve mais de 4 mil curtidas e mais de mil comentários.

A publicação da foto em mídias digitais, falando sobre o movimento realizado na cidade, fez com que a discussão sobre menstruação fosse ampliada a nível municipal – e em algumas cidades do estado, como Macaíba -, além de ter trazido o debate para as mídias televisivas locais.

Considerações finais

Reconhecer o corpo enquanto um território político e uma ferramenta para reinvindicações de pautas sociais, fez com que, sem muitas palavras, apenas com corpo e fluidos sanguíneos, chamássemos atenção sobre um sangue que é visto como nojento, impuro, fedorento e que precisa ser escondido porque as outras pessoas (mesmo algumas pessoas que menstruam) não querem vê-lo – e aqui existe uma série de questões que vão desde disforia relacionada ao sangue menstrual até falta de educação sobre o assunto.

Após o ato, os registros corporais que remanesceram trouxeram análises que nos fizeram pensar sobre como nossos corpos são marcados e controlados por discursos construídos historicamente na ciência, que mascaram e tratam a menstruação como algo que pode ser escondido, sendo inútil, descartável ou que pode ser suprimido, apesar de ser necessário à fase reprodutora que a sociedade clama e exige das pessoas que têm útero: a gestação.

Diante das reflexões apresentadas, este trabalho buscou compreender os espaços públicos e digitais enquanto ambientes que são permeados pela corporeidade, sendo passíveis de análises e problematizações. Além disso, compreender o absorvente para além de uma tecnologia que serve como contenção do fluxo menstrual, possibilitou trazer exemplificações sobre como, ao longo dos diversos contextos históricos e culturais, o corpo que menstrua foi sendo moldado e higienizado conforme os padrões de consumos preponderantes. 

Notas de la ponencia:

[1] O presente trabalho segue as normas de formatação regidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas.

[2] Esta pesquisa foi realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

Bibliografía de la ponencia

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