"Idoso tá renovando. Por isso nao existe idoso". Sexualidades, sociabilidades e envelhecimento por meio das festas de forro no nordeste brasilero.

SP.45: Miradas antropológicas a la salud de mujeres negras/afrodescendientes en América Latina.

Ponentes

Nombre Pertenencia Institucional
Amanda Raquel da Silva Posgrado de Antropología. Universidad Federal do Rio Grande do Norte UFRGN

Esta pesquisa investiga algumas dimensões da vivência de gêneros e sexualidades de indivíduos nas fronteiras etárias dos 60 anos que frequentam festas de forró em Natal e municípios vizinhos, no Estado do Rio Grande do Norte, Nordeste brasileiro, onde eventos de lazer são direcionados a esse público específico. O objetivo do trabalho é conduzir uma pesquisa qualitativa através de uma etnografia dos circuitos de festas e sociabilidades, mais precisamente forrós, cujo público-alvo ou predominante são pessoas consideradas “mais velhas”. Aqui, o forró aparece como estratégia de sociabilidade, de pessoas de classe popular, para as suas sexualidades. Por meio da participação e observações nos eventos, analisarei cenas observadas e outras dinâmicas, inclusive, as falas de mulheres e homens heterossexuais buscando compreender suas percepções em relação ao corpo, sexualidade, afeto, envelhecimento, desejo e expectativas de comportamento nas suas vidas.

Em pesquisa anterior (SILVA, 2019) acompanhei durante anos vários discursos afetivos de mulheres negras, nas faixas dos 50 aos 75 anos de idade, de classes populares, cujo discursos apareceram emaranhados numa teia, como uma espécie de rede afetiva que se tornou significativa para essas mulheres. Ouvi diversas falas sobre namoros, paqueras, estar junto ou não de homens em relacionamentos afetivos, mas nesta fase da vida, a busca afetiva se mostrou de uma maneira diferente das desejadas anteriormente na juventude e na fase adulta. Estar ou não com parceiros é importante para algumas das mulheres, mas a necessidade de se ter pessoas numa troca mútua de cuidados se tornou primordial para todas elas.

Atualmente no doutorado, dou continuidade aos estudos visando que me proporcionem uma compreensão aprofundada das complexidades e nuances das relações afetivas dentro dessa comunidade, mas, agora continuo explorando o tema a partir de outros vieses, pensando em espaços de sociabilidade que intermediam estas relações, através dos forrós e dos eventos: Baile das Viúvas e Viúvos, Forró da Melhor Idade e Forró da Feirinha.

Além desses aspectos, explorarei três cenas onde mulheres negras serão protagonistas, e que ilustrarão dinâmicas observadas nas festas de forró. Nessas situações, destacarei como essas mulheres se apropriarão, em alguns momentos, de atributos associados à suposta “hipersexualização” das mulheres negras. A análise revelará como o desejo se manifesta nos corpos racializados e sexualizados, o que fala também sobre as complexas interações sociais que estarão presentes nesses espaços.

A chegada ao tema

Para contextualizar o percurso que tive para chegar ao tema, é necessário cronologizar que pesquiso o tema do envelhecimento há mais de seis anos e isso partiu através do meu trabalho enquanto agente comunitário que se seguiu em paralelo ao mestrado em Antropologia Social. Ainda na função de Agente Comunitário, atuando em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), percebi que o reconhecimento da sexualidade na velhice não tem vindo acompanhado de uma incorporação efetiva dessa perspectiva nos programas de atenção à saúde. A falta de orientações, políticas e programas em matéria de sexualidade nessa fase da vida é potenciada, às vezes, pelas mesmas pessoas que poderiam ser o público dessas políticas públicas em saúde, em razão de vários motivos diferentes. Quer dizer, à falta de interesse, de investimento ou descaso dos programas de saúde voltados para esse aspecto da saúde na terceira idade, podemos acrescentar o medo de julgamento, a vergonha, a culpa ou a falta de conhecimento dessas pessoas sobre seus direitos e também sobre seus desejos.

Por vezes, parcelas da sociedade passam a ver idosos que relatam ter vida sexual ativa como imorais, inadequados, até mesmo anormais e, em não poucas ocasiões viram objeto de piada nos meios de comunicação e na cultura visual de redes sociais. Nessas experiências prévias de pesquisa e observações, e segundo a literatura consultada, existiria nos programas de atendimento em saúde uma tendência a ignorar a sexualidade dos mais velhos. Isso não significa que em outros locais sociais não seja promovida a sexualidade na terceira idade como uma fórmula para avaliar uma suposta velhice saudável ou que mesmo nos programas de saúde não possa se difundir essa ideia, sem que, porém, seja efetivada de fato em práticas concretas. Ocorre, por vezes, uma tendência a negligenciar o atendimento em saúde sexual para pessoas “mais velhas” que exercem a função de guardiões de uma norma social e moral e da sua reprodução. Por isso, o desenvolvimento de pesquisas em busca de analisar diferentes paradigmas que coexistem sobre a sexualidade na velhice, pode ser interessante para esse campo de estudos.

Os dados do campo me levaram, então, a realizar um enquadramento que considerasse, simultaneamente a classe e a faixa etária, bem como o contexto regional, a partir dos locais indicados por diversas como espaços de paquera para esse público. A partir disso, acompanhar festas abriu outras possibilidades, assim como permitiu o encontro de novas pessoas interlocutoras. Com elas, já individualmente em suas casas, observações e entrevistas foram feitas. Assim como mantive o contato via WhatsApp, que permitiram tirar dúvidas que surgiam no decorrer das análises ou até mesmo perguntas que achei relevantes de serem feitas, mas só pensadas depois.

Ou seja, através da busca de interlocutores e na tentativa de compreender melhor os cenários de paquera para esse público, encontrei espaços de festas e forrós com um público predominante de pessoas chamadas de “coroas”, “maduras”, “mais velhas”, “na terceira idade”, entre outros termos que ouvi durante o trabalho de campo. A partir daí, passei para um novo cenário de interação com os sujeitos, agora em espaços de socialização em que eu não estava sozinha enquanto pesquisadora e entrevistado, mas sim numa dinâmica de interação com grupos de outras pessoas, em um contexto de lazer compartilhado. Nesses locais, os comportamentos se fazem, além do que se dizem, ou seja, além de falar sobre si, essas pessoas vão se mostrando, dançando, cantando, bebendo, curiosas para saber do que falamos, chamando a atenção de outros e a minha também. A minha presença em si já causa curiosidade, já que não são muitas as pessoas jovens frequentando tais festas. O tom das conversas ocorre através de diálogos rápidos e em alguns momentos pegava o contato para uma entrevista em outro local e outro dia. Ainda assim, desde as conversas no campo, seja enquanto dançava ou cruzava o espaço, mesmo entre as músicas, muitas informações começavam a surgir, lançando luz sobre as vivências da sexualidade. Além disso, esses elementos discursivos relacionados à sexualidade se tornaram evidentes nesses ambientes.

Através de novos contatos obtidos nessas festas, passei a trocar mensagens, que geralmente são figurinhas ou áudios via WhatsApp. Em seguida cheguei a ter algumas conversas pela própria rede e outras marquei de encontrar pessoalmente novamente. Com isso, já tinha algumas informações iniciais, pois elas (até aquele momento só havia falado com mulheres) já sabiam que a minha pesquisa é sobre “namoros” e “paqueras”, mas também do que buscavam nessas festas e forrós. Para esse outro momento, agora etnografando locais de socialização e entrevistando mulheres, pude ir diretamente em suas casas. Com elas era notável a sensação de ambas estarmos mais à vontade para as conversas, mesmo ao abordar temas, que muitas vezes ainda são vistos como mais “reservados”. O aparecimento de falas sobre sexo, uso de preservativo, libido, descoberta do clitóris, primeiros orgasmos após os 50 anos de idade, uso ou não do Viagra, infidelidades, entre outros temas, ocorre de maneira fluida, sendo muitas vezes trazidos pela própria pessoa entrevistada.

Perceber as diferenças não só de abordagens, mas ainda de modos de falar, posturas, estratégias para entrevistas, temas que podiam ser tocados ou não sem causar embaraços ou sem pensarem que seria algum tipo de investida ou paquera, e sem que eu tivesse esse receio; evidenciam como metodologicamente, pesquisadoras precisam de estratégias que nos deem segurança e possibilitem um andamento da pesquisa, como nesse caso, quando lidamos com interlocutores homens.

Reflexões sobre a visibilidade do corpo de uma pesquisadora jovem em um contexto forrozeiro

O que significa a posição de uma mulher, jovem e negra pesquisando pessoas com o dobro da minha idade e ainda para falar sobre sexualidade? Nas entrevistas individuais com homens, a partir da primeira conversa pude visualizar algumas estratégias necessárias de como se articular para esses momentos. Para etnografar os forrós havia a necessidade de pensar em estratégias que passaram a ser necessárias, como cuidados com as roupas, com quem dançar ou não, utilizar ou não caderno de campo em mãos nas festas, ter a presença da minha mãe que se tornou fundamental para recepção no campo, entre outras.

Enquanto pesquisadora em trabalho de campo, eu não posso abandonar meu próprio corpo e minha subjetividade como mulher negra e bissexual, entre outros marcadores, no processo de pesquisa. No entanto, a visibilidade não necessariamente comunica minha trajetória. Por exemplo, meus interlocutores na pesquisa não tinham conhecimento da minha orientação sexual e, em diferentes momentos, fizeram suposições sobre a minha sexualidade, presumindo que eu fosse heterossexual. Diante disso, adotei estratégias e optei por não revelar minha sexualidade durante o trabalho de campo, em parte devido a comentários LGBTQIA+ fóbicos que ouvi em alguns momentos, por exemplo.

Enquanto mulher negra, de classe popular, percebo que por meio desse corpo me permito a torná-lo visível, assim como tratado por Nascimento (2019), mesmo que com isso ele seja questionado e alvo quando estou mergulhada nesse processo de experiência de campo. Não é à toa estar em um campo com pessoas de classe popular, assim como eu, e com isso me sinto à vontade, compartilho de modos de falar, apesar da grande diferença de idade. Tenho alguns receios em como abordar as pessoas, e em festas, evito me aproximar de homens, por exemplo, ao desviar de convites para dançar com eles, mas em contrapartida aceito dançar com outras mulheres etc. Com o tempo, a partir de informações só possíveis de serem adquiridas em campo, percebi que algumas atitudes desencadeadas por meus receios e timidez provavelmente me deram maior abertura para entrar em contato e construir certo grau de confiança com algumas mulheres. Isso porque, por exemplo, existem regras veladas sobre a entrada de mulheres jovens, interpretadas como se buscassem relacionamentos com homens mais velhos visando interesses particulares, como no caso de desejos financeiros. Ou seja, mulheres jovens nos forrós geralmente são lidas como “interesseiras”. Além disso, mulheres “mais velhas” me falaram do preterimento afetivo-sexual nessa esfera da disputa. Tal constatação advém desde o momento que não recebem convites para dançar nas festas, quando essas possuem público de diferentes idades. Segundo todas as participantes com quem conversei, homens de idade próximas as delas tem preferência por mulheres mais jovens. Inclusive, duas organizadoras dessas festas consideram necessário a “regra” e moderação da entrada de mulheres jovens, algo que eu não sabia antes de entrar em campo. Ou seja, ao longo das imersões, passei a adquirir diferentes estratégias continuamente, de modo que não passasse por situações constrangedoras e/ou fosse “repelida” por mulheres ou organizadoras e alvo de investidas pelos homens.

Estar em campo é levar em consideração a maneira como posso ser lida e interpretada e pensar como agir estrategicamente visualizando diferentes possibilidades do que possamos ocasionar, mesmo sem ter controle total dessas leituras. Seja em relação às mulheres ou aos homens. Por isso, foi uma escolha pessoal tomar certos distanciamentos de homens nessas festas, não aceitando na maioria das vezes dançar com eles, tanto para me poupar de investidas e paqueras que poderiam ou não acontecer, quanto para evitar possíveis reprovações ou julgamentos das mulheres que busco enquanto interlocutoras e que poderiam me enxergar como motivo de preterimento no campo afetivo com relação aos homens mais velhos. Ou seja, no caso dos homens havia em risco a ideia de mulheres negras disponíveis, relacionando raça, gênero e aqui também a geração, o que abre a análise de como em relação ao gênero ocorre a tendência de homens acharem que o mercado erótico afetivo para eles é infinito, quando as mais novas também entram no espectro de paquera. Enquanto isso, para as mulheres as alternativas vão se reduzindo, o que desencadeia na constatação do preterimento ouvida em campo.

Minha presença como uma mulher jovem poderia potencialmente desencadear não apenas situações desconfortáveis, mas também sentimentos de preterimento e até rejeição, evocando experiências anteriores vividas por essas mulheres, como muitas delas relataram em suas conversas. Além disso, a atitude de alguns homens que demonstravam interesse poderia criar expectativas, possivelmente baseadas em vivências anteriores que os levavam a ver possibilidades de algo acontecer com uma mulher negra de uma faixa etária inferior, entre outras diversas interpretações possíveis.

Nesse contexto, vivenciei diversas situações de abordagens, flertes e toques inadequados, predominantemente protagonizados por homens. Durante entrevistas, enfrentei episódios desconfortáveis, como um deles me ligando em chamada de vídeo, deitado na cama e sem camisa. Outra experiência envolveu um entrevistado insistindo em nos encontrarmos para jantar, chegando a sugerir que conduzíssemos a entrevista dentro de um carro, com as janelas fechadas, alegando que isso proporcionaria uma qualidade de áudio “melhor”. Esses incidentes destacam comportamentos de alguns homens que ultrapassam alguns limites, tentando mostrar a “virilidade” ativa, sem pensar tanto na integridade das pessoas envolvidas.

Quando se é uma mulher com pesquisados homens, pode ocorrer uma visão de que ali se poderia ter uma possibilidade de investida, até mesmo como modo de reafirmação da virilidade. Mas, além disso, quando se tem a sexualidade como objeto de estudo, outros tipos de saias justas podem surgir. Afinal, conhecer um homem de uma faixa etária bastante superior e indagar sobre o uso ou não de Viagra, por exemplo, poderia tornar a conversa embaraçosa ou até intimidar a pessoa entrevistada. Mas, apesar disso, percebi que pessoas mais desinibidas tentavam responder com leveza tais questões. Ainda assim, ouvi em mais de um momento o clássico: “tenho amigos que usam, mas eu nunca”, quando tocado o tema do “azulzinho”. Logo, a diferença de gênero e geração certamente colocava algumas barreiras e códigos não compartilhados comigo da mesma forma que seria com outros homens.

Outras estratégias metodológicas: minha mãe em campo

Ao iniciar com um objeto de estudo, temos a premissa de não sabermos que fatores da vida das pessoas o objeto pode afetar. A influência pode vir por meio de questões de gênero, religião, trabalho, família, geração e é essa última que vi como presente nessas entrevistas: a presença da mãe de pesquisadora intermediando a entrada e manutenção do campo, como pessoa, que mesmo desconhecida naquele campo, representava figura de confiança por ter uma faixa etária mais aproximada dos interlocutores do que eu. Assim, podemos visualizar concepções complexas e relevantes nesse campo sensível das relações.

Quando soube da primeira festa voltada para pessoas “mais velhas” ou da “terceira idade”, também tive a informação de que não era só espaço de sociabilidade, mas local de ludicidades, festas, músicas, danças e cursos. Na minha primeira ida convidei minha mãe para ir comigo. Assumo que esse convite não aconteceu porque pensei que poderia me auxiliar no campo, mas quis somente que ela pudesse ter um momento de diversão, já que estava passando por um momento difícil em sua vida. Além disso, eu não precisaria chegar sozinha na festa, o que também seria uma vantagem. O que eu mal sabia é que sua contribuição ultrapassaria minhas expectativas e se tornaria uma peça importante para minha circulação no campo.

Em alguns dos forrós, existem restrições para a entrada de pessoas mais jovens. Na verdade, ouvi sobre a entrada de mulheres mais novas, no entanto, não obtive informações sobre possíveis limitações para homens jovens. Essas restrições parecem não ser divulgadas publicamente, pois não testemunhei qualquer impedimento durante minha presença. No entanto, uma das organizadoras me informou que deveria ser avisada na entrada caso alguma mulher jovem desejasse entrar. Apesar disso, não presenciei tal situação nos momentos em que estive presente. Contudo, pude sentir um direcionamento maior de olhares em minha direção, especialmente quando fui sozinha em alguns desses momentos.

Assim, ao chegar nas festas com a minha mãe, a impressão que fica é de que eu estou a acompanhando e não o contrário. Estar no campo com a mãe ao lado é estar sujeita a “levar broncas” e esse é só um dos fatos engraçados que acontecem com essa companhia. Inclusive, passei a perceber que as mulheres se sentia mais à vontade para falarem comigo, pois, quando me aproximava, uma das primeiras perguntas que me fizeram é se “aquela” é a minha mãe. Em diversos momentos elogiam, comentam sobre os próprios filhos e coisas nessa linha, mesmo após eu falar que estou ali como pesquisadora. Já com relação aos homens, percebo que recebi alguns convites para dançar ou investidas quando me afasto da mesa em que geralmente fico sentada com ela. Com o tempo, passei a solicitar a presença da minha mãe para várias coisas: me sentir mais segura, propiciar conversas com outras mulheres, conseguir relações de confiança, inclusive para não ser barrada nos espaços pela idade. Agora, minha mãe se tornou uma frequentadora das festas voltadas para essa faixa etária, indo com amigas e construindo novas relações através dos forrós.

Certa vez, enquanto minha mãe dançava na pista, uma mulher se aproximou e perguntou se eu estava acompanhando minha mãe. Confirmei a pergunta, mas nesse caso ela se referia a uma mulher que estava somente sentada em uma cadeira ao meu lado. A pergunta pareceu buscar uma justificativa da minha presença naquele espaço e coincidentemente se confirmou. Desse modo, estar com ela no meu campo de pesquisa e ver a importância de sua figura ali, me traz a reflexão do quanto é importante a percepção constante de que as pesquisas etnográficas definitivamente não seguem o passo a passo de acordo como é planejado inicialmente pelo pesquisador e, apesar de num primeiro momento proporcionar um nervosismo, também traz consigo vários desdobramentos sem que possamos prever.

A receptividade calorosa e o conforto que minha mãe experimentou nesse ambiente destacam não apenas a diferença geracional e etária, mas também questões de classe e raça. Segundo suas palavras, certos elementos do local evocam memórias de sua infância no interior do Estado, mais especificamente, do sertão onde cresceu. Com 59 anos de idade, minha mãe é uma mulher negra de ascendência quilombola, com cabelos curtos e crespos. Um traço notável em seu perfil é o seu largo sorriso. Além disso, é importante mencionar que recentemente passou por um divórcio e está atualmente em um relacionamento.

A partir de algumas situações acredito ser relevante mostrar o importante papel que minha mãe foi ganhando no desenvolvimento dessa pesquisa. Alguns colegas chegaram a me perguntar como a descreveria, se como interlocutora, já que passou a frequentar as festas ou se como pesquisadora, já que me trouxe observações nos eventos e informações do campo frequentemente. A partir disso, passei a considerá-la interlocutora, mas com limitações no aspecto da sexualidade, já que não cheguei a fazer uma entrevista aprofundada com ela tocando explicitamente nessa questão. Contudo, no decorrer desse tempo de pesquisa algo que é bastante evidente é ver como tais festas trouxeram para ela um envolvimento muito similar ao que ouvi de outras pessoas no campo, inclusive ao considerar esses locais não só como espaços de lazer, mas também que promovem a saúde.

Eu observei e achei interessante algumas abordagens de mulheres que se apresentaram, me abraçando e me dando beijos, já perguntando de imediato se a senhora ao meu lado era minha mãe. Também ouvi muitos comentários sobre nossa cor e nossos cabelos crespos, além de indagarem se éramos “daqui mesmo” do Rio Grande do Norte ou se de outro Estado, geralmente se adiantando em perguntar se viemos da Bahia ou do Rio de Janeiro, locais conhecidos pela forte presença negra. Além disso, não foi raro ouvir comentários a respeito da nossa cor e do nosso cabelo crespo. No entanto, para mim, tais observações não denotam que as pessoas negras eram uma minoria naquele ambiente, pois era contrário, sendo inclusive notável a presença de um grande número de pessoas negras. Contudo, o que chamou a minha atenção foi a frequência com que as mulheres negras no evento tinham seus cabelos alisados ou os mantinham muito curtos. Também considerei intrigante o caso de uma amiga, de 64 anos de idade e negra, que por muito tempo planejou me acompanhar em uma dessas festas, mas em uma ocasião desistiu alegando não ter tido tempo naquela semana para “arrumar” seu cabelo, o que implicava alisá-lo. Em outra ocasião, desistiu devido ao medo de estragar seu penteado por causa da chuva naquele dia, receando perder sua elegância antes mesmo de chegar ao evento.

Os forrós

Essa pesquisa tem acontecido no estado do Rio Grande do Norte, localizado no Nordeste do Brasil, na região metropolitana da grande Natal, que comporta a capital e algumas cidades vizinhas. É nesse contexto que faço observações de algumas festas voltadas para pessoas “mais velhas” nas quais o ritmo central é o forró. Desse modo, tem sido possível construir uma pesquisa de campo intensiva em diferentes espaços de socialização de público majoritário nas faixas acima dos 60 anos de idade, mas que em todos a busca primordial das pessoas é pela música, dança, ritmo e festa que se concentram no forró. Logo, para o desenvolvimento da pesquisa, passei a acompanhar esses eventos voltados para esse público majoritariamente “mais velho”, de classes consideradas “populares”, sendo alguns desses locais considerados como do “povão”, termo ouvido em campo e que é uma gíria direcionada para comunidades pobres e de maioria negra. 

O forró é um elemento que mobiliza moradores de algumas regiões do estado e tem um reconhecimento regional importante. É considerado um marco identitário, um símbolo de pertencimento, uma chave de compartilhamento de ideias, um ambiente de interação festiva e um eixo de negociações culturais (TROTTA, 2014). Passei, então, a levantar dados e notas de campo através dessas idas. Por vezes, as observações foram escritas ou enviadas em formato de áudio no WhtatsApp para mim mesma, pois foi visível que em um ambiente de festas o caderninho causava olhares controversos. Em alguns momentos, por exemplo, algumas pessoas se aproximavam perguntando se eu era jornalista e iria fazer uma cobertura do evento. Já em casa, fazia a transcrição de cada um desses áudios e notas no meu caderno de campo.

Inicialmente, pensei em buscar somente conhecer algumas pessoas, trocar contato e marcar para uma entrevista, mas o campo se abriu e mostrou diversas novas possibilidades. Desde conversas aleatórias, convites para dançar, desabafos de mulheres que reclamavam de não ser chamadas para dançar, comentários sobre roupas ou posturas de outras mulheres, admiração por casais, a forma de encarar a dança como saúde etc., foram marcantes em cada uma dessas imersões.

No campo de pesquisa, o forró tem aparecido como marcante na vivência dessas pessoas, nordestinas, do interior ou da capital, que encaram esse ritmo e dança como uma reconexão com a juventude, mas além disso, um gostar pessoal e importante. Para além disso, no decorrer da etnografia ouvi histórias interessantes acerca da sua importância para algumas pessoas. Como saber de um término de relacionamento pelo namorado não gostar de dançar forró; também um homem dizer que é bem difícil ser casado com uma mulher que não dança forró, pois essa é sua maior paixão. Esse último, por exemplo, diz que o grande problema é ela não tentar aprender e que sente muita falta de dançar. Esses são apenas dois exemplos do grau de importância que tem essa dança para algumas pessoas com as quais conversei. Tem sido interessante notar como o forró tem ido muito além da expectativa das paqueras. É uma forma, um meio, mas o objetivo maior e inicial é o dançar, por vezes práticas que haviam sido deixadas de lado com o tempo ou pelos casamentos, como veremos melhor nos próximos capítulos.

Assim, passei a observar essas festas como modo de fazer uma leitura sobre as dinâmicas de paquera e sedução envolvendo o público majoritário desses eventos a partir dessas interações. Isso porque algumas características me atraíram a atenção quando estava empenhada no campo, e passei a utilizá-las como meio de investigar esses circuitos, além de outras características de relações sociais entre pessoas “mais maduras”.

Apesar do forró aparecer de modo transversal, outros tipos de interações ocorrem através dele. Tem sido a partir desse universo que pude me deparar com diferentes percepções sobre relacionamentos, amizades, paqueras, sociabilidades, danças, festas, namoros, sexo, saúde, análise de química entre parceiros ou não, encaixe do passo, se a conversa é boa, entre outras possibilidades que podem acontecer nessas trocas de pares ao longo de algumas músicas. Para além disso, namorar, transar e se divertir trazem consigo uma perspectiva diferente daquela do envelhecimento estigmatizado, anteriormente visto como uma fase de ausência, falta e deterioração.

Para os frequentadores, os dias com esses eventos passam a ser centrais nas formas não só de lazer, mas consideradas como atividades que geram saúde, que “salvam” e afastam as doenças. Por isso, o forró passa a ser uma estratégia também para qualidade de vida e saúde desses sujeitos que o frequentam assiduamente. De todo modo, é sabido que o significado dessas festas é variável dependendo da faixa etária, raça, gênero, orientação sexual etc. Para o caso dessa faixa etária por volta dos 60 anos de idade, tenho visto que sua importância aparece em dois momentos marcantes de suas vidas: juventude e agora numa fase mais “madura”.

Logo, o forró aqui nesta pesquisa é visto como uma das marcas regionais das dinâmicas de paquera e seus significados, como um elemento que mobiliza um itinerário de diversão, sociabilidade, bem-estar, saúde e principalmente namoro e paquera, para os participantes dos eventos voltados para pessoas em um momento mais “maduro” da vida. Ou seja, aqui, o forró é visto como a estratégia de sociabilidade de pessoas mais velhas, de classes populares, para suas sexualidades. A chegada a esse estilo musical se deu ao seguir os caminhos desenhados pelo campo. Assim, quando busquei entender as dinâmicas de namoro, paquera e sexo para pessoas entre as fronteiras etárias dos 60 anos de idade, encontrei indicações para ir em algumas festas de forró como o local escolhido para entender essas performances afetivo-sexuais. Tal público se enquadra em classes populares e residem no Rio Grande do Norte, Nordeste brasileiro. Aqui, é possível ver as festas de forró como elementos que mobilizam assíduos integrantes do que vem a ser uma rede de forrozeiros na “melhor idade”. Ou seja, trata-se de espaços sociais que reúnem grupos de diferentes origens, mas que mantém como público-alvo pessoas lidas como “mais velhas”. Por isso, a partir dessas festas, é possível perceber a manutenção de um convívio que tem marcado relações de amizades, afetivas e inclusive familiares.

Para isso, acompanhei três festas cujo público preponderantemente é considerado “mais velho”, sendo duas dessas voltadas exclusivamente para esse conjunto de pessoas. Essas duas, inclusive, possuem regras quanto à entrada de mulheres mais jovens. Já a terceira possui uma mistura de idades, sem regras específicas com relação ao público, mas que ainda assim, consegue reunir um grande número de pessoas que frequentam os outros dois espaços acompanhados neste estudo. Ou seja, esses três locais são constantemente ressaltados pelos interlocutores como os melhores locais para dançar forró, paquerar e namorar.

Breve apresentação dos locais pesquisados

As festas ocorrem em diversas cidades do Rio Grande do Norte, mas escolhi concentrar minha pesquisa nas que estão localizadas em Natal, a capital do Estado. No entanto, durante minha investigação, tive a oportunidade de conhecer e conversar com frequentadores vindos de várias cidades, a maioria delas situadas nos arredores da capital. Cada uma das festas que observei estão localizadas em pontos geográficos distantes umas das outras. Ainda assim, e isso é interessante de pontuar, muitos dos frequentadores que entrevistei frequentam as três festas com regularidade, por vezes optando por comparecer ao Baile das Viúvas na sexta-feira, ao Forró da Feirinha no sábado e, em alguns momentos, ao Baile da Melhor Idade no domingo.

“Em um dos momentos em que estive em alguma das filas, fiquei esperando ainda admirando o local e olhando alguns casais dançando. Chegou a minha vez e o menino que atendia o caixa para comprar a ficha me chamou, já que eu não tinha visto e rindo, falou: Tá encantada com os véi dançando? Eu só sorri e comprei meu refrigerante em seguida. O clima era notavelmente de paquera. Homens e mulheres se entreolhando, com sorrisos nos rostos e algumas vezes até piscadas de olho, para não ter dúvida de que aquele olhar tinha uma intenção” (Notas do diário de campo na AVIRN).

Elias (1992) citado por Alves (2004), argumenta que o lazer é um espaço de construção de emoções, e que, aprovado no quadro social, pode desencadear em um comportamento moderadamente excitado em público. Assim, segundo o autor, as atividades de lazer, e entre elas as danças, possuem a função de possibilitar experiências de emoções fortes em público, mas sem colocar em risco a ordem social. Após a ida aos três locais apresentados anteriormente, pude perceber a existência de um circuito de forrós destinado a um público mais maduro. Essas pessoas frequentam esses lugares regularmente, muitas vezes tendo preferências por um em detrimento de outro, dependendo de fatores, como a situação, a localização, o objetivo, e assim por diante. Em todas as minhas experiências de campo, notei a recorrência de certos elementos enquanto interagia com indivíduos que participam ativamente desses eventos. Isso me permitiu observar uma identificação natural entre alguns dos acontecimentos para os frequentadores. Tanto o Baile das Viúvas quanto o Forró da Melhor Idade compartilham características semelhantes, uma vez que são festividades meticulosamente elaboradas para atender a um público específico, justamente o foco desta pesquisa. A produção desses eventos direcionados a uma audiência particular implica em cuidados diferenciados, que vão desde questões relacionadas à higiene até a seleção de bebidas que atendam às preferências do público-alvo. Além disso, a implementação de regras, especialmente no que diz respeito à entrada de pessoas mais jovens, é crucial, levando em consideração a questão do preterimento, entre outros fatores.

Ao retomar Alves (2004) e incorporar a perspectiva de Simmel (1983) ao explorar a interseção entre envelhecimento e gênero no contexto da dança de salão, observa-se que os bailes desempenham o papel de espaços festivos, propiciando encontros entre entusiastas da dança em busca de amizades. No entanto, nesta dinâmica, destaca-se que a ênfase recai na formação de amizades, diferenciando-se do meu campo de estudo. Na minha pesquisa, os participantes descrevem os forrós como locais nos quais pessoas de uma faixa etária específica e classe social definida buscam conexões românticas, flertam e procuram parceiros para diversos tipos de relacionamentos, incluindo o aspecto sexual. Além disso, para o autor, todo espaço de sociabilidade é permeado por regras de conduta, que funcionarão como guias das relações individuais nesses espaços, dando a possibilidade de as pessoas saberem o que se espera delas, e que, geralmente, representam um padrão de comportamento vigente na estrutura social e assim, na própria vida cotidiana.

Ao comparar os três eventos, com relação ao Forró da Feirinha, estar acompanhada ou não da minha mãe ou pessoas de idade superior à minha aparentemente não fez diferença, já que não existe uma regra que diga respeito a entrada de pessoas jovens e por isso consigo circular em campo sem me preocupar tanto com o que as mulheres, por exemplo, pensariam de mim ali. Contudo, isso não impede a investida da paquera de homens, ou seja, esse espaço possui outra dinâmica, que permite outros tipos de interações. Como por exemplo ter sido o único lugar em que não tive entrosamento com os organizadores. Com o Baile das Viúvas e o Forró da Melhor Idade se fez necessário adotar estratégias para transitar sendo eu uma mulher jovem, já que regras, mesmo no primeiro momento só sentidas através de olhares que me deixavam desconfortável, demonstravam uma dinâmica diferente. Na prática, percebi que homens se aproximaram de mim com maior ousadia na Feirinha, enquanto nos outros dois espaços esperavam eu estar sozinha, quando me levantava para ir ao banheiro ou para comprar alguma bebida, por exemplo. Ou seja, ao me afastar da minha mãe ou de outras mulheres frequentadoras, foram os momentos que recebi maiores investidas. Algumas vezes tais ações foram percebidas por outras mulheres e por já me conhecerem, mesmo que de vista, chegavam até mim para saber se eu tinha sido incomodada. Esse cuidado dado por mulheres foi muito presente e aconteceu em vários momentos. Não só com respeito à abordagem de homens, mas também notei nas suas disposições para me apresentar possíveis interlocutores.

Dessa forma, o forró se apresenta não apenas como uma forma de lazer, mas o local de encontros possíveis para estabelecer amizades, iniciar paqueras e construir relacionamentos, para pessoas consideradas maduras e “mais velhas” de classes populares. O ritmo desempenha um papel crucial nas relações, já que o encaixe no passo, por exemplo, se torna um dos requisitos necessários para dar continuidade ou não nas investidas. Assim como é perceptível um certo descontentamento quando o parceiro ou parceira não sabe dançar e isso traz o afastamento desses eventos por aqueles que gostam do forró desde outras fases da vida, como a juventude. Além disso, a idade é um critério relevante, sendo que as mulheres com quem conversei tendem a preferir relacionamentos com homens de uma faixa etária próximas as delas. Contudo, comentam que os homens nessa idade têm preferência por mulheres mais jovens, o que também influencia a seleção de parceiros. A partir de falas como essas que algumas participantes me explicaram os motivos pelos quais hoje estão em relacionamentos estáveis com homens bem mais jovens que elas, como veremos no terceiro capítulo. Outros fatores que funcionam como pré-requisitos para estabelecer relacionamentos é saber ou observar se um homem já se relacionou, dançou ou se já transou com muitas mulheres dos eventos, sem ter constituído algo que aparentasse ou projetasse um relacionamento mais estável. Consideram-se também a cidade de residência, que a depender, decidem se valem a pena dar continuidade ou não para aquela tentativa de paquera e investida afetivo-sexual.

 

Hipersexualização de mulheres negras: para além da idade

Ao longo das diversas ocasiões em que participei de festas durante esta pesquisa, destaco um dia em especial no qual pude observar várias situações que considero relevantes para este estudo. Em todas elas, as protagonistas eram mulheres negras, e uma característica comum foi a sexualização de seus corpos, especialmente enfocada nos glúteos.

A primeira cena que capturou minha atenção foi a de um casal na mesa das senhoras acompanhadas. O homem usava um chapéu de cowboy, uma camisa de botão, uma calça e um cinto com uma fivela, enquanto a mulher que aparentemente era sua parceira era branca, magra, de cabelos pretos, franja, óculos de armação vermelha e um vestido solto na cor preta. De tempos em tempos, trocavam beijos, mas durante a festa, uma das mulheres da “mesa das solteiras”, de pele negra, cabelos alisados até metade das costas, vestindo uma roupa justa que evidenciava suas curvas e exibia um corpo atlético, se destacava dançando intensamente, de maneira sensual, descia até o chão e levantava passando as mãos ao longo das coxas e cintura. Ela estava bem à minha frente, ao lado da mesa dos casais. Toda vez que a mulher de óculos vermelhos virava o rosto, seu parceiro fixava o olhar na que dançava, que notava a situação, olhava para ele sem expressar reações faciais, mas continuava a dançar, algumas vezes sorrindo para mim quando percebia que eu observava. Essa dinâmica tornou-se mais evidente entre o casal, e aparentemente, em certo momento, a companheira percebeu. A mulher que dançava mesmo após a cena ser notada, não interrompeu sua dança. Virava-se, agindo como se não percebesse, mas ocasionalmente encarava o homem de chapéu por alguns segundos, como uma espécie de sedução sutil.

A segunda situação que me chamou atenção foi que, em outros momentos, quando alguns homens passavam, uma mulher apelidada de “Negona” os abordava, cumprimentando-os ao encostar a bunda na região da virilha deles. Ela conversava de costas, esfregando-se enquanto segurava os homens, brincando com a situação. Em uma ocasião, perguntou a um homem sobre sua mulher, apertando sua cintura e dando beijos em seu pescoço antes de mandá-lo embora. Essa cena de “esfregar” se repetiu com diferentes homens que riam, roçavam por um tempo e depois saíam.

A terceira cena envolveu Odara, que estava dançando quando um senhor mais velho demonstrou interesse. Ele ficou em silêncio, parado à sua frente, enquanto dançava timidamente de modo quase imperceptível. Odara continuou dançando, ignorando-o, inclusive ao cobrir o rosto com um leque que usava para se abanar contra o calor. Mesmo diante dessa recusa evidente, ele permaneceu ali. Parecia ser uma jogada de charme por parte dela. Após algum tempo, ela deu dois passos para trás e continuou a dançar, virando de costas enquanto ele permanecia imóvel. Nesse momento, uma mulher loira, apresentada por suas amigas da “mesa das solteiras” como a “chefe das putas”, percebeu a situação e levantou a blusa comprida que cobria a bunda de sua amiga, como se estivesse tentando mostrar as “qualidades” de Odara, oferecendo-a ao homem. O homem ainda permanecia parado, encarando. Quando Odara notou, abaixou a blusa e afastou-se. Após muitas recusas, o homem finalmente se retirou.

Essas três cenas, todas envolvendo mulheres negras e focalizando suas bundas, suscitaram em mim reflexões sobre a persistência da hipersexualização das mulheres negras ao longo do tempo. Parecia que a atenção dos homens estava fortemente concentrada nessa parte específica do corpo. Além disso, as mesas das mulheres solteiras eram predominantemente ocupadas por mulheres negras, enquanto as comprometidas eram majoritariamente brancas. Esses aspectos revelam dinâmicas sociais complexas e questões de raça e sexualidade que merecem uma reflexão mais aprofundada.

A discussão da hipersexualização dos corpos de mulheres negras vem, por vezes, acompanhada do tema da solidão afetiva. Contudo, em pesquisa anterior (SILVA, 2019) quando introduzi a variável da idade como um marcador significativo na experiência das mulheres, ao dialogar com as mulheres negras “mais velhas” em Natal/RN, nas faixas dos 50 aos 75 anos de idade, percebi a noção de afetividade encarada de modo mais amplo, com ênfase nas redes afetivas que se constroem ao redor delas, em que não só cônjuges são importantes, mas também filhos, amantes, paqueras, vizinhos, amigos, objetos, a relação com seus corpos, a relação com o meio em sua volta, entre outros aspectos possíveis. Assim como Pacheco (2013), considero importante enfatizar que as lógicas do contexto social que definem e orientam os processos de afetividade, emoções, identidades raciais, dominações, partem do campo das escolhas e essas seguem motivos que conservam as marcas da matriz colonial, além do racismo e sexismo que são ideologias e práticas socioculturais atuantes nas escolhas afetivas. Desse modo, as preferências afetivas das pessoas se materializam nos corpos racializados e sexualizados e, segundo ela, colaboram para a solidão de alguns segmentos de mulheres negras na cidade de Salvador/Bahia.

 

Considerações finais

 

            Neste artigo, delineei um itinerário voltado para frequentadores assíduos de festas de forró, apresentando três locais que foram objeto de pesquisa. Estes espaços são percebidos pelos participantes como ambientes de diversão, paquera, namoro, além de contribuírem para a promoção da saúde e do bem-estar. Ao explorar esses locais, foi possível identificar tanto semelhanças quanto diferenças, sendo o forró o elemento unificador que atrai entusiastas de uma faixa etária específica.

 

No decorrer do texto e do desenvolvimento da pesquisa, destaquei reflexões pessoais sobre minha identidade como mulher jovem e negra atuando como pesquisadora. Apresentei também estratégias metodológicas essenciais para minha inserção em campo, abordando questões relacionadas à minha presença em espaços onde a entrada de mulheres mais jovens é restrita. A estratégia de estar acompanhada por minha mãe revelou-se crucial para superar essas barreiras e estabelecer maior proximidade com os participantes, reduzindo desconfianças.

 

Além desses aspectos, explorei três cenas que ilustram dinâmicas presentes nas festas de forró, onde mulheres negras são protagonistas. Nessas cenas, destaquei como essas mulheres se apropriam, em alguns momentos, de atributos associados à suposta “hipersexualização” das mulheres negras. A análise revelou como o desejo se manifesta nos corpos racializados e sexualizados, proporcionando insights importantes sobre as complexas interações sociais presentes nesses espaços.

Notas de la ponencia:

“Em um dos momentos em que estive em alguma das filas, fiquei esperando ainda admirando o local e olhando alguns casais dançando. Chegou a minha vez e o menino que atendia o caixa para comprar a ficha me chamou, já que eu não tinha visto e rindo, falou: Tá encantada com os véi dançando? Eu só sorri e comprei meu refrigerante em seguida. O clima era notavelmente de paquera. Homens e mulheres se entreolhando, com sorrisos nos rostos e algumas vezes até piscadas de olho, para não ter dúvida de que aquele olhar tinha uma intenção” (Notas do diário de campo na AVIRN).


Bibliografía de la ponencia

 

ALVES, Andréa Moraes. A dama e o cavalheiro: um estudo antropológico sobre envelhecimento, gênero e sociabilidade - Rio de Janeiro. Editora FGV, 2004. 152p.

PACHECO, Ana Claudia Lemos. Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia. 2008. 317p. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas, Campinas, SP.

SILVA, Amanda Raquel da. A cor das relações: corpo, idade e afetividade na experiência de mulheres negras em um bairro de Natal/RN. Dissertação (mestrado) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2019.

TROTTA, Felipe. No Ceará não tem disso não: nordestinidade e macheza no forró contemporâneo. Rio de Janeiro: Folio Digital: Letra e Imagem, 2014.